sábado, 16 de janeiro de 2016

Crítica: "A GRANDE APOSTA" (2015) - ★★★★


Eu simplesmente adoro essa faixa de tempo entre janeiro e fevereiro, de todos os anos. Assistir e acompanhar o percurso dos indicados ao Oscar nas outras premiações e na própria corrida é muito divertido. Fazer palpites, observar a opinião alheia sobre os concorrentes, as incertezas, a torcida, os filmes bons (e suas surpresas) e os filmes ruins (e também suas surpresas). É uma época tão inspiradora, digamos. Apesar das minhas férias estarem quase próximas do fim (faltam aproximadamente 12 dias para eu voltar à ativa), não me desanimo diante da rapidez do período, até porque dentro dele costumo oscilar e ficar impaciente, e em certas vezes sendo capaz até mesmo de apoiar essa agilidade. E, como dizem por aí, o ano só começa depois do Carnaval. Pelo menos o primeiro bimestre lá na escola é bem lento e só vai se intensificando lá pro fim de março, com a chegada das avaliações mensais, o fechamento das notas e toda a bagunça que vem junto com isso. E vou mudar as coisas um pouco em 2016. Não falo materialmente ou em desempenho (que vem como coadjuvantes) mas sim do cotidiano em si e também da minha situação financeira. Vou tentar economizar o máximo que eu puder nesse ano só pra pagar algumas necessidades básicas e nada além do que isso. Primeiro se começa de baixo e depois vamos subindo. Mas eu necessito urgentemente mudar um pouco meu cotidiano. Caso contrário, terei um ataque de nervos. E, quando eu falo isso, pode soar como brincadeira, mas eu digo sério. Tentarei evitar o estresse (não posso garantir, mas darei o meu melhor; risos).

Mas, enfim, antes que esse post termine como um artigo do Luiz Carlos Merten, ou como uma cartilha de promessas de fim de ano, vamos trabalhar um pouquinho na análise de A Grande Aposta. Grande filme, hein? Tem poucas chances no Oscar (o Christian Bale veio sendo bastante cotado em Coadjuvante, e o filme pode ganhar em Roteiro Adaptado), e se vencer em Melhor Filme (potencial o longa tem, e bem poderia ser um favorito na categoria, embora não seja lá uma obra-prima, caso não fossem seus fortes e maiores concorrentes). Se não fosse pelos prêmios anteriores ao Oscar (como o Globo de Ouro e o SAG), ficaria difícil mentalizar A Grande Aposta nomeado em várias categorias importantíssimas do prêmio, como Filme, Direção, Atuação e Roteiro. E o filme certamente mereceu cada indicação que recebeu. Dos seis vistos de oito indicados a Melhor Filme, A Grande Aposta é um destaque gigante. Não pode ser esquecido, muito menos numa corrida tão incerta e bem organizada, falando da quantidade de filmaços, como a do Oscar 2016.

O longa demorou dois anos pra sair do papel (George Clooney e Matt Damon chegaram a ser cotados para o projeto). No início de 2014, a Paramount, que havia adquirido os direitos de adaptação do best-seller The Big Short: Inside The Doomsday Machine no ano anterior, convocou o então roteirista Adam McKay para trabalhar no roteiro ao lado de Charles Randolph. Não muito depois, Adam também foi oficializado como diretor do longa. Apesar disso, as filmagens só se iniciaram no fim do ano, e só veio a ser descoberta em janeiro do ano passado, com o elenco à vista no set de filmagens. 

O que dificulta um pouco a nossa compreensão é o uso frequente da complicada linguagem do universo financeiro e exemplos vãos. Em vez de descomplicar a nossa ideia do mundo dos negócios, o filme só vai reforçando essa hipótese enquanto tenta, supostamente (é logico), descomplicá-la. É uma proposta curiosa e decepcionante (tanto no bom e no mau sentido dessa definição, mas de um jeito que agrada, mesmo em seu lado mau) e que deixa a gente interessado no filme do começo ao fim, mesmo sem entender bulhufas do que é mostrado.

A confusão em torno dessa complexa desconstrução é o que faz do filme algo válido, realmente palatável. O filme nos convida a perceber que o mais importante no mundo financeiro não é entender, mas observar a sua complexidade (isso está na fala do personagem do Gosling bem no início do filme). Nas suas muitas tentativas (propositalmente confusas) de definir e traduzir termos, situações, transições, códigos e tudo que segue isso dentro do universo financeiro, as sequências mais atrativas são as quais o filme põe em tela famosos filosofando sobre essa linguagem, no "intuito" de trazê-las para perto de nós (mesmo?). A sexy Margot Robbie, coberta por espumas dentro de uma banheira (infelizmente sem nenhuma parte à mostra), tenta explicar o que são tranches e outros termos (uma isca perfeita para a nossa atenção, se é que vocês me entendem...). O "now, fuck off!" dela me deprimiu um pouco (risos). O chef de cozinha Anthony Bourdain (uma espécie de Palmirinha nos E.U.A.) tenta explicar o que é uma dívida de não sei das quantas metaforizando a entrega de peixes no seu restaurante. E, por fim, a Selena Gomez e o economista Richard Thaler elaboram uma metáfora sem pé nem cabeça durante um jogo de pôquer. Dá pra entender tudo, não acha?

Basicamente, A Grande Aposta é sobre um cara que trabalha no mercado de ações e, pra gerar lucro, põe em prática a sua ideia fascinante de apostar na queda do mercado imobiliário americano pra conceber dinheiro no seu negócio. Enquanto isso, um banqueiro também percebe essa possibilidade e logo propõe a seus clientes a tal aposta. Ele acaba por contatar Mark Baum, um altivo e verborrágico corretor que lidera uma central, e que sofre calado pela misteriosa morte do irmão, quem ele tanto idolatrava. Em paralelo, dois iniciantes no mundo financeiro buscam ajuda profissional para bancar essa aposta. O que esses homens todos tem em comum?

