quinta-feira, 30 de junho de 2016

Crítica: "SRA. HENDERSON APRESENTA" (2005) - ★★★


Já pelo trailer, Sra. Henderson Apresenta aparentava ser um filme visualmente rico e tecnicamente vislumbrante. E, de fato, é tudo o que se possa esperar de um filme com a direção de Stephen Frears, Judi Dench como principal e uma qualidade técnica invejável. A impressão que fica depois que a gente termina de ver Sra. Henderson Apresenta é que poderia ser um filme melhor, mesmo que seja tão empenhado em sê-lo. De qualquer modo, é basicamente impossível dizer que é um filme mal-feito. Irregular em determinados aspectos (o roteiro, por exemplo), mas nunca um filme mal-feito. O resultado final deixa a desejar um bocadinho, mas Sra. Henderson Apresenta acumula pontos pelo capricho, pelo talento dos intérpretes e pela direção formidável de Stephen Frears. 

E como a Judi Dench se encaixa bem em papel de viúva! É espantosamente gracioso. A atriz interpreta a personagem do título, Laura Henderson, uma recém-viúva que herda a grana do marido falecido e decide comprar um teatro em Londres, o "Moinho de Vento" (Windmill Theatre). A mulher coloca o local nas mãos de Vivian Van Damm (Bob Hoskins, numa atuação plausível), um produtor teatral que planeja uma nova atração e quer ter controle total do teatro independente das decisões dos outros, inclusive de Henderson, com quem tem vários desentendimentos. Não demora muito e o espetáculo de Van Damm fracassa, até que Laura dá a ideia de exibir mulheres nuas para ganhar mais público (e, logicamente, a ideia dela funciona plenamente).

Há pontos positivos e negativos em Sra. Henderson Apresenta. A proposta do filme em si é tanto confusa quanto astuta. O filme é mais uma atração visual e técnica com uma certa disposição teatral do que material cinematográfico. É um projeto decorado por falhas, mas com uma autenticidade notória. 

O filme recebeu duas merecidas indicações ao Oscar 2006 nas categorias de Melhor Atriz (Dench) e Melhor Figurino (Sandy Powell, uma das melhores profissionais do ramo -- os figurinos de O Aviador, A Jovem Rainha Vitória e dos recentes Carol e Cinderela são suas criações, magníficas). Também recebeu 3 nomeações ao Globo de Ouro em Melhor Filme e Atriz - Comédia ou Musical e Ator Coadjuvante e outras 4 ao BAFTA, em Atriz, Roteiro Original, Figurino e Trilha Sonora.  

Sra. Henderson Apresenta (Mrs Henderson Presents)
dir. Stephen Frears - 

PRIMEIRO SEMESTRE


top 20, OS MELHORES
(em ordem alfabética)

Anomalisa, de Charlie Kaufman & Duke Johnson

A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien

Ave, César!, de Joel & Ethan Coen

Boi Neon, de Gabriel Mascaro

A Bruxa, de Robert Eggers

Carol, de Todd Haynes

Certo Agora, Errado Antes, de Hong Sang-Soo

Cinco Graças, de Deniz Gamze Erguven

Conspiração e Poder, de James Vanderbilt

O Filho de Saul, de Laszlo Nemes

Fique Comigo, de Samuel Benchetrit

A Grande Aposta, de Adam McKay

Mais Forte que Bombas, de Joachim Trier

Ninguém Quer a Noite, de Isabel Coixet

Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino

O Regresso, de Alejandro González Iñárritu

Rua Cloverfield, 10, de Dan Trachtenberg

Spotlight: Segredos Revelados, de Tom McCarthy

Tangerine, de Sean Baker

Zootopia, de Bryon Howard, Rich Moore & Jared Bush

menção honrosa

Brooklyn, de John Crowley
O Cavaleiro de Copas, de Terrence Malick
Creed: Nascido para Lutar, de Ryan Coogler
O Quarto de Jack, de Lenny Abrahamson
Steve Jobs, de Danny Boyle

top 5, OS PIORES
(em ordem alfabética)

Cinquenta Tons de Preto, de Michael Tiddes

Especialista em Crise, de David Gordon Green

Um Homem Entre Gigantes, de Peter Landesman

A Senhora da Van, de Nicholas Hytner

X-Men: Apocalipse, de Bryan Singer

Bem, esse foi o meu 1º semestre de lançamentos. Vi poucas estreias (no total, 43). Para os curiosos de plantão, meu ranking está disponível no Letterboxd. Levem em consideração que neste primeiro semestre deixei de ver muitos e muitos filmes. É uma porrada de filmes, de verdade. Vou apressar o passo nesse 2º semestre e ver se consigo conferir os outros lançamentos. 

