quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

OITAVA SÉRIE (2018)


A passagem do ensino fundamental para o médio pode ser conturbado pra muita gente. Eu me senti deslocado, deslumbrado e, de certa forma, renovado nessa transição tão curiosa e agitada que acabou me marcando pelo seu inusitado frescor. Conhecer novas pessoas, estar em situações diferentes, estranhamentos e encantamentos, são algumas das coisas que surgem nessa turbulenta fase da adolescência, e a protagonista de Oitava Série, Kayla, experiencia alguns dos mágicos e terríveis desenlaces desse momento, digamos, selado pela infância e pelo amadurecimento tentando compartilhar e integrar o mesmo lugar. A jovem Kayla deseja fazer amizades, mas encontra dificuldades para ser aceita do jeito que é, como ela própria diz no começo do filme, quando fala sobre o quanto é difícil ser você mesmo e ter que ser verdadeiro, sem máscaras. Isso resume um pouco do que o filme abordará: esse sentimento de deslocamento, não pertencimento, quando se vive em sociedade, no meio de tantas convenções e interações, o quanto se torna difícil ser apenas quem você é quando se convive com outras pessoas. Mais tarde veremos como a Kayla reage de forma tão apaixonada e positiva quando começa a ter novos amigos e fica surpresa por isso, como se fosse algo impossível ou complicado demais. E logo vemos o quanto as amizades são inevitavelmente importantes na adolescência, e o quanto elas acabam nos impactando, seja na presença ou na ausência delas. 

Oitava Série, como poucos filmes, consegue driblar com originalidade aqueles clichês coming-of-age para chegar ao cerne do estudo de personagem, que se dedica tanto a entender e desconstruir a sua protagonista, em seus anseios, descobertas e sentimentos, e de uma maneira tão enérgica e deliberadamente honesta, que fica difícil não se sentir como aquela personagem, tentando engatar nas suas relações com as pessoas, e contornar também certas limitações pessoais. Engraçado que, num filme que fala tanto sobre nossos relacionamentos com as pessoas ao nosso redor, digo socialmente, é justamente na família que ele irá se abrir mais, quando vemos a relação de Kayla com o pai convergir num misto de intimidade e restauração, se tornando um dos pontos mais bonitos do filme. Aliás, família também é o lugar onde podemos ter relações tanto tensas e frágeis quanto de proximidade inquebrável, algo que se aplica também às amizades. 

Acompanhar a jornada de autodescoberta dessa personagem acaba trazendo à tona diversos sentimentos, muitos deles em respeito a esse momento da juventude, em que aprendemos, aos poucos, sobre o que é ser parte de uma sociedade e ter que lidar com as nossas relações com os outros, e nem sempre isso se dá de forma fácil ou simples. Kayla também acaba ensinando a sermos mais nós mesmos, deixar um pouco de lado as nossas "versões" e abraçar quem realmente somos e os nossos lados positivos, a não nos importarmos tanto com as opiniões dos outros e, ao mesmo tempo, tentarmos consertar relações que estão se quebrando, a não nos escondermos atrás de nada, sermos mais afeitos a quem se importa realmente com a gente. Por mais difícil que uma fase possa ser, o importante é saber se respeitar e respeitar o espaço dos outros.

Oitava Série figura entre os principais títulos do cinema indie norte-americano em 2018. É a estreia de Bo Burnham na direção, foi esnobado no Oscar, mas merece atenção especial, pois é um dos filmes mais precisos já feitos sobre a adolescência. Tem uma das melhores personagens femininas do ano, pela grande revelação que é a Elsie Fisher (indicada ao Globo de Ouro), e Josh Hamilton, no papel do pai, também é um destaque gigante. É um filme mais delicado e humano do que se pode imaginar, cheio de nuances e acertos que enriquecem tanto a nossa experiência.

