domingo, 5 de fevereiro de 2017

LION: UMA JORNADA PARA CASA (2016)


Quem assistiu (ou assiste) a minissérie da Austrália Top of the Lake deve estar familiarizado com Garth Davis, que dirigiu alguns episódios para o trabalho em questão. O drama Lion: Uma Jornada para Casa, que recentemente abocanhou 6 indicações ao Oscar (inclusive em melhor filme) é o filme de estreia de Garth, e conquistou a todos com sua celebração amistosa e irregular da diversidade. Dos filmes da safra do Oscar deste ano, Lion é provavelmente o menos cotado dos títulos, muito embora não seja um filme ruim. Trata-se de um trabalho que efetua certos êxitos, mas no geral pode ser uma grande decepção se formos levar em conta seu potencial.

As acusações de que Lion copia (ou na maior parte do tempo o faz) Quem Quer Ser um Milionário? não são mentirosas não. Aliás, se tem uma coisa que me aborreceu em relação a este filme foram as referências baratas e copiosas ao filme de 2008. E, centralmente durante a primeira metade do filme, essas referências estão explícitas, nítidas ao extremo, e de uma maneira tão descarada que até dá a impressão de que o filme em si se vangloria em ser uma possível "sequência" de tão copiosas que algumas cenas são. É como se praticamente 50% do filme fosse imitação de Slumdog Millionaire. 

Curiosamente, a substância dramática funciona de uma forma bastante delicada, capaz até de levar os espectadores às lágrimas em certos momentos dramaticamente inspirados. Por isso, a sessão de Lion chega a ser emocionante, entre outras coisas, até um certo ponto. Lá no fundo, trata-se de um filme simples, que não se assume assim e decide cultuar suas pretensões, daí surgem tantas irregularidades dentro do filme em querer ser um espetáculo de dramas mal-resolvidos e tramas esculhambadas. Chega a decepcionar, porque há uma história interessante por trás das artimanhas falhas de Garth Davis em compor um melodrama. No final de tudo, a essência é artificial, e Lion revela-se insustentável, para a decepção de quem esperava algo a mais. 

Pra mim, é um filme que guarda sua importância, mesmo sendo tão irregular e, às vezes, exagerado. Hollywood tem demonstrado um enorme interesse em retratar as histórias ignoradas das sociedades de terceiro mundo. Só não o faz com a competência e o esmero que tal tarefa exige. As pretensões atropelam o significado por trás dessas histórias, o que esses filmes de fato querem dizer, expondo superficialidade e falta de compromisso. Um exemplo disso é Lion, que preserva suas intenções dignas, mas nada extrai delas. 

A história verídica por trás de Lion chega a surpreender a quem não estiver informado de que tudo relatado aconteceu de verdade. É coisa que só filme faz mesmo. Um homem, adotado por uma família australiana na infância, anseia em reencontrar o irmão e a mãe depois de ter sido separado deles, pelo destino, quando ainda era criança. E a ferramenta dele é o Google Earth, vejam só! O desfecho talvez até seja previsível, mas ainda sim surpreende por estender um laço tão frágil entre a realidade e o produto narrativo. O final feliz, aliás, é muito mais verdadeiro do que poderia se imaginar em um filme tão razoável, digamos. 

Pra mim é um filme ok. Nem mais e nem menos. Mas promete emocionar muita gente. Não acho que é tão grande assim a ponto de receber uma indicação ao Oscar de melhor filme, por exemplo. Dev Patel e Nicole Kidman mereceram suas indicações, mas estão longe de ganhar. Sunny Pawar, o ator mirim que interpreta Saroo, está realmente excelente. Ele sim merecia ser indicado, hein? Tinha gente que, até uns dias aí, estava apostando nele. Das indicações que eu já acho "extrapolar o limite" é em roteiro e fotografia. Aceitaria mais se o filme tivesse placado uma indicação em direção do que em fotografia. Eu, sinceramente, não consigo imaginar o filme ganhando em nenhuma das categorias às quais foi indicado. Trilha sonora, quem sabe? Pouco provável, mas, vai que.

Lion trabalha bem suas temáticas, apesar de falhar no retrato de seus personagens e na construção narrativa como um todo, mas que se sai consideravelmente bem por questões técnicas e, principalmente, pela força de um elenco imbatível. Superestimado, mas que tem seus valores. Não é o que eu chamaria de filme ideal, por um lado. E pra quem gosta de chorar no cinema, esse é o filme perfeito. 

