domingo, 7 de junho de 2015

Crítica: "TERCEIRA PESSOA" (2013) - ★


Que decepção! Não sei se é só impressão minha ou se Paul Haggis decidiu fazer um auto retrato de sua pessoa dentro do personagem de Liam Neeson, Michael, um escritor atravessando uma crise de bloqueio. Só pode por que, é muita falta de criatividade. Não é possível. Ele só pode ter feito de propósito. E pensar que um cara desses já escreveu belíssimas obras do cinema, que vão de Menina de Ouro até Crash - No Limite. Puxa, é muito decepcionante. Terceira Pessoa, além de ser confuso e cansativo, exagera nos clichês e apenas reutiliza uma técnica com insuficiência e insensibilidade. 

Terceira Pessoa demorou pra chegar no Brasil (depois da sessão, vê-se o porque). Lançado em 2013 nos EUA, o longa só chegou no território nacional, bem timidamente, só em março deste ano, em circuito selecionado. E por mim, filme deste tipo podia muito bem permanecer por lá, já que aqui não teve nenhum aparente impacto. Só atrapalhou. Estranho a PlayArte, produtora que tem tido bons longas em sua seleção, ter logo decidido trazer ao Brasil um longa tão inconveniente e insensato como esse, que, além de não trazer um pingo de lucro à ela, desaponta o espectador e não traz novidades.

Terceira Pessoa não faz sentido. Simplesmente isso. Não dá pra dizer ao certo se o estilo da trama é o mesmo estilo de interconexões já utilizado brilhantemente por Haggis em Crash - No Limite ou se trata apenas de uma antologia. É muito sem sentido, sem nexo, sem aparentemente conexão. Sem porra alguma. O filme é puramente nada. Nada, nada, e mais nada. As histórias parecem desligadas umas das outras, apesar de Paul fazer uma questão idiota de intercalar uma nas outras através da edição talentosa de Jo Francis, que apenas faz com que esse anseio de Paul em intercalá-las apenas transpareça como uma antologia, o que é mais ainda odiável.

E olha que desperdício... Terceira Pessoa tem um elenco pra lá de bom. James Franco, Maria Bello, Olivia Wilde (que ultimamente vem mostrando-se tecnicamente matura nos filmes em que atua), Mila Kunis (outra que já  vem trocando o gênero besteirol por conteúdo de mais qualidade, digamos, desde que atuou em Cisne Negro), Adrien Brody, Kim Basinger e o prestigiado Liam Neeson! Todos estão, infelizmente, horríveis em Terceira Pessoa. As únicas que se salvam são Mila Kunis, ainda que essa salvação tenha se revelado em pouquíssimas cenas estreladas por ela, e a israelense Moran Atias. Apenas elas. O resto não gerou nada. Nem Neeson.

O filme narra três distintas histórias, que pelo menos de alguma forma pela qual eu não consegui ver, se entrelaçam ao evoluir da trama: na cidade de Nova York, Julia é uma mulher que trabalha como empregada e tenta conseguir a custódia do filho após ter tentado matá-lo durante uma crise. Em Roma, Scott, um americano que falsifica desenhos de figurinos, decide ajudar Monika, uma prostituta que quer salvar sua filha de oito anos do mundo ao qual ela entrou, e para isso, precisa de uma determinada quantia de dinheiro, que só vai aumentando. Em Paris, Michael é um escritor sem inspiração que se baseia na jornada de sua amante, a bela Anna, para escrever um romance. Resumindo: Julia é uma psicopata sem nenhum motivo aparente, já que ela não é pressionada e não é, a nenhum momento do filme, colocada à frente de uma situação de risco que poderia danificar seu estado emocional, excedendo o caso de sue filho. Scott se apaixona pela bela Monika e, para passar uma noite com ela, decide dar dez mil reais a um mafioso para resgatar a filha da prostituta, o que no final fica tão confuso que até é difícil de explicar/dar spoiler. E Michael tem uma amante desolada, e ele parece se sentir inspirado nela ao ponto de usar o desfecho das ações na vida dela como base da história de sua "ficção", que no final mais parece um desabafo pessoal forçado, ou seja, sem sentido algum.

