segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Crítica: "ELLE" (2016) - ★★★★★


(alerta de spoiler)

Demorou, mas Paul Verhoeven finalmente voltou, dez anos após o espetacular A Espiã, com um filme ainda mais extraordinário que pode ser considerado a sua obra-prima máxima. Elle é um filme simplesmente genial, em todos os sentidos. A atuação estrondosa de Isabelle Huppert (uma das melhores, aliás, da carreira da lendária diva do cinema francês) aliada à direção meteórica de Verhoeven fazem de Elle um filme poderoso, essencialmente chocante e importante.

Elle começa com uma sequência um tanto desconfortável e gritante. Assim que os créditos iniciais terminam (acompanhados de uma melodia tão melancólica que chega a ser fúnebre), é possível ouvir uma série de gritos e gemidos pavorosos e estremecedores. Assim que essa inesperada e extenuante sinfonia de berros se finda, a figura de Isabelle Huppert, que no filme interpreta a personagem Michele Lèblanc, aparece estirada no chão, paralisada, acabou de ser estuprada por um sujeito de preto cujo rosto é velado, que abandona o local rapidamente após seu ato infame.

As cenas a seguir demarcam uma atitude conformista e meramente tolerável de Michele, que simplesmente reage de forma indiferente ao brutal estupro que acabara de sofrer. Naquela mesma cena da banheira, na qual ela encobre um rastro de sangue na espuma, fica bem clara essa posição da personagem, que provoca intriga e mistério em quem assiste.

Elle manipula o espectador até o último segundo. Estamos o tempo todo diante de uma situação repreensível que toma um rumo completamente alternativo do que provavelmente seria esperado para algo dessa magnitude. Elle se dedica a investigar de maneira audaciosa e detalhista a personalidade de uma personagem marcada pela crueldade.

O filme entrega um retrato digno, honesto, veemente dessa personagem apontando suas características mais sórdidas e insensatas, mas ao mesmo tempo a humaniza, fazendo com que o espectador se simpatize e sinta apreço por ela, compreenda a sua angústia, a culpa e a frieza. O riquíssimo estudo em torno de Michele Lèblanc é minucioso e sagaz, nada óbvio, que vem para abalar as nossas certezas.

São expostas a força e a fragilidade da mulher, e o efeito paranoico do recente evento “traumático” (ironicamente apontado pela própria personagem durante uma cena em que masturba o marido da melhor amiga) que sofreu. Aliás, a transparência, a indiferença diante de um ato tão repugnante e condenável diz muito sobre o lado sociopata e dominador dessa personagem que esbanja poder, charme e frieza.

Porém, o que realmente estremece a anti-heroína, ainda que não fique tão claro, é a associação tenebrosa entre o estupro e seu passado envolvendo uma tragédia cometida pelo seu pai, um terrível psicopata, acontecimento que é relembrado com amargura em vários momentos durante a trama. Uma mulher, inclusive, chega a reconhecer Michele em um restaurante e a humilha levando em consideração esse ponto (o país inteiro conhece Michele Lèblanc como "a filha do maníaco"). 

O fato da personagem ser a sócia de uma empresa que produz videogames faz alusão à violência que cerca seu mundo, seu caráter forte e autoritário (levando em conta que ela é uma mulher que comanda uma empresa cuja fabrica produtos predominantemente masculinos e que possui um grande número de funcionários homens), e a neutralidade da personagem justamente em relação à essa violência tão próxima dela e que acaba sendo retratado como o fator-chave de sua sociopatia.

A impiedade também se revela constantemente presente no terreno das relações familiares. Na maioria das cenas em que a mãe está ao seu lado, Michele a trata com arrogância e sarcasmo, e chega a debochar dela durante uma festa de Natal quando a mesma revela que vai se casar com um cara que não tem a metade da idade dela (amante da senhora), algo que a filha rejeita severa e escancaradamente. Essa cena do jantar, inclusive, é uma das pouquíssimas cenas engraçadas do filme. Quando ela morre, Michele não acredita e pede para que os médicos vejam se ela não está se fingindo.  

