terça-feira, 7 de outubro de 2014

Crítica: "ANTES DA MEIA-NOITE" (2013), "ANTES DO PÔR-DO-SOL" (2004) e "ANTES DO AMANHECER" (1995) - ★★★★★


O diretor Richard Linklater, que dirigira Slacker, tenta a sorte com Antes do Amanhecer, um sucesso estrondoso na carreira do diretor. O romântico Antes do Amanhecer narra o encontro de um jovem americano e uma jovem francesa num trem em Viena, e que tentam aproveitar de melhor forma suas vidas. Em uma jornada sensivelmente dramática e romântica, o diretor recria uma apaixonante história entre duas almas gêmeas consolidadas pelo destino amargurado que suas vidas se ofereceram a participar. Entre uma cena e outra, um sentimento de luz e vida cresce em meio ao nosso devaneio dramático e silencioso diante de diálogos tão particulares e sensíveis entre os dois jovens: confissões de dois amantes perdidos no mundo do romance.

Julie Delpy (Filhos da Guerra) interpreta a doce e sensível Celine, uma jovem francesa inteligente e carismática. Ethan Hawke (Sociedade dos Poetas Mortos) dá vida ao aventureiro, rebelde e vivaz Jesse, um rapaz americano que se apaixona por Celine. 

Em meio à luz que cada minuto nos oferece dentro dos intensos 100 minutos de filme, Delpy e Hawke dão vida intensamente e harmonicamente a Jesse e Celine, que fazem de Antes do Amanhecer uma obra-prima inesquecível, poética, romântica e iluminada pelo amor e pela vida, e o primeiro e mais afável filme da trilogia Antes.

Antes do Amanhecer (Before Sunrise)
dir. Richard Linklater - 


Nos primeiros segundos, a doce voz de Julie Delpy nos introduz suavemente cantando An Ocean Apart, enquanto short shots de Paris são enquadrados ao som da canção (outro fato que me deixou extasiado sobre Delpy é que além de ser uma atriz impecável, é igualmente talentosa cantando, e compondo). Entre os créditos, o personagem de Ethan Hawke dá vida a Jesse, numa versão mais madura do que a anterior. Agora, Jesse é o renomado escritor de um best-seller chamado This Time, baseado em seu encontro com Celine no verão de 1994. E então, após esse longo intervalo de nove anos, suas vidas se cruzam parcialmente e maravilhosamente numa tarde em Paris, quando Jesse promove seu livro, e Celine magicamente reaparece. O filme, por mais que seja curto ou pequeno, consegue ser um romance estupendo, e o melhor filme da trilogia, sem dúvidas. Richard Linklater se transforma num diretor mais afetivo e cuidadoso e dirige brilhantemente Antes do Pôr-do-Sol, obra que o consagrou no cinema. 

Por ter assistido Antes do Pôr-do-Sol primeiro do que os outros dois filmes da trilogia, acho que fui submetido a um nível maior de identificação com os dois protagonistas do que nos outros dois filmes. Mas aqui, a atração também ficou por conta da lenta caminhada do casal por Paris que me encantou tão profundamente: cenas de diálogos criativos e intermináveis em cenários categoricamente deslumbrantes da cidade-luz me causaram uma sensação esplendora de fantasia. Pelo primeiro olhar, Antes do Pôr-do-Sol pode ter uma aparência bem desconfortável em relação ás características citadas, ou até mesmo pela falta de ação, só que é nesse ponto onde película ganha inspiração e uma fácil conquista do público. Por estes e outros mais motivos, ela é tão memorável para mim mais do que os outros dois filmes da trilogia. 
       
Nesse reencontro sutil, porém marcante, Linklater, junto a Delpy e Hawke (também roteiristas do filme) recriam um romance moderno e visualmente estrondante na companhia sensível e cativante da continuação brava e redundante da história, que faz nossos olhos dançarem em meio a uma poesia visual tão bela e simples quanto uma fábula. E é essa a sensação de assistir a um filme tão vivo e visual como Antes do Pôr-do-Sol: uma deliciosa comédia romântica moderna, que está disposta a nos mostrar até onde o destino é capaz de nos levar, como sua própria magia: infinita e transbordante, confortável e magnânima. Resumindo tudo, Antes do Pôr-do-Sol é mágico, sensível, romântico, intenso e vivo. Sua significância e a capacidade de comover pra mim são coisas que não necessitam de palavras, por isso, ao falar deste filme em si, fico tão confuso, e talvez meu resumo dele possa ter saído um pouco embaraçado: efeitos de uma obra eternamente extraordinária.

Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset)
dir. Richard Linklater - 


Jesse caminha por um aeroporto junto a seu filho, Hank (citado em Antes do Pôr-do-Sol) aos 14 anos. Quase dez anos após os eventos em Paris, Jesse se encontra numa viagem a Grécia com, sua então esposa, Celine e suas duas filhas gêmeas. Tudo parece perfeito, mas não está: Jesse é um aclamado romancista, mas Celine ainda não conseguiu se estabilizar profissionalmente, e pretende trabalhar para o governo grego. Entretanto, com uma volta revigorante, mas não menos inovadora, Linklater recria o universo de amor e cheio de harmonia entre Celine e Jesse, agora casados, numa fase bem mais avançada do relacionamento, o que pode até mesmo dificultar o entendimento dos dois. Porém o que o filme demonstra e que é diferente de Amanhecer e Pôr-do-Sol é a forma de como Celine e Jesse vêem suas vidas em meio á destruição progressiva do relacionamento, que se corrompe lentamente a cada cena, e perde o amor que havia em seus dois filmes anteriores, o amor honesto e puro. A questão inicial que o filme nos faz (dentre as tantas outras questões abordadas) é: Pode o amor sobreviver a um longo período de exposição? Richard Linklater nos responde bravamente de uma forma um tanto romântica e dramática em Antes do Pôr-do-Sol, remodelando as vidas de Jesse e Celine num pano vivo; A maré que desmorona sob Jesse e Celine não nos impede de observar o retrato impetuoso do tempo na vida do casal. O anseio por ter uma vida melhor, a negação do presente, e a relutância em viver num passado perfeito, que talvez tenha se marginalizado dentro das circunstâncias. Em Antes da Meia-Noite, não há nada que separe essa conexão entre os dois, mas a divergência conflituosa que separa suas idéias e seus desejos. Através dos três filmes, há uma análise característica das fases da relação entre um homem e uma mulher, uma observação cinematográfica única, uma história que cabe acontecer a qualquer um em qualquer lugar. Genial e rico em beleza poética, é um conto espirituosamente inteligente e real. 

Antes da Meia-Noite (Before Midnight)
dir. Richard Linklater - 

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