segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Crítica: "WHAT HAPPENED, MISS SIMONE?" (2015) - ★★★★


O que aconteceu, srta. Simone? Dentre os indicados ao Oscar 2016 desse ano em Documentário, dois são biográficos: What Happened, Miss Simone? Amy. Ambos são sobre duas cantoras, importantíssimas para as suas respectivas gerações, cujas trajetórias, apesar de certas diferenças, tem semelhanças. Só vi, até agora, os dois da categoria, e tenho até o dia 28 pra ver os outros três nomeados: O Olhar do Silêncio, Cartel Land e Winter on Fire (outro filme da Netflix). Mas, enfim, para poupar o tempo de filosofar sobre o que não interessa, vamos discutir What Happened, Miss Simone? antes que eu comece a encher linguiça aqui. 

What Happened, Miss Simone? foi lançado no Festival de Sundance, e mais tarde pelo serviço de streaming Netflix. Esse é o 13º filme da diretora Liz Garbus, que já foi indicada ao Oscar anteriormente na categoria em questão por The Farm: Angola, U.S.A. em 1999. Já é possível adivinhar logo pelo título que o documentário é sobre a mundialmente famosa cantora Nina Simone. O documentário reimagina a carreira, a vida pessoal e a repercussão artística e histórica de uma das intérpretes musicais mais influentes do século passado.

Uma mulher que defendia os direitos do seu povo através da arte, Nina Simone transmitia pela sua voz lendária uma denúncia à desigualdade racial nos Estados Unidos e aos contrastes sociais existentes no país por um longo período de tempo, um grito que ecoou pela nação em busca da devida justiça aos negros. As canções de Simone eram tachadas de polêmicas ao longo da década de 60-70, era tanto que a cantora era raramente convidada a participar de programas televisivos, e se restringia à festivais de jazz e apresentações em bares e salões. 

Assim como o documentário Amy, um dos mais potentes candidatos à estatueta esse ano em Documentário, What Happened Miss Simone? se dispõe de um acervo riquíssimo de entrevistas, imagens e apresentações que beneficia o formato e alimenta o propósito documental do trabalho. Pode-se dizer que é um retrato até mais íntimo da cantora, e não é só por conta da detalhada pesquisa de acervo por trás do filme. Como Amy, What Happened, Miss Simone? é sobre uma mulher acorrentada aos seus demônios pessoais e que tinha diversos problemas fora dos palcos, especialmente dentro do casamento conflituoso com um delegado durão de Nova York, que largou o emprego só para se tornar o empresário de Simone.

Nina Simone mantinha um diário onde relatava os acontecimentos de sua vida em geral, e neste há várias descrições de abuso físico por parte do marido da cantora, que em um momento até chegou a estuprá-la depois de a agredir só porque um fã entregou à mulher uma cartinha numa apresentação. E, apesar do tratamento, como no próprio diário ela relata, raramente se opunha aos ataques do marido. Mas dá pra perceber nitidamente o quanto isso a afetava. Em certos momentos, não é difícil perceber que ela consente com confusão os abusos do marido e mesmo assim chega até a provar o contrário. Isso, é claro, se dá porque Nina era bipolar. O tratamento do marido refletiu na relação de Nina com a filha, que chega a descreve-la, numa cena, como um "monstro". 

Os bastidores da fama e da vida de Nina entretém e nos proporciona conhecimento a partir do legado da mulher, mulher essa de poucos luxos que vivia para protestar por direitos iguais. E foi assim que ela se tornou um símbolo da igualdade entre as raças e da música americana. Foi em hits como "Mississipi Goddam" que ela representou a raça negra e seu anseio por justiça às atrocidades brancas. Gostei mesmo de What Happened, Miss Simone? Um documentário fiel e representativo, uma ótima biografia e um trabalhão divino por trás da montagem do acervo e afins. Se não fosse por Amy, ganhava o Oscar (lembrando que ainda não vi os outros três documentários indicados).

