domingo, 9 de outubro de 2016

Adeus, ANDRZEJ WAJDA (1926 - 2016)


36 filmes. Uma filmografia invejável. O mais respeitado dos cineastas poloneses. Andrzej Wajda, aquele que trouxe à vida obras lendárias como Cinzas e Diamantes ou O Homem de Ferro, faleceu hoje, para a tristeza de seus inúmeros admiradores e cinéfilos do mundo todo. Aquele mesmo homem que, com coragem e astúcia, desafiou a política de seu país usando o cinema como arma. O grande mestre Wajda vai fazer tanta falta... Aos 90 anos, o diretor veio a falecer em decorrência de insuficiência pulmonar. Idolatrado por muitos cinéfilos, Andrzej era considerado o maior diretor do cinema polonês, um ícone do cinema-revolução. Ele será homenageado na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que começa dia 20 desse mês, com retrospectiva de seus grandes trabalhos. Seu último filme foi Walesa. Vá em paz, querido Wajda. 

Crítica: "APENAS UM BEIJO" (2004) - ★★★★


A carreira do cineasta Ken Loach é bastante sólida. O homem, que é conhecido por filmes focados em críticas à sociedade britânica e temas de cunho socialista e trabalhista, vez ou outra (e muito raramente, digamos) foge dessa cartilha adentrando outros caminhos, mas ainda com um pé na vértice socialista que tanto demarca o seu estilo independente e simplista de fazer cinema.

É o caso de Apenas um Beijo, que é uma comédia romântica centrada em um casal de apaixonados: um paquistanês e uma irlandesa. O filme é perfeitamente sagaz na representação desse contraste cuja simbologia faz referência às diferenças culturais e como isso afeta a relação amorosa dos personagens principais, ainda mais quando o rapaz está comprometido com uma outra mulher, escolhida pela sua família tradicionalista. 

O interessante de Apenas um Beijo é que Ken consegue fazer com que o espectador compreenda e se sensibilize tanto com o casal quanto com a família do cara paquistanês, sem fazer muito esforço. O filme em si consegue traçar um impasse, provocando o público e o desafiando a interpretar a situação, a aceitar a ausência de julgamentos para o que acontece.

Se por um lado o filme consegue elaborar uma trama repleta de riqueza narrativa e caracterização genuína como ninguém mais consegue além de Loach, do outro o filme corre o risco de cansar o espectador repetidas vezes com a enfatização e reconstrução dos detalhes mais pífios. A conclusão irregular também pode causar estranhamento a quem não está familiarizado com o estilo de Ken Loach.

A narrativa disseca duas perspectivas, dois olhares totalmente diferentes e os engloba em um só – talvez essa seja a definição conclusiva mais propícia do filme, mas também vale considerar que o final aberto é uma mera questão de respeito e compreensão ao que ambos os lados estão defendendo, ou até mesmo apenas a representação de que não existe uma resolução ideal ou justificada para essa trama tão difusa – para nos fazer entender os pontos de vista e seus propósitos distintos.

Ken Loach e seu estilo cinematográfico dotado de inerência sempre centrado em riquíssimos retratos ideológicos, que por vezes representam não só o que acontece dentro do Reino Unido ou da Irlanda, mas que também acabam por se universalizar. Seus filmes retratam histórias cabíveis, construções humanistas de contrastes ideológicos e padronistas seja de épocas passadas (Ventos da Liberdade, Jimmy’s Hall, Terra e Liberdade) ou do presente (Pão e Rosas, Mundo Livre, A Parte dos Anjos) que, de uma forma ou de outra, fazem-se necessários, essenciais, importantes para refletir sobre a sociedade.

Ademais, a relevância de Apenas um Beijo, que até agora é seu melhor filme para mim, é inestimável. Ken Loach é um dos maiores cineastas. Seu cinema é a arma da reflexão, do conhecimento e da representação. 

