domingo, 8 de janeiro de 2017

LUMIÈRE DE OURO 2016


Bem, chegou o dia. Aqui estão eles, os melhores do ano, os mais irreverentes, os mais excepcionais de 2016. Foram eles que se esforçaram, deram o seu melhor, e se destacaram num dos anos cinematográficos mais badalados e recheados de obras dos últimos anos. Sem mais, aqui estão, os MELHORES DE 2016, nesta 3ª edição do Prêmio Anual do blog, o Lumière de Ouro.

MELHOR FILME


Carol

MELHOR DIRETOR


Paul Verhoeven – Elle

MELHOR ATRIZ


Isabelle Huppert
–––
Elle
O Que Está Por Vir

menção honrosa:
Sonia Braga – Aquarius

MELHOR ATOR


Jung Jae-Young
–––
Certo Agora, Errado Antes

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
EMPATE!


Jennifer Jason Leigh
–––
Os Oito Odiados

&

Tassadit Mandi
–––
Fique Comigo

MELHOR ATOR COADJUVANTE


John Goodman
–––
Rua Cloverfield, 10

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL


Certo Agora, Errado Antes
–––
escrito por Hong Sang-Soo

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO


Elle
–––
escrito por David Birke
adaptação do livro Oh..., de Phillipe Djian

MELHOR CENA


A VISITA DOS CIGANOS
em O Cavalo de Turim

menção honrosa:
NOITE FELIZ – Spotlight

MELHOR FILME – ANIMAÇÃO


Anomalisa

MELHOR CANÇÃO


"L'occasion"
canção original do filme O Ignorante

MELHOR TRILHA SONORA
EMPATE!


Os Oito Odiados – Ennio Morricone
Carol – Carter Burwell

MELHOR FOTOGRAFIA


Carol Ed Lachman

MELHOR EDIÇÃO


Aquarius Eduardo Serrano

MELHOR FIGURINO


A Assassina Wen-Ying Huang

menção honrosa:
Carol – Sandy Powell

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO


Carol Judy Becker

MELHOR ELENCO


Sieranevada

MELHOR SOM


O Cavalo de Turim

MELHOR MAQUIAGEM


Demônio de Neon

MELHORES EFEITOS VISUAIS


Doutor Estranho

MELHOR FILME – OFF CIRCUITO
NOVA CATEGORIA!


Docinho da América (a.k.a. American Honey)
LANÇADO DIRETAMENTE EM V.O.D.

menção honrosa:
Graduação (a.k.a. Bacalaureat)

MELHOR DIRETOR ESTREANTE
NOVA CATEGORIA!


Robert Eggers – A Bruxa

MELHOR FILME RUIM
NOVA CATEGORIA!


Casamento Grego 2
– O retorno da família Portokalos foi um dos eventos mais esperados de 2016. Há quem ache que o filme em si é uma completa baboseira, mas os fãs provavelmente se contentaram em rever todo o elenco original de Casamento Grego nessa sequência bem-humorada e pra lá de descontraída, que reinventa o charme e a compostura do primeiro em um cativante revival –

MELHOR FILME – TERROR
NOVA CATEGORIA!


A Bruxa
– Imagens que causam calafrios, sequências atordoantes que preenchem A Bruxa, o melhor filme de terror do ano. A performance estrondosa de Anya Taylor-Joy, uma das revelações primordiais de 2016, a direção mais que massiva e imensurável de Robert Eggers, entre outros transforam este longa numa verdadeira obra de arte. Um filme que prova a força daquilo que é visível e do impacto causado pelas ações daquilo que não pode ser visto. Uma obra do gênero. Inesquecível –

TOTAL DE PRÊMIOS

4 PRÊMIOS
Carol

3 PRÊMIOS
Elle

2 PRÊMIOS
Certo Agora, Errado Antes
O Cavalo de Turim
A Bruxa

1 PRÊMIO
Rua Cloverfield, 10 
Casamento Grego 2
Fique Comigo
Os Oito Odiados
Demônio de Neon
Docinho da América
Doutor Estranho
Sieranevada
A Assassina
Aquarius
Anomalisa
O Ignorante

MENÇÃO DE OURO
Os prêmios especiais

ESTRELINHA DE OURO
Isabelle Huppert
A personalidade cinematográfica mais influente do ano

FILME NACIONAL DO ANO
Aquarius
Orgulho nacional

PERSONAGEM DO ANO
Michèle Leblanc – Elle
Aquela personagem que a gente não consegue resistir de tão bem-feita

DOCUMENTÁRIO DO ANO
Visita ou Memórias e Confissões

MELHOR COMÉDIA
Certo Agora, Errado Antes
Rir não tem preço

MELHOR HISTÓRIA DE AMOR
Carol
No escurinho do cinema...

