sábado, 12 de setembro de 2015

Crítica: "NOCAUTE" (2015) - ★★


alerta de spoiler!

Nocaute, negativamente, lembra O Lutador. A história de Hope, lutador que se perde quando a esposa morre e a filha é retirada de sua custódia e passa a odiá-lo, dialoga com o especial longa de Darren Aronofksy. Embora haja uma diferença muito específica entre esses dois filmes. Um abusa demais dos clichês e perde a confiança total do espectador facilmente, e o outro emociona singularmente por uma história que não deixa de ser real e comovente enquanto inova e nos promove interesse. O Lutador e Nocaute. Filmes separados pela qualidade. O desperdício da Rachel McAdams, do diretor (o mesmo de Dia de Treinamento, que deu a Denzel Washington o Oscar de Melhor Ator em 2002) e de James Horner em seu último trabalho cinematográfico tinha tudo para ser no mínimo bom. 

Não esperava que o filme fosse tudo isso já quando tive a oportunidade de ler uma curta sinopse do filme. Mas a performance do Jake Gyllenhaal recebeu nada econômicos elogios e, lido que o ator tinha se esforçado bastante para o papel, já que ele é um nato amante do boxe, esperava algo sim. Mas me decepcionei justamente com ele o filme inteirinho. A atuação inegavelmente possui pontos fortes, mas é fraca demais pro meu gosto e isso pra não falar que o roteiro praticamente joga fora o personagem e o ator em cenas sem clima e puramente inúteis, tão inúteis quanto este filme em si. 

A história peca quando julga o personagem indiscriminadamente e depois faz dele um vencedor. Superação poderia ser o nome alternativo de Nocaute. Seu quê moralista ajuda muito nisso e estranho demais não estar surpreso. Mas história de lutador sempre é a mesma. Aquele homem que sempre foi rejeitado e desprezado por todos, encontra no ringue o lugar que sempre lhe fora negado, mas fora dele os problemas, inicialmente neutralizados pelas incessantes e sangrentas porradas, chegam como uma avalanche para destruí-lo. Sempre foi assim e sempre será. O Lutador, cujo eu considero um dos melhores filmes deste tema que já tem permissão para virar gênero, também utiliza clichês em sua montagem, mas da forma correta, e isso não danifica o procedimento e o objetivo do retrato, ao contrário do que ocorre em Nocaute. Até o spoiler, mesmo que ridículo, tem mais graça do que o filme.

Aí a história começa a ficar quadrada, eu começo a bocejar, e tudo vira uma grande porcaria. Se bem que nem tudo é desgraça em Nocaute. A atuação do Forrest Whitaker, creio eu, é a única de todo o filme que dá pra engolir. E olha que ele vem só na segunda parte do filme. Mas até salva, pelo menos. Nocaute também é bem depressivo, e isso conta como força dramática, e não posso negar que isso ele tem de sobra, embora toda essa potência dramática seja infinitamente clicherizada. E a minha intenção, pelo menos ao ir ver Nocaute no cinema, era (centralmente) de ver o Jake num bom papel. Sai desapontado com isso, e também com a incompetência do longa e o dinheiro que tinha perdido e poderia ter visto outro filme qualquer melhor do que ele. E também não esqueço de que queria ver uma história já preenchida pelo clichê, mas que não me conquistasse tão fácil, sem nisso aprofundar as raízes. Chego à conclusão de que, se Nocaute pudesse ser entitulado com outra palavra além de Superação, creio que essa palavra poderia ser Decepção. Ou Queporraéessa?, quem sabe.

Nocaute (Southpaw)
dir. Antoine Fuqua - 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Crítica: "FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO" (2004) - ★★★★★


14 anos. Sim, há catorze anos o mundo todo junto assistia a um dos mais sangrentos, tristes e fatídicos genocídios de todos. E depois desse tempo todo, muita coisa - ainda sim - continua cheirando esquisito e confuso. Por isso, ver Fahrenheit 11 de Setembro, um dos filmes mais falados do Michael Moore (qual dele não é?), aliviou um pouco essa dúvida, e ainda sim nos deixou com muita coisa pra pensar, e é aí que a confusão volta - no bom sentido. Será mesmo tudo uma farsa? Será essa versão de Michael a correta? Não há porque não. Tudo faz sentido. Não tem como negar nada do que ele apresentou aqui. É a mais pura verdade sobre esse evento, e as provas deixam tudo bem esclarecido. Mas a consciência não se livra do pesar da confusão, e depois de visto o documentário ainda continuo um pouco abismado e perdido, assim como esse mundo em que habitamos. 