Assim que o espectador finalmente desvenda o mistério de quem é o estuprador, algo que iminentemente provoca surpresa e ao mesmo tempo excitação não só no público mas também em Michele. O desfecho abraça uma reviravolta eletrizante e arrasadora, quão astuta.

Inevitavelmente, Michele se torna naquele mesmo monstro que sempre amaldiçoou em seu pai, pelos traumas do passado, pelas feridas psicológicas, pela humilhação e pela culpa. A personagem chega a um ponto tão desesperador e agoniante que se torna a vítima de sua própria sociopatia, assim como todos ao seu redor. Não à toa, há uma impressão constante ao longo do filme de que Michele é quem atrai as tragédias que vão se concretizando após o estupro em seu círculo social.

O estuprador vira a presa de Michele. Um jogo de gato e rato, manipulação com consequências trágicas cruéis e explosivas. Se por um lado temos uma sociopata abalada psicologicamente e pressionada pelo passado instigante, do outro a representação da mulher moderna, que cada vez mais vem ganhando espaço, força, poder e igualdade na sociedade atual, mas que ainda tem de enfrentar um inimigo maior: a violência.

O foco do filme também se aproxima de um contexto potencialmente crítico e mais crível, de que a mulher dos tempos modernos (no filme, Michele) reage à violência de forma indiferente, devido à falta de segurança, proteção e atitude por parte das autoridades, e do universo gráfico agressivo e machista dos videogames que tanto influenciam os jovens dos dias de hoje a desrespeitar a figura feminina e a corromper a sua liberdade sexual.

Seja como metáfora, ou crítica, ou ainda sim como um estudo de personagem excepcionalmente bem-feito, Elle é um filme que merece ser ressaltado. Isabelle Huppert está em uma de suas melhores performances. A lenda máxima do cinema francês apresenta-se em plena forma aos 63 anos, esbanjando coragem, dedicação e força ao se entregar plenamente a uma personagem complicada de se atuar e repleta de detalhes, que acaba por ser um dos maiores desempenhos dessa estrela talentosíssima e que nunca se cansa de brilhar e se renovar a cada atuação, sempre magistral e elegantíssima.

A indicação ao Oscar já vem tarde. Vai ser uma baita mancada se não indicarem a maior e mais talentosa atriz do cinema francês (e possivelmente mundial) ao então dito reconhecimento máximo do cinema, ainda mais quando ela está numa performance tão celebrável e inesquecível como essa. Que ela merece isso nós sabemos há muito, muito tempo. E a querida Huppert nunca esteve tão próxima da estatueta antes. É a grande chance dela.

A fotografia de Stéphane Fontaine, que consegue tonalizar com perfeição a atmosfera obscura de suspense e tensão, é um mérito a ser frisado. A extasiante e palpitante trilha sonora de Anne Dudley cai como uma luva. Elle é adaptado do livro Oh..., de Phillipe Djian. O roteirista do filme é David Birke.

Enfim, Elle é tudo isso e mais. Um filme brilhante, uma obra-prima difícil de esquecer, um retrato perturbador de uma mulher afetada pela violência, pelo trauma e pelo horror. Uma crítica feroz à ciranda de relações familiares e às convenções da sociedade moderna. Tudo isso em 2 horas. Só uma dupla como Paul Verhoeven e Isabelle Huppert para conseguir um feito tão extraordinário como esse. O resultado é um filmão primoroso, que conquista tanto pelo aspecto inconvencional, desafiador e provocador de sua proposta vibrante quanto pelo caráter metafórico, crítico e psicológico de sua trama inteligentíssima. O melhor thriller do ano! 

Elle
dir. Paul Verhoeven - 

Crítica: "ELLE" (2016) - ★★★★★


(alerta de spoiler)

Demorou, mas Paul Verhoeven finalmente voltou, dez anos após o espetacular A Espiã, com um filme ainda mais extraordinário que pode ser considerado a sua obra-prima máxima. Elle é um filme simplesmente genial, em todos os sentidos. A atuação estrondosa de Isabelle Huppert (uma das melhores, aliás, da carreira da lendária diva do cinema francês) aliada à direção meteórica de Verhoeven fazem de Elle um filme poderoso, essencialmente impactante e importante, quão perverso e intimista.