Além da aposta em comum, todos eles praticamente previram a queda mundial da economia e viram nessa queda uma chance única para o erguimento de suas empresas, enquanto o mundo estava prestes a desabar. Ganância? Certamente. Mas o essencial a se saber, primeiro de julgar, é que o filme não pinta seus personagens como vilões (e eles realmente não são, pra falar a mais sincera verdade). Eles só querem ser reconhecidos, dignos de importância, como qualquer outro ser humano na face da Terra. É a porta pro sucesso e a ascensão financeira. Não levem isso a mal. Cá entre nós, eles foram bem espertos.

Ainda que o filme esteja sendo vendido como drama, trata-se de uma comédia bem leve e suntuosa. O que deixa esse clima de drama no ar é justamente o núcleo do personagem Mark Baum, interpretado por Steve Carell, que perdeu o irmão pra frenesi do mundo financeiro. Procurando fazer coisas boas e salvar o mundo financeiro, ele acaba se tornando uma pessoa sem esperança, nervosa, instável e infeliz (se bem que ele é feliz sendo infeliz, vai saber). Cômico e irônico.

A presença da Margot Robbie e outros simbolismos frequentemente remetem a O Lobo de Wall Street, que também debatia no território do feroz capitalismo os muitos complexos de Wall Street e da economia, ainda que este se aventurasse muito mais no retrato de um poderoso erguido pela ambição em busca de uma vida boa e sem encheção de saco do que nos próprios problemas da Bolsa em si, que funcionam como propulsão secundária à trama. Ele só não contava com o final infeliz que teve.

Enfim, A Grande Aposta é um filme que resume-se a coragem, pela capacidade do diretor/roteirista Adam McKay em realmente apostar numa trama excentricamente complexa e cheia de ironias inusuais, e no estilo documental do filme (ironia sacana e gostosa de se acompanhar), e ainda sair ganhando depois de duas apostas tão arriscadas, e de tão arriscadas acabam ganhando a nossa aprovação. O mundo financeiro é um turbilhão sem fim.

O elenco caprichado, que conta com atuações formidáveis, é incrivelmente bem trabalhado. O Christian Bale, ator que passei a admirar não faz tanto tempo assim, mais uma vez surpreendendo com um show de competência, embora não seja o único dono do título de melhor membro do elenco. O Steve Carell, cuja performance foi esnobada no Oscar, está mais forte do que nunca. Depois da revelação em Foxcatcher, a carreira dele parece guinar rumo ao sucesso cinematográfico. O Brad Pitt e o Ryan Gosling nem estão tão bons assim, mas se fosse pra escolher um dos dois, seria o Ryan, numa performance que, apesar das falhas, tem bons momentos (a cena do banheiro é hilária, e creio que foi a que mais me fez gargalhar durante a sessão inteira). De mulher, só tem a bela Marisa Tomei e a Melissa Leo (nem tão bela assim, trajando pesadas olheiras na única cena em que aparece).

A Grande Aposta (The Big Short)
dir. Adam McKay - 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Crítica: "CREED: NASCIDO PARA LUTAR" (2015) - ★★★★


É impressionante ver como diminuiu a quantidade de filmes de temática esporte de luta, ou artes marciais, no grande circuito cinematográfico atual. Em meio a tantos blockbusters, superproduções de super-heróis e cia., que tanto tem conquistado o gosto e a devoção do público maior, o subgênero perdeu espaço e veio diminuindo com o tempo, com pouquíssimos exemplares do mesmo ao nosso dispor (isso porque eu ainda não toquei no quesito qualidade). Dentre estes pouquíssimos exemplares, vale ressaltar Creed: Nascido para Lutar. Sempre gostei muito da saga do Rocky Balboa, tendo o primeiro filme da série como um dos meus favoritos. Ver Creed é, em partes, nostálgicos, mas o filme assume com responsabilidade e originalidade o rumo da trama do Rocky, desta vez deixando o icônico personagem no cargo de coadjuvante para dar atenção a uma nova figura: Adonis Johnson, filho do ex-rival de Rocky, Creed. 

Após perder a mãe, Johnson passou por diversas casas da apoio e, eventualmente, ia para a prisão infantil. A primeira cena já mostra ele, criança, brigando com um outro detento. É nessa mesma cena que a esposa do falecido Creed visita a prisão, pela primeira vez, na bondosa intenção de adotar Adonis (filho que Creed teve com outra). Depois de um rápido corte, somos levados à atualidade, onde o garoto agora trabalha numa empresa e é praticamente um bem-sucedido. Porém, após uma promoção, perseguido pelo sonho de se tornar um boxeador, mesmo diante das boas condições da vida que leva, ele decide abandonar o emprego, o que aborrece em muito a sua mãe, que teme o pior nessa nova fase da vida de Adonis. O rapaz segue para a Filadélfia, onde pretende encontrar o lendário Rocky Balboa, com o objetivo de treinar ao lado do homem para aprimorar sua técnica na luta.

Muito se falou da atuação do Sylvester Stallone. E todos os elogios são justíssimos. O Oscar deve estatueta ao ator há muito tempo, e esta é a hora perfeita para ela ser finalmente entregue. Stallone está absolutamente impecável, mais uma vez brilhando radiante, ainda que num papel coadjuvante, na pele do personagem que o imortalizou mundo afora como o durão de coração mole que o Balboa é. E nem tudo é Stallone não. Quem domina a tela é o Michael B. Jordan, ator excelente, que interpreta o filho do Creed.