sábado, 25 de junho de 2016

AS 15 MELHORES CENAS DE FILMES DIRIGIDOS POR WOODY ALLEN


Que Woody Allen é um grande cineasta disso a gente não tem dúvida. Por vezes subestimado, e quase sempre genial, é raro encontrarmos um filme no mínimo fraco dirigido/escrito pelo homem. Mas que ele é uma figura cinematográfica importantíssima ninguém pode discordar. Desde que me entendo por cinéfilo, sou um fã adoidado do Woody, a ponto de considerá-lo meu diretor de cinema predileto. Estive pensando em fazer essa lista há uns dias. Bem, vamos parar de enrolação: aí vão as 15 melhores cenas da filmografia do Woody.

15. "A aparição de Joe Strombel" (Scoop: O Grande Furo)











14. "A lagosta" (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa)










13. "Amassos na chuva" (Match Point)










12. "Desamarrando as cordas" (Broadway Danny Rose)










11. "Paris fica mais bonita na chuva" (Meia Noite em Paris)










10. "O convite" (Vicky Cristina Barcelona)










9. "Tragédia no barco" (O Sonho de Cassandra)










8. "Eve perde o controle" (Interiores)










7. "Cena do metrô" (Bananas)











6. "Flagra" (Setembro)










5. "Sequência de abertura/Rhapsody in Blue" (Manhattan)











4. "Cena da praia" (Interiores)











3. "Dança na ponte" (Todos Dizem Eu Te Amo)












2. "Tom Baxter sai da tela" (A Rosa Púrpura do Cairo)











1. "Ponte do Brookyln" (Manhattan)

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Crítica: "E AÍ, MEU IRMÃO, CADÊ VOCÊ?" (2000) - ★★★★


Há quem diga que este é um dos melhores filmes dos irmãos Coen e outros que o apontem como o pior da dupla (particularmente, não vejo como esse filme poderia ser ruim de qualquer forma). Talvez seja porque este é um dos filmes mais subjetivos dos Coen. Não é como Onde os Fracos Não Tem Vez ou Fargo, que são frequentemente mencionados como os melhores filmes deles, e que não são tão difíceis ou esteticamente complexos, cinematograficamente falando, como E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, que pra mim é um ótimo filme. 

A comédia é uma livre adaptação do clássico da literatura grega "Odisseia", de Homero. Apesar de ter uma cópia do livro e um enorme interesse em conferi-lo, sequer conhecia a história. Os Coen, que de bobos não tem nada, usaram e abusaram de diversas referências ao livro e da trama, principalmente. O filme até pode ser considerado uma adaptação cristalizada do livro, com alterações em tempo, espaço, personagens e estrutura narrativa. E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? se passa no Mississipi na década de 30 e conta a aventura de três homens, fugitivos, Uylisses (George Clooney, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator em Filme - Comédia ou Musical em 2001, cujo personagem remete ao Ulisses de "Odisseia"), Pete (John Turturro) e Delmar (Tim Blake Nelson), que passam por poucas e boas após fugirem da prisão. Ulysses está à procura da mulher (Holly Hunter), que se casou com outro cara pensando que ele a abandonou (ou melhor -- "foi atropelado por um trem").

A trilha do filme foi lindamente composta por T-Bone Burnett, o que justifica a inclusão de tantas canções bacanas, algo raro de se ver num filme dos Coen, que "musicalizam" mais a jornada dos três fugitivos. Aliás, tocando no assunto, E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? tem até uma pinta de musical. O que me leva à questão: "como seria um musical dirigido pelos irmãos Coen"?

O clima debochado e às vezes bizarro do filme, já característicos do cinema dos Coen, reforçam a sátira e o humor descontrolado. George Clooney, quem tão raramente a gente vê em filmes de comédia, entrega uma performance incrivelmente hilária, potente, uma das melhores do ator. Destaque para o Turturro e o Tim Blake Nelson, em duas atuações ainda mais engraçadas e excelentes. A Hunter, que é uma atriz massa, aparece tão pouco tempo em tela que seu desempenho, ainda que seja cativante, é quase esquecível.