What Happened, Miss Simone?
dir. Liz Garbus - 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Crítica: "CAVALEIRO DE COPAS" (2015) - ★★★★


Que diretor enigmático e genial é Terrence Malick. Sui generis. O cara é simplesmente um dos melhores, sem brincadeira. É cada filme bom que ele faz, com pegada de cinema da melhor qualidade. Como eu já conheço há tempos o estilo de Malick, nem me estranhei tanto com seu mais novo filme, Cavaleiro de Copas. Quero dizer, isso não ajuda, muito obviamente, a compreender o filme, que de complicado tem até o talo, mas é aconselhável a quem não conhece o cineasta e quer ver Cavaleiro de Copas ir atrás dele, sua história, seu estilo, bem como filmografia (aconselho ver Amor Pleno antes, que é bastante semelhante com esse). Malick novamente usa o cinema para converter o incompreensível em tateável, numa fábula moderna inventiva e sagaz.

Em Cavaleiro de Copas, Terrence brinca com os elementos em tela e desafia o espectador em uma aventura visual desnorteante, que transcende tempo e concreto. No filme, um roteirista de cinema bem-sucedido (Christian Bale) mora em Los Angeles e gasta a maior parte do seu tempo em festas e baladas, levando uma vida regada a luxúria e prazer, sem ter de se preocupar com nada. E, mesmo com toda essa maré de sorte, ele ainda não consegue se conectar a esse mundo. O personagem está perdido, não consegue se encontrar. É um sentimento de frustração que ele não consegue explicar. Misto a isso, duas figuras importantes do seu passado ressurgem, a devota ex-mulher (Cate Blanchett) e a amante casada (Natalie Portman). 

Se os dois trabalhos anteriores de Malick a este, A Árvore da Vida e Amor Pleno, envolviam temáticas como fé e religião, este novo, apesar de não englobar tão explicitadamente o tema quanto os antecessores, envolve uma filosofia muito interessante que se assemelha à abordagem Malickiana acerca as profundezas da fé tanto bem exploradas nos dois anteriores. É algo até mesmo metafísico, pra ser mais específico. Cada capítulo do filme (segmentos que circulam em torno da vida do protagonista) são apelidados com nomes de cartas de tarô (daí o nome do filme Cavaleiro de Copas), por exemplo: "Morte", "Sacerdotisa"...

Esses pequenos detalhes fazem parte do conjunto metafórico do filme. E, claro, nada vai se descobrir num piscar de olhos. Nada se absorve do nada. O filme é consciente, reage aos impulsos da trama, mas prossegue numa vibração desconfortável e ao mesmo tempo cativante. A relação de Cavaleiro de Copas com os dois filmes que vieram antes dele é justamente indireta. Estaria Malick desenhando aqui um retrato de um mundo sem a fé, um mundo onde nada parece fazer sentido e nada parece ter uma direção correta, tudo às avulsas? Ou então seria essa metaforização do mundo sem a fé uma outra metaforização? Sobre a indiferença humana? Sobre o fim? Sobre o mundo sem ilusão? Sobre o vazio? A fé, aqui, então, estaria representando a busca do homem por algo que lhe justifique a existência/algo que lhe dê razão para continuar vivendo? Ao ver a crença desmaterializada, o homem logo percebe a farsa e tudo se perde. A razão se perde. O limite se perde. Seria esta a "lição" de Terrence Malick?

Bem, o certo é que ele deixou uma baita lição pra casa, não? Cavaleiro de Copas talvez cresça no meu pensamento com o tempo. Ou quem sabe uma revisão não fará bem? Em casos desse patamar, é bem conveniente. O legal é ir imaginando sobre as mil e uma possibilidades de Cavaleiro de Copas, sobre as suas mensagens desencadeando em outras mensagens, e mais outras mensagens. É uma fantasia bastante divertida. E, se formos ver de perto, não é descartável essa noção. O filme é realmente merecedor de revisão. Ou melhor, revisões. Cavaleiro de Copas foi feito para fazer o público pensar. É também sobre a identidade, sobre o ser em reflexão, sobre a culpa, sobre o medo.