Ryan Coogler (triunfal diretor, revelado em 2013 com o aclamado Fruitvale Station) não tenta suecar os trabalhos anteriores da saga do Rocky como muito diretor (até alguns mais conhecidos) tentariam fazer. É claro, o filme faz ligação com os originais, e tem muitas referências, mas está longe de ser uma aspiração "remake". A partir disso, o filme marca pontos. 

As cenas de luta são muito bem montadas e filmadas. A sequência da luta entre o Adonis e o inglês Ricky Conlan é desafiadora e cativante. A melhor cena do filme inteirinho. É interessante ver que o personagem do Adonis é bastante semelhante ao Rocky, apesar de certas diferenças. Ele também é um durão de coração mole. 

O filme não é clichê, e nem muito pretensioso. O grande quê do filme é a dupla Rocky e Johnson, que aqui sintetiza uma relação pai e filho, construída no processo do treinamento do lutador, muito deliciosa de se assistir. Apesar do desenrolar trágico, o personagem Rocky rouba a cena com piadas irônicas e um humor discretamente ácido e divertidíssimo. Um retrato da mais pura realidade. Ao invés de fingir o que não é, o Sylvester assume seu icônico personagem na sua face mais efetiva: uma lenda já cansada e que não possui mais a força do começo. Nem ele mais consegue treinar no ringue, dando apenas indicações ao seu aluno, o Johnson. Antes os bípedes, agora o "garanhão italiano" é o cérebro da missão. Não se pode vencer o tempo. A cena final, diga-se de passagem, conduz bem o peso da idade no Rocky. 

Creed: Nascido para Lutar (Creed)
dir. Ryan Coogler - 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Adeus, ALAN RICKMAN (1946 - 2015)


Ai, ai, ai. 2016 não tá fácil. Faleceu ao 69 anos, vítima de um câncer, o ator britânico Alan Rickman, um dos mais competentes e queridos intérpretes britânicos de todos os tempos. A morte do ator teve um grande impacto no mundo do cinema. Tão cedo e tão ligeiramente, somos submetidos a um pesaroso adeus. Dentre os maiores trabalhos cinematográficos do ator, estão a franquia Harry Potter (na saga, ele interpreta o professor Severus Snape), Duro de Matar, Perfume, Michael Collins, Simplesmente AmorRazão e Sensibilidade, Sweeney Todd, entre outros. Me faltam palavras para descreve o quão doloroso é receber essa notícia. Fica o legado desse artista magistral, ator inconfundivelmente talentoso e único.

Crítica: "45 ANOS" (2015) - ★★★★


"...você costuma se esquecer facilmente das coisas que mais ama."

Um dos meus maiores desgostos em 2015 foi ter de fechar o ano com débito na lista de lançamentos do circuito comercial. Estava doido pra ver 45 Anos, mas fui impedido pelo aperto financeiro, assim como não tive a chance de ver outros muitos lançamentos, principalmente estes de fim de ano, como Macbeth - Ambição e Guerra O Despertar da Força, dois dos mais esperados. De qualquer forma, isso não atrapalha em nada a validade de 45 Anos, trabalho mais que primoroso e excepcional, (de fato) atemporal. É claro, quem sai na frente é o casal que protagoniza o longa, Charlotte Rampling e Tom Courtenay, premiadíssimos e aclamadíssimos por onde passaram, desde Berlim até (quem sabe?) o Oscar, e que leva como possível (pra falar a verdade, quase que uma principal) concorrente a Rampling.

O filme tem um andamento arrastado e calmo no primeiro tempo, mas meia hora depois do começo, as coisas começam a ficar tensas, mesmo que seu ritmo continue planado na lentidão. 45 Anos é a história de um casal atormentado por um fantasma do passado. E o medo. O medo de ter desperdiçado 45 anos ao lado da pessoa errada enquanto deveria estar com outra. E o medo de ter passado 45 anos amando um alguém que nunca o amou de verdade. Andrew Haigh constrói um filme muito belo, que consegue captar com perfeição e intensidade as energias, as preocupações, o cotidiano e, principalmente, os medos que surgem como uma avalanche na velhice. Ele consegue provar que os anseios da idade tomam conta do nosso imaginário mais do que podemos pensar.

Kate e Geoff Mercer estão às vésperas da celebração de 45 anos de casamento. Eles vivem numa cidadezinha do interior. Ela foi professora no passado (uma das cenas do começo, com ela conversando com um ex-aluno, é uma das melhores cenas de introdução de personagem que eu vi nos últimos tempos), e agora passa seus dias refletindo sobre o tempo, e cultivando pensamentos sobre o diário. É depois da notícia de que as autoridades encontraram o corpo da ex-namorada de seu marido na Suíça (a moça ficou por anos soterrada no gelo) que ela passa a preencher sua mente com neuroses sobre o caso. É diante da comemoração dos quase cinquenta anos de casamento que o passado vem à tona, e o casal passa a enfrentar o dilema da idade e o desafio da memória.

O corpo congelado da Katya nos Alpes Suíços é um caminho encontrado pelo diretor/roteirista (Haigh) para metaforizar um casal da terceira idade atormentado pelo passado, lamentando o passar do tempo, a fadiga e a falta de vigor. O cadáver da antiga amada do homem é a representação das lembranças da juventude, com toda a sua altividade e disposição. Essa metáfora também pode traduzir as fantasias dos homens, as mulheres desejadas no passado, voltando à memória com a degradação do tempo. A "sra. Mercer" se sente traída pelo desejo do marido, o sonho da eterna juventude, e vê nessa aspiração o fim do romance que ela sempre acreditou estar ali. O fim do amor que pra ela era inacabável.

