Por incrível que pareça, esse não foi um Oscar ruim não. De controversa, ficam escolhas para prêmios principais bem chocantes, algumas injustas, mas nada muito longe do que o Oscar já fez em edições anteriores. Ficam os reconhecimentos a trabalhos importantes e outros mais polêmicos, e também justiças que acabaram salvando o prêmio, que apesar de tudo fica bem longe de ser um fiasco. Eu acompanho o Oscar desde 2013, e a tradição de assistir a cerimônia veio em 2014 (a primeira que eu assisti por inteiro, no sofá de casa). Até então, nunca vi uma cerimônia terminar após pouco mais de três horas de duração, o que se dá pela falta de um host (Kevin Hart, cotado ano passado, foi rebaixado por conta de comentários homofóbicos) e também por uma condução mais ágil da cerimônia, sem muitas daquelas enrolações que estamos acostumados a ver (e até os comerciais parecem ter sido mais curtos).
Começo falando sobre a primeira vitória de Spike Lee (um dos mais importantes cineastas americanos ever, nem preciso falar) que só veio ser reconhecido nessa edição, ganhando por escrever o roteiro de Infiltrado na Klan, esnobado em direção e filme. Ovacionado de pé, Spike foi celebrado no mais justo momento da noite, lembrando que o filme dele era o melhor concorrente dessa edição. E o seu discurso foi mais que poderoso. Poucos minutos antes, o roteiro de Green Book, um dos mais populares e criticados dos indicados desse ano, levou como roteiro original, e mais tarde se consagraria como Melhor Filme, esnobando outros dois títulos bem mais merecedores (Infiltrado na Klan e Pantera Negra) que não só são filmes mais qualificados como também tratam melhor das questões raciais que Green Book almejou tocar, de uma forma mais prática, não exatamente precisa.
Enfim, bem estranho uma das cerimônias mais diversificadas em muito tempo (algo visto em seu grupo de apresentadores) e com tantos filmes premiados sobre o empoderamento negro e tratando de questões raciais e étnicas bem relevantes dar o maior prêmio da noite para a equipe de produtores e diretor brancos do Green Book, que fala sobre racismo de uma forma bem superficial. Mas, de qualquer maneira, era um vencedor previsível, a surpresa foi a esnobação de outros grandes concorrentes bem mais potentes.
Roma é um deles. E se o filmão de Alfonso Cuarón não saiu vitorioso na categoria em que era favorito quase implacável, pelo menos levou três estatuetas pra casa (todas para Cuarón) incluindo fotografia, filme estrangeiro (a primeira pro México) e direção (fazendo dele o primeiro cineasta a receber o prêmio por um filme completamente estrangeiro, e falado em língua estrangeira, em 91 anos de Oscar). Com o mesmo número de prêmios, Pantera Negra foi ovacionado de pé em todas as suas conquistas, inclusive pela premiação das primeiras mulheres negras a vencerem em categorias técnicas como figurino (Ruth E. Carter, em sua terceira indicação) e design de produção (Hannah Beachler), dando uma noção do quanto foi uma obra impactante pros padrões de Hollywood.
No começo da cerimônia, tivemos uma apresentação massa da banda Queen, em parceria com Adam Lambert. A plateia ficou eufórica. Logo em seguida, subiram ao palco Tina Fey, Amy Poehler e Maya Rudolph, e já foram avisando que não estavam ali para apresentar a cerimônia como muitos estavam imaginando, mas para apresentar uma categoria. Elas acabaram meio que sendo uma versão de hosts, afinal, as três são ótimas comediantes, e fizeram uma curta apresentação mais decente que tantas outras que o Oscar já teve.
Falemos das estrelas. O primeiro prêmio da noite foi para Regina King, dona de uma elogiada performance em Se a Rua Beale Falasse. Ela, que estava há quase 10 anos sem atuar no cinema, ficou emocionada e deu um dos discursos mais tocantes da noite. Em seguida, a interpretação de Mahershala Ali foi premiada (o segundo Oscar do homem). Rami Malek, já favorito a melhor ator, lembrou suas origens de imigrante e fez um discurso com aceno à diversidade. Não foi lá merecido porque a maioria dos atores da categoria estavam beeeem melhores, como o Bradley Cooper, e lembremos que a atuação do Malek é pra lá de irregular. E, por fim, a maior surpresa da cerimônia, que até me fez tremer, foi o Oscar de Olivia Colman, de A Favorita, que ficou extremamente emocionada ao receber o prêmio, fazendo um discurso tenro e bastante comovido. Foi inesperadamente merecido porque a atuação dela é a melhor das cinco. Em sua sétima indicação ao prêmio, Glenn Close (a então favorita) foi esnobada de novo, e até a própria Olivia mencionou isso quando foi receber o Oscar. Por melhor que Olivia esteja, a vitória de Close já era aguardada e faria justiça ao legado de quem já entregou algumas das maiores atuações de todas, e que continua subestimada no Oscar. De partir o coração. Mas, enfim, pelo menos esnobaram certo.