O vazio por Malick não poderia ser mais atordoante. O personagem de Bale, quase que apático, por conta da sensação de tédio e de confusão quase que constantes pelas duas horas de filme, transmite o peso do vazio para o espectador. E eu consigo sentir que é dilacerante, que é instável. Posso não sacar de primeira, mas sinto. Isso é muito bacana. Tomem como nota a incompleta narrativa de Cavaleiro de Copas, e como isso espelha o espírito inquieto e vazio do personagem. Na fotografia de Lubezki, por exemplo, predomina o azul, o cinza, o branco, cores pálidas e sem vida. Muitas cenas se passam no deserto. Há vários shots da praia, do sol, do céu (vazio).

E, já que entramos no assunto, bora falar da fotografia do Emmanuel Lubezki. O cara acabou de ser indicado ao Oscar por O Regresso e na minha opinião já merece mais uma indicação por Cavaleiro de Copas (o filme vai ser lançado nos E.U.A. só esse ano, então tecnicamente há chances para Lubezki em Fotografia no Oscar 2017). Que beleza é essa? Como alguém pode ser tão visionário a ponto de conseguir captar tantas coisas num único frame, tanta vida, tanta emoção? É muito lindo mesmo. E eu creio que Cavaleiro de Copas é principalmente bem-vindo e excelente por conta dessa comissão visual inacreditavelmente surreal e interminavelmente bela. Malick e Lubezki são uma dupla show, arrasando corações desde 2005 (O Novo Mundo). Mas, sinceramente, é muito bonito mesmo. E mais ainda. E muito mais. São vários e vários wallpapers em uma única cena. Cavaleiro de Copas é asseguradamente um balé visual encantador e cintilante. Cada paisagem mais triunfal do que a outra.

Elenco fenomenal também, hein? Tá bem que o elenco só aparece quase que metade do filme (os outros 50% por cento é a fotografia do Lubezki se mostrando), e que nessa metade é o Christian Bale que domina, mas vale mencionar as participações rápidas da Cate Blanchett, da Natalie Portman, da Imogen Poots, do Antonio Banderas e da Freida Pinto (até o Ben Kingsley deu as caras, quer dizer: apareceu como narrador).

Muitos estariam sugerindo que Cavaleiro de Copas seria uma continuação de A Árvore da Vida. E essa teoria é até crível, viu? As duas tramas se encaixam perfeitamente, ainda mais no núcleo da família do roteirista, que inclui o pai e um irmão (um outro irmão faleceu devido a circunstâncias desconhecidas). Mas, quem sabe não sejam estas apenas "meras coincidências". Estou começando a crer que é uma trilogia. Também não dá pra negar certas semelhanças com o clássico Felliniano A Doce Vida.

Enfim, pra quem admira o Terrence Malick e procura por um filme mais profundo, mais "pensante", Cavaleiro de Copas é o lugar certo. Recomendável. O visual densamente rico preenche o longa com sensibilidade e emoção. O vazio existencial, a relação pai e filho, a ótica Malickiana por sobre o choque entre as relações humanas, a fotografia hipnotizante do Lubezki (já falei?), a intensidade dramática, o caminhar singelo e alternativo. Quer mais motivos? Cavaleiro de Copas é um evento experimental imperdível. É tudo ou nada, e vice-versa. E belíssimo, e emocionante, e primoroso. E muito mais. Malick exercitando seu cinema poderoso com maestria é impagável.

Cavaleiro de Copas (Knight of Cups)
dir. Terrence Malick - 

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Crítica: "FILHOS DA ESPERANÇA" (2006) - ★★★★


Alguns filmes nos comovem tão inesperadamente que fica até um pouco difícil argumentar sobre eles, quiçá expressar em palavras o quão emocionante é assisti-los. Sim, estou me referindo a Filhos da Esperança. Peguei o filme pra ver ontem, de última hora, e fiquei fascinado. O mexicano Alfonso Cuarón capricha no resultado de um filme assustador, eletrizante e repleto de humanidade. Com um elenco apetitoso, Filhos da Esperança é um grande trabalho, mesmo que não seja uma obra-prima. Está bem longe de ser como E Sua Mãe Também ou Gravidade, tratando-se da carreira de Cuarón, mas não pode ser deixado de lado.