Ela não aceita servir como alternativa pro marido (Kate e Katya são nomes muito parecidos, não?), como se ela fosse apenas uma outra, uma última opção, para o marido. O corpo da alemã enterrado por mais de quarenta anos se põe à vista com o derretimento das geleiras. Tradução: a velhice como motor da memória (bem irônico) e do redescobrimento de uma paixão perdida. É muito interessante notar como a trama de 45 Anos consegue metaforizar a velhice como um todo: as memórias, a solidão, os sonhos, as frustrações e os medos.

Outra coisa notável é que o longa funciona tanto no modo sem interpretação como no modo metáfora. E do modo metáfora nascem ainda mais interpretações, o que dá rigidez nos contrastes e na premissa do filme, certeiramente adorável, e proporciona reflexão ao espectador. O filme vai fermentando um suspense especial, do início ao fim, como se algo estivesse a todo tempo prestes a explodir. Isso cativa o público, mantém o interesse pela história, e vai causando curiosidade na gente.

Ninguém quer ver os sonhos destruídos, ou pelo menos o sonho que virou realidade atropelado pelas assombrações do passado, de dias melhores. A personagem da Rampling caracteriza bem o medo do abandono que a idade tanto transpira. O personagem do Courtenay, por sua vez, é a caracterização do arrependimento e da concretização da filosofia "e se?" na velhice. Ainda que brevemente, a Kate Mercer também experiencia esse arrependimento, mascarado como ciúmes, justamente quando ela descobre [aí vem spoiler] que a Katya estava grávida.

A ausência de uma família pode sinalizar um antigo sonho que morreu, e que não pode ser desfeito. Ela passa a se torturar com a ideia, novamente ressurgida, de que não pôde corresponder ao desejo do marido de ter um filho, de possuir uma família, e como isso inferioriza a relação que ele manteve com a Kate por 40 anos à relação com uma amante passageira, que se foi cedo demais, apagando então esse sonho. A estética dessa metáfora pode parecer bastante recíproca e baseada na devoção, como se a Kate estivesse ao dispor dos sonhos e de todos os desejos do marido, como se ela só existisse para satisfazê-lo, mas na verdade há algo de egoísta nesse pensamento. Afinal, o desejo (muito possivelmente incorrespondido) dela era de ter a vida dos sonhos.

O caso do marido com uma mulher mais bonita, jovial e estrangeira, antes mesmo dele a conhecer, a atormenta e aborrece, porque simboliza tanto o desvanecimento dessa vida dos sonhos tão almejada, quanto o relacionamento que ele manteve com a outra maior, por que foi, de fato, a vida dos sonhos. Temporariamente, mas foi. E isso já é o suficiente pra gerar uma crise sufocante, e que vai aos poucos a deixando magoada.

45 Anos funciona como um pesadelo. É a história de um casal tentando enfrentar demônios do passado e da própria idade, cada um à sua maneira. A dificuldade em aceitar o rumo, em encontrar uma saída pros defeitos. A idade, e os problemas que vem com ela, são inevitáveis. A forma como os atores entram com tudo na pele de seus personagens é assustadora e brilhante, firme e inteiramente espetacular. O Tom Courtenay, que faz o papel do amargurado Geoff Mercer, é pau pra toda obra. Ele está fantástico.

Mas quem toma conta da tela, quem nos emociona de verdade, é a Charlotte Rampling, numa das melhores performances da sua carreira. Ever. A atriz se supera numa performance de cunho dramático elevado e maturo, numa personagem forte e exigente, interpretada com simplicidade e talento. Charlotte se doa com tanto esmero a sua personagem que não é exagero dizer que temos uma lenda viva em tela, em ótima forma, ainda por cima. O cineasta independente Andrew Haigh revela-se na adaptação do pouco falado romance In Another Country (David Constantine), com direção e roteiro excelentíssimos, regados a naturalidade e bravura. Está consolidado um dos registros mais tocantes da idade avançada realizados nos últimos tempos. Um trabalho excepcionalmente potente e magistral.

45 Anos (45 Years)
dir. Andrew Haigh - 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Crítica: "O QUARTO DE JACK" (2015) - ★★★


Sexto filme dirigido pelo irlandês Lenny Abrahamson, quem conheci com o imperfeito Frank ano passado, O Quarto de Jack parece ser a enfim guinada do cineasta admiravelmente promissor rumo ao sucesso e ao reconhecimento em Hollywood. E, ainda que não seja lá um grande filme, O Quarto de Jack impressiona e chama a atenção pela participação de dois incrivelmente talentosos protagonistas, Brie Larson e Jacob Tremblay, encarnando no drama mãe e filho confinados em um cativeiro, construindo uma convivência apertada e complicada em função das condições. A criança passa seus dias sem qualquer contato com o mundo lá fora, além do "quarto", tendo como protetora, professora e guia a mãe, que vive cansada tendo de servir às exigências de um maníaco que a usa como brinquedo sexual, diariamente.

Talvez o filme não tenha me impactado tanto porque não correspondeu às minhas expectativas quanto a ele. E não que ele seja um filme ruim por conta disso. Sim, é de fato um trabalho exímio como tantos tem dito por aí, mas só não me impressionou demais. E, nisso, deve-se levar em conta que eu não li o romance da Emma Donoghue (também roteirista do filme, surpreendentemente).

Mas, de qualquer forma, é um filme emocionante. Deixa a desejar por muito, mas é agradável de se ver. Tem ritmo e força, e uma história muito bonita e prazerosa de se acompanhar, ainda que por muitas vezes incompleta e superficial sobre si mesma.