Olha, é tanta decepção que só jogar culpa no filme não adianta. Tem que enfatizar: o filme não faz nada. Nada. Tem que justificar. Não vou ter dó desta vez. O filme é uma besteira. Porém, sempre há um porém  no meio de tanta confusão, para nossa surpresa. Além das performances de Kunis e Atias, a trilha sonora de Dario Marianelli é estonteante. O italiano, autor das trilhas dos grandes sucessos de Joe Wright, incluindo Orgulho e Preconceito, Desejo e Reparação e Anna Karenina, além de também ter sido creditado nas trilhas de Os Boxtrolls, V de Vingança, Jane Eyre, Comer Amar Rezar e Neste Mundo, aqui em Terceira Pessoa merece honradamente o título de herói, isso por que a trilha sonora é algo que aparece secundariamente no longa. Prova de que, mesmo numa bomba, a trilha, a música, o som, pode salvar tudo. Belíssima trilha.  

Fora isso, é preciso voltar à triste realidade que aprisiona Terceira Pessoa. Difícil é ver como esse filme recebeu tanta grana para ser produzido, além de apoio internacional vindo da Alemanha, da França e de outros países. É uma falta de consideração tremenda. E, ainda sim, se neste filme tiver um culpado, sinto em dizer que ele é Paul Haggis. Não é o elenco, nem a produção, nem nada, mas sim Haggis. Dirigindo o filme de uma maneira desconfortável, o roteiro, para a surpresa novamente, é quem assume a culpa do caminho por onde o filme foi dirigido. Não há conflito. Não há reviravolta. Não há emoção. É tudo tão repetitivo. É triste, por que Haggis é um cara de talento. Mas depois de Terceira Pessoa, fica até difícil confiar nele em próximas produções. É muito ruim. Terceira Pessoa é um filme péssimo. Decepção total. E pensar que eu tinha esperanças de ver algo bom nesta porcaria de filme. Muito péssimo. 

Terceira Pessoa (Third Person)
dir. Paul Haggis - 

sábado, 6 de junho de 2015

Crítica: "MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO" (2006) - ★★★


Mais Estranho que a Ficção me surpreendeu. No fundo, foi maravilhoso ver esse espetacular filme. E  olha que eu não tinha a menor vontade de vê-lo, na expectativa que em seu final me cansaria. Mas ele não cansou. Ele, de uma certa forma, renovou minha percepção à frente dele e de sua gloriosa jornada. O que me deixou muito aborrecido em Mais Estranho que a Ficção é que ele é um filme dramático, o que certeiramente contrariou minha visão do filme como uma comédia, que funcionaria bem melhor à história. Drama, no final das contas, não caiu bem em Mais Estranho que a Ficção. 

Will Ferrell faz Harold Crick, um homem de diário incomum, mas quieto, privado de amizades e comunicações sociais, algo que faz dele um alguém intensamente solitário. Harold convive à base de um cotidiano rigoroso que, por ele, raramente, senão nunca, é quebrado. Certo dia, após acordar, enquanto escovava os dentes, Harold ouve uma voz, aparentemente emergida do nada, que inicia a narrar sua vida: seus movimentos, suas ações, seus pensamentos, seus diálogos... Tudo.  Confuso, Harold começa a se atrapalhar e se desconcentrar em suas atividades, o que o causa um incômodo infeliz. Depois de buscar assistência médica e falhar na tentativa, Harold vai até um professor literário que formula teses e teorias a partir de diferentes livros, no intuito de conseguir do homem um possível resultado em relação à narradora invisível e onipresente que tanto vem o causando intriga. No entanto, o jogo, inicialmente inocente e até então despretensioso, toma proporções maiores, quando a narradora de Harold anuncia sua morte. Neste momento, Crick dá partida em uma corrida contra o tempo a fim de salvar a sua vida, e tenta encontrar e identificar quem é essa narradora que tanto o atormenta. 

A ideia do filme por si é ótima, genial, incalculavelmente brilhante. Só que o resultado não corresponde cem por cento às primeiras expectativas da concepção da jornada. Certo que ela é demasiadamente atraente e desperta em nós curiosidade, mas, por vezes, é preciso pensar: "Será que essa brilhante ideia terá um brilhante final?", já que ultimamente o que mais estraga filmes de extensa qualidade narrativa inicial é a inutilidade de seu final. Não é assim, ainda bem, em Mais Estranho que a Ficção, só que o longa não é totalmente sucessivo nesse feito. Setenta por cento, digamos. O filme não é tão bom como Quero Ser John Malkovich ou Feitiço do Tempo, apesar de estar extraordinariamente próximo da excelência das obras citadas. Falta, neste drama sensível e bondoso, a audácia, o atrevimento, a cientificação dos elementos. Falta, nos bem bordados conflitos da trama, um sabor que a ofereça traços originais. 