A trama do filme é ambientada em 2027. O mundo está caindo aos pedaços: guerra, miséria, desigualdade, conflitos sociais... E infertilidade. Há 18 anos, nenhuma mulher deu à luz a uma criança. O filme, aliás, começa dentro de um café com pessoas se mobilizando diante da morte da pessoa mais nova do planeta, o Baby Diego. Todo mundo está em choque perante a "trágedia". É aí que entra o protagonista, interpretado por Clive Owen, um ex-ativista que se rendeu à burocracia da sociedade, e que é, digamos, resgatado pela ex-mulher (Julianne Moore), a revolucionária líder de um movimento que quer a ajuda do homem para conseguir alguns documentos. Não passa meia hora de filme e o conflito explode. 

Há muitas semelhanças entre Filhos da Esperança e E Sua Mãe Também, tanto externamente (há uma cena em que os personagens de Clive e Michael Caine estão andando de carro que lembra uma sequência do outro) quanto internamente (a denúncia, a abordagem revolucionária, a multifacetada narração). Ambos também são filmes inteiramente bons, de poucos deslizes e uma lista gigantesca de acertos (com mais pontos para o filme de 2001 nesse quesito). É claro, isso falando quase que superficialmente, já que quaisquer detalhes podem passar despercebidos, e portanto posso estar deixando de fora alguma semelhança estética provável, mas com essa rapidez toda quem consegue dar atenção à minúcias dessa espécime? 

Não gostei muito da transição repentina e adiantada do filme. Nesse ponto o Alfonso errou feio. Não sei se é porque ele quis emular um clima mais descentrado e de guerra mesmo, como acontece mais proximamente, mas não coube aqui. Ele acelera bastante, e isso desequilibra o funcionamento da trama em certas partes, muito importantes. Ou então sou eu que não estava esperando o baque. Uma revisão cairia bem. Mas o que eu mais não gostei em Filhos da Esperança foi o desperdício da Julianne Moore. Poxa, Alfonso, assim não dá, né? (eita, será que isso foi spoiler?). 

O roteiro (co-escrito pelo Alfonso) pinta bem a humanidade que a história tanto transpira, sem deixar de fazer menção às injustiças da situação e às deliberações do caos. Tudo bem que há exageros, mas é normal e compreensível. E, a certo modo, é motor para a atenção do espectador, então... Filhos da Esperança é um filme de ação, mas um filme de ação desclicherizado. E se isso é bom, isso é bom. Mas aí o filme perde um pouco o sense de filme de ação. E isso também é bom. É sinal de que há equilíbrio entre a ação e o drama no filme. Mas aí o drama prevalece em vez da ação, que em partes é passageira na intenção ou descompromissada. E isso é bom demais, falando de um filme como Filhos da Esperança. Isso indica realismo. O longa respira realismo. E, vejam bem: não estou reclamando do gênero ação. Nesse contexto, ele fez bem em ficar timidamente onipresente de mãos dadas com o realismo severo e crível aqui visado, ainda mais depois da 1ª parte do filme.

E, se a Julianne Moore foi desperdiçada (sou fã da Moore, folks!), outros atores foram compensados com espaço e devida atenção. E não, não estou falando do Michael Caine, que também aparece pouco pra ser franco. Destaque especial para o Chiwetel Ejiofor (outro que também aparece pouco, convenhamos), Clare-Hope Ashitey (Kee) e Pam Ferris (sim, aquela professora malvada da Matilda, aqui em uma performance extraordinária, na pele da imigrante Miriam). Nem preciso falar do Clive Owen, numa das melhores interpretações da carreira dele (aliás, sumido o Clive, não é mesmo?). 