A tal Brie Larson não é sozinha e inteiramente protagonista de O Quarto de Jack. É certo que a presença dela é indispensável quão marcante aqui, mas é o jovem Jacob Tremblay que carrega o filme, com uma enorme delicadeza e intensidade. E, nisso, vem um problema de O Quarto de Jack: apesar de assumir a visão da criança (o personagem de Jacob) como o norte da narrativa, o roteiro frequentemente sai desse campo para vaguear em torno da percepção de outros dentro da história e não se mostra totalmente fiel a esse princípio, mesmo com certos elementos e provas dessa natureza ingênua à vista, o que proporciona diversos desencontros e complicações no contorno da trama e na própria entonação do filme. Isso discretamente vai amargando a emoção e o impacto em O Quarto de Jack. Isso não poderia ser tão grave. A dose (no entanto) é suficiente.

Não estou de jeito algum reclamando do menininho e da performance dele, e tal. Sinceramente, é impossível e ridículo reclamar da performance. Mas estou falando de como o filme é bagunçado na organização da sua premissa. Não se trata de imaturidade, mas sim de um certo amadorismo. E isso não é maléfico, mas não se enquadra às noções básicas de O Quarto de Jack. A história poderia ser arquitetada de maneira melhor, com mais criatividade.

Também não gostei nem um pouco do final adiantado. Tenta-se justificar, na segunda parte, o porque desse final adiantado, mas essa "explicação" mostra-se passageira demais e não corresponde ao materialismo do clímax da primeira parte, a melhor. De qualquer jeito, o que melhora em muito O Quarto de Jack quanto à qualidade é o registro sensacional e que oculta qualquer defeito dos empenhados Jacob e Brie, dupla excepcional, principais desse filme lindíssimo.

O amor vence qualquer obstáculo, qualquer defeito, qualquer problema. A figura materna da Joy Newsome representa o poder e a profundidade do zelo de uma mãe, enfrentando os emblemas de um mundo doente pra manter o filho vivo e saudável, pra garantir a sua alegria e o seu bem-estar. Indescritivelmente bonito. O Quarto de Jack é um filme importante, isso sem dúvidas. Outra coisa: que esquisito o Globo de Ouro ter dado os prêmios de Melhor Atriz Protagonista em comédia e drama esse ano a duas personagens chamadas Joy. Será uma conspiração?

O Quarto de Jack (Room)
dir. Lenny Abrahamson - 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Crítica: "JOY: O NOME DO SUCESSO" (2015) - ★★★


À exceção de O Vencedor, A Mão do DesejoProcurando Encrenca e Três Reis (filmes que não vi ainda) e de Joy, gosto bastante de todos os outros títulos da filmografia do David O. Russell, até daqueles mais esculhambados, como TrapaçaO Lado Bom da Vida e Huckabees - A Vida é uma Comédia (pra mim o melhor filme dele). E confesso que estava bastante animado pra conferir Joy: O Nome do Sucesso. Mas o longa, mesmo estrelando a bela Jennifer Lawrence e um elenco de dar água na boca, não me pegou. É o primeiro filme do diretor que eu não gosto. É sem graça, de comédia não tem absolutamente nada, desperdiça um elenco fera à toa, e faz um monte de outras deploráveis besteiras. Joy acerta em cheio nos quesitos "me tirar do sério" e "decepcionar". 

Era até de se estranhar, faz uns meses, ver um filme do David O. Russell, um dos nomes mais extremamente superestimados de Hollywood dos últimos tempos (muitas vezes com razão, e noutras não) de fora das apostas ao Oscar, Globo de Outro, e outros prêmios no geral de suma importância à indústria cinematográfica. É verdade que a Jennifer Lawrence não parou de ser paparicada por todos os cantos pela sua atuação, mas ver o filme em si afastado dos prêmios e das apostas foi um tanto quanto esquisito. A partir daqui, nem preciso mais especificar como essa estranheza findou-se visto o resultado asqueroso de Joy. 

O filme segue aquele velho padrão de superação, com personagens vulgarmente parabenizados fortes, auto-intitulados vencedores, e etc., um padrão que, convenhamos, já encheu bastante o saco. E, na cabeça do David, Joy seria o filme que lhe consagraria premiações afora. Afinal, o homem deve ter se cansado de esperar tanto pelos troféus, em especial o Oscar, durante três edições coladinhas, isso em diferentes categorias, sem ele ter ganhado nada, apenas visto os atores de seus filmes levarem o prêmi de mão beijada (Melissa Leo, Christian Bale, Jennifer Lawrence). E, num plano pra abocanhar o Oscar de vez, lá foi ele moldar esse filme-superação batido e desinteressante, que é nota 10 em clichê e sensacionalismos baratos. Mas o filme ficou tão forçado e sem energia que nem pra conquistar a Academia com seus truques infames ele serviu. 

Sobre a Jennifer Lawrence, certamente não é a melhor performance dela. Os membros da HFPA exageraram (e muito!) ao confiar nas mãos de Lawrence a estatueta na categoria de Atriz em Comédia (já falei que Joy não é comédia) ou Musical (muito menos isso). Foi uma das seleções mais imprecisas. E não que a Jennifer não tenha bons momento aqui. Não são muitos, uma ou outra cena de destaque. À parte essas, a interpretação dela é desconcentrada, mas a beleza dela salva a gente da raiva nessas horas. E eu achando que veria o Bradley Cooper ou o Robert DeNiro firme e forte me lasquei legal. Os dois estão ainda mais aquém do que a Lawrence. Acho que a participação que mais agradou foi a da Isabella Rosselini, que nem protagonista do filme é, e consegue brilhar em certos momentos. A princípio, eu nem sabia que era mesmo ela, só estava desconfiando. 