Não é um filme grande, apesar de ser um grande filme. Fahrenheit 11 de Setembro poderia ser muito bem um filme realizado em Movie Maker, por exemplo, e talvez isso explique o por que foi tão rápido prepará-lo. Mas, em compensação, sua importância, essencialmente para a melhor compreensão do evento-título e do governo Bush, na minha opinião, é de uma dimensão absolutamente enorme, quão obrigatória. Coitados aqueles, vítimas da suave ignorância, que creem que as causas do 11 de setembro param justamente na culpa dos terroristas, sem quaisquer envolvimento da própria política americana. E a força do cinema de Michael Moore aliado a uma história chocante e indubitavelmente provável resulta em Fahrenheit 11 de Setembro, o maior filme já realizado até o momento sobre o tema, que desde então veio gerando muito burburinho - e não culpo ninguém por isso. 

A narrativa explicitamente cômica de Michael Moore é motivo de gargalhada no cinema. Do começo ao fim, embora o clima trágico, que se sobressai na segunda parte do longa, também nos traga um sentimento muito intenso de dor e pena, rir é a alternativa assinalada por ele, e que está presente em todos os seus documentários. E esse "cinema desconstrutor" dele também não engana não. Muito fácil assemelhar Fahrenheit 11 de Setembro com o anterior, Tiros em Columbine, justamente por ambos abordarem a situação dos Estados Unidos de um ângulo usualmente ignorado, ou melhor falando ocultado. O título deste, Fahrenheit 9/11, em inglês, remete ao polêmico discurso de Michael no Oscar, enquanto ele recebeu o prêmio pelo já citado Tiros em..., no qual ele falou sobre a "nação fictícia" que Bush promovia em seu governo, o qual foi recebido com aplausos e vaias pelo público. O título vem justamente do filme de François Truffaut, Fahrenheit 451, no qual o cenário era um estado totalitário futurista. 

E muitas cenas imortalizam esse documentário como um exemplo raro do cinema documental de qualidade. Ele, ao lado de um militar, pedindo para que os políticos em Washington alistarem seus filhos no exército, ou a mãe de um dos soldados, entrevistada por Moore, em Washington debatendo com uma mulher que defende o presidente, e que gera consequentemente uma tensão lascada, e muito abaladora. Ou também o segmento que exibe uma região beira-mar desprotegida em Oregon, com o depoimento da polícia. Ver o quanto a verdade é escondida e a mentira propagada me deixa profundamente entristecido, e realmente é uma amostra autêntica de que a América não é um mar de rosas. 

Tá bem que a situação no Brasil não tá nada legal, mas imagine ter no controle um alguém do escalão de Bush? E quem acaba desfavorecido é o americano (os soldados que vão para uma guerra com nenhum objetivo, muitos dele nem voltando à pátria que inicialmente estariam protegendo). Mas que coisa louca, não? Por isso, rende ver Fahrenheit 11 de Setembro. E sorte a nossa, e a do cinema, de ter Michael Moore na liderança. Essa revelação precisa ser vista. É necessária para qualquer um. Porém, infelizmente nem todos vão escutar à Moore. Mas ele já deixou seu recado, e isso é o que importa, acima de tudo, no mundo documental. Uma grande obra é como termino essa crítica e classifico Fahrenheit 9/11

Fahrenheit 11 de Setembro (Fahrenheit 9/11)
dir. Michael Moore - 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Crítica: "ANNA KARENINA" (2012) - ★★★★


Embora certos aspectos desfavoreçam Anna Karenina em partes, como a questão da artificialidade, é impossível não ficar deslumbrado com sua rara e desnorteante beleza, que com certeza é seu melhor. Adaptação do homônimo e clássico romance de Leon Tólstoi, o trágico Anna Karenina relata um amor proibido entre duas almas à mercê da liberdade e também da discórdia e escuridão, invisíveis, que se escondem entre eles. A visão multifacetada do amor e do adultério segundo Tólstoi no livro já soava algo demasiadamente sofisticado e luxuoso. Essa magnífica peça da literatura, então traduzida para o cinema por Joe Wright, o talentoso diretor de Orgulho e Preconceito, frequente colaborador de Keira Knightley, vira algo que até agora é difícil de explicar, abismador e belo ao mesmo tempo, delicado e intenso, perigoso e saciável. 