Vale dizer aqui que, para a minha inesperada expectativa, o roteiro é genial. Autoria de Zach Helm, o roteiro mostrou uma eficiente inteligência e notória maturidade. E isso ajuda muito num longa que depende inteiramente de seu roteiro no retrato e na visão de seus interligados persongens. Não consigo enxergar neste roteiro de Helm fraquezas profundas. Se há algo de mal nele sinceramente digo que é a falta de complexidade. Em certos momentos, a história desvia causa e efeito e deixa algumas questões, de caráter compreensivo, vazias.

Marc Foster mostrou-se um capaz e densamente evoluído ao retratar a peculiar jornada de Crick num plano em si tão simplificado, nítido, sem ser precisamente escandaloso ou, como gosto de falar, depreciativo. É em sua estrutura normal, claramente abstrato e longamente absurdo. De certo o forte deste filme são as interpretações arrebatadoras dele (comentarei daqui a pouco), mas a direção é o que comanda tudo. Concluindo, ela não é tudo isso, mas também é algo a ser visto na película. Ou seja, ela se situa em algum lugar entre a incompetência e a perfeição (mediano). E, se visto com outros longas da filmografia de Marc, é um ponto altamente excelente. Acredito que o que melhor vi de Marc até o exato momento foi Em Busca da Terra do Nunca, com Kate Winslet e Johnny Depp, que mesmo sendo um pouco bobo para meu gosto, até que deu para engolir, já que o longa mostrou-se preciosamente delicado e profundo. Não gostei muito de 007 - Quantum of Solace. O Caçador de Pipas me deixou muito dividido. Este é Marc. Apesar dessa filmografia inteiramente média, confio que ainda sim ele nos mostrará algo de intenso valor. 

O elenco é particularmente adoidado, no melhor sentido da coisa. Dedicado, competente, eficiente, sem medo e inovador. Os membros atores são excelentes. Em destaque, o excentricamente talentoso Will Ferrell, em uma das performances mais notáveis de sua curta carreira, se não é a melhor que ele já fez até o momento. Atuando duplamente no drama e na comédia deste longa, Farrell é imperdível. Emma Thompson vem em seguida, encarnando uma escritora loucamente sem criatividade tentando encontrar, ao lado da assistente Penny (Queen Latifah), um jeito de matar Harold em seu romance. A Maggie exagerou um pouco, ou então ficou muito sem graça. Não dá nem pra falar dela. Dustin Hoffman apareceu timidamente, e saiu de fininho. Desse elenco estrelado, concluo que os dois que mais se saíram bem foram Ferrell e Thompson.

Mais Estranho que a Ficção (Stranger than Fiction)
dir. Marc Forster - 

Crítica: "O MESTRE" (2012) - ★★★★★


Prometi, não faz muito tempo, fazer aqui no blog uma resenha de O Mestre, de Paul Thomas Anderson, logo depois que falei de seu mais novo longa, Vício Inerente. E aqui ela está. Rever este filme maravilhoso pela incrível terceira vez não teve preço. Confesso que da primeira vez em que vi o longa não consegui simpatizar com ele. Faz um ano. A segunda vez foi um tempo depois deste. Na segunda vez, eu já estava bem menos agitado e mil vezes mais confortável. Essa segunda vez foi justamente criada no intuito de encontrar respostas às dúvidas da primeira sessão. A segunda sessão, levando em conta alguns fatores que foram extraordinariamente precisos, foi-me tremendamente melhor e mais interessante do que a primeira.

Concluo que O Mestre é uma obra inigualavelmente majestosa, vinda de um diretor queridíssimo cujos filmes sempre me agradam, sem exceder nenhum. Filmado em um enquadramento diferente, o que dá a ele uma sensação totalmente diferente e excepcional, O Mestre apresenta vestígios singulares para um filme de seu padrão. Não sei se é possível definir todo o complexo contexto de O Mestre em um adjetivo. Talvez sim. Insano. Provocador. Romântico. Sensível. Arrebatador. Constante. Medroso. Fiel. Belo. Atroz. Louvável. Essencial. Aprisionador. Violento. Jovial. Gracioso.