Elle começa com uma sequência um tanto desconfortável e gritante. Assim que os créditos iniciais terminam (acompanhados de uma melodia tão melancólica que chega a ser fúnebre), é possível ouvir uma série de gritos e gemidos pavorosos e estremecedores. Assim que essa inesperada e extenuante sinfonia de berros se finda, a figura de Isabelle Huppert, que no filme interpreta a personagem Michele Lèblanc, aparece estirada no chão, paralisada, acabou de ser estuprada por um sujeito de preto cujo rosto é velado, que abandona o local rapidamente após seu ato infame.

As cenas a seguir demarcam uma atitude conformista e meramente tolerável de Michele, que simplesmente reage de forma indiferente ao brutal estupro que acabara de sofrer. Naquela mesma cena da banheira, na qual ela encobre um rastro de sangue na espuma, fica bem clara essa posição da personagem, que provoca intriga e mistério em quem assiste.

Elle manipula o espectador até o último segundo. Estamos o tempo todo diante de uma situação repreensível que toma um rumo completamente alternativo do que provavelmente seria esperado para algo dessa magnitude. Elle se dedica a investigar de maneira audaciosa e detalhista a personalidade de uma personagem marcada pela crueldade, ambígua, cheia de mistérios e segredos, um enigma a se decifrar. 

O filme entrega um retrato digno, honesto, veemente dessa personagem apontando suas características mais sórdidas e insensatas, mas ao mesmo tempo a humaniza, fazendo com que o espectador se simpatize e sinta apreço por ela, compreenda a sua angústia, a culpa e a frieza. O riquíssimo estudo em torno de Michele Lèblanc é minucioso e sagaz, nada óbvio, que vem para abalar as nossas certezas.

São expostas a força e a fragilidade da mulher, e o efeito paranoico do recente evento “traumático” (ironicamente apontado pela própria personagem durante uma cena em que masturba o marido da melhor amiga) que sofreu. Aliás, a transparência, a indiferença diante de um ato tão repugnante e condenável diz muito sobre o lado sociopata e dominador dessa personagem que esbanja poder, charme e frieza.

Porém, o que realmente estremece a anti-heroína, ainda que não fique tão claro, é a associação tenebrosa entre o estupro e seu passado envolvendo uma tragédia cometida pelo seu pai, um terrível psicopata, acontecimento que é relembrado com amargura em vários momentos durante a trama. Uma mulher, inclusive, chega a reconhecer Michele em um restaurante e a humilha levando em consideração esse ponto (o país inteiro conhece Michele Lèblanc como "a filha do maníaco"). 

O fato da personagem ser a sócia de uma empresa que produz videogames faz uma alusão à violência que cerca seu mundo, sua força e autoridade (ela, que é a patroa de uma empresa com um grande número de funcionários homens e que produz produtos direcionados ao público masculino) e a neutralidade da personagem justamente em relação à essa violência tão próxima dela e que acaba sendo retratado como o fator-chave de sua sociopatia, mas que, de certa maneira, não parece afetá-la diretamente. 

A impiedade também se revela constantemente presente no terreno das relações familiares. Na maioria das cenas em que a mãe está ao seu lado, Michele a trata com arrogância e sarcasmo, e chega a debochar dela durante uma festa de Natal quando a mesma revela que vai se casar com um cara que não tem a metade da idade dela (amante da senhora), algo que a filha rejeita severa e escancaradamente. Essa cena do jantar, inclusive, é uma das pouquíssimas cenas engraçadas do filme. Quando ela morre, Michele não acredita e pede para que os médicos vejam se ela não está se fingindo.  

Assim que o espectador finalmente desvenda o mistério de quem é o estuprador (uma sacada genial), algo que iminentemente provoca surpresa e ao mesmo tempo excitação não só no público mas também em Michele. O desfecho abraça uma reviravolta eletrizante e arrasadora, quão astuta.