Apenas um Beijo (Ae Fond Kiss.../Just a Kiss...)
dir. Ken Loach - 

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Crítica: "SEXY BEAST" (2001) - ★★★★



Irônica a minha relação com os filmes de Jonathan Glazer. Sexy Beast, seu primeiro longa-metragem, é o último que vi dos três trabalhos dele até a data, enquanto Sob a Pele, seu filme mais recente, foi o primeiro que vi. Mas o meu favorito é o do meio, Reencarnação. Sexy Beast, este aclamado thriller que lançou Glazer no cinema (antes ele era mais conhecido como diretor de clipes musicais) é um filme ótimo, bastante interessante, mas é o que eu menos curti dentre os outros dois já citados da filmografia dele.

Entretanto, o filme tem sua importância. Provavelmente é a mais “compreensível” das três produções de Glazer. Sexy Beast segue uma linha narrativa estrutural e abrange recursos mais usuais, convencionais, óbvios e, quanto a esse ponto, não é tão complicado de se entender caso comparado a Reencarnação ou Sob a Pele, seus dois filmes seguintes, que apresentam um certo grau de complexidade em suas narrativas (em especial o último, que chega a ser, em certos momentos, até surrealista e metafísico). O curioso é que esses dois trabalhos são justamente superiores a Sexy Beast.

É claro, o que esses três filmes têm em comum? A direção excepcional e exótica de Jonathan Glazer. Aliás, uma certa sequência de Sexy Beast, uma bem perto do fim, que intercala uma cena brutal de assassinato com uma outra cena um pouco estranha em uma sauna em Londres é tão bem editada e dirigida que a gente fica paralizado, chocado. Talvez seja a melhor cena do filme todo.

Ben Kingsley está fenomenal. Uma das performances mais notórias e excelentes da carreira do ator. Em Sexy Beast, Ben interpreta um cara da máfia que vai fazer visita para um mafioso aposentado na Espanha, a convite de um novo “trabalhinho sujo”. Por outro lado, o homem aposentado (interpretado eximiamente por Ray Winstone) não quer mais saber desses trabalhos, e quer definitivamente estar livre de tudo relacionado ao seu passado na máfia – o que, logicamente, enerva o personagem instável e explosivo de Kingsley – embora o desfecho aponte para uma outra direção;

Achei que gostaria mais de Sexy Beast. É um filme com várias cenas ótimas, mas que frequentemente me cansou e fadigou, embora tenha uma duração apressada de um pouco menos de 90 minutos (evidente surpresa para um filme de ação/máfia). Entre os méritos técnicos do longa, estão a edição preciosíssima, a fotografia saturada e energética e a trilha sonora imprescindível de Roque Baños.

Sexy Beast
dir. Jonathan Glazer - 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Crítica: "JULIETA" (2016) - ★★★★★


Almodóvar está de volta com mais um filme brilhante, daqueles de nos deixar ainda mais apaixonados pelo diretor e seu cinema fascinante. Julieta é um filme simplesmente sensacional, em todos os aspectos. Está longe de ser seu melhor filme, mas certamente permanece entre seus trabalhos mais respeitáveis e bonitos. Com autenticidade e firmeza, Almodóvar se reinventa e cria uma história excelente sobre os dramas de uma mulher de meia-idade frente a seu passado e sua relação com a filha distante. À sua maneira, Julieta é um filme original. Almodóvar trabalha seus personagens de forma delicada e passional, conferindo charme e beleza a um drama profundo sobre as marcas do passado.

A personagem do título, Julieta (interpretada por Adriana Ugarte na fase do passado e Emma Suaréz na fase do presente) é uma mulher amargurada, apesar de passiva, que toma coragem para escrever uma carta para a filha que não vê há muito tempo. Enquanto ela escreve a carta, somos redirecionados em flashbacks (um recurso que virou a marca registrada das narrativas de Pedro Almodóvar) aos dias passados de Julieta, como conheceu seu marido, sua relação com a mãe doente, a adolescência da filha, a amizade com a mãe de uma amiga e etc.

O relato é casual, e à medida em que passamos a acompanhar a jornada de Julieta, compreendemos seus dramas, suas angústias, seus medos e suas vontades. Almodóvar nos entrega um estudo digno e intimista dessa personagem que não dificilmente poderá ser identificada pelo espectador, que talvez já tenha passado pelos mesmos dramas ou enfrentado situações difíceis como ela. Ou seja, de uma forma ou de outra, Julieta pode ser visto como um filme universal. O espectador enxerga as dificuldades dessa personagem e se colocar no lugar dela, vivenciando a angústia e o peso de um passado fragmentado.