Enfim, só sei que Filhos da Esperança foi uma experiência impactante pra caramba, sem igual. Terror, drama, ação e ficção científica ao mesmo tempo, é asseguradamente um primor de filme. É imperfeito, mas contém sequências de deixar de queixo caído, sem falar naquela fotografia sempre arrebatadora do Emmanuel Lubezki. Cuarón filosofa sobre o amor, a justiça, os direitos, a (então) humanidade, o futuro, o preconceito, a igualdade e muitos outros temas dentro de uma crônica particular do mundo inteiro, uma história futurista calorosa e energética sobre a força da esperança. Tecnicamente, o filme (e também o livro adaptado) errou a aposta, mas nada está impedindo-a de ser incrível ou fantástica para a realidade do mundo atual. Ela, inclusive, até já pode estar acontecendo bem diante dos nossos olhos. É tudo uma questão de perspectivas.

Filhos da Esperança (Children of Men)
dir. Alfonso Cuarón - 

Crítica: "POR UM PUNHADO DE DÓLARES" (1964) - ★★★★★


O filme que lançou o lendário ator e agora diretor Clint Eastwood à fama e que abriu a famosa "trilogia dos dólares" de Leone andou meio esquecido de uns tempos pra cá. Consegui uma cópia em DVD no ano retrasado, se não estou enganado, sendo a mesma uma espécie de re-cópia do VHS do filme (e essa tal cópia é a mais atualizada para DVD) e dublada. É até mais gostoso, pra ser sincero. O áudio é bem conservado e a imagem de qualidade mediana dá aquela impressão de película, o que é sensacional. Não faz nem dois anos que foi lançada a cópia Blu-Ray (aniversário de 50 anos) mas a mesma já se encontra esgotada em tudo que é canto. Mas, de qualquer forma, nem dá pra reclamar do jeito que gostei tanto da janela da cópia e da imagem/áudio. Enfim, o filme.

Clintão já desde o primeiro filme hipnotizava-nos com seu olhar fulminante e discreto, cheio de raiva e mistério. Na pele de um enigmático pistoleiro que visita um vilarejo mexicano e se junta a duas famílias inimigas, Eastwood imortaliza nos seus idos tempos de cavaleiro do oeste de coração mole, personagem que já ali intrigava o espectador no entalar de características e essências, as palavras encafifadas, o jeitão de quieto e, é claro, a eficiência no gatilho. A aventura de um herói qualquer costurando a justiça num buraco sem lei em Por um Punhado de Dólares é o que excita o público e nos convida a bailar juntos no agressivo tango da vida e da morte.

Devido ao baixo orçamento da produção, Leone teve de improvisar na montagem de certas cenas e na esquematização das sequências de conflito. Os exageros do gênero ajudam a disfarçar certas imperfeições. O clima do gênero é forte e presente a todo instante. O prazer é automaticamente inevitável.

Lá no fundo, Por um Punhado de Dólares é um trabalho simples, feito de uma história simples, de uma premissa simples. Par à essa singeleza, há uma naturalidade épica. Os traços do justiceiro de Clint ajudam a emular um suspense que contagia o espectador: "Por que ele quis ajudar aquela mulher e sua família? O que aconteceu no passado dele? Qual é a dele, afinal?", perguntas que servem tanto para embriagar o público de curiosidade e manter vivo o espírito de continuidade que viria a se prolongar a mais capítulos depois deste.

Filmado na Espanha, o filme, o primeiro "spaghetti western" da história do cinema, foi um dos primeiros grandes sucessos internacionais de Leone, e que consagrou o então ator Clint Eastwood mundo afora. Visto o longa, vê-se o porque da admirável e justa fama das duas lendas. Diversão garantida, Por um Punhado de Dólares é também, lembrando, um exercício marcante na carreira do mestre do faroeste Sergio Leone, aqui introduzindo ao mundo seu cinema explosivo e clássico, e as parcerias bem-sucedidas com Clint Eastwood e o compositor Ennio Morricone (aqui como Dan Savio).

