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quinta-feira, 29 de junho de 2017

OKJA (2017)


Eu ainda tô um pouco desnorteado, mas com a certeza de que acabei de ver tanto o filme mais lindo e mais cruel de 2017 (até agora). 

É uma história de amor que explora este em todos os seus aspectos mais minuciosos e como este afeta suas personagens, na sua presença, na ausência, na procura, na criação e na destruição. O filme parece estar bastante seguro do que quer passar, e sobretudo expor, neste retrato que consegue transitar entre o lúdico e o sombrio, o humor e a tragédia, o sentimentalismo e a indiferença. 

Interessante observar a satirização de algumas personagens secundárias que surgem na trama, a estranhíssima businesswoman de Swinton (em ambas as suas versões) é obcecada pelo monopólio da indústria alimentícia: o consumismo representa a materialização biológica da capitalização.

O megalomaníaco "amante dos animais" de Jake Gyllenhaal é o exato oposto daquilo que aparenta ser: um monstro transtornado que em sua simpatia e descontração nos momentos iniciais do filme aparenta ser tão inofensivo, digamos, é ele que catalisa a obsessão egomaníaca e o desejo de posse e decorrentemente no longa se torna o mais vil e mentalmente desestabilizado neste arco. 

Bong Joon-Ho se esforça em estabelecer uma atmosfera em constante subversão de expectativas e elementos narrativos, pode-se dizer que há um certo sucesso nisso, à medida em que ele vai conduzindo seu público a uma conclusão dura, mas que em sua denúncia desesperançosa e cruel abre portas para um novo ciclo de esperança, vemos um claro contraste e a metalinguagem que ele substancializa ganha novas camadas, é ao mesmo tempo uma exposição da realidade sensível, quebradiça e de um futuro mais próximo ao ideal de reconstrução, equilíbrio, estabilização. 

A beleza e a inocência da relação entre uma garota e seu mascote rivaliza com a crueldade de um mundo cada vez mais destruído, fodido mesmo. Um dos grandes pontos do filme está justamente nesta exposição de perspectivas e lados opostos, contrastes, sem ser maniqueísta. 

A fotografia de Darius Khondji, de volta à boa forma, é preenchida por sequências extremamente lindas, a câmera parece envolver e se adequar às sequências e seus maneirismos de forma quase imersiva. A noção de espaço, que parece se modificar em determinadas cenas do filme, é outro quesito genialmente bem feito. 

Talvez seja o primeiro grande filme deste ano, so far, nunca pensaria que choraria num longa sobre superporcos geneticamente modificados, mas sempre tem uma primeira vez pra tudo. Me deixou desarmado em sua completa melancolia e ternura. Eu amei, muita gente vai dizer que é "filme pra fazer Tony Ramos virar vegetariano" ou coisas do tipo (misurderstood) mas eu acho que é, além de tudo, uma história de amor, um conto que preza pela beleza e pelo afeto humano de uma simplicidade infantil que surge dessa relação de laços tão fortes entre Okja e Mija. Podem me chamar de crianção, mas esse filme me deixou assim, com um aperto no coração, mas ao mesmo tempo nas nuvens.

Okja
dir. Bong Joon-Ho
★★★★½

sábado, 4 de julho de 2015

Crítica: "EXPRESSO DO AMANHÃ" (2013) - ★★★★


Depois de um longo tempo de espera, finalmente chega em nosso circuito um dos longas mais esperados da temporada (pelo menos por mim, digo): Expresso do Amanhã, dirigido pelo coreano Joon-Ho Bong (conhecido por longas de sucesso como O Hospedeiro e Mother - A Busca pela Verdade). O resultado dessa distopia inusual e sensivelmente espetacular é a consagração e a concretização de uma obra excelente, notória e brilhante. Tanto quanto o recente Mad Max: Estrada da Fúria, Expresso do Amanhã aborda a jornada desconcertante e sangrenta de um certo grupo de pessoas em busca da sobrevivência. 

Durante uma grave crise do aquecimento global, um gás foi liberado na atmosfera da Terra no objetivo de minimizar o caos da situação. No entanto, o gás acaba causando inúmeros transtornos e faz com que uma alteração climática gere um apocalipse humano devastador: a Terra congela e torna-se inabitável, assim matando toda a população, à exceção de uma pequena população, cuja é abrigada a bordo de um expresso que atravessa todo o mundo: o Snowpiercer. Isso em 2014. Enquanto os mais pobres vivem em condições horrendas, incluindo má alimentação, moradia, vestimentas e tudo o mais, a classe alta esbanja luxo e vive desfrutando de prazeres que não são disponíveis para os membros da "ralé", o que faz com que tais membros planejem entre eles uma rebelião para tomar liderança à frente do maquinário, tal rebelião que tem como líder um impetuoso revoltado, Curtis, que, ao lado de seu povo, decide implantar mudanças dentro de um sistema tão injusto e maquiavélico.