MELHOR ÉPICO
A Assassina
Outros tempos

CURTA-METRAGEM DO ANO
A Moça que Dançou com o Diabo
Pequeno grande filme

SURPRESA DO ANO
Invasão Zumbi
2º lugar: Tangerine
Aquele filme que a gente não esperava nada, mas foi um estouro de bom

O ESQUECIDO DO ANO
Do Que Vem Antes
Aquele filmaço que passou em branco nos cinemas e quase ninguém falou dele

O MIMADINHO DO ANO
Capitão Fantástico
Aquele filme que não é tão bom como todos falam

ARREBENTOU A BOCA DO BALÃO
Elle
Chegou chegando

PRÊMIO SEM VERGONHA NA CARA
Especialista em Crise
Esse não toma jeito mesmo

A DECEPÇÃO DO ANO
(carinhosamente apelidado de FILME MAIS BROXANTE DE 2016)
Joy – O Nome do Sucesso
2º lugar: Caça-Fantasmas
Aquele filme que você jurava ser bom, mas contrariou as expectativas

ATUAÇÃO MAIS SUBESTIMADA DO ANO
Cate Blanchett em Conspiração e Poder
Aquela atuação fantástica que deveria ser lembrada

FILME QUE MAIS DIVIDIU
O Regresso
2º lugar: Caça-Fantasmas
Todo mundo odiou e amou

QUERO O DINHEIRO DO INGRESSO DE VOLTA
Um Homem Entre Gigantes
O filme mais desprezível do ano

GUILTY PLEASURE DO ANO
Café Society

MELHOR SEQUÊNCIA
Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!
ex-aequo: Creed – Nascido para Lutar
 Mais uma rodada, por favor

PIOR SEQUÊNCIA
X-Men: Apocalipse
ex-aequo: Alice Através do Espelho
Depois dessa...

PRÊMIO IMITAÇÃO BARATA
Cinquenta Tons de Preto
O remake que não deu certo

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O RAIO VERDE (1986)


Meu ano cinéfilo começou com esta obra brilhante do francês Éric Rohmer, O Raio Verde. Clássico esquecido, o longa é um dos mais pungentes e deliciosamente verborrágicos que o mestre francês já concebeu. Trata-se do quinto filme da série "Comédias e Provérbios", antecedido por (em ordem cronológica) A Mulher do Aviador, Um Casamento Perfeito, Pauline na Praia Noites de Lua Cheia e sucedido por O Amigo da Minha AmigaO Raio Verde trata de maneira delicada e agridoce a história de uma mulher tentando engatar uma relação amorosa na badalada temporada de férias.

Interpretada por Marie Rivière (em uma atuação incrível, e que também assume o roteiro ao lado de Éric), a personagem Delphine confronta a fragilidade de suas emoções e expectativas ao embarcar em uma típica jornada de férias (um ritual dos franceses, que sempre buscam se refugiar em regiões litorâneas e paisagens distantes dos grandes centros) ao lado de amigos enquanto busca um novo amor, ainda que ela repetidamente fuja desses cenários quando se encontra muito triste, e "impossibilitada" de desfrutar das férias e do verão com a disposição "requerida" para essa época.

Insatisfeita e com tendência depressiva, Delphine não consegue ficar por muito tempo na praia, cercada de pessoas amorosamente afloradas e que estão sempre falando de amor. Neste contexto romântico, ela dá uma fugidinha para Paris, onde sofre com suas amarguras e desilusões. Supersticiosa do jeito que é, ela sempre fica encucada ao se deparar com cartas de baralho jogadas na rua, que para ela sempre estão ali por algum motivo. Interessante é que as cenas em que ela encontra esses objetos na rua – duas cenas curtinhas, eu creio – são bastante enigmáticas, embebidas de um certo suspense, que corta um pouco o clima de leveza que o longa naturalmente carrega, com uma musiquinha de fundo bastante mística, que dá a entender a intenção de causar um certo estranhamento.

