terça-feira, 4 de julho de 2023

THE COOLER (2003)


Não gostei tanto de THE COOLER. Não chega a ser um filme exatamente ruim, não. É bem comportadinho, mas eu não gostei do desenho da narrativa, tem umas coisas bem rasas mesmo. E olha que a história até é interessante, à primeira vista. Talvez não tenha gostado muito também do tratamento dado pras personagens, especialmente pro Macy, mas também pra personagens menores, como o Baldwin (que recebeu sua única indicação no Oscar até hoje por ele), e deixou aquela impressão de já ter visto ele antes, porém com outro título e outros atores. Mas mesmo assim, tem atuações boas do elenco principal. Maria Bello, que depois viria a dar um show em MARCAS DE VIOLÊNCIA, é um destaque. 

NAVALNY (2022)


Depois que começou a guerra entre Rússia e Ucrânia, todo mundo correu pra tentar entender o que de fato estava acontecendo na briga entre os dois países, briga essa que já se arrastava de forma mais bem documentada pela mídia pelo menos desde 2014, ano em que a anexação da Crimeia também fez parte dos noticiários e os nomes Rússia, Ucrânia e guerra foram mencionados juntos com mais frequência, porém o que a gente encontrou foi que a história é bem mais complicada por debaixo da superfície e a relação entre os dois ex-países soviéticos é um verdadeiro enigma chinês, e um ano dentro dessa guerra assombrosa ainda é difícil entender o que realmente está a motivando e o que realmente quer Putin com ela. Afinal, essa é a pergunta que todo mundo está fazendo, o que quer Vladimir Putin com o conflito entre russos e ucranianos? E o documentário sobre a liderança política Alexei Navalny tem o mesmo gosto dessa pergunta. O que quer Navalny? E o filme é uma possível resposta a essa pergunta. O nome de Navalny fez manchetes na pandemia depois que acusaram o governo russo de tê-lo envenenado. Navalny é voz da oposição a Putin, e o envenenamento foi-se dito ter motivações políticas. Visto o documentário pode-se entender facilmente porque Navalny atrai essa ojeriza nas autoridades russas. O filme é o registro desse confronto entre o autoritarismo totalitarista das governanças russas e as tentativas de qualquer corpo de oposição de se infiltrar nesse autoritarismo e questionar a ordem política do lugar. Mas o documentário chega ao nível de ganhar proporções pessoais, sentimentais, e se torna mais do que uma vitrine da persona política de Navalny. É, também, uma espécie de filme-confessionário, de alguém que, cansado de uma luta de Davi contra Golias, ainda não está pronto para baixar a guarda e ceder. Navalny é tanto sobre Navalny quanto é sobre Putin, mas, ainda que o filme tenha seus pontos nesse questionamento saudável do poder e de um autoritarismo que cada vez mais parece beirar o irracional, é meio intrigante a gente pensar que se trata de uma produção da CNN que tem tons documentais tão mais próximos de um filme de campanha presidencial. Porém, o esforço de retratar a angústia de Navalny é muito válido, e se tem um motivo para assistir o filme, então é esse.

FORA-DA-LEI (2010)


Ótimo drama de época sobre um grupo de irmãos vivendo tempos difíceis na Argélia pós-segunda guerra, e que acabam se envolvendo no submundo do crime. Quem já viu o DIAS DE GLÓRIA não vai estranhar, porque os temas entre os dois são muito próximos. Há um diálogo interessante. DIAS DE GLÓRIA tratava dos argelinos indo lutar na 2º G. Mundial em favor dos franceses, e lidando com as questões étnicas que se tornaram tão tensas entre as nações africana e francesa, e esse aqui parece conversar com ele na mesma medida ao mostrar esses irmãos tentando sobreviver numa Argélia pós-2ª guerra que está lutando pela independência e ao mesmo tempo ainda lidando com as marcas da presença francesa na Argélia. Aqui, essas tensões políticas estão fortemente presentes na relação entre os três irmãos, que além de lidar com o estresse político, ainda tentam corroborar com o envolvimento na criminalidade enquanto tentam construir uma vida, cada um no seu caminho. É louvável que a escolha pra interpretar os três irmãos tenha sido os mesmos atores (excelentes) do DIAS DE GLÓRIA, no caso o Jamel Debbouze, o Roschdy Zem e o Sami Bouajila, e o que dá gosto é ver que esses três intérpretes estão igualmente competentes e sensacionais, é a razão para se assistir esse filme. E é inevitável a comparação com Scorsese, visto o tratamento que o filme dá à violência e a criminalidade, e o foco no comentário político sobre o momento delicado de uma nação como a Argélia tentando firmar sua identidade política e conciliar a diferença entre seus cidadãos e dissidentes.