O filme ostenta uma beleza própria, algo bastante particular do estilo kitsch de Almodóvar. Afinal, todos os seus filmes são belos, seja no visual, seja na narrativa, seja nos personagens, seja na trilha sonora. No caso de Julieta, é um acerto em cheio. Trata-de se um filme belo, mas que também explora o lado obscuro e trágico das situações, e essa transição, que às vezes nem é muito aparente, é maravilhosa de se acompanhar.

O diretor de fotografia do filme é Jean-Claude Larrieu. Aliás, essa é a primeira vez que Larrieu trabalha com Almodóvar. Ele é famoso por ter trabalhado diversas vezes com a Isabel Coixet, também cineasta espanhola. A fotografia lindíssima de Julieta, inclusive, é uma das melhores coisas do filme. O visual acentuado, equilibrado, e embeleza as sequências dramáticas do longa. É um espetáculo de beleza e cores discreto e admirável.

A trilha, mais uma vez de Alberto Iglesias, é fantástica. E não é de hoje. Os filmes de Almodóvar sempre tiveram trilhas muito bonitas e intensas. O que seria de Fale com Ela, ou então o recente A Pele que Habito sem a trilha sonora sempre exuberante e estremecedora de Iglesias? Em Julieta, não foi diferente. A trilha é algo marcante e simbólico para a narrativa e a caracterização das cenas em si, e faz um belo par com a fotografia, igualmente deslumbrante.

As protagonistas Adriana e Emma estão em duas performances inesquecíveis. As atrizes estão ótimas. Almodóvar prova, mais uma vez, que é um dos melhores diretores de personagens femininas – se não for o melhor, é claro –. Só ele consegue entregar personagens mulheres tão fortes e distintas, e ao mesmo tempo fazer com que o público se sensibilize com ela e seus perrengues cotidianos.

Enfim, Julieta consegue ser um filme magistral, definitivamente um dos melhores desse mestre que é o Pedro, a cada filme nos emocionando e reforçando a certeza de que é um dos maiores gênios do cinema. Julieta é um retrato desconcertante, poético e sensível de uma mulher abalada, em busca de redenção. Muito bonito mesmo. 

Julieta
dir. Pedro Almodóvar - 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Crítica: "CAÇA-FANTASMAS" (2016) - ★★★


Desde quando foi anunciado que Paul Feig (diretor da comédia bem-sucedida Missão Madrinha de Casamento) estava trabalhando no remake feminino do clássico Os Caça-Fantasmas, houve burburinho e críticas. O filme estreou, lotou as salas. Fãs do filme original detonaram o spin-off. Por outro lado, o público jovem, que não teve o mesmo contato com a primeira produção, adorou. Entre elogios e xingamentos, Caça-Fantasmas teve uma recepção bastante alternativa, turbulenta. Afinal, é ou não é um bom filme?

Bem, não é uma obra-prima, isso é certo. Porém, é justo dizer que se trata de um bom filme. Afinal, temos aqui uma comédia com um elenco exclusivamente feminino, e uma história representativa para o que está acontecendo nos dias de hoje. O filme trabalha com questões envolvendo empoderamento feminino, sexismo, desigualdade entre gêneros, e por conta dessa síntese, que acaba enriquecendo seu propósito maior e acrescentando seriedade àquilo que de início era só uma brincadeira, devemos considerar e relevar a importância desse retrato.

Porém, há um ponto negativo nisso. O desrespeito ao filme original. Este Caça-Fantasmas seria um filme excelente se não desrespeitasse de forma tão descarada e extremista a produção original – que, frente à essa perspectiva, é tido como um filme machista, algo totalmente sem sentido, vista a falta de verdade nessa contextualização que leva em conta, centralmente, o fato do 1º filme ter como protagonistas quatro homens como os caça-fantasmas – e se isso fosse mesmo verídico, o filme ganharia mais credibilidade, mas ele o faz na intenção de se relevar, sem sucesso, e sem respeitar o primeiro.