Delphine exala timidez e introspecção, chegando a dar até a impressão de que é um pouco contida, ainda que apareça vez ou outra chorando, liberando suas emoções, alegando um desprezo nítido quanto à sua vida amorosa. Confinada à solidão, ela faz de tudo para livrar-se da mesma, mas sempre acaba se refugiando nesta quando a desilusão se aproxima. Por vezes decidida, e em outras confusa sobre si mesma, Delphine é um reflexo sagaz da irradia mesmerização e da baixa estima como um efeito colateral da falha pela busca amorosa e a insatisfação, talvez até crônica, em relação ao destino sentimental.

A nossa personagem luta para fugir das desilusões amorosas e, busca nesses sinais, nessas superstições, um sinal para ter esperança, para crer em um novo capítulo de sua vida amorosa e seguir com suas catividades. O raio verde do título, aliás, diz respeito a um raro fenômeno da natureza, em que, durante o fim do pôr-do-sol, a última luz refletida pela atmosfera é a cor verde, gerando um pequeno raio no horizonte, que dura milésimos de segundos. Referenciando um livro de Julio Verne, há uma crença popular na França que diz que a pessoa que testemunhar esse evento será capaz de ler os sentimentos alheios. É dito que Rohmer custou a tentar captar esse fenômeno através de suas lentes para compor uma cena do filme, entretanto sua missão findou-se sem sucesso. O jeito foi elaborar o fenômeno em laboratório. A cor verde, que está presente de forma bastante discreta em quase todas as cenas deste filme, seja no figurino dos atores ou no espaço em que as sequências se passam, representa a exaltação das expectativas em meio à conturbação amorosa. 8

Verborrágico, sutil e suave (como todo bom filme de Éric Rohmer), O Raio Verde é mais uma brilhante e perspicaz observação do diretor sobre o exasperado astral das relações humanas e da maneira que lidamos com as desilusões e fracassos em relação à interação romântica. Muito bom de verdade, recheado de momentos intrigantes e diálogos pontuais. Rohmer firma-se com mais uma crônica excepcional muito bem desenvolvida e que prova que ele é um mestre da narrativa. O controle diante da mise-en-scène sensivelmente magistral que ele assume é de deixar qualquer um boquiaberto. Um exemplar de qualidade da filmografia deste cineasta genial, merecidamente vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza em 1986.

O Raio Verde (Le Rayon Vert)
dir. Éric Rohmer
★★★★★

SINDICATO DOS ROTEIRISTAS – WGA 2017 – OS INDICADOS


Foram anunciados hoje os indicados ao prêmio do Sindicato dos Roteiristas, o Writers Guild of America Awards, decisivamente importante para as categorias de roteiro no Oscar. 

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

A Qualquer Custo – escrito por Taylor Sheridan
La La Land – escrito por Damien Chazelle
Loving – escrito por Jeff Nichols
Manchester à Beira-Mar – escrito por Kenneth Lonergan
Moonlight – escrito por Barry Jenkins/história de Tarell McCraney

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

A Chegada – escrito por Eric Heisserer
Deadpool – escrito por Rhett Reese & Paul Wernick
Fences – escrito por August Wilson
Estrelas Além do Tempo – escrito por Theodore Melfi & Allison Schroeder
Animais Noturnos – escrito por Tom Ford

MELHOR ROTEIRO – DOCUMENTÁRIO

Author: The JT LeRoy Story – escrito por Jeff Feuerzeig
Command and Control – escrito por Robert Kenner & Eric Schlosser/história de Brian Pearle & Kim Roberts
Zero Days – escrito por Alex Gibney

IMPRESSÕES

Deadpool aparece em Roteiro Adaptado e isso é muito surpreendente. Mas não é a primeira vez, já que em 2015 Guardiões da Galáxia também apareceu entre os indicados na mesma categoria – uma surpresa para uma produção do gênero –. Vale lembrar que Deadpool foi indicado também ao Globo de Ouro, nas categorias de Melhor Filme (Comédia ou Musical) e Melhor Ator (Ryan Reynolds). A aparição do filme no Oscar é bastante incerta, mas, nunca se sabe. 

Moonlight e Loving, indicados a Roteiro Original, são considerados roteiros adaptados pela Academia. Os dois longas estão fortes na corrida, e o primeiro está bastante privilegiado, mas o segundo pode não aparecer na categoria.