TREZE HOMENS E UM NOVO SEGREDO (2007)


Eu gostei muito do 1º, do 2º acho muitas ideias legais porém não achei tão firme, e o 3º é algo entre os dois, porém surpreende em vários momentos e tem uma dinâmica de elenco muito satisfatória no geral. Alguns personagens são mais desenvolvidos do que nos outros dois filmes, como o eixo do Casey Affleck, e eu acho que o filme tenta dar mais atenção aos personagens do que à trama como um todo. E o roteiro em si também é fantástico. Al Pacino roubando a cena. Enfim, esse "13" me deixou surpreso no bom sentido, talvez por eu não esperar que fosse estar no mesmo patamar de qualidade do "11".

TEMPO DE CAVALOS BÊBADOS (2000)


Vi o filme com curiosidade depois de ter assistido NINGUÉM SABE DOS GATOS PERSAS (2009), ótimo filme de Bahman Ghobadi que mostra o "submundo" da produção musical pop em Teerã desafiando as imposições das autoridades iranianas contrárias à liberdade de expressão e liberdades políticas em geral. Diferente daquele, TEMPO DE CAVALOS BÊBADOS lida com a situação tensa dos curdos durante a guerra entre os iranianos e iraquianos, ocorrida anos antes, e é um filme que vem um pouco antes da confusão que se deu depois de 2001 e que inspirou mais tragédias militares na região, com o envolvimento americano no Iraque. Pessoalmente, me lembrou muito de um filme que eu assisti recentemente da Samira Makhmalbaf, chamado ÀS CINCO DA TARDE (2003), que é um filme que veio alguns anos depois, já quando americanos, britânicos e franceses já estavam invadindo o Afeganistão, e que mostra um cenário de guerra desolador, fome, enfim, o caos que aquela região particular do Oriente Médio enfrentou e já estava enfrentando há anos antes, mas que só se intensificou quando gente de fora veio guerrear, adicionando mais motivos à desordem política da região, e piorando drasticamente o caos humanitário dos seus habitantes. E esse aqui beira o mesmo retrato humanista e desolador que foi feito em ÀS CINCO DA TARDE, porém, voltado pras crianças de uma família tentando lidar com os desastres e os percalços provocados pela guerra, com ênfase em um garoto que possui problemas de saúde e precisa tomar remédios e injeções com frequência. Mas de certa forma é um filme que tem até um certo otimismo, uma leveza, mesmo ao tratar da situação dramática desse pessoal no meio de uma guerra tão trágica, e a leveza está justamente na sua abordagem humana, que parece dissipar o drama da situação e que dá ênfase à pessoalidade de enfrentar a guerra e tentar administrar a situação apesar dela, mostrando situações mais humanas, uma família, um irmão que precisa de assistência, e a guerra pegando fogo concomitantemente a essas situações. É um filme bonito nesse sentido, como se ele estivesse filmando mesmo uma certa resistência, que é a resistência do espírito humano. Muito singelo e bem-vindo.

A LUTA PELA ESPERANÇA (2005)


Não esperava muito desse filme, mas confesso que fiquei positivamente surpreso com a história desse lutador profissional que lutou pra caramba pra conseguir se ajeitar na vida e sustentar sua casa e família em plena Depressão dos anos 1930 nos EUA. Gostei pra caramba mesmo.