Inevitavelmente, Michele se torna naquele mesmo monstro que sempre amaldiçoou em seu pai, pelos traumas do passado, pelas feridas psicológicas, pela humilhação e pela culpa. A personagem chega a um ponto tão desesperador e agoniante que se torna a vítima de sua própria sociopatia, assim como todos ao seu redor. Não à toa, há uma impressão constante ao longo do filme de que Michele é quem atrai as tragédias que vão se concretizando após o estupro em seu círculo social.

O estuprador vira a presa de Michele (metáfora feminista?). Um jogo de gato e rato, manipulação com consequências trágicas cruéis e explosivas. Se por um lado temos uma sociopata abalada psicologicamente e pressionada pelo passado instigante, do outro a representação da mulher moderna, que cada vez mais vem ganhando espaço, força, poder e igualdade na sociedade atual, mas que ainda tem de enfrentar um inimigo maior: a violência.

O foco do filme também se aproxima de um contexto potencialmente crítico e mais crível, de que a mulher dos tempos modernos (no filme, Michele) reage à violência de forma indiferente, devido à falta de segurança, proteção e atitude por parte das autoridades (dando a entender que toda essa violência se tornou uma coisa tão comum e frequente que as mulheres começaram a ignorar o peso desse trauma, entendem?), e do universo gráfico agressivo e machista dos videogames que tanto influenciam os jovens dos dias de hoje a desrespeitar a figura feminina e a corromper a sua liberdade sexual.

Seja como metáfora, ou crítica, ou ainda sim como um estudo de personagem excepcionalmente bem-feito, Elle é um filme que merece ser ressaltado. Isabelle Huppert está em uma de suas melhores performances. A lenda máxima do cinema francês apresenta-se em plena forma aos 63 anos, esbanjando coragem, dedicação e força ao se entregar plenamente a uma personagem complicada de se atuar e repleta de detalhes, que acaba por ser um dos maiores desempenhos dessa estrela talentosíssima e que nunca se cansa de brilhar e se renovar a cada atuação, sempre magistral e elegantíssima.

A indicação ao Oscar já vem tarde. Vai ser uma baita mancada se não indicarem a maior e mais talentosa atriz do cinema francês (e possivelmente mundial) ao então dito reconhecimento máximo do cinema, ainda mais quando ela está numa performance tão celebrável e inesquecível como essa. Que ela merece isso nós sabemos há muito, muito tempo. E a querida Huppert nunca esteve tão próxima da estatueta antes. É a grande chance dela. Sem falar que o filme foi selecionado pela França para concorrer a uma vaga em Melhor Filme Estrangeiro. Será que dessa vez o Verhoeven, que já dirigiu tantos sucessos nos EUA (de Instinto Selvagem a RoboCop) vai conseguir a sua primeira indicação esse ano, junto com a Isabelle? Que sonho! 

A fotografia de Stéphane Fontaine, que consegue tonalizar com perfeição a atmosfera obscura de suspense e tensão, é um mérito a ser frisado. A extasiante e palpitante trilha sonora de Anne Dudley cai como uma luva. Elle é adaptado do livro Oh..., de Phillipe Djian. O roteirista do filme é David Birke.

Enfim, Elle é tudo isso e mais. Um filme brilhante, uma obra-prima difícil de esquecer, um retrato perturbador de uma mulher afetada pela violência, pelo trauma e pelo horror. Uma crítica feroz à ciranda de relações familiares e às convenções da sociedade moderna. Tudo isso em 2 horas. Só uma dupla como Paul Verhoeven e Isabelle Huppert para conseguir um feito tão extraordinário como esse. O resultado é um filmão primoroso, que conquista tanto pelo aspecto inconvencional, desafiador e provocador de sua proposta vibrante quanto pelo caráter metafórico e crítico de sua trama inteligentíssima. O melhor thriller do ano! É um filme obrigatório. Assistam!