O bom das distopias é que elas sempre procuram analisar a relação de diferentes grupos sociais convivendo (às vezes, nem tanto) mutuamente enquanto eles se encontram em situações de risco. No entanto, muitas das vezes, o grande erro de tais distopias é que elas se mostram desnecessariamente longas e inúteis, a ponto de nem oferecerem ao espectador conteúdo de qualidade nem causarem nele interesse. Confesso que tive uma experiência inimaginável e tremendamente sensacional ao ver esta belíssima distopia. É uma experiência que me deixa desolado e ao mesmo tempo muito seguro de mim, já que sei que não sou o único que compartilha a ideia de que algum dia teremos algum episódio do tipo onde necessitaremos contar com a coragem, a boa vontade e a inteligência de cada um para lutar em busca de nossa própria sobrevivência. Minhas expectativas em relação à Expresso do Amanhã bateram. Pude até imaginar as cenas bem antes de vê-las, e vê-las aqui agora. Não levem isso como se o filme fosse óbvio demais. Digo isso por que tive meu pensamento distópico correspondido no desenvolvimento desta trama. Com certeza, será muito difícil vermos a ficção aqui retratada na vida real, como se um gás criado laboratorialmente pudesse ser lançado no ar e, então, matasse todos os humanos na Terra, à exceção de um grupo de pessoas dispersas de classe entre elas que embarcam a bordo de um expresso que caminha pelo gelo e dá a volta ao mundo. Mas, quem, um dia, poderá impedir uma catástrofe de alguma semelhança com a apresentada aqui? Ninguém, ao certo, sabe.

De qualquer forma, a visionária proposta de Joon-Ho não se baseia em princípios morais, ou até talvez éticos. A história seria por demais inventiva e de menos observativa se tais pontos fossem exibidos ao espectador com uma maior amplitude do que a possível. Ao contrário, vemos que nossos personagens, domados por uma fúria incessante, procuram exterminar os males e as pragas que os acometem, enquanto ao mesmo tempo procuram ajudar um ao outro. E mesmo diante da gravidade, vemos que nem sempre tal ajuda se encontra disponível. É bem capaz ver essa impossibilidade na cena onde (ops, spoiler!) Curtis se vê diante de um dilema: enquanto por um lado seu melhor amigo e protegido, Edgar, está sendo agarrado e preso à uma faca por um dos homens do poder, do outro lado a ministra Mason, que está ferida, é carregada por um segurança para fora de um dos vagões onde acontece uma batalha entre os pobres e a segurança. Diante disso, com um aperto enorme no coração, ele corre e agarra a ministra Mason, deixando Edgar ser morto. Tal cena identifica que o homem, diante de alguma situações, se vê obrigado a abrir mão de alguns patrimônios e recorrer ao seu instinto natural de sobrevivência, o que justamente acontece na cena. Deixando Edgar de lado, ele decide capturar a ministra, devido a unicidade daquele momento e a preciosidade da chance que, talvez, nunca mais seria acessível à ele. E agir com instinto foi a melhor coisa que ele fez, caso contrário a missão teria falhado e todos eles teriam sido mortos, recauchutados para o último vagão ou humilhados/obrigados a executar tarefas. É triste, mas é a salvação.

Um elenco esforçado emociona demais. Chris Evans (ator que eu nunca gostei, justamente por conta dos papéis menores e de pouco talento feitos em longas como Os Vingadores, Capitão América e todas as outras porcarias recheadas com efeitos visuais vazios que não fazem porra nenhuma a não ser deixar, pelo que eu sei e já experienciei, o espectador enjoado, chateado e dorminhoco. Mas que aqui faz um papel original e autêntico, ao contrário dos outros feitos por ele), Jamie Bell (cujas performances em Billy Elliot, Ninfomaníaca - Volume II, King Kong e Jane Eyre renderam minhas palmas, mas que também deu umas escorregadas por ter feito produções bilionárias cuja qualidade não vale um centavo), Tilda Swinton (ah, a adorável Tilda...), Octavia Spencer, Song Kang-Ho, John Hurt e Ed Harris.

Expresso do Amanhã é um filme incrível. Uma obra que não tem limites (no bom sentido), uma ode inovadora e distópica que nos encanta e ao mesmo tempo nos deixa trilhados e meditabundos. É um filme que merece destaque e glória, além de aplausos impressionados para reconhecer a qualidade comovente de sua estrutura e de sua história enternecedora. Que majestosa obra! Que majestosa direção, sr. Bong! Que punhos tenros e macios de ferro e pluma os seus para ter tanta coragem, astúcia e sensibilidade para assumir a direção de um projeto tão ambicioso, e ora perigoso (no sentido de "perigo de fracassar") deste, mas que por si só é inteiramente plausível e memorável.

Expresso do Amanhã (Snowpiercer)
dir. Joon-Ho Bong -