Vejam só: a proposta é excepcional. Eu realmente adoro essa ideia das caça-fantasmas, e de todo o viés feminista por trás dessa nova aventura. Mas tinha que ser um spin-off? Tinha que ser tão desrespeitoso com o filme original, que é uma delícia de tão bom e engraçado?  Não poderia ser uma terceira sequência, com as novas personagens e os antigos caça-fantasmas? Seria muito bom. E não que Caça-Fantasmas seja um filme ruim, como eu já falei. É um filme agradável, adorável, mas que deixou a chance de ser grande passar. Não à toa, é claro.

Outros pontos negativos também devem ser ressaltados, como o personagem estereotipado do Chris Hemsworth (só porque a pessoa é “bonita” – uso de aspas em consideração da subjetividade da beleza – também é ignorante?), as piadinhas sem nexo, o desfecho sem clímax. Ah, e também mudaram a música-tema. Não gostei disso. A original é bem mais legal. "Who you gonna call? Ghostbusters!"

Mas nem tudo é tragédia. O filme tem coisas boas também. A começar pelo elenco, que está excepcional (Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon e a engraçadíssima Leslie Jones, confesso que virei fã dessa mulher). É realmente admirável. Os últimos 3 filmes de Paul Feig, incluindo Caça-Fantasmas, representam o empoderamento feminino de maneira digna, original, representativa e justíssima.

Ano passado, em A Espiã que Sabia de Menos, tínhamos McCarthy no papel de uma mulher que entra para o mundo da espionagem (clara sátira e crítica aos filmes de ação/espionagem com protagonistas masculinos). Em 2011, em Missão Madrinha de Casamento (o melhor filme dele, aliás), comédia feminina sobre amizade, vida adulta, maturidade e relações amorosas. Engraçadíssima e englobando diversas questões que acabam surgindo na vida de todo mundo com a chegada da idade adulta, as responsabilidades e etc.

Muita gente anda dizendo que Caça-Fantasmas é um filme extremista, porque mostra (supostamente, é claro) mulheres feministas pregando a superioridade contra os homens, o que acaba fazendo com que elas sejam uma nova versão do machista (no exemplo, a relação das caça-fantasmas com o secretário, que é tido como intelectualmente inferior, numa observação claramente ofensiva aos homens) e destrói o conceito de igualdade entre gêneros que deveria ser enfatizado. Mas, é claro, esse ponto é totalmente subjetivo, já que muita gente o considera um ponto positivo, ainda alegando que o “extremismo” das mulheres é um troco à ação machista dos homens, e que ainda prevalece na sociedade dos tempos de hoje. Ou seja, é algo bastante divisor e subjetivo, mas que merece ser refletido. Na minha opinião, é relevante para o que o filme está apontando. 

Olha, eu até que gostei. Tem certas horas que tem umas piadinhas sem graça e toscas, e no quesito humor Caça-Fantasmas perde mesmo para o primeiro filme, mas até que tem seu charme, e também comédia em certos momentos. Não me surpreende que tenha dividido tanta gente. Mas, enfim, Caça-Fantasmas tem a sua importância. A melhor coisa do filme é o elenco fantástico. Destaque, mais uma vez, para a Leslie Jones. 

Caça-Fantasmas (Ghostbusters)
dir. Paul Feig - ★★★

domingo, 2 de outubro de 2016

Top 10 – ANOS 60


1. Oito e Meio, de Federico Fellini
2. Psicose, de Alfred Hitchcock
3. Acossado, de Jean-Luc Godard
4. Terra em Transe, de Glauber Rocha
5. Persona, de Ingmar Bergman
6. O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski
7. 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick
8. Os Pássaros, de Alfred Hitchcock
9. Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder
10. 007 Contra Goldfinger, de Guy Hamilton

Crítica: "DEMÔNIO DE NEON" (2016) - ★★★★★


O primeiro filme de Nicolas Winding Refn que vi foi Apenas Deus Perdoa. Apesar de muita gente o considerar um de seus menores trabalhos, foi uma experiência inesquecível e estranhamente atordoante pra mim. Há algum tempo este ano, tive a oportunidade de conferir dois outros grandes filmes do diretor: o noir Drive (considerado pela maioria dos admiradores do cineasta e cinéfilos em geral seu melhor e mais famoso filme) e o espetacular Bronson, este um pouco menos popular que o anterior, embora excelentíssimo.