Aqui vai o meu conselho: se surgir a você a grande oportunidade de ver O Mestre, agarre-a com prazer e vontade. Mesmo que você ache que não gostará. Veja. O filme te traz uma sensação, e isso é o mais impressionante dele. Deixe-se levar pela inconsciência de Freddie, pela genialidade e técnica de Lancaster, ou o amor de Peggy. O Mestre, bom ou não, será uma experiência magnífica. Só pela fotografia em 70mm, já é por si só tocante demais. Desta vez, sem o auxílio de Elswit, Thomas Anderson se apoia no romeno Mihai Malaimare, Jr., que trabalhou recentemente em três longas de Francis Ford Coppola. Mihai, para alguém do estilo de Paul, parece ter se adaptado rapidamente e muito bem com qualidade e sucesso.

Vale lembrar que O Mestre é um filme que apresenta comportamentos, diálogos e sentimentos. Aviso já: se você não tem estômago para P.T.A., nem venha ver O Mestre, uma de suas melhores e mais profundas obras. O filme narra a jornada de Freddie Quell, um beberrão marinheiro da guerra que, após deixar a amada Dóris em Massachussets e ir combater os japoneses, tem uma melancólica instabilidade, e com isso, após o fim dessa guerra, resulta em um pesado e desconfortável vazio em sua já pequena vida. Em busca de trabalho, mais precisamente como fotógrafo, Freddie se mete nas mais ofuscantes emboscadas, até que um dia o destino o leva à porta de Lancaster Dodd, líder de um movimento independente chamado "A Causa", que segundo o próprio Dodd funciona como um culto, religião. E dentro desse culto, Freddie encontra o ser que se escondia por trás de sua face brincalhona e descontraída. Servindo de cobaia à Dodd, participando de suas técnicas e de seus inventos, ele se torna o mais fiel membro do movimento, ao passar do tempo com ele se acostumando aos frequentes conflitos que surgem. 

Mas o que realmente nos move é a significante quantidade de amor e fúria incluídos em O Mestre. Ver o quão maravilhosa e delicada essa obra é resulta em algo simplesmente aconchegante. O Mestre surpreende por que também te cativa, a todo instante, e mesmo que ele soe chato, é um filme que nos faz refletir sobre escolhas e consequências. Também, qual filme não surpreende quando põe em tela um elenco talentosíssimo? Nisso falo e destaco o trio que deu ao longa de P.T.A. as únicas indicações ao Oscar, das várias que eram merecidas: Joaquin Pheonix, Philip Seymour Hoffman e Amy Adams. Cada um, principalmente Joaquin (na melhor atuação de sua carreira até o momento), possuem performances igualmente dignas de aplausos e reconhecimento. Todas expressam às suas maneiras a graça, a dor, o triunfo, a paz, a paixão e a identidade das cenas desta obra, e a tornam bem mais completas. 

E o mais interessante em O Mestre é que o longa, em certas partes, não faz um pingo de sentido. E olha que é um filme que anseia por filosofia. Mas por outra parte é curiosamente bom ver que O Mestre não é um filme parado. Ele funciona tanto como épico, comédia, drama... É algo inspirador a ser visto nele. E aquece a alma... Enquanto filma um homem sem expectativas, esperanças, além de ser um bebum ferrado e agressivo no nível máximo, a trama de O Mestre também mostra que dentro dele há um pouquinho de humanidade. Mesmo sendo cruel e bipolar, em seu conturbado coração ele ainda sim encontra espaço para um amor, Dóris, que ao final o deixa. O Mestre é uma obra intensamente bela e espirituosa.

O Mestre (The Master)
dir. Paul Thomas Anderson - ★★★★★

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Crítica: "PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN" (2011) - ★★★★


Precisamos Falar Sobre o Kevin é uma obra intensamente desoladora e sensacionalmente extraordinária. Muito bom ter visto o longa e, consequentemente, a melhor performance de uma das atrizes mais talentosas que o cinema já viu: Tilda Swinton, no papel de Eva, a protetora mãe de um pequeno "capetinha" chamado Kevin, que a nenhum instante dá paz para a matriarca, que endoida com os endiabrados atos desumanos do filho, desde a infância até a juventude.