Por fora dos prêmios principais, o Oscar estava fazendo escolhas mais esperáveis e até mais acertadas do que de outros anos. Aranhaverso ganhou como animação e Free Solo como documentário (embora nesta última meu favorito fosse o lindo Minding the Gap). Terminou que todos os oito indicados a filme saíram pelo menos com 1 prêmio, e Bohemian Rhapsody foi o recordista da noite com 4 vitórias (de 5 indicações). Levando em consideração que é o mais mediano dos concorrentes a filme, foram escolhas estranhas.
Entre os momentos bonitos da noite, figura a apresentação de Bradley Cooper e Lady Gaga cantando em conjunto a belíssima "Shallow", que ganhou (merecidamente) o prêmio de canção. Os dois estavam tão bonitos cantando, que a gente até lembra do quanto o filme é tocante quando fala do amor entre os dois. O provável momento mais lindo da noite, aliás. E a melhor das apresentações musicais, que no geral estavam bem normais. As outras canções não estavam tão empolgantes, mas também não desinteressantes: mornas.
Enfim, esse foi o Oscar 2019. Não muito longe do que já se fez antes, mas com resultados que desapontaram quem esperava um pouco mais de justiça, mudança, ares novos, e por outro lado alegre se formos ver que essa deve ter sido a premiação mais diversificada em anos em termos de participação. A Academia ainda precisa melhorar no aspecto dos resultados, e também o próprio show precisa de uma organização mais à altura. Fica claro que o prestígio por obras de um teor mais político e que tenham mensagens voltadas para esse ponto ganharam a cerimônia, mas outra questão a ser relevada é a transformação política dentro da própria Academia, e o que eles querem para o show. A edição que abriu as portas para a Marvel e a Netflix, mas acabou dando atenção para o mais tradicional dos indicados. Enfim, curioso e polêmico. Uma tendência a inovar e, ao mesmo tempo, premiar fórmulas? De todo o mais, foi uma edição interessante, e que fica no nosso pensamento, inclusive se formos levar em consideração as justiças que foram feitas.
Enfim, bem estranho uma das cerimônias mais diversificadas em muito tempo (algo visto em seu grupo de apresentadores) e com tantos filmes premiados sobre o empoderamento negro e tratando de questões raciais e étnicas bem relevantes dar o maior prêmio da noite para a equipe de produtores e diretor brancos do Green Book, que fala sobre racismo de uma forma bem superficial. Mas, de qualquer maneira, era um vencedor previsível, a surpresa foi a esnobação de outros grandes concorrentes bem mais potentes.
Roma é um deles. E se o filmão de Alfonso Cuarón não saiu vitorioso na categoria em que era favorito quase implacável, pelo menos levou três estatuetas pra casa (todas para Cuarón) incluindo fotografia, filme estrangeiro (a primeira pro México) e direção (fazendo dele o primeiro cineasta a receber o prêmio por um filme completamente estrangeiro, e falado em língua estrangeira, em 91 anos de Oscar). Com o mesmo número de prêmios, Pantera Negra foi ovacionado de pé em todas as suas conquistas, inclusive pela premiação das primeiras mulheres negras a vencerem em categorias técnicas como figurino (Ruth E. Carter, em sua terceira indicação) e design de produção (Hannah Beachler), dando uma noção do quanto foi uma obra impactante pros padrões de Hollywood.
No começo da cerimônia, tivemos uma apresentação massa da banda Queen, em parceria com Adam Lambert. A plateia ficou eufórica. Logo em seguida, subiram ao palco Tina Fey, Amy Poehler e Maya Rudolph, e já foram avisando que não estavam ali para apresentar a cerimônia como muitos estavam imaginando, mas para apresentar uma categoria. Elas acabaram meio que sendo uma versão de hosts, afinal, as três são ótimas comediantes, e fizeram uma curta apresentação mais decente que tantas outras que o Oscar já teve.
Falemos das estrelas. O primeiro prêmio da noite foi para Regina King, dona de uma elogiada performance em Se a Rua Beale Falasse. Ela, que estava há quase 10 anos sem atuar no cinema, ficou emocionada e deu um dos discursos mais tocantes da noite. Em seguida, a interpretação de Mahershala Ali foi premiada (o segundo Oscar do homem). Rami Malek, já favorito a melhor ator, lembrou suas origens de imigrante e fez um discurso com aceno à diversidade. Não foi lá merecido porque a maioria dos atores da categoria estavam beeeem melhores, como o Bradley Cooper, e lembremos que a atuação do Malek é pra lá de irregular. E, por fim, a maior surpresa da cerimônia, que até me fez tremer, foi o Oscar de Olivia Colman, de A Favorita, que ficou extremamente emocionada ao receber o prêmio, fazendo um discurso tenro e bastante comovido. Foi inesperadamente merecido porque a atuação dela é a melhor das cinco. Em sua sétima indicação ao prêmio, Glenn Close (a então favorita) foi esnobada de novo, e até a própria Olivia mencionou isso quando foi receber o Oscar. Por melhor que Olivia esteja, a vitória de Close já era aguardada e faria justiça ao legado de quem já entregou algumas das maiores atuações de todas, e que continua subestimada no Oscar. De partir o coração. Mas, enfim, pelo menos esnobaram certo.