Manchester à Beira-Mar, La La Land e A Qualquer Custo marcam presença certeira no Oscar em Roteiro Original. Ainda tem The Lobster, inelegível ao prêmio dos sindicatos, que continua firme e forte e pode surpreender. Sobra uma quinta indicação desocupada, que pode ser tanto a de Jackie quanto a de 20th Century Women ou, ainda – com quase nenhuma probabilidade – Até o Último Homem. Sem falar nos "esquecidos" Capitão Fantástico, Florence – Quem É Essa Mulher?, Miss Sloane, O Apartamento e Rules Don't Apply. A categoria está muito bem definida até agora, mas com fraca competitividade e altíssima previsibilidade (o favorito – há seculos – é Manchester à Beira-Mar). 

– Em Roteiro Adaptado, outra categoria muito bem definida, mas com chances de surpresa, temos no páreo um favorito elevadíssimo, A Chegada, competindo pau-a-pau com Animais Noturnos, o confuso e complexo thriller de Tom Ford, e Fences, um dos favoritos em atuação, mas que continua em off nas outras categorias. Estrelas Além do Tempo é um forte concorrente. Lion, o ausente, também tem chances de indicação. Com Deadpool na briga, um clima de incerteza pinta no ar, e o filme, aos poucos, garante seu lugar na próxima edição da estatueta. 

sábado, 31 de dezembro de 2016

Crítica: "BOI NEON" (2015) - ★★★★


Estou devendo essa há muito tempo. Devia ter escrito quando vi o filme, há alguns meses. Enfim, minha recordação é bastante positiva. Boi Neon continua vívido na minha memória, suas cores, suas intenções, seu frescor característico e seu jeito requintado. Gabriel Mascaro, diretor que já havia se destacado com o longa de ficção Ventos de Agosto e o documentário Doméstica, consagra-se com um w

Os Melhores Filmes de 2016



30. A Grande Aposta, de Adam McKay



29. Creed – Nascido para Lutar, de Ryan Coogler


28. Sully – O Herói do Rio Hudson, de Clint Eastwood



27. É o Amor, de Paul Vecchiali


26. A Bruxa, de Robert Eggers


25. Romance à Francesa, de Emmanuel Mouret


24. Jovens, Loucos e Mais Rebeldes, de Richard Linklater


23. Boi Neon, de Gabriel Mascaro


22. Anomalisa, de Charlie Kaufman & Duke Johnson


21. Tangerine, de Sean S. Baker


20. Café Society, de Woody Allen


19. Demônio de Neon, de Nicolas Winding Refn


18. A Chegada, de Denis Villeneuve



17. Amor & Amizade, de Whit Stillman


16. Cemitério do Esplendor, de Apichatpong Weerasethakul


15. Invasão Zumbi, de Yeon Sang-Ho


14. Julieta, de Pedro Almodóvar


13. Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino


12. Depois da Tempestade, de Hirokazu Koreeda


11. Spotlight – Segredos Revelados, de Tom McCarthy


10. O Que Está Por Vir, de Mia Hansen-Løve


9. A Academia das Musas, de José Luis Guerín


8. A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien


7. Do Que Vem Antes, de Lav Diaz


6. O Cavalo de Turim, de Béla Tarr & Ágnes Hranitzky



5. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho



4. Certo Agora, Errado Antes, de Hong Sang-Soo


3. Sieranevada, de Cristi Puiu


2. Elle, de Paul Verhoeven


1. Carol, de Todd Haynes

HORS CONCOURS



Visita ou Memórias e Confissões, de Manoel de Oliveira

MENÇÕES HONROSAS

O Ignorante, de Paul Vecchiali
Ave, César!, de Joel & Ethan Coen
Fogo no Mar, de Gianfranco Rosi
Brooklyn, de John Crowley
Mais Forte que Bombas, de Joachim Trier
Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert
Rua Cloverfield, 10, de Dan Trachtenberg
Zootopia, de Bryon Howard, Rich Moore & Jared Bush
O Regresso, de Alejandro González Iñárritu
Cinco Graças, de Deniz Gamze Erguven
O Vale do Amor, de Guillaume Nicloux

IMPRESSÕES

Há um ano, despedia-me de 2015 com a esperança habitual de que o próximo ano viria recheado de coisas boas e sucesso, e também com uma forte sensação de que aquele ano teria sido bastante problemático mas, àquela altura, quem preveria que 2016 seria um ano ainda mais difícil e puxado? Tanto na minha vida pessoal quanto no mundo em si, abarcaram problemas, emblemas, situações de difícil resolução e uma série de turbulências que só tendem a enegrecer as minhas lembranças deste ano fatídico que, apesar de tudo, foi um ano cinematográfico excelente. E é justamente com os filmes que a gente aprende a superar as nossas dificuldades e a continuar vivendo independente do que for. E, num mundo cada vez mais marcado pelo ódio entre as pessoas, injustiça, maldade, sofrimento e tragédia, é preciso encontrar forças para seguir com a nossa vida e não cair na descrença de um mundo melhor, que mais e mais se distancia das nossas enfraquecidas esperanças.