Lion: Uma Jornada para Casa (Lion)
dir. Garth Davis
★★★

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (2016)



O tão aguardado retorno do australiano Mel Gibson às telas como diretor, o que não acontecia desde 2006, quando ele assumiu a direção do controverso Apocalypto, tem seus pontos negativos e positivos. Mel, que sempre foi um cineasta disposto a trabalhar com a ambição estética de seus projetos de maneira excessiva e sempre massiva, ressurge com um filme que muitos prometiam ser o seu retorno triunfal, mas a verdade é que a recepção que este teve não diverge muito de alguns trabalhos anteriores dele, como A Paixão de Cristo e Coração Valente, que dividiram opiniões. E é justamente essa recepção que excepcionalmente define o que Até o Último Homem nos transmite: um sentimento de divisão, de que este se trata de um filme que é tanto bom na sua realização como um todo como também escancara defeitos que comprometem seu valor cinematográfico. 

Por mais bem dirigido que seja, Até o Último Homem é um filme bastante irregular na sua composição. A concepção de sequências de guerra extremamente ambiciosas, bastante impressionantes, apesar de exporem a competência de Mel Gibson na direção e na regência de uma trupe técnica inspirada, acaba por delatar a superficialidade descompromissada de Mel com a contextualização de sua narrativa trôpega e a disposição de elementos cinematográficos com um certo rigor pretensioso. É a pretensão de engrandecer a si mesmo que se confunde com a dimensão de uma história verídica e que amarga o contexto narrativo de uma jornada de batalhas, sangue, explosão e perrengues dos mais eletrizantes.

Até o Último Homem cumpre seu papel enquanto relato de um grupo de homens enfrentando uma batalha tempestuosa no Japão, com foco no personagem de Andrew Garfield, um homem de uma cidadezinha do interior que, intrigado ao ver tantos homens indo lutar pela pátria, decide se unir a eles na guerra, mas não apoia o uso de armas. Dito fraco pelos colegas e brutalmente humilhado, o homem, que se dispõe a ajudar os feridos na batalha com seu conhecimento médico, transforma-se num verdadeiro herói, surpreendendo a quem não via coragem em sua pessoa.

O filme faz ligação com a temática do armamento militar e do porte legal de armamentos nos Estados Unidos, ao retratar de forma altruísta um "herói de guerra que nunca tocou em uma arma", mas o filme o faz não como uma lição de moral, e sim como um relato dos conceitos morais que contornam os ideais de uma guerra e de homens que se desafiam em nome da nação. Se Mel os dignifica, por outro lado torna unilateral essa representação da batalha. 

Há um cuidado imenso com os artifícios visuais, e com a estrutura técnica em si, que já vem do próprio estilo fílmico de Mel Gibson, um cineasta cujos filmes sempre capricham no que diz respeito à técnica. A performance louvável de Andrew Garfield ajuda o público a olhar para o seu personagem, um herói de verdade, com admiração e simpatia. Consagra-se também o ator Vince Vaughn, que andava meio desaparecido dos filmes, e que entrega neste filme a provável melhor atuação de toda a sua carreira, por fim subestimada. Outro destaque é a atriz Teresa Palmer, que interpreta o grande amor de Desmond (Garfield).

Enfim, é basicamente isso. Esse tão celebrado regresso de Mel Gibson à direção pode ser interpretado como uma experiência tecnicamente gratificante, mas que não se distancia muito do que ele faz de bom, que é dirigir. A contação de história aliada ao discernimento técnico produz um resultado satisfatório pra quem gosta do estilo Gibsoniano. Um regresso contemplável, mas que tem suas falhas...

Até o Último Homem (Hacksaw Ridge)
dir. Mel Gibson
★★★

sábado, 28 de janeiro de 2017


Em um dia tão triste para a cinefilia, nos deixam duas lendas do cinema, dois dos maiores intérpretes que já existiram: a francesa Emmanuelle Riva (estrela de Hiroshima, Mon AmourA Liberdade é Azul e Amor) e o britânico John Hurt (de O Homem Elefante, Expresso da Meia-Noite e Alien, o 8º Passageiro); Perdas lamentáveis, resplandece o legado de dois ícones maiores da sétima arte. 