Por um Punhado de Dólares (A Fistful of Dollars / Per un pugno di dollari)
dir. Sergio Leone - 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Crítica: "CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU" (1977) - ★★★★★


A cada filme a mais que vejo dele, se intensifica a certeza de sua grandeza e autoridade cinematográfica. Spielberg é um mestre, já disse e volto a repetir, empossado da mais segura segurança que há. Não tem quem duvide de seu legado. Sua filmografia é prova, elimina pontos de interrogação. Um dos clássicos mais clássicos de Steven, Contatos Imediatos do Terceiro Grau marca o desabrochar de uma das carreiras mais brilhantes de toda a história do cinema. Conjunto a Tubarão, o longa é símbolo dessa fase promissora do Spielberg, que já nos anos jovens exibia ao mundo as suas habilidades com o cinema em geral. E, falando disso, simplesmente não dá pra ignorar este aqui. 

Não dá pra competir com esse calor infernal. Sério. Não desejaria tal coisa nem para meu pior inimigo. Eu não consigo me concentrar pra escrever, fico cambaleando pra lá e pra cá com vontade de dormir, e é simplesmente um saco. Nem preciso falar que sou fã do inverno, e o quanto o verão me incomoda (e o pior é que não é só o clima, mas uma série de fatores que contribuem para a tensão no espaço e a dispersão e falta de tempo). 

Mas, enfim, enquanto eu reclamo, perco esse precioso tempo meu. Vamos falar sobre o que interessa. Bem, Contatos Imediatos do Terceiro Grau é o primeiro grande filme sobre alienígenas realizado por Spielberg. Alguns anos depois deste, veio E.T.. É legal acompanhar o filme visando seus avanços técnicos de produção (efeitos visuais, cenários) e etc., mas eu acho que melhor ainda é observar como o Spielberg manja de contar histórias. O cara foi feito pra isso. O que é mais perfeito ainda em relação? O filme mixa as duas maiores paixões do cineasta: contar histórias e alienígenas. Ou seja, deu no que deu. Não tinha como dar errado.

Presente. Após vivenciar um encontro com um O.V.N.I., Roy Neary (Richard Dreyfus), um homem comum, rotineiro, pai de família, decide ir mais afundo e fica obcecado com a experiência, passando a analisar minuciosamente de perto casos com extraterrestres na região onde vive. As coincidências do destino e sinais que só ele parece captar o levam à tentação de prosseguir com uma maluca mas inevitável investigação. Tudo o que ele quer é respostas. A família se afasta e ele começa a enlouquecer, mas nada é demais: ele não desiste. 

Spielberg fermenta a sua fábula moderna (da sua própria autoria, já que ele é também roteirista além de diretor) com sensibilidade e humanidade (pode-se dizer que são características de seu estilo levemente arrojado e 'politicamente correto' de se fazer cinema, a fórmula para equilibrar o projeto aos mais diferentes públicos), se descontrai em momentos de humor e nos cativa em momentos de adrenalina e insuficiência respiratória proporcionados. 

Orçamento baixo uma ova! Com um pouco menos de 20 milhões em mãos (o que é tecnicamente falando uma quantia modesta para um filme deste patamar), Spielberg caprichou e não economizou na criatividade e na boa lábia de ilusionista que exerce pra fazer de Contatos Imediatos do Terceiro Grau um sucesso de bilheteria da época, e também nas premiações. Pra quem vive falando que hoje os filmes dele são superproduções e que ele só conseguiu o que ele tem por conta do dinheiro, vão estudar história um pouco, ok!? Se o homem hoje é um bilionário, é porque soube ser inventivo na medida certa e rimou seus dotes à seu grande amor com devoção e sangue. 

Depois da bem-sucedida parceria em Tubarão, Dreyfus voltou a trabalhar com Spielberg, numa performance igualmente devastadora e excelente. O ator conduz bem os lados dramático e cômico do seu personagem, lhe direcionando a um resultado bravíssimo. A participação de François Truffaut é amável de se acompanhar, uma oportunidade literalmente rara. Uma pena que ele não tenha vivido mais do que 52 anos de vida. Quem dera ele estivesse vivo hoje pra contar a história. 