Contudo, em meio a tanta balbúrdia e descaramento, gostei de uma cena do filme. E nem é por conta da Jennifer, mas a cena carrega um espírito tão leve e feel-good que chamou demais a minha atenção, e é a melhor do filme inteirinho. É a cena que a Joy Mangano tá no ar no programa de vendas e não sabe por onde começar, e aí o personagem business man do Bradley Cooper começa a ficar estressado. É quando a melhor amiga da Joy, e que a ajudava quando ela estava precisando vender o popular esfregão mop, sua "magnum opus", em supermercados, liga para ela no programa fingindo ser uma desconhecida, e é aí que ela se encoraja pra explicar o produto (ironicamente às avessas, em comparação ao mesmo caso da cena do supermercado, anterior, quando a Joy e a filha fingiram sair do local e deram espaço à essa amiga, quando então a Joy voltou e fingiu ser outra mulher, começando a identificar as qualidades no produto e chamando a atenção do pessoal que passava - bom truque). Amigo vem pra salvar a gente na hora do sufoco. Ótimo exemplo de como a amizade é uma coisa gostosa e pode nos livrar do fracasso, da solidão e dos apertos mundanos.

Quem ainda não deu uma paradinha pra conferir a sinopse do filme, é sobre a Joy Mangano, uma inventora e administradora financeira que, desde criança, costumava inventar acessórios e idealizar práticas engenhocas. Após o sofrido divórcio dos pais, ela decidiu ajudar o patriarca, interpretado pelo DeNiro, no negócio local da família. Nisso, a Joy não teve tempo para cursar uma universidade, o que implicou na sua situação e limitou seu acesso a profissões. E, mesmo após ter completamente falido, a Mangano não desistiu e deu a volta por cima, deu sua cara a tapa e fez fortuna com suas práticas invenções domésticas. Dá uma dó da personagem da mãe da Joy (curiosamente interpretada pela Virginia Madsen!), que passa o tempo inteirinho numa cama, afastada do mundo, contando apenas com as produções novelísticas e grude da TV como passatempo. 

O trio Jennifer, Bradley e Robert, pela terceira vez consecutiva unidos numa parceria com o Russell, atravessa em Joy o menor momento da carreira deles ao lado do David, comparado aos três filmes anteriores. O retrato contorcido e superficial da história real de Joy (sim, o nome da mulher é realmente Alegria, por mais incrível que pareça) Mangano não apresenta profundidade nem sentido certo, e por isso tende a deixar o espectador cansado nas muitas empreitadas da narrativa, coroada por imperfeições. No fim, O Nome do Sucesso não deixa de ter seus encantos, bem como a representação bem fantasiada do crescimento econômico e do poder cada vez maior da mulher dentro da megalomania capitalista, aqui a Joy, que vive tomando conta da casa e dos problemas de sua família, botando ordem e criando dois filhos, sustentando o marido, aconselhando e sendo aconselhada, além das suas muitas tarefas financeiras e comerciais, a maior parte do tempo realizadas autonomamente por ela, quando não na companhia da sua fiel melhor amiga.

Mas, enfim, Joy está longe de ser um filme satisfatório, mas até que chega a ser meramente suportável, em certos quesitos.

Joy: O Nome do Sucesso (Joy)
dir. David O. Russell - 

GLOBO DE OURO 2016 (73rd Golden Globe Awards)


E quando a gente pensa que a temporada de premiações não tem como ficar mais amalucada, vem o Globo de Ouro 2016. O prêmio chegou adiantado (é a edição mais adiantada da história de todo o prêmio) e também foi bem agilizado (comento isso depois). Em contrapartida, os resultados não são os dos mais agradáveis. Ainda que difícil, essa edição teve um dos red carpets mais bonitos da sua história, com deusas diviníssimas em passeata no grande e reluzente tapete vermelho, e com o Ricky Gervais a diversão foi garantida, ainda que menos icônica do que em outras datas. Houve surpresas, houve vitórias boas e vitórias nem tão assim. Como um todo, o Globo de Ouro 2016 não é a melhor edição, mas tem lá a sua pequena parcela de encantos. 

Numa tentativa absurda em querer ser o Oscar 2015 da vez, o Globo de Ouro 2016 premiou O Regresso, novo trabalho do mexicano Alejandro González Iñárritu, em três categorias, sendo duas dessas premiações desesperadoramente inesperadas. Tá bom que o DiCaprio mais que merecia o prêmio em Drama pelo filme, que certamente lhe dará o tão esperado Oscar, mas foi exagero premiar junto o Iñárritu em Direção e Filme, né? Tá certo que eu ainda nem vi O Regresso; mas, poxa! Que injustiça com os outros indicados. Principalmente Spotlight - Segredos Revelados, favorito nas categorias de Filme Dramático e Roteiro. Outrora, e se bobeasse, Diretor. Saiu sem nada. 

Carol, recordista de indicações, saiu de mãos abanando, assim como o aclamado amigo Spotlight e o ainda mais fenomenal Mad Max - Estrada da Fúria. Os três, que tinham muitas chances, acabaram no saco. O lado bom disso tudo é que até agora os prêmios estão bastante confusos, seus indicados não batem e os resultados também não. Se isso pode desapontar no desenvolvimento da corrida, ajuda a criar um suspense para o Oscar, desfazendo previsibilidades, e diferentes filmes de segura qualidade poderão receber atenção e o devido reconhecimento ou não, isso dependendo do andar da corrida e a organização dos vencedores. 


Eu lembro que ano passado me diverti bastante com a Tina Fey e a Amy Poehler, bastante cômicas. E não que eu não tenha me divertido à beça com o novo apresentador (de novo), o Ricky Gervais. Ele apareceu muito rápido. Nem deu tempo dele fazer as piadas direito no começo. Foi tão agilizado, sabe? E tudo isso por conta da apressada equipe. Quase nenhuma categoria ficou imune daquela velha "musiquinha de fundo". Nem mesmo nos prêmios principais, onde eles costumam dar um período de tempo maior do que os menores (na cabeça deles). Ejaculação precoce. 