R.I.P.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

UM LIMITE ENTRE NÓS (2016)


Para quem não está acostumado com o lado diretor de Denzel Washington, pode ser até surpreendente encontrar o nome do ator no crédito de direção, mas não é a primeira vez que ele se aventura como cineasta. Um Limite Entre Nós é o terceiro filme que Denzel dirige. Os anteriores foram O Grande Debate (indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático em 2008) e Voltando a Viver, ambos sucesso de crítica. Como bom ator que é, Washington dirige atores com excelência. É justamente esse o mérito maior deste filme: o elenco. Adaptação de uma peça aclamadíssima do dramaturgo August Wilson, Um Limite Entre Nós é um filme predominantemente teatral – o texto da peça "Fences" foi praticamente transcrito de sua forma original para o roteiro do filme, é tanto que o próprio August Wilson é creditado como roteirista do drama – e, embora suas intenções sejam claramente positivas, o resultado pode ser um pouco frustrante.

É claro, o elenco está em perfeita sintonia, as performances são preciosíssimas: Denzel Washington, que não atuava tão bem há tempos, se alia a Viola Davis (numa atuação estarrecedora, certamente uma das mais impressionantes que ela já nos presentou) e a dupla unida se transforma no alicerce dramático da trama pulsante de Um Limite Entre Nós. Inclusive os dois já interpretaram a peça juntos anteriormente, e isso explica porque a química flui tão bem entre os dois. A trama gira em torno de Troy Maxson, que trabalha como lixeiro em Pittsburgh, casado com Rose (Davis) e os constantes conflitos com o filho adolescente, Cory Maxson (Jovan Adepo, excelente). Também são destaques os atores Stephen McKinley Henderson (Jim Bono), Russell Hornsby (filho mais velho de Troy) e Mykelti Williamson (irmão de Troy). Engraçado é que o filme se dispõe a focar tão decididamente nesta relação turbulenta entre pai e filho mas visto por completo o retrato se estende superficialmente, e suas motivações não ficam tão claras, visíveis. 

O papel metafórico do filme dentro do cenário coletivo e ao contexto histórico e social dos negros na sociedade americana contrasta às superficialidades de uma narrativa que se dedica a redesenhar personagens de uma maneira tematicamente impressiva, porém acaba deixando de lado o posicionamento da síntese entre esse desenvolvimento dramático e o que o filme está querendo dizer. O emular da construção teatral eclipsa as virtudes cinematográficas que a produção evoca.

Há um cuidado maior com as atuações (e esse tratamento é devidamente excepcional em sua montagem) e a forma com que a história é descrita, mas chega-se a um ponto em que Um Limite Entre Nós deixa de ser cinematográfico, tornando-se produto do teatral sem compromisso com as intenções cinemáticas. A observação por sobre os personagens em si é pungente, mas o foco da trama acaba se desviando e invadindo perspectivas pouco críveis, convincentes, gerando um distanciamento entre as excelentes atuações (que enriquecem o retrato dos personagens, consequentemente) e o andamento da narrativa. As interpretações sozinhas são grandiosas, mas quando sobrepostas à trama soam demasiadamente desconexas. 

Há uma pretensão por parte de Denzel Washington em querer adaptar uma peça com uma vértice tão teatral, que depende tanto dos palcos para funcionar em seu formato mais pleno e causar um certo impacto. A dependência dessa compreensão teatral paira sobre Um Limite Entre Nós, e a realização perde um pouco de sentido com essa extensão. Neste caso, a tentativa de aliar teatro e cinema é falha, mas as intenções – como já foi dito – apontam que Denzel não fez por mal. 

Às vezes, chega a aborrecer certas cenas arrastadas, com diálogos monótonos e cansativos que provavelmente caso encenados no teatro, imagino eu, ganhariam mais potência. Um Limite Entre Nós vale mesmo pelos desempenhos impecáveis de Denzel e Viola, ambos indicados ao Oscar nas categorias de melhor ator e atriz coadjuvante. Lembrando que o filme também recebeu indicações em filme e roteiro adaptado. A balança pesa para o lado de Viola Davis, lembrando que ela já levou o Globo de Ouro pra casa recentemente, e está cotadíssima para receber o Oscar. E, caso ela o faça, será digno. Não acho que o filme seja totalmente merecedor da indicação de melhor filme, mas por um lado, em tempos tão frágeis e conturbados, a temática e a abordagem do longa propiciam e adicionam sentido à essa inclusão. 