Oitava Série
Eighth Grade
dir. Bo Burnham
★★★★

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

SAG 2019


Cinema

MELHOR ELENCO
Pantera Negra

MELHOR ATOR
Rami Malek — Bohemian Rhapsody

MELHOR ATRIZ
Glenn Close — A Esposa

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Mahershala Ali — Green Book

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Emily Blunt — Um Lugar Silencioso

Televisão

MELHOR ELENCO — DRAMA
This Is Us

MELHOR ELENCO — COMÉDIA
The Marvelous Mrs. Maisel

MELHOR ATOR — DRAMA
Jason Bateman — Ozark

MELHOR ATOR — COMÉDIA
Tony Shalhoub — The Marvelous Mrs. Maisel

MELHOR ATRIZ — DRAMA
Sandra Oh — Killing Eve

MELHOR ATRIZ COMÉDIA
Rachel Brosnahan — The Marvelous Mrs. Maisel

MELHOR ATOR — MINISSÉRIE/TELEFILME
Darren Criss — The Assassination of Gianni Versaci

MELHOR ATRIZ — MINISSÉRIE/TELEFILME
Patricia Arquette — Escape at Dannemora

Comentários

Pantera Negra, numa vitória já esperada, se consagra em Melhor Elenco, acentuando uma noite de muita representatividade. 

Emily Blunt levando atriz coadjuvante foi o prêmio mais surpreendente da noite. Lembrando que ela foi esnobada no Oscar, as coisas ficam um pouquinho mais complicadas lá, embora a Regina King continue fortemente favorita (e ela não foi indicada por aqui).

Rami Malek, que havia descido um degrau depois que o Bale ganhou o Critics' Choice, volta a subir com uma vitória que ainda é bastante contestada, na frente de favoritos como Bradley Cooper, para levar o Oscar. 

Mesmo com seu filme envolvido em uma série de polêmicas, Mahershala Ali (Green Book) se saiu vitorioso novamente, tornando-se portanto um grande favorito para o Oscar. 

The Marvelous Mrs. Maisel, a série que eu preciso assistir urgentemente, venceu todos os prêmios de comédia nas categorias de TV, enquanto Sandra Oh e Jason Bateman ganharam os prêmios de drama. Arquette e Criss reprisaram suas vitórias do Globo de Ouro. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

SEM RASTROS (2018)


Muito mais do que um filme sobre pai, filha e o mundo diante deles. Sem Rastros explora os paralelos de como uma mudança afeta um veterano da guerra que não quer ser aprisionado, que não quer abrir mão da liberdade que encontrou e que o acolheu, e a sua filha, a menina que está crescendo, amadurecendo e desenvolvendo sua visão própria do mundo, independência e que, ao contrário do pai, quer criar raízes, é dessa forma que ela se sente livre, é assim que ela quer encontrar seu lugar no mundo. O valor que ambos compartilham é o da simplicidade, a condição, o isolamento, e é essa também a chave do drama que eles atravessam. O drama de quem se isola para para não ter a sua liberdade roubada, pois a vida em sociedade requer imposições e aprisionamentos. Por outro lado, a convivência, a conexão entre pai e filha que ultrapassa quaisquer fronteiras ou limites. "Pelo menos eles não podem mudar nossas opiniões, não é?". Debra Granik fez um dos filmes mais belos dos últimos anos, uma crítica social com um coração enorme que olha com honestidade e compaixão para seus dois protagonistas lutando para simplesmente não serem cerceados, impedidos, limitados, e viverem a vida do jeito que querem. Aquele final é de partir o coração, mas coroa a sensibilidade de uma obra que fala tão bem sobre o que é ser livre.

Com grandes performances de Ben Foster e Thomasin Harcourt McKenzie, Sem Rastros é o melhor trabalho de Granik até hoje, uma pequena pérola do cinema americano que merece ser vista. Uma pena não ter chegado aos cinemas brasileiros, ficando reservado ao lançamento nas telinhas. 