A cada cena, o espectador se vê cada vez mais próximo ao tremendamente assustador destino de Kevin e de Eva. E, mesmo que exista uma hora e quarenta minutos nesse intervalo, é impacientemente maravilhoso ver o crescimento de Kevin e sua relação conflituosa com a mãe, Eva, cuja única saída é apenas servir de "escrava" ao primogênito, que sempre a humilha e maltrata. Lynne Ramsay mostrou que, quem sabe contar boa história faz Precisamos Falar Sobre o Kevin: uma trama que, com estilo e inovação, mantém o público atento aos detalhes e ao desenvolvimento instigante de sua história macabra. Técnica cuja faz de Ramsay uma diretora exímia e que, possivelmente em um breve futuro, estará apta a mostrar ao mundo cinematográfico mais obras como estas.

As comparações deste longa com o clássico de Polanski O Bebê de Rosemary são bem válidas, apesar da própria obra de Polanski ser bem mais amedrontadora, já que é puro terror em si. Não sei se posso dizer que Precisamos Falar Sobre o Kevin é um longa de terror. Está bem mais para suspense do que para terror, apesar de ser um suspense inusualmente perturbador e peculiar. Nisso, posso até concordar que o filme desapontou, se relacionado ao que eu esperava. Não reclamem do final, por favor. Nem sempre o filme tem que deixar todos os detalhes de prontidão para o espectador se deliciar e sair pacientemente intacto do cinema (resumindo: espectadores, sem querer ofendê-los de preguiçosos, mas é preciso ser atencioso por que nem sempre terão tudo mastigado). Precisamos Falar Sobre o Kevin nos faz pensar muito e até por um tempo nos deixa bem inquietos e "paranoicos". Pode-se dizer que a ambiguidade de Precisamos..., num bom sentido, nos faz refletir sobre questões que, talvez, um filme "comum" (sim, entre aspas) de seu gênero nunca poderia talvez reproduzir. E essa ambição é arriscada, por que o espectador, além de ter altas chances de não entender algo do real objetivo do filme, ainda sim poderá culpá-lo de fracasso justo pela ausência de justificativas aos meios apresentados nele. Mas, raspando, Lynne soube arriscar triunfalmente e, como isso poderia se tornar, não foi um desastre. 

Faz bem lembrar que Precisamos Falar Sobre Kevin é um filme que não nos é tão incomum, falando de sua história. Apesar de que aqui no Brasil tudo, comunalmente, resolve-se na pancada/porrada/chicote/chibata/chinelo/tapa (uma educação que, apesar de nos últimos tempos ter sido significantemente diminuída e criminalizada em virtude dos problemas éticos e tal, é a forma mais justa e correta existente de se educar uma criança na forma de incentivo e castigo - digo isso sem medo algum de estar fazendo apologia ao crime -), sabemos muito bem que mundo afora existem pais que não utilizam e nem pretendem utilizar esse método como forma de repreensão, tais como aqui mesmo no Brasil. E Kevin é o melhor exemplo a ser visto de uma criança que não teve surras em sua infância, cujos pais não se ousaram e deram-se a liberdade de dar umas boas palmadas em seu filho. Resultado: o "diabinho" cresceu e virou um delinquente maquiavélico. Por isso, qual é a moral deste filme? Pais, por favor, não deem uma de "politicamente corretos" e evitem repreender seus filhos sob nenhuma circunstância aparente. Batam em seus filhos caso eles mesmos sejam antiéticos e imorais em suas presenças ou não. Essa forma de educação deve ser preservada por várias gerações adiante. Não tenham medo sob nenhuma hipótese. Medo eu teria caso meus filhos crescessem e tornassem a me maltratar e abusar constantemente da boa vontade de minha esposa e eu. Isso sim seria um fatal medo. Batam e batam. Violência pode ser doloroso, insensível e cruel, mas é a forma de repreensão mais eficaz. Pensem nisso.

Pensem como Tilda Swinton, que não pensou duas vezes ao ser convidada para interpretar Eva Khatchadourian, mãe que sofreu muito e pesarosamente foi maltratada no período de criação do jovem Kevin. Como resultado de sua lendária e majestosa interpretação, indicações ao Globo de Ouro, BAFTA, SAG, Critics Choice Awards e tudo o mais, exceto o Oscar (uma das mais imperdoáveis esnobações). Assistam Precisamos Falar Sobre o Kevin pensando em Tilda Swinton, e garanto que não estarão arrependidos de forma alguma. Ela é excepcional. A culpa de sua personagem é transmitida a todo vapor em dor, fúria, desespero, impulsão e tragédia em sua encarnação absolutamente brilhante.

Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin)
dir. Lynne Ramsay - 

Crítica: "O DUPLO" (2013) - ★★★★


O Duplo, novo longa de Richard Ayoade, ator e cineasta inglês que em 2010 dirigiu Submarine, é literalmente uma peça rara. Adaptação do romance homônimo do russo Fiodor Dostoievski, o longa é uma coisa de louco. E até que emociona, mesmo que seja incansavelmente bizarro e estranho a ponto de deixar o espectador desnorteado. Simon James, um homem solitário, tímido e infeliz, que trabalha em uma empresa corporativa, vê seu já pequeno mundo desabar com a chegada de James Simon, um homem fisicamente idêntico à ele que faz de tudo para atrapalhar seu comportamento e roubar suas ideias, sempre se safando de todas.

Entre umas e outras, O Duplo surpreende por que é íntegro e original. Caso contrário, não teria dúvidas de que o experimental seria uma completa cópia sem sentido dos grandes clássicos do cinema nonsense. O que, possivelmente o tornaria chato e consequentemente repetitivo seria o uso de referências alusivas para complementar a trama. Como aqui não vejo presença de tal característica, o longa logo se torna bem sucessivo pra mim, justo por essa vitória contra o clichê. E mesmo que o roteiro use e abuse da trama com invenções táticas que mais atrasam do que evoluem a história e o desenrolar do conflito, fica meio pesaroso reclamar disso quando já se é mil vezes mais divertido e satisfazedor ver o quão maravilhoso é o uso de elementos e detalhes com tamanha perfeição, que claramente exibem o talento e a maturidade de Ayoade.

Jesse Eisenberg é incrivelmente sensacional e poderoso ao fazer o duplo papel de Simon e James, apesar de que poderia ser melhor. Fazendo um papel que poderia muito bem dar-lhe maior reconhecimento do que ele recebeu de fato, ele ficou ainda sim escondido pelo clima aventureiro e atipicamente obscuro da história que não deu chance à ele de dar aquela grande "virada", que no final, não acontece. Ainda que sua interpretação seja boa, completa e concretamente engajada, faltou algo para fazê-la insubstituivelmente memorável, digna de um, por exemplo, Oscar, já que o próprio Jesse, desde que fez Mark Zuckenberg em A Rede Social, vem chamando muito a atenção dos votantes da Academia, que só estão esperando por outra grande interpretação a fim de dar ao ator mais uma nomeação e possivelmente sua primeira - merecida - estatueta. Diria que até por este O Duplo, que o exibe com força, uma indicação ao Oscar bem seria suficiente no fim de reconhecer o esforço do ator aqui. Com sensibilidade e furiosa majestosidade, Richard Ayoade faz seu melhor filme até o momento assumindo a direção de O Duplo. Também autor de um roteiro estratégico e bem-montado, elogios são inteiramente necessários à Richard na intuição de demonstrar seu papel de extrema importância no longa. 

Mia Wasikowska, que ultimamente revelou-se demasiadamente talentosa e matura para sua "idade" (digo é, atores teens desta geração não tendem a trabalhar tão seriamente em adaptações da literatura russa e ainda sim filmes de David Cronenberg), aqui continua belíssima como natural. Apesar de que a sua revelação tenha sido em Alice no País das Maravilhas, quase não possuo dúvidas de que sua revelação dramática e coadjuvante tenha sido neste filme. Uma pena que, de tão bom que é, O Duplo tenha demorado dois anos para ser lançado aqui no Brasil, já que só chegou em nosso circuito em janeiro deste ano.

O Duplo (The Double)
dir. Richard Ayoade - 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Crítica: "A ERA DO RÁDIO" (1987) - ★★★★★


A Era do Rádio talvez seja o filme mais autobiográfico já realizado por Woody Allen. E um dos mais completos, diga-se. Em questões de caracterização, muita gente, ao ver A Era do Rádio, remotamente poderá se lembrar de A Rosa Púrpura do Cairo, fantasiosa comédia romântica de Allen que antecedeu essa, que fica bem mais para uma comédia de época do que para romântica. A Era do Rádio, cuja trama é narrada por Woody, centraliza-se na vida e no cotidiano de uma família judia de Nova York em meio às transformações do mundo à sua volta através de um dos meios de comunicação mais populares daquela época: o rádio (idolatração e importância que hoje se iguala à televisão). 

