sexta-feira, 20 de outubro de 2017

AS MIL E UMA NOITES (2015)


Comentarei sobre os três filmes da maravilhosa trilogia do cineasta Miguel Gomes As Mil e uma Noites


Por incrível que pareça, o primeiro filme (ainda que seja o melhor dos três) demorou um pouco pra me pegar, confesso que no começo ainda tive um certo receio de não "embarcar na viagem", mas esse sentimento foi passageiro. É o mais delicioso e relevante dos filmes da trilogia, Miguel Gomes também está participando, que é bem mais denso, tem uma ótima síntese de construção narrativa e o trabalho com a câmera é destaque. Pra quem não estiver no pique, pode ser um pouco difícil seguir a linha desse aqui, entretanto é um trabalho mais que encantador. Ali naquele olhar crítico pra crise em Portugal (que é o tema central dos três longas), o Gomes encontra brechas pra fazer comentários ainda mais desconcertantes e inserir ordens que parecem não estar muito conectadas às principais atenções do filme, e que gradativamente vão se fazendo importantes e essenciais. O elenco está em ótima forma, não tem do que reclamar, certas cenas de diálogos são deveras exímias e nestas os atores estão impecáveis.

As Mil e uma Noites: Volume I, O Inquieto
★★★★


A cena genial do julgamento já diz muito sobre o que este filme vem a abordar, e está entre as sequências mais importantes e hilárias desta trilogia (se não for a mais). Aliás, humor aqui neste filme recebe um tratamento bastante diferenciado, talvez porque esteja mais explícito do que no primeiro, e ainda sim nesse aqui um senso de comédia impressionante se apropria do formato crítico do filme, mas de forma alguma o drama é desvalorizado, até acho que existem certas passagens que encontram uma ótima expressão dramática. Notáveis presenças de atores já recorrentes à filmografia do Gomes (inclusive de Tabu) e do filme anterior. Por vezes é vertiginoso, a presença da comédia primeiramente se torna um aliado desse comentário do diretor e segundamente é a ferramenta pela qual o elenco acaba acessando uma certa liberdade e rigor excepcionais, e os diálogos ficam ainda mais interessantes com essa inserção. O segmento do cachorrinho também merece menção. Este é, sem dúvida, o mais original dos três filmes, destaque pela abordagem inventiva que já se denotava no primeiro.

As Mil e uma Noites: Volume II, O Desolado
★★★½


Este filme, embora apontado como o menos relevante, tem a cena mais linda entre os três trabalhos, que é da Crista Alfaiate (cujas performances ao longo da trilogia são excelentes) cantando "Perfidia", me emocionou profundamente. Há de se perceber que, no que diz respeito ao filme, esse deve ser mesmo o menos impressionante e nem por isso é ruim. Foi falado que há muita irrelevância no conto dos passarinheiros, que pra mim tem ótimos momentos, mas é fato que isso pode deixar muita gente impaciente. Há cenas memoráveis, como o senhorzinho que acaba caindo na armadilha de um passarinheiro (hilária) e entre outras, a cena do encontro de Sherazade e de um homem na praia com seus filhos. Trata-se de um segmento desolador, não menos tocante, ainda que cometa certos deslizes sim, especialmente na estrutura.

As Mil e uma Noites: Volume III, O Encantado
★★★½

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

INDICADOS AO GOTHAM 2017


E foi dada a largada! A corrida pelo Oscar já começou e algumas premiações já estão anunciando seus indicados e revelando favoritos do ano cujos nomes poderão se repetir com frequência nos próximos prêmios da awards season. Acabaram de ser anunciados os indicados ao Gotham, premiação exclusiva do cinema independente que já está apontando os principais filmes e performances a serem destacados na temporada. 