Dono de uma proposta interessante e que, embora diferenciada, é preenchida voluntariamente por um ar teatral cativador e muito pomposo, Anna Karenina é sim uma obra de destaque, não só por isso mas por seu extremo cuidado em tudo. E o mais curioso é que tal cuidado, ora meticuloso, favorece muito tanto o elenco quanto o poderio técnico que esse longa detém. A tragédia chega como um furacão, cria dúvidas e nos faz questionar sobre a duplicidade do amor, e o nosso pensamento sobre amar e ser amado. Trair e ser traído. Há quem diga que este é um dos melhores livros já escritos - eu mesmo não discordo disso - mas que há motivos para a obra receber esta alcunha não posso nem de longe negar. Afinal, é tudo isso que Anna Karenina nos diz: amor. Chega dos romances repetitivos. Esse, à primeira vista, nos introduz um ar mais clicherizado, mas com o passar do tempo vê-se que nem tudo em Anna Karenina é clichê. Leon nos introduz o lado sensato, doce, afável deste amor proibido, e depois o amarga com tons rudes, frios e intensamente melancólicos de um desastre que toma conta da vida de Anna, a personagem-título, vítima desse desejo incontrolável. Por fim, tudo está englobado em Anna Karenina. Não tem como não gostar.

No entanto, o diagnóstico mais equilibrado para Anna Karenina é: "inovadoramente belíssimo pra quem sabe apreciar, estupendo para quem quer ver uma adaptação literária firme e competente, e acalentadora para quem apenas está procurando um filme de amor, como o pôster do longa bem mesmo anuncia: a story of epic love". Claro, nem todos acharão de Anna Karenina tudo isso, mas eu simplesmente adorei os chiques cenários e bem-desenhados, os figurinos bravíssimos da Jacqueline Durran, e a fotografia maravilhosa, que faz toda a diferença para a qualidade visual do filme, uma vez que a impressão de fundo levemente alternativa requer uma fotografia acirradíssima e bem-feita, como esta aqui de Seamus McGarvey, que é desnorteante. 

Mas, para que se preocupar com esse elenco, que só pelos nomes já consegue deixar seu recado por completo? Isso mencionando nossa talentosíssima protagonista, Keira Knightley, cuja atuação é mesmo encantadora como qualquer outra da atriz, e marca mais uma parceria monstruosamente impecável entre Keira e Joe Wright, com quem ela já havia trabalhado antes em Orgulho e Preconceito Desejo e Reparação, com muito sucesso. E eu mesmo espero que venham por aí mais extraordinárias parcerias entre os dois em mais filmes. Um brinde à este trágico e esbanjadoramente bonito Anna Karenina!

Anna Karenina
dir. Joe Wright - 

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Crítica: "NEBLINA E SOMBRAS" (1991) - ★★★


As únicas coisas, infelizmente, que me impedem de ver o novo filme do Woody Allen, Homem Irracional, é a minha distante localização, que gravemente me limita ao acesso dos cinemas onde o longa é exibido, e o tempo. Mas em breve creio que verei o filme, e estou muito ansioso. E como eu sou um grande fã do cineasta e não consigo parar de acompanhar a sua extensa filmografia passada, vejo - como aquecimento - um dos longas mais emblemáticos do cineasta: Neblina e Sombras, homenagem de Woody ao cinema expressionista alemão e que foi muito debatido em sua estreia, embora pra mim mesmo tal emblema não signifique em si nada. Afinal, como todo bom filme dele, o recado é deixado e não há como não rir diante de situações imprevisivelmente cômicas que surgem neste que é um pseudo-suspense dele, e nem mesmo pode ser considerado um, na minha opinião. 