Contatos Imediatos do Terceiro Grau metamorfoseou-se num clássico instantâneo do cinema americano, tendo o mesmo servido de influência para diversos trabalhos seguintes do gênero ficção-científica e afins. Hoje em dia, o filme também faz parte da cultura popular, sendo o título remetente aos mais diversos tipos de espectador, do cult ao povão. Até na melodia do gás (inconfundível o tema do filme de cinco notas que virou musiquinha do caminhão do botijão de gás)! 

Steven Spielberg dá um show de competência, um exemplo para os cineastas iniciantes dos dias de hoje. Quero dizer, é bem improvável que um novo Spielberg surgirá no futuro (pra termos outro Spielberg, só nascendo mais um Spielberg, né?), mas fica aí a dica: use a cabeça. Não se intimide com o orçamento, com sua condição social ou com qualquer outra coisa que lhe meta medo. No cinema, tudo é possível. Nas telonas, o impossível vira realidade num piscar de olhos. Use a criatividade, não economize em truques, faça o impossível para ser o mais inventivo de todos. Não vai ser fácil, é preciso realizar alguns sacrifícios, mas com muito esforço e dedicação se chega lá.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau é uma obra icônica, uma demonstração verdadeira de arte e de cinema de qualidade. Spielberg é um gênio. John Williams também. E o Vilmos Zsigmond (ainda estou de luto, pessoal), esse mestre da fotografia, que infelizmente nos deixou há aproximadamente um mês, muito triste relembrar do momento em que recebi a notícia. A coisa boa é que em Contatos Imediatos do Terceiro Grau o húngaro também não deu mole no esforço e na força de vontade. O resultado é triunfal, e não à toa ele conquistou o Oscar de Fotografia em 78, o único prêmio do filme (o prêmio de Sonoplastia foi honorário). 

Essa película encanta, seduz, enfeitiça. É colossalmente mágico, não dá pra negar. Irresistível. Profundamente memorável. Como diria Alcione, "É você, meu Spielberg, é tudo de bom!". Contatos Imediatos do Terceiro Grau é um filme obrigatório, um marco inegável. Pra conhecer Steven Spielberg, você tem que conhecer esse filme. Elenco, fotografia, direção de arte, roteiro... Não há como dizer "não". 

Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind)
dir. Steven Spielberg - 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Crítica: "ESPECIALISTA EM CRISE" (2015) - ★★


A Sandra Bullock é uma das únicas atrizes que eu consigo aturar mesmo em produções ruins, como aconteceu em Especialista em Crise. E a questão, nesses casos, nem é se ela está numa performance boa ou não. É fácil simpatizar com a Sandy em qualquer situação, e isso facilita um pouco a digerir Especialista em Crise, ainda que o mesmo seja uma catástrofe só.

Do cineasta independente David Gordon Green, cuja filmografia é meio bagunçada, Especialista em Crise rende pela Sandra e nada mais. Resumindo, na grande parte do tempo, é a bela de uma perda de tempo. O filme tenta parecer sério pintando de "filme político", mas foge do tema e se complica todo. Gordon Green falha novamente, pra variar.

O ambíguo título nacional já causava um pouco de interesse (e o original também, Our Brand Is Crisis). Os boatos de que a performance da Bullock a renderia uma terceira indicação ao Oscar, lá no ano passado, também reforçavam essa curiosidade. E, se não fosse pela concorrência, caso ela fosse indicada eu não reclamaria. O problema é o filme. Especialista em Crise narra a jornada de um grupo de assessores americanos na Bolívia durante uma eleição presidencial. A aposentada estrategista política Jane Bodine (apelidada de 'Jane Calamidade' pela mídia) é contratada para ajudá-lo. E lá se vai ela e turma para a Bolívia.

Mas a confusão em Especialista em Crise empossou-se da produção desde o começo do planejamento. Em 2007, foi noticiado que Grant Heslov e George Clooney estariam trabalhando na adaptação do documentário de 2005 Our Brand Is Crisis. Até aí, ok. A partir daí, o andamento da película seguiu em off. Entre umas e outras, em 2014 o projeto foi retomado e Heslov e Clooney apenas seriam creditados como produtores. Gordon Green assumiu a direção, e Sandy foi divulgada como protagonista.