Enfim, 2016 se despede da gente e, nesta passagem de fim de ano, renasce a esperança de que tudo vai ficar bem neste novo ano que nasce. Vamos parar com esse negativismo e trazer positivismo para 2017. É preciso ter esperança, apesar de tudo. E, como eu dizia, se 2016 foi um ano tão irregular no geral, pelo menos no cinema foi um grande ano, digamos. Estreias de primeira classe, dos diretores mais badalados e queridos, foram festejadas nesse ano cinematográfico que veio acompanhado de filmes maravilhosos – alguns deles os melhores que eu certamente já vi – e que enriquecem a nossa impressão deste panorama tão fortalecido. 

O blog ficou relativamente parado em 2016, e eu escrevi poucas críticas neste ano, comparado à frequência com a qual eu escrevia sobre filmes no ano passado. No entanto, essa ausência foi recompensada com a quantidade de filmes que eu conferi em 2016 – bati meu recorde – e também algumas revisões importantes, como Pulp Fiction – Tempos de Violência, Crimes e Pecados, Melancolia e Tudo Sobre Minha Mãe.

Mais uma vez, em 2016 o empoderamento feminino fez-se presente e estes tempos parecem indicar mais e mais que a mulherada está determinada a conquistar seus direitos e tornar o mundo um lugar mais igual para todos, mulheres e homens, negros e brancos, seja quem for. É a nova revolução feminina, minha gente! No cinema também foi desse mesmo jeito. Assim como tivemos grandes obras protagonizadas por mulheres, como Carol, Elle, Aquarius (a pérola nacional do ano), A Assassina e O Que Está Por Vir, várias diretoras potentes entraram na briga com filmes fantásticos, como Andrea Arnold e seu Docinho da América, Mia Hansen-Løve e O Que Está Por Vir, Kelly Reichardt e Certas Mulheres, Anna Muylaert e Mãe Só Há Uma, Uda Benyamina e Divinas, Ava DuVernay e A 13ª Emenda, entre outras.

O grande filme de 2016 pra mim foi Carol. Lindo do primeiro ao último frame. Jamais vou esquecer esse filmaço. Um dos mais belos retratos de uma história de amor que alguém poderia fazer. Logo em seguida, vem Elle, o retorno do diretor holandês Paul Verhoeven às telonas depois de exatos 10 anos desde A Espiã. O filme é protagonizado por Isabelle Huppert, a rainha do cinema francês e a melhor atriz do ano, que também estrelou o filosófico "takeaway" O Que Está Por Vir. Ela, como de costume, está excelente em ambas as produções. Este foi um ótimo ano para a bela Huppert que a cada ano se supera. Aliás, no Brasil cinco filmes estrelados por ela chegaram aos cinemas, incluindo O Vale do Amor, Fique Comigo e Mais Forte que Bombas. Um presentão, hein? 

Não consegui incluir o filme-testamento de Manoel de Oliveira, Visita ou Memórias e Confissões, na lista dos melhores do ano. Por isso, o filme ficou de fora, como HORS CONCOURS, porque não há como incluir um filme tão bonito, particular e único numa lista como essa. Obrigatório e belíssimo. 

Visto recentemente, O Cavalo de Turim foi uma das sessões mais desconcertantes e potentes do ano. O último filme do mestre húngaro Béla Tarr, co-dirigido por sua mulher, é um daqueles filmes únicos, tenebrosos e filosóficos. Aquarius, o melhor filme nacional do ano, fez bonito em Cannes, onde até rolou um protesto polêmico realizado pela equipe do longa, e tem Sonia Braga na atuação mais memorável da carreira dela.

Certo Agora, Errado Antes, possivelmente a obra-prima do cultuado diretor coreano Hong Sang-Soo – uma das descobertas cinematográficas mais abrasadoras de 2016 – chegou às telonas para mexer com o nosso consciente com brincadeiras envolvendo estrutura, trama e repetição. Simplesmente impagável.