O filme tem esse aspecto de narrativa simples, de uma ingenuidade, à la Spielberg, que já se explica com o crédito de direção do Ron Howard. Um elenco inspirado, com destaque pra uma das melhores atuações de um ótimo Paul Giammati (no papel que, aliás, lhe rendeu sua única indicação ao Oscar até hoje - um Oscar que foi roubado), em pleno domínio de seu personagem, o treinador que está sempre tentando levantar a moral desse lutador em frangalhos, Russell Crowe, aqui também merecedor de Oscar, e Renée Zellweger. 

O resultado é um filme que convence porque tem essa simplicidade, essa leveza narrativa que é algo que já tinha dado ao Ron Howard uma obra-prima em Apollo 13, mas que aqui combina muito com o que o filme quer construir, com a mensagem de esperança que ele quer passar. Vale lembrar também que, talvez, sem esse roteiro excelente, não seria o mesmo filme. Estranho que tenha sido tão pouco lembrado no Oscar, pra um filme com esse appeal, um elenco de atores lista A trabalhando tão bem e com um nome de peso por trás como Howard. Talvez se tivesse mais umas indicações seria um filme mais lembrado e reverenciado do que foi, na época e hoje em dia. Mas sem dúvidas é excelente. No nível de deixar a gente emocionado. Gostei mesmo. Eu acredito que é um filme que tem a seu favor a potência de uma boa narração e uma história sensível, que encontra sua voz em tempos de mais falta de esperança e dificuldade, mas que tem toda essa cativação emocional que chega a ser quase romântico. É uma história, de certa forma, romântica, sobre como perseverar em tempos difíceis, mas de uma forma muito linda, poderosa e humanista. 

CHE: PARTE UM / O ARGENTINO (2008)


Fazer um filme sobre a vida de alguém como Che Guevera é uma tarefa e tanta. Não só porque se trata de uma história de vida tão extensa, tão cheia de idiossincrasias, aventuras e detalhes pra dar conta, mas por conta do imenso legado e simbolismo por trás da vida e figura de Che Guevara, o homem que participou da transformação socialista mais impactante e lembrada do século 20, pelo menos no mundo ocidental, e que décadas depois ainda é um símbolo da luta por melhorias sociais e mudança política. Não tinha como não ser um projeto ambicioso. Trata-se de um filme épico apenas por natureza, pela História. É interessante ver a visão de Steven Soderbergh sobre a participação de Guevara na revolução cubana e a consequente fabricação e consolidação desse símbolo latino-americano que passou a ser tanto reverenciado como tiranizado em igual medida.

O foco do filme é em como se deu essa revolução, como que o exército não tão robusto de combatentes encabeçado por Guevara e Castro (em interpretação digna de nota pelo mexicano Demián Bichir) conseguiu ganhar uma improvável batalha pelo futuro socialista da nação de Cuba. O filme está interessado na luta, e em como Guevara se estabeleceu como uma liderança militante, praticamente o braço direito (ou, com o perdão do trocadilho, braço esquerdo) de Castro na guerrilha. É um filme de guerrilha, e ele é muito competente em ser um filme de guerrilha.

O filme é de Benicio Del Toro, ele está excelente (não à toa ganhou Melhor Ator em Cannes, e Sean Penn disse que ele devia estar no Oscar em 2009 por seu trabalho aqui), mas a força do filme está, justamente, na sincronia de um elenco fenomenal. Trata-se de um filme que, apenas pelo nome, já estaria embriagado de expectativa, mas que é muito mais uma visão minimalista, intimista, do que foi a revolução cubana. Pode não parecer um filme de ação à primeira vista, mas pra mim ele é tão épico quanto o filme de ação mais explosivo, e talvez seu maior mérito seja mostrar como algo que começou pequeno se transformou numa verdadeira odisseia política, cujo estrondo é sentido com força até os dias atuais. Também é legal ver como o Soderbergh consegue adaptar a trajetória de Che com tanto charme para as telas nos dias atuais. É fenomenal.