Especialista em Crime peca no retrato adverso de sua história (livremente inspirada em fatos) e que não cola com o ritmo do estilo fílmico assumido. O longa encontra tempo e espaço pra satirizar mas depois faz um bolo dramático com os personagens de sua trama que simplesmente não dá pra engolir. Não há síntese nem coerência. Especialista em Crime anseia em exibir que é perito em um assunto que na realidade não domina. É tudo uma brincadeira impertinente. Não há maturidade, muito menos organização.

Nada passa do superficial. O elenco é desperdiçado à toa. Sandy, Billy Bob Thornton (sumido), Zoe Kazan, Anthony Mackie... Nada de nada. Ver o filme logo se transforma numa experiência repugnante, desconfortável. O roteiro é repleto de furos (pior ainda é que o roteirista é um cara bom, Peter Straughan, o mesmo de O Espião que Sabia Demais e Wolf Hall) e desconexo. Enfim, Especialista em Crise é um saco que só. Um filme deplorável. E a Sandy, apesar de tudo, em boa forma.

Especialista em Crise (Our Brand Is Crisis)
dir. David Gordon Green - 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Crítica: "O NOVÍSSIMO TESTAMENTO" (2015) - ★★★


Jaco Van Dormael. 58 anos. Belga. Diretor de cinema. Quatro longa-metragens. A mente por trás de O Novíssimo Testamento. O nome Jaco Van Dormael é mais conhecido (ou melhor dizendo unicamente conhecido) por aqueles que testemunharam Mr. Nobody, já que os dois filmes anteriores a este do diretor (que também atua como roteirista) não tiveram tanta fama quanto o em questão. Dormael dirige, produz e assina o roteiro de O Novíssimo Testamento

Embora não seja tão complexo quanto o antecessor, O Novíssimo Testamento fica na cabeça mesmo após o término na sessão, no sentido de ser cheio de múltiplas interpretações e questionamentos interessantes. A vertente filosófica de Mr. Nobody repete-se em O Novíssimo Testamento: a crônica moderna abre portas para uma leve complexidade que não dificilmente é digerida pelo espectador, como uma sinfonia vibrante. De qualquer modo, é um filme curioso. E isso é bom.

De um lado surreal, do outro rusticamente materialista, O Novíssimo Testamento é uma saudável sarcástica crítica à civilização e cujo poder de influência varia de público para público. Ou seja, o trabalho é muito particular. Talvez o que eu acho dele não é o mesmo que você. E o que mais atrai em filmes que dividem público é a magnitude de seu astuto imaginário, que não só pode como deve causar reações contrárias nos espectadores. De fato, é correto afirmar que há certas imperfeições em O Novíssimo Testamento. Mas há qualidade aqui. 

Dormael confere sensibilidade e delicadeza à personagens críveis ainda que sutilmente esquisitos unidos pelo mesmo empurrão. É aí que encontramos um elemento importantíssimo no desenvolvimento do filme: autoridade. Força e estabilidade se abraçam. O resultado é incrível, porque a quantidade de contextualizações que vão surgindo com o choque das situações é incontrolavelmente ágil e ininterrupto. Não é à toa que tal imensidão às vezes transpareça demais espontânea para quem assiste. 

O Novíssimo Testamento estuda a ótica das relações humanas nos dias atuais, os ecos do universo religioso, a densidade do tempo, a morte (ou a representação do fim de tudo) de maneira genial e absurdamente profunda, sendo um dos grandes méritos deste filme ser indiretamente humano. A comédia negra de Jaco Van Dormael termina sublime, uma verdadeira pérola cinematográfica. O Novíssimo Testamento também é tecnicamente exuberante, conta com um elenco bravamente talentoso (de Benoît Poelvoorde a Catherine Deneuve, com destaque à jovem protagonista Pili Groyne), certamente um filme único. Garantia de satisfação. 

O Novíssimo Testamento (Le Tout Nouveau Testament)
dir. Jaco Van Dormael -