Elle estreia mês que vem aqui no Brasil, dia 17 de novembro, além de ser uma das atrações da 40ª Mostra Internacional de Cinema de SP, que começa daqui a 9 dias. Mas, pra quem não consegue segurar a ansiedade (assim como eu) o filme já saiu na internet, em uma cópia de qualidade bastante satisfatória. 

Elle
dir. Paul Verhoeven - 

domingo, 9 de outubro de 2016

Adeus, ANDRZEJ WAJDA (1926 - 2016)


36 filmes. Uma filmografia invejável. O mais respeitado dos cineastas poloneses. Andrzej Wajda, aquele que trouxe à vida obras lendárias como Cinzas e Diamantes ou O Homem de Ferro, faleceu hoje, para a tristeza de seus inúmeros admiradores e cinéfilos do mundo todo. Aquele mesmo homem que, com coragem e astúcia, desafiou a política de seu país usando o cinema como arma. O grande mestre Wajda vai fazer tanta falta... Aos 90 anos, o diretor veio a falecer em decorrência de insuficiência pulmonar. Idolatrado por muitos cinéfilos, Andrzej era considerado o maior diretor do cinema polonês, um ícone do cinema-revolução. Ele será homenageado na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que começa dia 20 desse mês, com retrospectiva de seus grandes trabalhos. Seu último filme foi Walesa. Vá em paz, querido Wajda. 

Crítica: "APENAS UM BEIJO" (2004) - ★★★★


A carreira do cineasta Ken Loach é bastante sólida. O homem, que é conhecido por filmes focados em críticas à sociedade britânica e temas de cunho socialista e trabalhista, vez ou outra (e muito raramente, digamos) foge dessa cartilha adentrando outros caminhos, mas ainda com um pé na vértice socialista que tanto demarca o seu estilo independente e simplista de fazer cinema.

É o caso de Apenas um Beijo, que é uma comédia romântica centrada em um casal de apaixonados: um paquistanês e uma irlandesa. O filme é perfeitamente sagaz na representação desse contraste cuja simbologia faz referência às diferenças culturais e como isso afeta a relação amorosa dos personagens principais, ainda mais quando o rapaz está comprometido com uma outra mulher, escolhida pela sua família tradicionalista. 

O interessante de Apenas um Beijo é que Ken consegue fazer com que o espectador compreenda e se sensibilize tanto com o casal quanto com a família do cara paquistanês, sem fazer muito esforço. O filme em si consegue traçar um impasse, provocando o público e o desafiando a interpretar a situação, a aceitar a ausência de julgamentos para o que acontece.

Se por um lado o filme consegue elaborar uma trama repleta de riqueza narrativa e caracterização genuína como ninguém mais consegue além de Loach, do outro o filme corre o risco de cansar o espectador repetidas vezes com a enfatização e reconstrução dos detalhes mais pífios. A conclusão irregular também pode causar estranhamento a quem não está familiarizado com o estilo de Ken Loach.

A narrativa disseca duas perspectivas, dois olhares totalmente diferentes e os engloba em um só – talvez essa seja a definição conclusiva mais propícia do filme, mas também vale considerar que o final aberto é uma mera questão de respeito e compreensão ao que ambos os lados estão defendendo, ou até mesmo apenas a representação de que não existe uma resolução ideal ou justificada para essa trama tão difusa – para nos fazer entender os pontos de vista e seus propósitos distintos.

Ken Loach e seu estilo cinematográfico dotado de inerência sempre centrado em riquíssimos retratos ideológicos, que por vezes representam não só o que acontece dentro do Reino Unido ou da Irlanda, mas que também acabam por se universalizar. Seus filmes retratam histórias cabíveis, construções humanistas de contrastes ideológicos e padronistas seja de épocas passadas (Ventos da Liberdade, Jimmy’s Hall, Terra e Liberdade) ou do presente (Pão e Rosas, Mundo Livre, A Parte dos Anjos) que, de uma forma ou de outra, fazem-se necessários, essenciais, importantes para refletir sobre a sociedade.