Sem Rastros
Leave No Trace
dir. Debra Granik
★★★★★

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

NOTAS SOBRE TRÊS FILMES


SHIRKERS: O FILME PERDIDO (2018)




O filme é maravilhoso e autêntico a maior parte do tempo, até que, no mesmo momento em que começa a expor o que acontece depois que o "Shirkers" é concluído, algumas coisas começam a se embaralhar, até porque se passa um tempo falando de uma figura que está alheia ao documentário e é, ao mesmo tempo, o ponto de conflito da narrativa. Se o doc sai um pouco do encanto sensacional da história do filme perdido para entrar em méritos que o levam em direções mais confusas, tirando isso, é um trabalho bastante agradável e plausível, com momentos genuínos de nostalgia, paixão pela arte e um sentimento de recordação e reconstrução. Talvez se a história tivesse sido contada de outra maneira (embora essa talvez seja a maneira mais recorrente de contá-la "tradicionalmente") daria pra fazer um documentário suficientemente original e ainda mais bem costurado do que ele já é. Assim, a primeira parte do filme é essencialmente necessária, com todos os sentimentos capturados, e a sua conclusão irregular, embora não menos bela quando acompanha intenções que já vinham sendo desenhadas desde o começo. Shirkers se sai muito bem no registro das lembranças, na preservação de muitas liberdades, os gestos de olhar para trás e recontar, de falar do próprio cinema e da arte em si. Já acho um documentário genial por essa proposta. ★★★½

Shirkers, dir. Sandi Tan, E.U.A.

CUSTÓDIA (2017)


Incrível como um dos filmes mais tensos e impactantes feitos recentemente (no sentido de deixar o espectador vidrado, desnorteado, se sentindo na pele dos personagens) não é nenhum filme de ação não, mas sim um drama bem intenso sobre relações tóxicas marcadas pelo abuso e pela violência. No começo, o filme de Xavier Legrand não deixa muito claro porque o personagem do marido é tão obcecado ou porque ele age daquela forma tão intimidadora com o filho e a mulher. Tudo o que sabemos é que o sujeito tem um temperamento bem desequilibrado, autor de abusos e episódios de agressão contra a mulher e os filhos. A distância e o intimidamento são registrados com tamanha força que até o menor contato entre os personagens dá origem a uma tensão latente, que vai se intensificando, em especial quando passamos a observar a frenesi daquele comportamento de descontrole. Legrand, em seu filme de estreia, prova pelo menos três grandes méritos: a construção dos personagens (com uma trama arquitetada de forma irreparável), a direção dos atores (temos pelo menos quatro performances excelentes dentro de um filme de 90 minutos) e o domínio narrativo (o controle dramático de cada cena, a tensão absurda, o trabalho com os enquadramentos e a montagem, a condução impecável). ★★★★

Jusqu'à la garde, dir. Xavier Legrand, França 

TULLY (2018)


Charlize Theron gigante. Um filme que fica maravilhoso lá pela metade, e tem um desfecho que, além de surpreendente, também acaba se distanciando um pouco daquela metade tão vigorosa, mas sem perder a força: abre portas tanto quanto fecha outras. Como um todo, o filme é sensível e tocante demais pra ser ignorado, com uma valorização honesta dos dramas de seus personagens, bem como da resolução deles. Um filme sobre crescer, ser adulto, amadurecer. Reitman de volta à boa forma, com um filme melhor que sua média recente, mais próximo de Juno do que do fraco Homens, Mulheres e Filhos★★★½

dir. Jason Reitman, E.U.A.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

OSCAR 2019 — COMENTÁRIOS SOBRE OS INDICADOS


1 — Como todo Oscar, sempre tem esnobações, como também temos justiças. Não foi nada diferente com o Oscar 2019, que até era apontado como uma edição que tinha chances de ser diferente por causa da diversidade no comitê de votantes da Academia (todo ano, entram novas pessoas para votar no prêmio, e 2018 foi um ano recorde nessa seleção). Por isso, a lista dos indicados veio estranhamente recheada de escolhas e presenças inusuais, ou no mínimo bem inesperadas. Isso acabou tirando da jogada concorrentes fortes em categorias importantes, e revelou uma Academia mais diversificada e, portanto, eclética. 

2 — Roma (o grande favorito) lidera a lista com 10 indicações, ao lado de A Favorita, que conseguiu emplacar indicações em todas as grandes categorias, se consolidando como um concorrente potente. 