Por conta dessa questão de ser um pseudo-suspense e enganar facilmente o público com a fotografia (maravilhosa) P&B, Neblina e Sombras causa um pouco de confusão, e mesmo que a mensagem do diretor seja claramente percebida, a nossa dificuldade é identificar esse filme como uma comédia. Numa cidade sem nome, mas que remete à Nova York por alguns cenários em comum, como o Central Park, referenciado em uma das locações, Kleinman, um azarento homem, é incluído em uma organização da vigilância da cidade para capturar um serial killer que faz suas vítimas pela neblina à noite. Após se atrasar para a caçada, o homem se perde e toma vários sustos pensando no assassino enquanto procura o grupo de vigilantes. Enquanto isso, uma engolidora de espada, que trabalha no circo, abandona o namorado artista e traíra e parte em busca de algum lugar para dormir nessa cidade nebulenta (personagem interpretada por Mia Farrow, em uma de suas últimas colaborações com Woody). Suas histórias, e a de vários personagens, se cruzam numa única noite.

E talvez esse também seja um problema que muitas vezes dificulta o nosso entendimento do filme: tudo se passa numa única noite. E embora Woody Allen seja o mestre do roteiro cinematográfico, não é em Neblina e Sombras que vemos esse roteiro tipicamente bem-trabalhado na sua melhor forma, e bem que poderia ser melhor. E com certeza este se trata de um projeto menor do diretor, embora a ambição esteja justamente nessa proposta de homenagear o expressionismo alemão. E se não tem nada de suspense, Neblina e Sombras nos apresenta o bom e velho humor do Woody, melhor do que nunca. Piadas ótimas, inegavelmente trata-se de uma comédia inteligente. Afinal, pode ser uma homenagem ao expressionismo, mas o humor não é excluído, como sempre. Talvez seja bem semelhante a Crimes e Pecados nessa questão do humor, retratos sérios, embora lá o humor e o suspense sejam explorados da mesma forma, igualmente, de forma com a qual houvesse um determinado equilíbrio. E aqui não. Como o filme planeja nos mostrar, é tudo ilusão. Woody, mesmo que comece de uma forma e termine de outra, volta a falar da ilusão em Neblina e Sombras. Esse é o grande tema dele, presente em quase todas as suas grandes obras. 

E se Woody não está tão bem quando deveria tanto na direção quanto no roteiro, cuja trama é envolvente, mas o clima quebradiço não disfarça em nada, o elenco, com ele junto, consegue rebater essa ausência. Mia Farrow, John Malkovich, Jodie Foster, Kathy Bates, John Cusack, Julie Kavner, Lily Tomlin, Phillip Bosco (sem falar nas pequenas participações de William H. Macy e John C. Reilly) e até mesmo Madonna - já ia esquecendo - estrelam esse que possui um dos mais ricos elencos de todos dos filmes de Allen. Caprichado elenco. A fotografia de Carlo Di Palma, embora contribua para essa problemática transição de climas, é bem-feita e espetacularmente bela. Uma fotografia que realmente nos transporta aos velhos tempos dos cinemas de Fritz Lang e F.W. Murnau. 

Neblina e Sombras (Shadows and Fog)
dir. Woody Allen - 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Crítica: "HACKER" (2015) - ★


Não só confesso que cochilei durante a sessão toda como também fiquei desapontadíssimo com o mais novo filme de Michael Mann, Hacker. Provável candidato a pior filme do cineasta, Hacker é tedioso, insatisfatório, clicherizado demais, fútil e nem sequer parece que é um filme dirigido pelo bom e invencível Mann, uma vez que é bem raro encontrar fracassos na carreira deste que é um dos mais talentosos e privilegiados diretores do cinema americano e o filme não tem o mesmo ritmo dos outros longas dele. Se não fosse pela típica câmera digital dos filmes dele, nem desconfiaria que era de sua autoria. Daria mesmo pra ver de longe que Hacker é do mesmo diretor de Miami ViceInimigos Públicos, O Informante e Fogo Contra Fogo? Impossível. As bem-gravadas sequências de ação aqui apresentadas - talvez duas delas na lista das melhores cenas já dirigidas por Michael Mann - enfraquecem, e ficam invisíveis de forma com a qual a falta de qualidade do filme fale mais alto do que a qualidade dessas cenas. Muito deplorável. 