Nem deu pro Ricky se despedir no fim, pô! E eu acho que isso deve ter sido até um pouco proposital da parte deles, que disseram ao Ricky que ele podia ter a liberdade de comentar tudo o que ele quisesse no palco, mas aí eles sempre apressavam tudo. E o Ricky também estava lendo quase tudo o que dizia, combinado, quando entrava, segurando uma bebida e todo desajeitado, com aquela voz engraçada dele. Mas eu realmente fiquei espantado com essa rapidez do show. Ele terminou uma hora da manhã. Quando foi a última vez que eu terminei uma premiação às uma? Poxa, hein. E olha que lá o prêmio é exibido de tarde. 

E, mesmo com a rapidez, o Ricky teve seus momentos. Ele fez piadas com o Charlie Sheen ("Joy e Descompensada. Não, não são os nomes das prostitutas prediletas do Charlie"), teve tempo pra abraçar e brincar com o Mel Gibson, anos depois daquela "polêmica" da apresentação (a palavra polêmica é muito mal usada nos dias de hoje...), falou das antecessoras, Tina e Amy, mexeu na confusão do Perdido em Marte nomeado em comédia (o filme é uma comédia, gente!), brincou com o Roman Polanski ("Polanski disse que Spotlight é o melhor filme já feito") e o Cosby. Foi ágil, mas deu pra sentir o humor ácido do Ricky. Tomara que ele volte no ano que vem, e que parem com essa palhaçada de agilizar os discursos. Parecia o Oscar 2006, quando a musiquinha de fundo foi autorizada pra tocar durante os discursos, sem ser na intenção de agilizá-los.



Falando no ótimo Perdido em Marte, o filme venceu nas categorias de Filme em Comédia/Musical e Ator pro Matt Damon. O Ridley Scott aceitou o prêmio de Filme, e continuou seu discurso mesmo com a musiquinha de fundo, e ainda deu uma bronca (screw you, okay?, ele disse). Queria que ele tivesse recebido por Direção. Mas dá pra se contentar com essa vitória, já bastante significativa pro filme na corrida. 

Das quatro indicações que recebeu, A Grande Aposta saiu de mãos abanando do prêmio. Christian Bale não curtiu isso. Um dos momentos mais legais do prêmio (isso é, se não for o mais legal) foi quando o humilde Sylvester Stallone foi revelado como vencedor por Creed: Nascido para Lutar. O cara deu o melhor discurso da noite, e foi emocionante ver ele ganhando pelo mesmo papel que havia o consagrado pra sempre no lendário filme de 76. E ele foi acompanhado das mulheres da família ao prêmio. Todas belíssimas.

O primeiro prêmio da noite, cinematográfico, foi para Kate Winslet, a surpresa da noite, que derrotou a favorita Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados). Eu não reclamei da vitória, já que sou fã da Kate e adoro ela de coração, mesmo sem ter visto o nem tão adorado Steve Jobs, que foi recebido duramente pela crítica e pelo público, mas conseguiu sair com os prêmios de atriz coadjuvante e roteiro (mais uma derrota para Spotlight) do Globo de Ouro esta noite. De qualquer forma, isso só aumenta mais e mais minha ansiedade em conferir o longa.

Outro prêmio justíssimo, e momento de felicidade pra mim, foi a vitória de Os Oito Odiados em Trilha Sonora. Eu vibrei insanamente quando olhei para o envelope nas mãos do Jamie Foxx indicando o vencedor (Foxx, num dos momentos mais plausíveis e icônicos do prêmio, satirizou o último concurso de Miss Universo, onde aquele cara diz ter confundido as vencedoras, e anunciou a miss errada - aqui nesse caso, o Jamie revelou Straight Outta Compton como vencedor, que não estava nem indicado; imagine se ele tivesse falado algum dos indicados em vez do real vencedor? Ia ser bem engraçado). O lendário compositor italiano Ennio Morricone não pôde estar presente na cerimônia, e quem aceitou o prêmio por ele foi o Quentin Tarantino, que esteve nomeado em Roteiro mas perdeu para Steve Jobs


O Tarantino estava alegre que só ele. Afinal, quem não ficaria emocionado no lugar dele, recebendo o prêmio em nome do homem que cresceu acompanhando e idolatrando? O compositor favorito dele, e ele ali, recebendo um prêmio por ele. Pelo seu ídolo. É demais tocante. No rush do momento, o diretor até se confundiu e disse que era um privilégio estar aceitando o primeiro Globo de Ouro do Ennio, quando na verdade este se trata do terceiro prêmio do compositor (Morricone já ganhou anteriormente por A Lenda do Pianista do Mar e A Missão). Ele se confundiu com o Oscar. O Ennio nunca venceu um Oscar. Ganhou um Honorário, mas Oscar Honorário não é um Oscar. É um prêmio falso que a Academia entrega como lembrancinha a quem nunca deu nada. Mas, acontece. Motivo ele tinha pra ficar desconcertado. Chegou até a comparar o italiano com Mozart e Schubert, muito justamente (só pra vocês terem ideia, Ennio Morricone já assinou a trilha de mais de 500 filmes em uma carreira de 50 anos). 