melhor filme

Call Me By Your Name
The Florida Project
Get Out
Good Time
I, Tonya

melhor documentário

Ex Libris – The New York Public Library
Rat Film
Strong Island
Whose Streets?
The Work

melhor roteiro

The Big Sick
Brad's Status
Call Me By Your Name
Columbus
Get Out
Lady Bird

melhor ator

James Franco – The Disaster Artist
Willem Dafoe – The Florida Project
Daniel Kaluuya – Get Out
Robert Pattinson – Good Time
Harry Dean Stanton – Lucky
Adam Sandler – The Meyerowitz Stories

melhor atriz

Haley Lu Richardson – Columbus
Melanie Lynskey – I Don't Feel At Home in This World Anymore
Margot Robbie – I, Tonya
Saoirse Ronan – Lady Bird
Lois Smith – Marjorie Prime

melhor ator estreante

Mary J. Blige – Mudbound
Timothée Chalamet – Call Me by Your Name
Harris Dickinson – Beach Rats
Kelvin Harrison, Jr. – It Comes at Night
Brooklynn Prince – The Florida Project

melhor diretor estreante

Maggie Betts – Novitiate
Greta Gerwig – Lady Bird
Jordan Peele – Get Out
Kogonada – Columbus
Joshua Z Weinstein – Menashe

domingo, 8 de outubro de 2017

DOENTES DE AMOR (2017)


Na saúde, e na doença...

Preparem seus lencinhos, vem aí mais uma comédia romântica pra te emocionar. Kumail Nanjiani é honesto e direto (a autoria do roteiro é dele e de sua esposa, que vivenciaram a história descrita no filme), não disfarça o tom e aborda frontalmente cada pedacinho dessa narrativa, tal qual é a história de amor vivida pelos personagens principais. Não há esquematização ou coisa do tipo, é sobre o que é, o amor "impossível" entre duas pessoas dividas por culturas diferentes. Poderia ser um filme "pós-Trump"? Poderia. E tinha tudo pra ser, é verdade. Mas acima disso, qualquer pretensão dessa vertente não ganha espaço onde o amor é relatado com a mais sentimental veracidade. A gente torce, com energia, para a união. Aqui o escape acaba servindo também como uma confrontação clínica dos dramas instalados em relações humanas face à tensão, em ameaças de desunião e separação, sejam elas amorosa, étnica ou familiar. Tudo que subexiste nesse ínterim é reservado para uma confrontação fina, o humor é firme, porém é ainda mais relevante saber quando inserir um pause na piada para dar lugar ao drama, e esse respeito, um mutualismo genuíno de cinema, é uma das coisas mais lindas desse filme. A cena final expressa, em toda a sua maravilha, uma reconexão de todos os elementos que estavam ali suspensos pelo romance do casal, é a catalisação definitiva desse sentimento de aproximação que até ali estava em águas turvas, e acaba encontrando na simplicidade de um curto diálogo a sua afirmação final, o seu réquiem "feel-good". O prazer ingênuo que esse filme evoca talvez nem possa ser expressado em palavras. O elenco está gracioso, em plenitude que há muito não se via no cinema norte-americano, com performances digníssimas de Holly, Zoe, Kumail, Romano, e até mesmo o elenco secundário é destaque. Eu daria um Oscar pra cada um deles.

Isso aqui é romântico pra caramba, não resisti. Lindo de verdade.

Doentes de Amor (The Big Sick)
dir. Michael Showalter
★★★★

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Shyamalan começa a rodar seu próximo filme


O mestre M. Night Shyamalan já começou a rodar seu próximo projeto, exatamente na data de hoje, 02 de outubro de 2017: Glass, a então aguardada sequência de Corpo Fechado, um dos principais trabalhos da filmografia do cineasta. Glass deve aterrissar nos cinemas em 2019, conforme as previsões, trazendo em seu elenco Bruce Willis e Samuel L. Jackson (de Corpo Fechado), Anya-Taylor Joy e James McAvoy (de Fragmentado, sua mais recente obra), Sarah Paulson, Spencer Treat Clark e Charlayne Woodard. Rumores de que James Newton Howard assinará a trilha do filme permeiam na net, mas nada foi confirmado (por enquanto). A fotografia está a cargo de Mike Gioulakis e a edição, Luke Ciarrocchi (os mesmos de Fragmentado). 