Demônio de Neon é o 4º filme dirigido por ele que eu vejo. É uma obra. Só perde para Drive, que continua sendo meu favorito supremo deste gênio cinematográfico. A cada filme dele que eu vejo, reforça-se a certeza de que ele é um dos cineastas mais importantes dessa geração. E Demônio de Neon é um de seus melhores, mais chocantes e bonitos filmes.

Estrelado pela beldade juvenil Elle Fanning, o filme narra a trajetória de uma jovem modelo do interior rumo ao sucesso e à fama como modelo na eterna cidade dos sonhos, Los Angeles. Enquanto todos ao seu redor estão atraídos e maravilhados pela sua imponderável beleza e inocência, aos poucos a jovem vai se dando conta dos perigos e das maldades que a cercam, e do lado negativo de ser bonita.  

Demônio de Neon é um olhar poderoso, obscuro, tentador, onírico, quase surrealista e ao mesmo tempo satírico, crítico, obsessivo sobre o impacto e a influência do mundo da moda nos dias de hoje e os padrões de beleza esculpidos pela sociedade e que transformaram a vida de várias jovens e mulheres em um verdadeiro terror.

A busca frenética e desenfreada pelo padrão ideal torna o sonho tão desejado em uma verdadeira caça animal – como o próprio desfecho do filme ironicamente sugere – de proporções desumanas e mortais. Neste mundo, mulheres são designadas como produtos da cobiça e do desejo, daquela que seria uma suposta “vida ideal” de uma sociedade atual. As jovens acabam se tornando vítimas das propostas sexuais e exigências carnais dessa convenção maligna.

Elle Fanning está absolutamente imperdível na pele da jovem Jesse. No entanto, a melhor do elenco é a Jena Malone, cuja atuação é sublime, assustadora, magistral, digna e eletrizante. Destaque para a aparição inesperada de Keanu Reeves e a rápida participação da Christina Hendricks, sem falar nas belíssimas Bella Heathcote e Abbey Lee, que estão extraordinárias.

Outra razão pela qual eu amei este filme é seu visual riquíssimo, sofisticado e sombrio. Demônio de Neon é um dos filmes mais visualmente impecáveis que eu vi esse ano, com certeza. Sua fotografia é uma coisa muito difícil de esquecer, deliciosa, cheia de energia, brilho e sangue. É uma coisa realmente linda, apesar de obscura. Natasha Braier é a diretora de fotografia de Demônio de Neon.

O filme resume-se a uma combinação de elementos visuais nada usuais, ainda que extremamente belos, que, além de embelezar, deixam a história mais cativante de se acompanhar e tenebrosa. É verdade que o estilo de Nicolas Winding Refn talvez afaste um pouco o público que não está acostumado (algumas sequências bizarras e polêmicas – como a cena de necrofilia ou a sequência final – talvez provoquem até repulsa), mas não há como negar que ele é, sem dúvida alguma, um gênio, e este é um filme brilhante.

Demônio de Neon é um filme forte, daqueles de deixar qualquer um boquiaberto, e por isso mesmo merece ser visto. É uma crítica multifacetada que ataca os abusos da indústria da moda e os padrões radicais impostos pela sociedade. As pessoas belas são as mais valorizadas, queridas, prestigiadas, cobiçadas. Mas nem tudo é o paraíso. A beleza tem seu lado ruim, como já foi descrito anteriormente.

A trilha sonora de Cliff Martinez, que conclui mais uma colaboração bem-sucedida com Winding Refn, arquiteta uma atmosfera de suspense e horror marcante, especial, arrasadora. O cara é um mestre das trilhas. A cada filme, uma trilha irresistível.

Estas são algumas dentre as outras mais razões para considerar Demônio de Neon não apenas um filme importante, mas também belo e essencial. É certamente uma obra, mais um exemplar fortalecido do cinema estiloso e potente de Nicolas Winding Refn. A beleza impera. “Beauty isn’t everything. It’s the only thing”.

Demônio de Neon (The Neon Demon)
dir. Nicolas Winding Refn -