Ademais, a relevância de Apenas um Beijo, que até agora é seu melhor filme para mim, é inestimável. Ken Loach é um dos maiores cineastas. Seu cinema é a arma da reflexão, do conhecimento e da representação. 

Apenas um Beijo (Ae Fond Kiss.../Just a Kiss...)
dir. Ken Loach - 

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Crítica: "SEXY BEAST" (2001) - ★★★★



Irônica a minha relação com os filmes de Jonathan Glazer. Sexy Beast, seu primeiro longa-metragem, é o último que vi dos três trabalhos dele até a data, enquanto Sob a Pele, seu filme mais recente, foi o primeiro que vi. Mas o meu favorito é o do meio, Reencarnação. Sexy Beast, este aclamado thriller que lançou Glazer no cinema (antes ele era mais conhecido como diretor de clipes musicais) é um filme ótimo, bastante interessante, mas é o que eu menos curti dentre os outros dois já citados da filmografia dele.

Entretanto, o filme tem sua importância. Provavelmente é a mais “compreensível” das três produções de Glazer. Sexy Beast segue uma linha narrativa estrutural e abrange recursos mais usuais, convencionais, óbvios e, quanto a esse ponto, não é tão complicado de se entender caso comparado a Reencarnação ou Sob a Pele, seus dois filmes seguintes, que apresentam um certo grau de complexidade em suas narrativas (em especial o último, que chega a ser, em certos momentos, até surrealista e metafísico). O curioso é que esses dois trabalhos são justamente superiores a Sexy Beast.

É claro, o que esses três filmes têm em comum? A direção excepcional e exótica de Jonathan Glazer. Aliás, uma certa sequência de Sexy Beast, uma bem perto do fim, que intercala uma cena brutal de assassinato com uma outra cena um pouco estranha em uma sauna em Londres é tão bem editada e dirigida que a gente fica paralizado, chocado. Talvez seja a melhor cena do filme todo.

Ben Kingsley está fenomenal. Uma das performances mais notórias e excelentes da carreira do ator. Em Sexy Beast, Ben interpreta um cara da máfia que vai fazer visita para um mafioso aposentado na Espanha, a convite de um novo “trabalhinho sujo”. Por outro lado, o homem aposentado (interpretado eximiamente por Ray Winstone) não quer mais saber desses trabalhos, e quer definitivamente estar livre de tudo relacionado ao seu passado na máfia – o que, logicamente, enerva o personagem instável e explosivo de Kingsley – embora o desfecho aponte para uma outra direção;

Achei que gostaria mais de Sexy Beast. É um filme com várias cenas ótimas, mas que frequentemente me cansou e fadigou, embora tenha uma duração apressada de um pouco menos de 90 minutos (evidente surpresa para um filme de ação/máfia). Entre os méritos técnicos do longa, estão a edição preciosíssima, a fotografia saturada e energética e a trilha sonora imprescindível de Roque Baños.

Sexy Beast
dir. Jonathan Glazer - 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Crítica: "JULIETA" (2016) - ★★★★★


Almodóvar está de volta com mais um filme brilhante, daqueles de nos deixar ainda mais apaixonados pelo diretor e seu cinema fascinante. Julieta é um filme simplesmente sensacional, em todos os aspectos. Está longe de ser seu melhor filme, mas certamente permanece entre seus trabalhos mais respeitáveis e bonitos. Com autenticidade e firmeza, Almodóvar se reinventa e cria uma história excelente sobre os dramas de uma mulher de meia-idade frente a seu passado e sua relação com a filha distante. À sua maneira, Julieta é um filme original. Almodóvar trabalha seus personagens de forma delicada e passional, conferindo charme e beleza a um drama profundo sobre as marcas do passado.

A personagem do título, Julieta (interpretada por Adriana Ugarte na fase do passado e Emma Suaréz na fase do presente) é uma mulher amargurada, apesar de passiva, que toma coragem para escrever uma carta para a filha que não vê há muito tempo. Enquanto ela escreve a carta, somos redirecionados em flashbacks (um recurso que virou a marca registrada das narrativas de Pedro Almodóvar) aos dias passados de Julieta, como conheceu seu marido, sua relação com a mãe doente, a adolescência da filha, a amizade com a mãe de uma amiga e etc.