A fotografia é de Roger Deakins, fiel colaborador dos Coen, vislumbrante. A indicação ao Oscar em Fotografia foi merecidíssma. Mas, gente, pensem comigo, fotografia comandada por Roger Deakins vai sempre ser uma maravilha. Não tem erro -- é tiro e queda. Não há um filme cuja direção de fotografia leve Roger Deakins no crédito que não seja um estouro visual. E não foi diferente aqui com E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (gosto das cenas da reunião dos membros da Ku Klux Klan, a dos presos no cinema e a da "enchente milagrosa").

Enfim, ver um filme dos Coen, ainda mais um dos bons, é sempre muito prazeroso e reconfortante. Os caras sabem fazer cinema de verdade. E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? é um dos exemplares mais divertidos e interessantes da filmografia dessa dupla. Bem filmado, bem escrito, um elenco triunfal, uma fotografia de dar gosto, uma comissão técnica que "samba na cara das inimigas"... É um filmaço. Vejam!

E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?)
dir. Joel Coen & Ethan Coen - 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Crítica: "O SÉTIMO SELO" (1957) - ★★★★★


"Bergman anseiava pela possibilidade de o filme se tornar um fenômeno religioso... Mas, no final, ele era um grande entretenimento. O Sétimo Selo prende a sua atenção. Não é como fazer uma lição de casa.", Woody Allen, 2007 ("1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer")

É tanto filme pra comentar que eu nem sei por onde começar. Mas, vamos lá. Vi ontem esse que é uma dos mais obrigatórios filmes do mestre Bergman, o admirado O Sétimo Selo. Que filmão! E ainda é pouco chamá-lo de clássico. É uma obra completa, sem igual, definitivamente um marco cinematográfico. Bergman firma-se, mais uma vez, como o eterno poeta, ilusionista, filósofo do cinema. Sua perspicácia é comovente. 

Creio que não exista nem de longe um filme no mínimo comparável a O Sétimo Selo, inclusive dentro da filmografia do próprio Bergman, no que diz respeito a qualidade, profundidade e força fílmica. É único, não há nada igual. Talvez A Fonte da Donzela, que se passa no século XIV, possa remeter um pouco quanto à época, ainda que eu não tenha tido a chance de conferir ainda. E talvez tenham outros títulos, dos quais não me recordo agora, dada a vasta filmografia de Bergman e a temática religiosa tão propagada na mesma.

Trata-de se um filme extremamente delicado e poderoso. Bergman transforma cinema em monumento, contemplando a filosofia do tempo, do espírito e do espaço, nos maravilhando com imagens e sequências tão absolutas e remotas que chegam a ser oníricas, como a famosa cena do cavaleiro jogando xadrez contra a morte com sua vida como preço caso perca a partida, ou a cena final, da "dança macabra", extremamente inesquecível. Aliás, que ótima interpretação a de Bengt Ekerot no papel de Morte. A melhor do filme. Max von Sydow (o cavaleiro) e Nils Poppe (Jof, o ator) também estão excelentes.

A fotografia de Gunnar Fischer, que trabalhou com Bergman em muitos de seus primeiros filmes, como Juventude, o sensacional Monika e o Desejo, Sorrisos de uma Noite de Verão e Morangos Silvestres, combina bem contraste, realce e proporção. Algumas das melhores cenas do filme o são em virtude do magnífico trabalho de fotografia de Fischer, exímio a cada ângulo, acompanhando bem o clima distópico que o filme inspira, a profundeza dos detalhes, a riqueza técnica e a perspectiva filosófica da trama, bem como a intensidade das atuações. A câmera capta com perfeição as características da época, a escuridão e a atmosfera metafísica. É admirável.

O Sétimo Selo navega pela tenebrosidade e pela complexidade do questionamento, conferindo sagacidade e essência moral e estética à sua audaciosa proposta. O resultado é primoroso. Não há como negar que O Sétimo Selo é um filme incrível, espetacular. Isso é que é cinema de verdade. Bergman é um gênio. E O Sétimo Selo é um presentão.

O Sétimo Selo (The Seventh Seal)
dir. Ingmar Bergman - 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Crítica: "CASAMENTO GREGO 2" (2016) - ★★★


Desde quando o projeto foi anunciado, nutria grandes expectativas quanto a ele, mesmo já prevendo que não seria tão mágico e excepcional quanto o primeiro, a ótima comédia romântica Casamento Grego, filme que eu amo de coração e defendo ainda que seja odiado por muitos. A sequência, se deixa a desejar em certos quesitos, pelo menos de bem-humorada e entretedora tem de sobra. Casamento Grego 2 está longe de ser um Casamento Grego, mas não deixa de ser imensamente agradável e docemente nostálgico rever o elenco do primeiro filme catorze anos depois nos mesmos personagens. O reencontro dos Portokalos é divertidíssimo e promete contentar aos fãs. 