3 — Apesar de terem conseguido espaço bem vantajoso de concorrência dentro da lista, filmes como Green Book e Nasce uma Estrela tiveram baixa por estarem ausentes em categorias como direção e montagem. Pantera Negra, que tornou-se o primeiro filme de super-heróis a ser indicado para Melhor Filme, não foi indicado em direção, roteiro e montagem. Crescem, entretanto, Infiltrado na Klan, de Spike Lee (pela primeira vez indicado em melhor diretor) e Vice, com vantagem de sobra ao aparecerem nas categorias principais.

4 — Surgiram surpresas em todas as quatro categorias de atuação. A mais notável delas é a indicação de Marina de Tavira, de Roma, em atriz coadjuvante. Tavira até tinha aparecido em algumas apostas, mas muitos tinham a categoria como fechada e ela não ganhou tanta força a ponto de ficar entre as concorrentes mais favoritadas. Yalitza Aparicio, que contracena com ela, foi indicada em Melhor Atriz, outra grande surpresa, levando em consideração ser o filme de estreia da mulher. Ela, entretanto, já vinha crescendo bastante, especialmente com a indicação ao Critics' Choice. 

5 — Nos atores, Willem Dafoe ganhou mais uma indicação com No Portal da Eternidade, muito inesperadamente, tomando um lugar que era disputado por John David Washington e Ethan Hawke, ambos esnobados, na corrida de ator principal. Lembrando que Dafoe foi um dos primeiros nomes a surgir na corrida, ganhou o Volpi Cup em Veneza e indicação ao Globo de Ouro, mas por algum motivo já era considerado um esnobado. Na corrida de coadjuvante, o lugar que já era praticamente do Timothée Chalamet foi tomado, e Sam Rockwell, vencedor da categoria ano passado, emplacou uma indicação por Vice.

OUTRAS SURPRESAS

A Balada de Buster Scruggs, dos Irmãos Coen, com três indicações, inclusive uma pra lá de inesperada em roteiro adaptado.
Never Look Away indicado em filme estrangeiro e, vejam só, fotografia.
First Reformed lembrado em roteiro original.

ESNOBAÇÕES

Se a Rua Beale Falasse em melhor filme.
Won't You Be My Neighbor?, o então favorito a melhor documentário.
Sem Rastros, de Debra Granik, a única mulher que conseguiu chegar bem perto da indicação a direção, e que tinha chances altas em roteiro adaptado. 
— Emily Blunt, tida como uma favorita tanto a atriz como atriz coadjuvante. 
— Toni Collette, a atriz que mais ganhou prêmios da crítica ano passado por Hereditário
Oitava Série em roteiro original.
Em Chamas em filme estrangeiro (se tornaria o primeiro filme da Coreia do Sul a ganhar uma indicação).
— O Primeiro Homem em trilha, categoria para a qual muitos consideravam ser o favorito. Claire Foy em atriz coadjuvante. Sandgren em fotografia. 
 Dolly Parton, que compôs "Girl in the Movies" para o filme Dumplin'. Dolly foi indicada antes com as marcantes composições "9 to 5" e "Travelin' Thru", mas não ganhou. 
— Regina Hall em Support the Girls

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

PODRES DE RICOS (2018)


Qualquer filme que me lembra de Casamento Grego, uma das minhas comédias românticas favoritas (até por ter sido um dos primeiros filmes que eu assisti durante o momento em que eu estava me tornando um cinéfilo, e ainda que muitos digam que é irregular, eu tenho um carinho bastante especial pelo filme) já merece atenção. E muito se elogiou a respeito desse longa que é uma co-produção E.U.A. e China, e que se tornou a comédia romântica mais bem falada e premiada do ano: com todos os motivos para sê-lo. A comparação com o filme de 2002 se concentra na premissa de Podres de Ricos: colocar lado a lado as divergências culturais entre a cultura oriental e a ocidental (em relação a valorização da família, casamento, tradição, dinheiro e valores em países orientais, que é tratado de forma muito mais forte e séria do que na cultura de cá), e também apalpar as semelhanças que surgem com a aproximação entre um polo e outro. Como em Casamento Grego, a influência de um olhar mais "americanizado" é sobreposto na relação entre um e outro. 