O relato é casual, e à medida em que passamos a acompanhar a jornada de Julieta, compreendemos seus dramas, suas angústias, seus medos e suas vontades. Almodóvar nos entrega um estudo digno e intimista dessa personagem que não dificilmente poderá ser identificada pelo espectador, que talvez já tenha passado pelos mesmos dramas ou enfrentado situações difíceis como ela. Ou seja, de uma forma ou de outra, Julieta pode ser visto como um filme universal. O espectador enxerga as dificuldades dessa personagem e se colocar no lugar dela, vivenciando a angústia e o peso de um passado fragmentado.

O filme ostenta uma beleza própria, algo bastante particular do estilo kitsch de Almodóvar. Afinal, todos os seus filmes são belos, seja no visual, seja na narrativa, seja nos personagens, seja na trilha sonora. No caso de Julieta, é um acerto em cheio. Trata-de se um filme belo, mas que também explora o lado obscuro e trágico das situações, e essa transição, que às vezes nem é muito aparente, é maravilhosa de se acompanhar.

O diretor de fotografia do filme é Jean-Claude Larrieu. Aliás, essa é a primeira vez que Larrieu trabalha com Almodóvar. Ele é famoso por ter trabalhado diversas vezes com a Isabel Coixet, também cineasta espanhola. A fotografia lindíssima de Julieta, inclusive, é uma das melhores coisas do filme. O visual acentuado, equilibrado, e embeleza as sequências dramáticas do longa. É um espetáculo de beleza e cores discreto e admirável.

A trilha, mais uma vez de Alberto Iglesias, é fantástica. E não é de hoje. Os filmes de Almodóvar sempre tiveram trilhas muito bonitas e intensas. O que seria de Fale com Ela, ou então o recente A Pele que Habito sem a trilha sonora sempre exuberante e estremecedora de Iglesias? Em Julieta, não foi diferente. A trilha é algo marcante e simbólico para a narrativa e a caracterização das cenas em si, e faz um belo par com a fotografia, igualmente deslumbrante.

As protagonistas Adriana e Emma estão em duas performances inesquecíveis. As atrizes estão ótimas. Almodóvar prova, mais uma vez, que é um dos melhores diretores de personagens femininas – se não for o melhor, é claro –. Só ele consegue entregar personagens mulheres tão fortes e distintas, e ao mesmo tempo fazer com que o público se sensibilize com ela e seus perrengues cotidianos.

Enfim, Julieta consegue ser um filme magistral, definitivamente um dos melhores desse mestre que é o Pedro, a cada filme nos emocionando e reforçando a certeza de que é um dos maiores gênios do cinema. Julieta é um retrato desconcertante, poético e sensível de uma mulher abalada, em busca de redenção. Muito bonito mesmo. 

Julieta
dir. Pedro Almodóvar - 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Crítica: "CAÇA-FANTASMAS" (2016) - ★★★


Desde quando foi anunciado que Paul Feig (diretor da comédia bem-sucedida Missão Madrinha de Casamento) estava trabalhando no remake feminino do clássico Os Caça-Fantasmas, houve burburinho e críticas. O filme estreou, lotou as salas. Fãs do filme original detonaram o spin-off. Por outro lado, o público jovem, que não teve o mesmo contato com a primeira produção, adorou. Entre elogios e xingamentos, Caça-Fantasmas teve uma recepção bastante alternativa, turbulenta. Afinal, é ou não é um bom filme?

Bem, não é uma obra-prima, isso é certo. Porém, é justo dizer que se trata de um bom filme. Afinal, temos aqui uma comédia com um elenco exclusivamente feminino, e uma história representativa para o que está acontecendo nos dias de hoje. O filme trabalha com questões envolvendo empoderamento feminino, sexismo, desigualdade entre gêneros, e por conta dessa síntese, que acaba enriquecendo seu propósito maior e acrescentando seriedade àquilo que de início era só uma brincadeira, devemos considerar e relevar a importância desse retrato.