É muito interessante ver a análise de Woody, que praticamente vivenciou o pico da "era do rádio", sobre esse instrumento e sobre seu extremo valor para a sociedade e para o transporte de informações. O rádio, hoje, torna-se menor em meio à tantas outras áreas desenvolvidas, ainda mais como a TV, o cinema, a internet. Pode-se afirmar que atualmente ele não tem mais importância para nós, em quesitos de informação e comunicação em massa. Mas naquela época, era uma preciosa tecnologia. E Woody preza nessa ode aos velhos tempos nos quais o rádio imperava o fato de que um dia, o rádio já teve uma alta significância. 

A Era do Rádio, mais do que interpreta e encarna os tempos do aparelho radiofônico, também trata-se de uma singela memória. Ou até mesmo um filme sobre memórias, e como elas são de tamanho significado para nós. Com isso, Woody, nesse plano, anseia por identificar o quanto a era de ouro do rádio persiste firme e forte em perseguir seus pensamentos e firmar suas memórias da infância. Em narrações que mais se parecem com segmentos antológicos, se não fosse por Woody estar narrando cada um deles, é possível ver que pela enfatização, pela força, pela inquietude, o rádio marcou as lembranças desse gênio para sempre. As músicas, as novelas, os comerciais, as transmissões jornalísticas... Como em um livro, Woody se recorda em breves momentos de cada programa, e ainda faz questão de relembrar os shows favoritos de sua família, inclusive ele, amante de "O Vingador Mascarado", tendo até mesmo cometido uma espécie de "crime" no fim de conseguir um poderoso anel do personagem, roubando das doações escolares a quantia de quinze centavos - valor do tão conflituoso anel.

A maioria dessas memórias são fielmente cômicas, e inocentes. E a maioria dessa comédia baseia-se nos retratos da família judia de Woody, numa época onde todos (acredito que por conta da guerra) viviam juntos: avós, tios, sobrinhos, filhos... Mas é tudo tão delicioso que é impossível dizer que não era uma coisa divina conviver dentro daquela família, sendo - ainda mais - Woody, que pra lá e pra cá só levava pancada dos pais. A Era do Rádio é um dos únicos filmes de Woody que ganha a chance estupenda de ganhar aclamação geral, tanto do público mais entrosado tanto quanto do público mais reservado. Todos amarão A Era do Rádio, por que ele se trata tão enfocadamente das lembranças, e é muito fácil assimilar as memórias de Woody Allen às nossas. Afinal, os tempos, sempre distantes em idade, nunca estão tão distantes em semelhança.

Uma das cenas mais memoráveis é a cena onde Bea, tia de Joe (Woody, feito por Seth Green), uma mulher encalhada que sempre é largada pelos homens com quem tem encontro, sai com um simpático cara. Bea é largada sem ser por motivo de beleza ou condição de sua parte, mas sim por peculiaridades inusuais e cômicas da parte deles (por exemplo, um dos homens com quem sai revela ser gay), que são bem remetentes aos nossos tempos. No final do encontro, eles se encontram no carro, e uma neblina "romântica" invade o espaço à frente do homem, que dirige. A música tocada é interrompida e o jornal anuncia a suposta "invasão marciana" (pra quem não sabe, Orson Welles, um dos maiores gênios da comunicação e um dos mais importantes artistas americanos, antes de se lançar no cinema, narrava histórias no rádio. Uma de suas narrações mais famosas foi a leitura do texto de Guerra dos Mundos, do escritor inglês H.G. Wells, que retratava a Terra sendo invadida por marcianos. A narração gerou pânico geral na população. Naquela noite de 30 de outubro de 1938, muitos, após terem ouvido a 'transmissão', se suicidaram). Com isso, o homem sai desesperado do carro, a deixando ir só para casa, no meio da neblina. Woody, nessa parte, preferiu reproduzir a comicidade do momento em vez de demonstrar o drama do povo diante da notícia. 

A Era do Rádio, em outras palavras, é uma obra simplesmente imperdível. Um dos filmes mais divertidos e excentricamente inteligentes já feitos por esse gênio incorrigível e neurótico, que sempre nos surpreende com suas maravilhosas aventuras sobre a vida e seus casos. Muito bom filme. Me deu muito o que pensar. Para quem procura um conteúdo de qualidade, um relato fiel e épico sensacional: A Era do Rádio é o melhor lugar. Ainda mais para você, fã de Woody, não perca por nada esse filme. É uma de suas películas mais essenciais. Arrisco: é tão memorável e retrativo quanto Amarcord, clássico de Fellini. 