Lembraremos de Do Que Vem Antes como o filme mais desafiador do ano. Seis horas de duração. Uma experiência extasiante. Outra obra excêntrica e riquíssima de Lav Diaz pintou no circuito no começo do ano. É uma prova inegável da talento do diretor filipino que a cada filme se revela um autêntico mestre no que faz. Seu cinema é quase um gênero.

A Assassina e sua beleza hipnótica, um épico gratificante e repleto de momentos atordoantes. A Academia das Musas veio para nos questionar sobre a existência, numa das sessões mais tematicamente complexas e intelectuais dos últimos anos. Spotlight – Segredos Revelados, o notório vencedor do Oscar de Melhor Filme deste ano, é uma antítese muito bem elaborada centrada no trabalho de jornalistas do The Boston Globe investigando casos de assédio infantil na Igreja Católica.

Sentimental sem ser piegas, Depois da Tempestade chegou de surpresa para emocionar o espectador com a história de um pai divorciado e sua relação com o filho. Do diretor japonês Hirokazu Koreeda, um exemplar de pura sensibilidade e afeto. O explosivo e sangrento Tarantino retornou também com uma subestimada obra verborrágica, o excelente Os Oito Odiados.

Julieta trouxe duas atrizes ímpares contracenando em uma história sobre passado, amores e laços de família, atenuadas pelo estilo magistral do sempre brega e único Pedro Almodóvar. Invasão Zumbi é aquele tipo de filme de zumbi que todo mundo vai gostar. Cemitério do Esplendor, o novo filme de Weerasethakul, é uma reflexão surreal sobre crenças.

Demônio de Neon, outra fita surreal de 2016, traz Elle Fanning na pele de uma jovem modelo bonitinha e inocente que se depara com um universo sombrio rumo ao estrelato, ao estilo Winding Refn de contar histórias. Vou lembrar de Café Society como um filme mágico, encantador, que me deixou comovido, nas nuvens. Woody Allen continua firme e forte com seu cinema. 

Tangerine, filmado em um iPhone, pegou muita gente de surpresa em 2016. Ninguém estava esperando que este iria ser um dos melhores filmes do ano. Anomalisa, a única animação da lista, foi uma experiência tão emotiva e sensível que eu chorei. Eu sei, pode parecer doideira, mas eu me emocionei. 

Boi Neon é o exemplar que projeta a força do cinema nacional e nos faz ter orgulho de ter Gabriel Mascaro no nosso time. O rapaz prometeu, e cumpriu. Entrou para o páreo dos gigantes. Dois anos depois de Boyhood, Richard Linklater voltou com o gostoso Jovens, Loucos e Mais Rebeldes, um dos destaques de 2016. Num ano de tantos e tantas falsianes, Amor & Amizade, uma trama de época recheada de intrigas, desencontros amorosos e uma personagem principal pra lá de falsiane num cenário de luxo e riquezas, figurinos estonteantes e penteados exacerbados, fez-se necessário (risos).

O claustrofóbico O Filho de Saul trouxe uma perspectiva cruel e desumana da realidade do Holocausto. A Bruxa, o melhor filme de terror do ano, é uma evolução radiante do cinema independente, e também conta com a participação de uma das revelações do ano, a talentosa Anya Taylor-Joy. É o Amor, o primeiro filme do diretor francês Paul Vecchiali que eu vejo, é um anti-romance formidável e embebido de estilo e sensação.

Enfim, 2016 foi um ano de altos e baixos. Na torcida para que 2017 venha repleto de melhorias em todos os sentidos. 

À todos, um próspero ano novo!
FELIZ 2017!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Crítica: "A GAROTA NO TREM" (2016) - ★★★


Depois da estreia bem-sucedida na direção com Histórias Cruzadas, um filme relativamente bom e com um elenco excepcional, Tate Taylor recebeu um enorme prestígio, e seus dois longas sucessores a cinebiografia (massacrada pela crítica norte-americana, praticamente tendo passado em branco nos cinemas) James Brown, e este A Garota no Trem eram tidos como trabalhos bastante promissores do cineasta, que obteve sucesso mediano em sua missão, digamos, já que ambos estes filmes tiveram recepção majoritariamente desfavorável por parte dos críticos e do público, os mesmos que tão avidamente elogiaram Histórias Cruzadas. Apesar dos esforços, o cinema de Taylor fixa-se num patamar mais raso, e embora ele mesmo preze por um material cinematográfico de qualidade, as tentativas não ultrapassam o limite da tentativa. É o caso de A Garota do Trem, que falha ao projetar competência dramática em uma trama defeituosa e cheia de furos que mixa drama e suspense.