Lá no fundo, Um Limite Entre Nós guarda sua importância, no retrato de personagens convivendo em uma época difícil para os negros nos Estados Unidos, em meio ao racismo e a ignorância de uma sociedade fragmentada. A direção de Denzel é estupenda, e a inspiração refletida em cada ator deriva nesta disposição incrível de personagens que é Um Limite Entre Nós.

Um Limite Entre Nós (Fences)
dir. Denzel Washington
★★★

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR (2016)


Bem, finalmente tomei coragem pra comentar sobre Moonlight: Sob a Luz do Luar. E quando digo que tomei coragem é porque trata-se de uma missão bastante delicada escrever sobre um filme tão tocante como este, que pegou muita gente de surpresa, já que no começo ninguém esperava que o filme fosse ser um tremendo sucesso. Este é o segundo longa-metragem do cineasta Barry Jenkins, também diretor do pouco conhecido Medicine for Melancholy. E sobre Moonlight, é um filme admiravelmente bem-feito. Todo reconhecimento é merecido. Não é de se estranhar que o filme tenha faturado inúmeros prêmios, e agora também está concorrendo ao Oscar em oito categorias, incluindo Melhor Filme e Diretor, tendo se tornado um dos principais concorrentes da premiação este ano.

Dividido em três atos, o filme acompanha a jornada de Chiron, um jovem negro, desde a sua infância turbulenta nos subúrbios da Flórida até a idade adulta, e a vivência do rapaz em meio à violência e ao submundo das drogas contrastando com a atmosfera de auto-conhecimento adentro a sexualidade. É um filme bonito, e ao mesmo tempo carregado de uma melancolia desoladora. Aliás, melancolia é uma palavra que define bem o filme Moonlight, que reflete sobre os sentimentos e as relações de uma maneira belíssima. 

Sensibilidade é o que se encontra a todo instante em Moonlight. O elenco está excepcional. Performances dignas, estarrecedoras, que confirmam a competência da direção de Barry Jenkins e os talentos reunidos neste magistral grupo de atores. Naomie Harris, intérprete que está presente em todas as três fases do longa, entrega uma interpretação autêntica, daquelas de impressionar mesmo. Mahershala Ali, cuja performance foi elogiadíssima, está entre os destaques deste drama irretocável. Janelle Monaé, André Holland e os iniciantes Jharrel Jerome, Alex R. Hibbert (Chiron fase "little") e Ashton Sanders (Chiron fase adolescente) também estão excelentes.

Parcialmente, o filme é sustentado pelos desempenhos marcantes de cada um desses atores, que dão o melhor de si para tornar completa a imaginação dos personagens descritos na trama. Moonlight é uma coleção de sequências avassaladoras enfeitadas por uma fotografia desnorteante e demarcadas pela trilha sonora excepcional, que arquiteta uma atmosfera sinfônica incrivelmente sublime e rítmica. Até Caetano Veloso toca em uma determinada cena do filme, aliás.

Há cenas essencialmente importantes no filme, como a cena dos garotos na praia (provavelmente a melhor cena do filme, nas questões de ser tanto belamente fotografada quanto bem dirigida), o diálogo do reencontro de Chiron e Kevin, Juan ensinando Chiron a nadar, entre várias outras. Por ser tanto impressionante na sua abordagem estética repleta de sensibilidade quanto muito bem retratado em sua narrativa versátil, o filme é um dos exemplares mais ricos e dignos do cinema independente norte-americano recente, e merece ser lembrado dessa forma. Jenkins é um nome promissor e integra o naipe dos gigantes. 

Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight)
dir. Barry Jenkins
★★★★★

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

MANCHESTER À BEIRA-MAR (2016)


É uma pena que Kenneth Lonergan faça filmes de tempos em tempos, pois eles são tão excelentes. E a prova disso pode ser encontrada em sua filmografia, curta, porém sucessiva, completada por este seu novo trabalho, um exemplar estonteante de controle narrativo e dramático, uma verdadeira obra deste diretor/roteirista tão celebrado. Anteriormente, ele dirigiu o belíssimo Margaret, um drama intenso e marcante, e também Conte Comigo, sua estreia na direção. Estes três títulos conversam entre si por abordar de maneira pungente e honesta o impacto de conflitos e tragédias na vida das pessoas, e é essa abordagem que torna esses trabalhos tão universais. 