Facilmente o melhor filme do gênero lançado em 2018, Podres de Ricos tem também um dos maiores elencos do ano, com atores inspiradíssimos e em uma sintonia que não se encontra em muitos filmes por aí, mesmo os que não são do gênero. Michelle Yeoh, quem poderia ter se tornado uma favorita ao Oscar de atriz coadjuvante, tem um desempenho marcante aqui, na pele da mãe de um rapaz ricaço que leva a namorada americana pra visitar os pais em Singapura, seu país de origem (sem a namorada estar ciente do quão rico ele é). 

O filme é ainda mais delicioso do que se pode esperar, e tem muitos momentos que são leves, descontraídos, tão típicos do seu gênero. Ao mesmo tempo, se trabalha para expor a tensão das relações familiares e o que a chegada daquela moça tão simples provoca, uma "plebeia", no seio de uma família tão abastada, que reage tanto com desprezo como preconceito, fazendo com que a moça se sinta excluída e tenha que passar por bocados para provar o seu valor e o amor que sente pelo namorado, que se tornará o herdeiro da fortuna da família (daí se tornou o mais cobiçado pelas outras mulheres, loucas para "suceder o trono"). 

É bom ver que o cinema oriental ainda está firme e forte, e pérolas como Podres de Ricos acabam ganhando o devido reconhecimento de tempos em tempos. Tá aí um filme que merece ser lembrado pelos seus méritos, e que sobressai num gênero subestimado e criticado, que de vez em quando traz filmes assim, que conseguem ser bastante celebrados e reconhecidos. É um filme leve, a maior parte do tempo descontraído, mas que toca em questões pertinentes e traz à tona esse importante quesito da valorização e do choque de culturas, com o equilíbrio perfeito entre humor e sobriedade. O resultado é delicioso.

Podres de Ricos
Crazy Rich Asians
dir. Jon M. Chu
★★★★

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

ROMA (2018)


Escrever sobre Roma é uma tarefa complicada, porque se trata de um daqueles filmes, e eu realmente quero dizer isso, que a gente não consegue colocar nas palavras, se é que vocês me entendem. Cuarón fez algo muito belo aqui, algo que não se encontra todos os dias, daí o motivo dele estar conquistando tanto prestígio por parte dos críticos e atenção nas premiações. É um registro bem particular de um momento da infância do cineasta através do olhar de Cleo (personagem que foi inspirada na babá do diretor) numa época em que o México se encontrava em um estado politicamente crítico. É dentro da proximidade entre a empregada humilde e a família de classe média alta que Cuarón contorna seu mosaico de lembranças da infância, misturado com um retrato tenso, ácido e agitado das divergências dentro daquela sociedade. O que surpreende é o quanto o filme consegue bastante equilibrado ao andar nessa corda bamba entre registro e retrato, sem deixar de ser humano o suficiente para fazer jus às memórias que ali estão impressas, com aquela humanidade que apenas diretores como o Alfonso Cuarón conseguem evocar. A história está na pele de Cleo, um anjo no meio daquele caos todo, a mulher que está presente mesmo quando não está à vista e que participa, involuntariamente, da vida daquela família, da desordem que contamina as relações e da emoção que contagia cada personagem. Quando eu digo que Roma é um filme belo, eu não quero dizer apenas ou principalmente de aspectos estéticos, embora ele seja bastante especial nisso também, com um trabalho de câmera e fotografia não poucas vezes desnorteante, o scope preto-e-branco maravilhoso, um cuidado a mais com a imagem que valoriza muito mais suas intenções nostálgicas; além disso, há também uma beleza maior, que vai do gesto de reconstruir e de esculpir lembranças (que é do que o cinema é feito) até a compaixão e ternura de sua essência, que é inevitavelmente mais lindo do que qualquer coisa. Repleto de afeto, costurado com um amor que, contidamente, vai se abrindo aos poucos a cada cena, quebrando ou enchendo os corações de quem assiste, até a sequência da praia, que é de uma comoção enorme (catalisando a força do filme todo), e que confirma aquilo que Roma é: um carrossel de emoções, memórias e sentimentos, de um tempo, uma família, uma infância, da vida. 

Roma
dir. Alfonso Cuarón
★★★★★