A filha de Toula e Ian, Paris, está no último ano do ensino médio, a um passo da formatura. Toula, como quase toda mãe, não sabe lidar com os anseios da fase da filha. A turbulência começa quando os pais de Toula, Gus e Maria, descobrem que não estão legalmente casados, o pontapé para uma série de confusões e trapalhadas na família.

Nia Vardalos se reinventa num roteiro que, apesar de não trazer nenhuma novidade, é caprichadamente bem-escrito e estruturado. Alguns clichês do primeiro filme permaneceram, o que não é nada de mais, levando em conta a exploração do roteiro. Digam o que quiser, mas eu gostei de Casamento Grego 2. É despretensioso, comicamente elegante, e cumpre seu dever como sequência. Não dá pra dizer não. Sem falar que eu sou mega fã do primeiro filme (eu já falei?), o que já torna as presepadas dos Portokalos neste segundo um imenso deleite.

Kirk Jones, o diretor de Casamento Grego 2, possui uma "pequena grande" experiência com o gênero comédia, tendo dirigido anteriormente A Fortuna de Ned (disponível na Netflix, se eu não me engano), Nancy McPhee - A Babá Encantada, Estão Todos Bem (indicado ao Globo de Ouro e co-escrito por Giuseppe Tornatore) e O Que Esperar Quando Você Está Esperando.

O elenco está magistral. Todos, sem tirar ninguém. Nia Vardalos desta vez assume como coadjuvante e o resto do elenco fica mais tempo em tela, oferecendo grande amplitude aos outros atores em performances digníssimas, como Lainie Kazan, Michael Constantine, Elena Kampouris e Andrea Martin, só pra dar exemplo.

Enfim, de longe Casamento Grego 2 fica entre as melhores comédias do ano. As piadas são criativas e energéticas. Impossível não rir. As performances histéricas e fora do controle intensificam o comportamento pastelão do filme. O roteiro é impecável. Não dá pra reclamar de nada. E a Nia Vardalos, mesmo depois de 14 anos desde Casamento Grego, continua com a mesma aparência. Que curioso.

Casamento Grego 2 (My Big Fat Greek Wedding 2)
dir. Kirk Jones - ★★★

terça-feira, 21 de junho de 2016

Crítica: "CINQUENTA TONS DE PRETO" (2016) - ★


Na melhor das expectativas, Cinquenta Tons de Preto seria um rápido entretenimento e nada mais que isso. Na melhor das esperanças (e se o caso fosse surpreender), esta seria uma sátira genial. Enfim, sátira o filme já é. Uma pena que ele passa bem, mas bem longe de ser genial, ou no mínimo bom. Era de se esperar: Cinquenta Tons de Preto é, francamente, uma porcaria. Se o objetivo era tirar sarro de Cinquenta Tons de Cinza, que também é outra grande porcaria, que o fizesse com estilo, ao menos. O caso vai além. Cinquenta Tons de Preto é pior do que o de Cinza

Os roteiristas do filme, Marlon Wayans (também protagonista da comédia, no papel de Christian Black, 'imitação' satírica de Christian Grey) e Rick Alvarez apostam em piadas sacanas vencidas para entreter o espectador, abusando de um cinismo cômico insuportável. Se há algum humor em Cinquenta Tons de Preto, é passageiro ou insustentável, e não vale um mísero centavo de um ingresso cinematográfico, tornando a sessão um baita desperdício de tempo e grana. O humor é, sobretudo, forçado, sem timing, vazio, pobre em valor fílmico. As brincadeiras passam dos limites. Chega a ser desnecessário tanto humor apelativo assim num só lugar (gags idiotas, referências banais, as piadinhas pavorosas com uma quantidade de palavrões absurdamente forçada e inútil, e por aí vai...). A estrutura técnica do filme também é um desastre, só pra constar. Acho que a única coisa que me deixou um pouco interessado no filme (um interesse bem passageiro, levando em conta que a cena em questão é uma merda) foi a referência a Whiplash, numa sequência horrível. O diretor do filme é Michael Tiddes, que já trabalhou ao lado de Marlon Wayans em outras duas sátiras, Inatividade Paranormal & sequência. Enfim, vou resumir pra vocês o filme numa frase: "ruim pra cacete". E uma recomendação pra quem ainda não assistiu: "não vejam". 

Cinquenta Tons de Preto (Fifty Shades of Black)
dir. Michael Tiddes -