Um dos prêmios certos da noite foi o de Melhor Filme Estrangeiro, entregue a O Filho de Saul. Uma pena Que Horas Ela Volta? não ter chegado à lista. Mesmo se não fosse ganhar, já que O Filho de Saul é um concorrente de peso mesmo. Vai passar direto pelo Oscar. Em Canção Original, Sam Smith ganhou o prêmio por "Writing's on the Wall". Não dá pra lamentar a seleção, porque até mesmo eu passei a gostar da canção marretando ela na minha cabeça sem parar depois de ter duvidado um pouco dela, mas foi muito injusto. Brian Wilson ficou sem Globo de Ouro (emoticon triste). Antes fosse o "Simple Song #3", canção maravilhosa, que abocanhasse o Globo de Ouro, e emplacasse pelo menos uma vitória a Youth, que não ganhou porra nenhuma... Mas o bom é que de uns tempos pra cá a categoria não veio acertando os indicados ao Oscar mesmo. There's still hope.

Montei, na minha crise de desgosto e insatisfação, duas teorias para provar a vitória da Jennifer Lawrence: ou os caras do Globo de Ouro gostam de paparicar a Jennifer Lawrence ou ela está realmente triunfal em Joy. Só preciso ver o filme. Ano retrasado, não gostei nem um pouquinho que ela tirou o Globo de Ouro da Lupita Nyong'o. A única vez que ela realmente mereceu o prêmio foi por O Lado Bom da Vida. E o cara por trás dessa maré de sucesso e prêmios dela é o David O. Russell. É o terceiro Golden Globe dela, por um filme do Russell. Então, é bom que ela faça essa vitória valer no cinema, porque eu já não gostei de ver ela derrotando a minha favorita Amy Schumer (Descompensada) e a Melissa McCarthy (A Espiã que Sabia de Menos), que eu também apostava como possível surpresa.

A Brie Larson conquistou o Globo de Ouro dela fácil por O Quarto de Jack. Bastante previsível. Mas eu ainda me questiono: e se a Charlotte estivesse aqui? O Iñárritu é um lucky bastard (risos). Papou três Oscars ano passado e mais dois Globos de Ouro seguidos de uma vitória por roteiro ano passado. Cara sortudo. Agora só falta conferir O Regresso pra ver se ele é tão bom como o Globo de Ouro o panfletou. 

Em Animação, venceu o meu predileto Divertida Mente. Isso é, não vi ainda Anomalisa (ando criando altas expectativas acerca a animação). Comentando rápido as categorias televisivas, dos vencedores eu só vi Mad Men. E nada mais. Uma pena o Wagner Moura não ter ganho por Narcos. Tava na torcida. Pelo menos, um latino levou um prêmio de TV pra casa, o Gael García Bernal, ator que gosto muito. Não vi ainda Mozart in the Jungle, mas pode crer que a ansiedade tá lá em cima. Esses vencedores de TV só atarefaram mais ainda a minha watchlist pra 2016. 

A vitória da Lady Gaga foi muito inesperada. Foi legal quando ela falou que ser atriz era um antigo plano, e que ela mesma planejava ser atriz antes de ser cantora e tal, mas aquela referência a Cher na vibe de auto-comparação foi muito sem vergonha. Nada contra a Gaga, mas ela mal começou a atuar e já tá se achando a Barbra Streisand do momento? Poxa vida, hein? E ela tava competindo com a Kirsten Dunst ainda por cima. A Kirsten Dunst. Sim, aquela da série Fargo






Falando em Kirsten Dunst, a bela fez todos babarem no tapete vermelho quando chegou... Deslumbrante e sexy ao cubo. Sem uma ordem específica de preferência, menciono aqui as beldades do red carpet, extremamente divinas, e que tanto fizeram especial esse aquecimento da premiação, um dos mais quentes e bonitos de todos os tempos: Emmy Rossum, Bryce Dallas Howard, Rooney Mara, as filhas do Stallone, Saoirse Ronan, Melissa Benoist, Alicia Vikander, Brie Larson, Cate Blanchett, Viola Davis (simplesmente glamourosa), Rosie Huntington-Whiteley, Maggie Gyllenhaal, Olivia Wilde, Emilia Clarke, Lily James... E, é isso aí. Se vai mais um Globo de Ouro, fellas! Quinta-feira tem indicados ao Oscar, não se esqueçam! Até. Abaixo, os vencedores:

CINEMA

melhor filme - drama O Regresso
melhor filme - comédia ou musical Perdido em Marte
melhor diretor Alejandro González Iñárritu (O Regresso)
melhor ator - drama Leonardo DiCaprio (O Regresso)
melhor atriz - drama Brie Larson (O Quarto de Jack)
melhor ator - comédia ou musical Matt Damon (Perdido em Marte)
melhor atriz - comédia ou musical Jennifer Lawrence (Joy)
melhor atriz coadjuvante Kate Winslet (Steve Jobs)
melhor ator coadjuvante Sylvester Stallone (Creed)
melhor filme de animação Divertida Mente
melhor filme estrangeiro O Filho de Saul (Hungria)
melhor roteiro Steve Jobs
melhor trilha sonora Os Oito Odiados, por Ennio Morricone
melhor canção original "Writing's on the Wall" (007 Contra Spectre)

TV

melhor série - comédia Mozart in the Jungle
melhor série - drama Mr. Robot
melhor série limitada ou filme para TV Wolf Hall
melhor ator em série - comédia ou musical Gael García Bernal (Mozart in the Jungle)
melhor atriz em série - comédia ou musical Rachel Bloom (Crazy Ex-Girlfriend)
melhor ator - série dramática Jon Hamm (Mad Men)
melhor atriz - série dramática Taraji P. Henson (Empire)
melhor atriz - série limitada ou filme para TV Lady Gaga (American Horror Story: Hotel)
melhor ator - série limitada ou filme para TV Oscar Isaac (Show Me a Hero)
melhor atriz coadjuvante - série, série limitada ou filme para TV Maura Tierney (The Affair)
melhor ator coadjuvante - série, série limitada ou filme para TV Christian Slater (Mr. Robot)