A Era do Rádio (Radio Days)
dir. Woody Allen - 

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Crítica: "UM MÉTODO PERIGOSO" (2011) - ★★★★★


Filme é igual comida. A cada paladar diferente, o gosto muda. Estava com receio de ver Um Método Perigoso, justamente pela enorme quantidade de resenhas que mal-diziam o longa, e que acabaram me contagiando, reproduzindo uma expectativa negativa quanto à ele. Não tive a oportunidade de vê-lo anteriormente justo por conta disto. Mas, hoje, tomei coragem para ver. E eu gostei. Gostei não, adorei Um Método Perigoso. Muitos dirão que é exagerado, entediante, não é autêntico e mil e uma desculpas a resultado de difamar ou desqualificar a obra, mas eu gostei. Eu achei  tão profundamente interessante. Depois de assistir, cheguei a ficar espantado com a negatividade com a qual o filme foi recebido. É muito bom.

Para quem gosta, trabalha ou estuda filosofia, é bem recomendável. Para aqueles que tanto possuem pouco ou muito conhecimento da área, Um Método Perigoso será essencial, até por que retrata o importante trabalho de quatro importantes membros da psicoanálise, dando ênfase em três deles: Carl Jung, sua paciente e amante russa Sabina Spielrein e Sigmund Freud. O quarto é Otto Gross, apesar de seu trabalho ter sido mostrado com pouca amplitude na trama. Como épico, o longa reconta o método e as teorias de cada um desses filósofos em torno de uma série de distúrbios psicológicos envolvendo inibições/repressões sexuais.

É de fato peculiar ver um diretor da categoria de David Cronenberg dirigindo longa tão sério, de caráter estético e histórico tão rígido. Muitos, na estreia de Um Método Perigoso em Veneza, se sentiram desapontados em relação à Cronenberg, pela direção do filme e por ele ter assumido neste projeto algo tão diferente do que ele usualmente realiza, apesar do mesmo longa ter propriamente em si uma boa parte do estilo filmográfico dele. No entanto, parece que apenas eu pareço estar perdido no meio de tanta decepção alheia quanto à produção. Mas respeito a opinião dos outros quanto ao longa. Até cheguei a suspeitar e crer em algumas, que me levaram a duvidar da qualidade desta película, desmentida após a sessão. 

O retrato é simplesmente excepcional. Algumas cenas usufruem de efeitos especiais a fim da caracterização da época, tais como as cenas de Freud e Jung no navio em direção à América. Muitas outras foram gravadas em um padrão de direção de arte simplesmente inacreditáveis de tão qualificados que são. Os jardins, os figurinos, os edifícios, os instrumentos. Outra parte devidamente interessante na contagem da história é a inclusão das tecnologias psicanalíticas da época, especialmente no início, quando Jung começou a desenvolver seu método, que são realmente curiosas e extremamente anciãs. É como se em Um Método Perigoso existisse um museu de psicoanálise e técnicas de psicologia completos sobre o trabalho feito por aquele grupo de intelectuais, o que, automaticamente transforma Um Método Perigoso numa estonteante obra intelectual, ainda sim que nele exista um lado sentimental bem forte. Voltando à direção de arte, nada duvido das filmagens feitas em 2010 nas belas paisagens austríacas e alemãs, verdadeiramente incríveis.

Um elenco competente como nunca se viu. Keira Knightley, (um ainda "desconhecido") Michael Fassbender e Viggo Mortensen formam um trio talentosíssimo de atores. Em destaque a bela Keira Knightley, que só revela sua beleza na metade do filme ao se envolver com Jung. Vê-la ridiculamente problemática e perturbada nas cenas iniciais quando o método proposto por Carl ainda era testado foi tortuoso, ainda mais pra quem viu a bela inglesa lindamente maravilhosa em Orgulho e Preconceito, onde sua jovial beleza é exposta ao todo em ampla escala. O roteiro de Christopher Hampton (baseado na peça dele The Talking Cure e no não-ficção A Most Dangerous Method, de John Kerr, publicado no Brasil, e cujo farei questão de procurar futuramente) é inteligentemente astuto e bem-montado. Cronenberg assume diante da câmera um papel legitimamente importante, e revolucionário. Um Método Perigoso termina assim. Me satisfez, me conduziu até o final, e me trouxe uma renomada e importante visão da psicoanálise e seu universo fascinante.

Um Método Perigoso (A Dangerous Method)
dir. David Cronenberg -