Por fora dos prêmios principais, o Oscar estava fazendo escolhas mais esperáveis e até mais acertadas do que de outros anos. Aranhaverso ganhou como animação e Free Solo como documentário (embora nesta última meu favorito fosse o lindo Minding the Gap). Terminou que todos os oito indicados a filme saíram pelo menos com 1 prêmio, e Bohemian Rhapsody foi o recordista da noite com 4 vitórias (de 5 indicações). Levando em consideração que é o mais mediano dos concorrentes a filme, foram escolhas estranhas.
Entre os momentos bonitos da noite, figura a apresentação de Bradley Cooper e Lady Gaga cantando em conjunto a belíssima "Shallow", que ganhou (merecidamente) o prêmio de canção. Os dois estavam tão bonitos cantando, que a gente até lembra do quanto o filme é tocante quando fala do amor entre os dois. O provável momento mais lindo da noite, aliás. E a melhor das apresentações musicais, que no geral estavam bem normais. As outras canções não estavam tão empolgantes, mas também não desinteressantes: mornas.
Enfim, esse foi o Oscar 2019. Não muito longe do que já se fez antes, mas com resultados que desapontaram quem esperava um pouco mais de justiça, mudança, ares novos, e por outro lado alegre se formos ver que essa deve ter sido a premiação mais diversificada em anos em termos de participação. A Academia ainda precisa melhorar no aspecto dos resultados, e também o próprio show precisa de uma organização mais à altura. Fica claro que o prestígio por obras de um teor mais político e que tenham mensagens voltadas para esse ponto ganharam a cerimônia, mas outra questão a ser relevada é a transformação política dentro da própria Academia, e o que eles querem para o show. A edição que abriu as portas para a Marvel e a Netflix, mas acabou dando atenção para o mais tradicional dos indicados. Enfim, curioso e polêmico. Uma tendência a inovar e, ao mesmo tempo, premiar fórmulas? De todo o mais, foi uma edição interessante, e que fica no nosso pensamento, inclusive se formos levar em consideração as justiças que foram feitas.
MELHOR FILME
Green Book
MELHOR DIREÇÃO
Alfonso Cuarón — Roma
MELHOR ATOR
Rami Malek — Bohemian Rhapsody
MELHOR ATRIZ
Olivia Colman — A Favorita
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Mahershala Ali — Green Book
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Regina King — Se a Rua Beale Falasse
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Green Book (Peter Farrelly, Nick Vallelonga & Brian Currie)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Infiltrado na Klan (Spike Lee, Kevin Willmott, David Rabinowitz & Charlie Wachtel)
MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Roma — México (dir. Alfonso Cuarón)
MELHOR ANIMAÇÃO
Homem-Aranha: no Aranhaverso (Bob Persichetti, Peter Ramsey, Rodney Rothman, Phil Lord & Christopher Miller)
MELHOR DOCUMENTÁRIO
Free Solo (Elizabeth Chai Vasarhelyi, Jimmy Chin, Evan Hayes & Shannon Dill)
MELHOR TRILHA SONORA
Pantera Negra (Ludwig Göransson)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Shallow", de Nasce uma Estrela
(Lady Gaga, Mark Ronson, Anthony Rossomando & Andrew Wyatt)
MELHOR FOTOGRAFIA
Roma (Alfonso Cuarón)
MELHOR MONTAGEM
Bohemian Rhapsody (John Ottman)
MELHOR FIGURINO
Pantera Negra (Ruth E. Carter)
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Pantera Negra (Hannah Beachler & Jay Hart)
MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
Vice (Greg Cannom, Kate Biscoe & Patricia Dehaney)
MELHOR EDIÇÃO DE SOM
Bohemian Rhapsody (John Warhurst & Nina Hartstone)
MELHOR MIXAGEM DE SOM
Bohemian Rhapsody (Paul Massey, Tim Cavagin & John Casali)
MELHORES EFEITOS VISUAIS
Primeiro Homem (Paul Lambert, Ian Hunter, Tristan Myles & J. D. Schwalm)
MELHOR CURTA — DOCUMENTÁRIO
Period. End of Sentence. (Rayka Zehtabchi & Melissa Berton)
MELHOR CURTA — LIVE-ACTION
Skin (Guy Nattiv & Jaime Ray Newman)
MELHOR CURTA — ANIMAÇÃO
Bao (Domee Shi & Becky Neiman-Cobb)




Nenhum comentário:
Postar um comentário