SOBRE CAFÉ E CIGARROS (2003)


No que diz respeito a filmar conversas regadas a cafés e cigarros, Jarmusch está um passo à frente. De uma certa maneira, todos os filmes do Jim se lembram – alguns mais, outros menos – não necessariamente por se repetirem, mas por basicamente imprimirem uma evocação muito espontânea de suas personagens e das situações calcadas na sutileza da naturalidade e da caricatura, o que surge disso é de uma beleza inexplicável. Não vou falar muito, apenas que trata-se de um filme muito delicioso, cada esquete melhor que a outra (ainda mais na companhia de uma xícara de café do lado de cá da tela) e um elenco inesgotavelmente excêntrico e gracioso que dá gosto de assistir.

Sobre Café e Cigarros (Coffee and Cigarettes)
dir. Jim Jarmusch
★★★★

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS (2017)


Aqui parece que existe uma relação muito curiosa de respeito entre o remake e o primeiro de Don Siegel (que é uma obra-prima, eu diria irretocável), já que Sofia poderia muito bem optar por emular a mesma catividade que Siegel imprimira em seu filme ou até mesmo provocar novos intuitos a partir de uma história já estabelecida, mas ela simplesmente prefere recontá-la usando de seus próprios adereços cinematográficos, mantém-se o mito, altera-se a disposição dos elementos fílmicos, e por mais que estejamos falando do mesmo filme, praticamente, existem muitas diferenças – estéticas, técnicas e narrativas – entre ambos os trabalhos. É claro, também pode-se dizer nos resultados, mas acho que, dado que a Sofia introduziu um parâmetro parcialmente anti-discernitivo em relação ao filme de 71, não sei se vale fazer comparações, o que importa mesmo é notar o que ela transpôs aqui e de que maneira. 

O deslize do filme é justamente na carga dramática, a Coppola erra a mão na direção do elenco, o que acaba gerando tanto atuações nem tão satisfatórias de Colin Farrell e Elle Fanning, e do outro lado ambas Nicole Kidman e Kirsten Dunst em papéis memoráveis e momentos gigantes. O destaque do filme, em resumo, parece ser mesmo o tratamento com a fotografia, que é deveras fascinante. Os enquadramentos, tão simples, são ricos, meditantes. A iluminação é tão discreta (e às vezes um tanto escura) que em dados momentos há cenas que provocam espanto com a mudança súbita de tonalidade, mas nada de grave que comprometa o trabalho encantador na fotografia do Philippe Le Sourd.

Se o despojo na construção dramática talvez provoque uma distância, há a fotografia concentrada em uma palidez que transita com naturalidade entre uma luz modesta e um sentimento cada vez mais crescente de cores escuras dominando a tela, no mesmo caminhar da tensão, a direção de arte que é por si só uma obra-prima. Se Sofia Coppola esboça seus domínios plenos de uma mise-en-scène com uma das arquiteturas mais completas (e talvez isso possa justificar o porquê do prêmio em Cannes) e recheadas de cuidados, há uma confirmação do que já era premeditado por trabalhos anteriores da filha do mestre Francis Ford, por exemplo em Maria Antonieta, que é a precisão estética, acompanhada de uma minuciosidade técnica, que abre espaço para a riqueza da construção narrativa em uma classe atordoante. É claro, não há muito o que dizer sobre este estar aquém à versão de Don Siegel, mas sim o processo criativo de reformatação estética e visual, e um aprofundamento formal que, embora não se distancie muito do esperado, gera resultados pra lá de interessantes. E, há de se relevar, em comparação ao anterior da diretora, Bling Ring, este aqui acumula méritos.

O Estranho que nós Amamos (The Beguiled)
dir. Sofia Coppola
★★

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

LADRÃO DE ALCOVA (1932)


"Casamento é um doce engano que duas pessoas cometem juntas"

O final (maravilhoso) consegue ser duplamente melancólico e alegre, belíssimo em ambas as formas, com um ritmo tão adorável quanto seu grupo de personagens. Não me lembro de quando foi a última vez que eu vi uma execução tão bonita de uma traminha romântica, ainda mais com o enorme cuidado que Lubitsch tem com a composição de cada cena e as atuações grandiosas de um elenco deliciosamente inspirado. O frescor é impressionante.

Ladrão de Alcova (Trouble in Paradise)
dir. Ernst Lubitsch
★★★★★