A premissa de Lonergan foca em pessoas comuns, gente como a gente, e adentra suas particularidades enquanto também explora o que está acontecendo ao redor dessas pessoas e como se instala uma conexão desproporcional entre a gente e o que nos cerca com uma dimensão devastadora, realçada por um roteiro genial sempre acompanhado da mise-en-scene riquíssima, nunca exagerada, no ponto certo.

Em Manchester à Beira-Mar, Casey Affleck (na melhor performance de sua carreira) vive um zelador de Quincy que, certo dia, recebe a notícia de que seu irmão faleceu. Ele se desloca até a cidade de Manchester, onde residia, para encontrar a família e acertar os pormenores do que vem a seguir. A surpresa do personagem é quando lhe é informado que o irmão desejava que ele cuidasse de seu filho adolescente após sua morte, uma vez que ele já sofria de um mal cardíaco e tinha pouco tempo de vida. Indisposto a executar tal tarefa, o homem duvida calado enquanto segue cuidando do sobrinho, e ao mesmo tempo é atormentado por um passado enegrecido e turvo que surge à tona. 

Lonergan costura personagens humanos, afetivos, o que os faz mais palatáveis frente ao espectador, e ao mesmo tempo lhes provém uma certa complexidade, distinta, que pertence a seu formato em compreensão e construção. O comportamento auto-destrutivo de um homem que não consegue lidar com as perdas e as circunstâncias de um destino fatídico, um jovem no auge da adolescência provocado por seus instintos e atormentado por um evento recente e suas consequências emocionais. Um passado e um futuro. Uma história que aconteceu. E o que poderia ter acontecido. 

O foco é Lee, o personagem de Casey Affleck, um homem cercado de tragédias pessoais e que não consegue se conciliar devido aos traumas e ao sentimento de culpa por um capítulo impossível de deixar pra trás. Através desses sentimentos, evoca-se um clima de aproximação e ao mesmo tempo distanciamento, enquanto os personagens interagem entre si, uns tentando superar e outros tentando esquecer. 

O elenco está excepcional. Lucas Hedges, uma revelação impecável, e Michelle Williams, que há tempos não entregava uma performance tão inspirada e arrasadora, estão fascinantes. Affleck comanda esse elenco com maestria e uma firmeza irrevogável. Ele exerce seu personagen com punhos de ferro, e o encontra dentro de si mesmo, tornando-o um reflexo de suas próprias evocações e imitações, mas com um toque de compreensão e afeto por este, tornando a interpretação verdadeira e impactante. É o personagem compactuando um contraste com as intenções e capacidades do ator, que encarna-o com vida e dedicação. 

A trilha sonora radiante sela momentos emocionantes desta trama dramática sobre amor (e a falta de amor), família, despedida e a humanidade dos nossos sentimentos. Aliás, o filme é um dos favoritos ao Oscar. E é merecedor de prêmios, especialmente o elenco fabuloso e Kenneth Lonergan, o cara genial por trás dessa história belíssima e triste.

Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea)
dir. Kenneth Lonergan
★★★★★

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES (2016)


O filme mais comentado da temporada tem mil e um motivos para sê-lo. A magia do velho universo hollywoodiano reencarnada em um musical delicioso e nostálgico repleto de referências marcantes e coreografias desconcertantes. Damien Chazelle, o diretor-revelação de “Whiplash”, retorna às telas com mais um trabalho muito bem executado, em todos os sentidos. 

Trata-se de “La La Land”, a doce ode ao cinema clássico que revisita musicais que marcaram época e fórmulas irretocáveis de um gênero que, outrora tão popular e inovador, raramente traz algo de interessante nos tempos atuais, onde muitos exemplares comparam-se a reciclagens de clichês inflados e copiosos. Não é todo dia que a gente vê um filme que consegue reinventar e ao mesmo tempo se apoiar na nostalgia, e recriar um estilo – sem copiar. Chazelle prova que há homenagem, balanço e autenticidade em “La La Land”, mas também faz questão de incluir neste filme que a cada frame pinta nostalgia algo propriamente particular da filmografia do cineasta: o jazz, que já havia sido retratado em "Whiplash" e o longa de estreia de Chazelle, o pouco conhecido "Guy and Madeline on a Park Bench". E a conexão entre os elementos é intensa e viva, elaborando um contato bastante energético entre cada partícula deste musical. 