Porém, há um ponto negativo nisso. O desrespeito ao filme original. Este Caça-Fantasmas seria um filme excelente se não desrespeitasse de forma tão descarada e extremista a produção original – que, frente à essa perspectiva, é tido como um filme machista, algo totalmente sem sentido, vista a falta de verdade nessa contextualização que leva em conta, centralmente, o fato do 1º filme ter como protagonistas quatro homens como os caça-fantasmas – e se isso fosse mesmo verídico, o filme ganharia mais credibilidade, mas ele o faz na intenção de se relevar, sem sucesso, e sem respeitar o primeiro.

Vejam só: a proposta é excepcional. Eu realmente adoro essa ideia das caça-fantasmas, e de todo o viés feminista por trás dessa nova aventura. Mas tinha que ser um spin-off? Tinha que ser tão desrespeitoso com o filme original, que é uma delícia de tão bom e engraçado?  Não poderia ser uma terceira sequência, com as novas personagens e os antigos caça-fantasmas? Seria muito bom. E não que Caça-Fantasmas seja um filme ruim, como eu já falei. É um filme agradável, adorável, mas que deixou a chance de ser grande passar. Não à toa, é claro.

Outros pontos negativos também devem ser ressaltados, como o personagem estereotipado do Chris Hemsworth (só porque a pessoa é “bonita” – uso de aspas em consideração da subjetividade da beleza – também é ignorante?), as piadinhas sem nexo, o desfecho sem clímax. Ah, e também mudaram a música-tema. Não gostei disso. A original é bem mais legal. "Who you gonna call? Ghostbusters!"

Mas nem tudo é tragédia. O filme tem coisas boas também. A começar pelo elenco, que está excepcional (Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon e a engraçadíssima Leslie Jones, confesso que virei fã dessa mulher). É realmente admirável. Os últimos 3 filmes de Paul Feig, incluindo Caça-Fantasmas, representam o empoderamento feminino de maneira digna, original, representativa e justíssima.

Ano passado, em A Espiã que Sabia de Menos, tínhamos McCarthy no papel de uma mulher que entra para o mundo da espionagem (clara sátira e crítica aos filmes de ação/espionagem com protagonistas masculinos). Em 2011, em Missão Madrinha de Casamento (o melhor filme dele, aliás), comédia feminina sobre amizade, vida adulta, maturidade e relações amorosas. Engraçadíssima e englobando diversas questões que acabam surgindo na vida de todo mundo com a chegada da idade adulta, as responsabilidades e etc.

Muita gente anda dizendo que Caça-Fantasmas é um filme extremista, porque mostra (supostamente, é claro) mulheres feministas pregando a superioridade contra os homens, o que acaba fazendo com que elas sejam uma nova versão do machista (no exemplo, a relação das caça-fantasmas com o secretário, que é tido como intelectualmente inferior, numa observação claramente ofensiva aos homens) e destrói o conceito de igualdade entre gêneros que deveria ser enfatizado. Mas, é claro, esse ponto é totalmente subjetivo, já que muita gente o considera um ponto positivo, ainda alegando que o “extremismo” das mulheres é um troco à ação machista dos homens, e que ainda prevalece na sociedade dos tempos de hoje. Ou seja, é algo bastante divisor e subjetivo, mas que merece ser refletido. Na minha opinião, é relevante para o que o filme está apontando. 

Olha, eu até que gostei. Tem certas horas que tem umas piadinhas sem graça e toscas, e no quesito humor Caça-Fantasmas perde mesmo para o primeiro filme, mas até que tem seu charme, e também comédia em certos momentos. Não me surpreende que tenha dividido tanta gente. Mas, enfim, Caça-Fantasmas tem a sua importância. A melhor coisa do filme é o elenco fantástico. Destaque, mais uma vez, para a Leslie Jones. 

Caça-Fantasmas (Ghostbusters)
dir. Paul Feig - ★★★