O espetáculo de cores, danças, canções melancólicas e que cheiram a amor expõem a influência do lendário diretor francês Jacques Demy neste musical, e é possível denotar a cada sequência um certo frescor que remete à linha de Demy e seu cinema encantador e cheio de vida que deu à luz alguns dos maiores musicais de todos os tempos, vá lá: os suntuosos “Os Guarda-Chuvas do Amor” e “Duas Garotas Românticas”. 

A atuação comovente de Emma Stone na pele de uma atriz aspirante que nunca consegue um papel é bastante lírica, e muitas das cenas protagonizadas por ela são pungentes e enfeitadas com graça. Risonha que só ela, Emma consegue compor uma personagem crível e imensurável, que esconde por trás da simpatia a angústia dos fracassos (algo que durante a segunda metade do filme fica mais visível, quando a resolução dramática se aproxima), e ela encontra no cinema uma razão para continuar perseguindo seus sonhos e a seguir vivendo, como muitos de nós do outro lado da tela.  Assim como essa sonhadora, a gente se identifica com o cinema, com personagens que sonham e que nunca desistem, mesmo quando não é fácil.

O par romântico de Emma, Ryan Gosling (na melhor performance de sua carreira desde “A Garota Ideal”) interpreta um pianista que tem o sonho de abrir um clube, mas que não consegue concretizar suas ideias. Ao entrar em uma banda, ele faz sucesso, mesmo que não seja o que ele queira da vida, e isso desaponta um pouco a namorada, e involumentariamente gera-se uma certa distância. [alerta de spoiler] O final é essencialmente triste. O contraste entre os sonhos realizados e a realidade em si de um sonho de amor acabado encontra uma contraposição melancólica e emocionante nos minutos finais de “La La Land”, quando vemos dois personagens que tanto lutaram para agarrar seus sonhos, e deixaram um amor ir embora, ainda que este ressurja amargamente na troca de olhares triunfal entre Mia e Sebastian, o casal dos sonhos, na eterna cidade dos sonhos. 

Muita gente reclama de que o filme traz uma perspectiva mais limpa e decente da cidade de Los Angeles, lugar em que todos os sonhos são depositados e que tudo parece ser tão mágico e perfeito, o lar do cinema americano. Provavelmente, mas não necessariamente, há um retrato desonesto, digamos, de L.A., mas um retrato musicalizado de uma cidade imaginada como o “paraíso cinematográfico”. É a forma como os personagens desta trama a veem. Talvez seja um pouco inconvencional, mas faz referência à imaginação dos musicais passados, e essa ligação é totalmente crível e favorável ao que o filme defende, e sua relação com as referências que expõe torna essa abordagem bastante sólida além das intenções da história em falar desse amor em particular e como ele é afetado pelos sonhos, seja de forma positiva ou negativa.

“La La Land” é sobre cinema, sonho, amor e música – e a relação entre os quatro – e também mais intimamente sobre a força do cinema e da arte sobre o ser humano, e como nosso imaginário busca nos filmes, nas músicas e nos amores (porque amor também é uma arte) a ambição, os sonhos, a vida. Cada cena é recheada de paixão e ritmo. Chazelle restaura o charme dos musicais clássicos e o enquadra em seu filme tão atual, mas também tão nostálgico, tão ligado ao passado de tantas maneiras, seja na história da jovem mocinha sonhadora que quer aparecer nos filmes, retratada em diversos filmes de várias formas desde o cinema mudo, até a mise-en-scene calculada e vibrante de Damien Chazelle, que se preocupa em mesclar o moderno ao antiquado da maneira mais eclética possível – e ele, à seu modo, o faz –.

Delicioso é ver um filme e poder sonhar – seja com o amor do casal protagonista ou com a concretização dos nossos desejos – e encontrar uma pérola com corpo de 2016 e alma da década de 50. “La La Land” é primoroso, cheio de glamour, rico em suas propostas, bonito na fotografia inspirada de Linus Sandgren, divertido nas letras e músicas de Justin Hurwitz e maravilhoso como um todo. Simplesmente maravilhoso!

La La Land – Cantando Estações (La La Land)
dir. Damien Chazelle
★★★★