Há quem diga que estava confiante com o anúncio de Hacker, ainda no ano passado, com a premissa de que seria um trabalho melhor que o anterior, razoável, porém belíssimo, Inimigos Públicos. Eu mesmo tinha apostado muito em Hacker. Até hoje quando o vi, mesmo depois de ter lido uma porrada de críticas ruins sobre ele. Se não for o único fracasso da carreira de Michael, Hacker é o pior deles. Inicialmente o filme é bem interessante, com sequências dotadas de um ótimo clima suspenso que movimenta a trama, além de passagens que em certos aspectos levam a gente direto para Inimigos Públicos. Mas a história fica confusa, os planos pouco definidos e a trama, de uma hora para outra amarga. Um apagão do nada. O suspense cai e nas cenas seguintes o clima desaparece, tanto que a única reação em seguida é sono. Uma ou duas vezes cochilei vendo Hacker na tela da TV (entende-se por que o filme não chegou ao circuito nacional), isso por que mesmo vendo filme em casa não tenho o hábito de cochilar. 

Justamente na cena que prometia ser a mais envolvente do longa, a mistura de uma porção de emoções num só lugar resulta na incompreensão. A câmera nervosa de Michael ajuda muito na adrenalina, se não fosse pela mistureba que a cena vira, e aí perde a graça. Naquele instante dá vontade de apertar a opção "abrir" do aparelho reprodutor, tirar o DVD lá de dentro e quebrar o disco ao meio. Dá raiva demais. E eu só conseguia pensar: "Essa porcaria é do Michael Mann?". E o pior é que no cinema seria bem mais econômico do que o DVD, e talvez não sairia tão irado da sessão por isso, quem sabe? 

Chris Hemsworth não brilha em nada aqui e só está de enfeite mesmo (não diga?). Queria mesmo ver a Viola Davis dando um show aqui, mas ela infelizmente não convence nada no papel de uma detetive sangue bom que entra na operação e pretende ajudar o hacker. Para um intervalo de seis anos desde o último filme, Hacker vem como uma bomba e explode avassaladoramente em nossas mãos, destruindo por completo a esperança de ver mais uma grande obra de Mann, como sempre foi. 

Hacker (Blackhat)
dir. Michael Mann - 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Crítica: "A DAMA DE FERRO" (2012) - ★★


Trabalhar com uma história tão intensa, profunda e importante como a história da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, cheia de altos e baixos, pode ser uma tarefa demais exigente. Muito provável que a inexperiência de Phyllida Lloyd (a mesma de Mamma Mia!) tenha uma grande influência no desastroso fracasso de A Dama de Ferro, que tinha tudo para ser uma grande obra: um roteiro inteligente, Meryl Streep, a trilha sonora de Thomas Newman. Mas falhou. Este que deveria ser um retrato histórico marcante vira um chato e menor drama que só rende mesmo pela incrível performance de Meryl Streep na pele de Thatcher. Se você está interessado em ver a Meryl abusando de sotaques e imortalizando em mais uma atuação desoladora, garanto que muito provavelmente gostará. É claro, se não fosse pelo filme...

A história apresenta a vida de Margaret Thatcher, sua experiência no governo e como ela foi severamente reprimida em seus primeiros anos como Ministra da Educação, sendo muitas vezes rebaixada e subestimada pelos colegas do governo. Também, coitada, sendo a única mulher entre aquele bando de homens, quem não? O velho preconceito machista de sempre. Afinal, a gente acha que quem tá no controle político hoje em dia é a mulher, mas o pior é que, mesmo com Dilma Rousseff e Angela Merkel, a realidade é totalmente contrária. Até hoje, a mulher possui um espaço pequeno dentro dos círculos políticos. Mesmo num mundo tão transformado, século 21, a mulher ainda sim não é valorizada do jeito que deveria. Até isso é protestado por A Dama de Ferro em um determinado momento. Muita gente continua achando que, mesmo sendo superior, a mulher não tem lugar no poder. E num mundo tão diversificadamente globalizado como o nosso, isso é uma baita de uma vergonha.

Adorada e odiada por muitos, Margaret teve de ceder quando não pôde mais resistir à pressão do seu partido, sendo até mesmo substituída na candidatura de um novo líder para ele durante seu mandato. A Dama de Ferro, apesar do clima revolucionário que aspira, mostra um lado que infelizmente é real do papel feminino no poder. Poxa, em tempos de Hillary Clinton candidata à presidência da maior potência do mundo, é bastante trágico. Mas o bom é que isso está perto de mudar. A resistência feminina vem crescendo bastante e, apesar dos frequentes deslizes, a mulher vai aos poucos mostrando do que é capaz e em breve não tenho dúvida de que ela será valorizada da forma que merece. Afinal, no fim das contas, a mulher é bem mais superior ao homem em certos quesitos, e o respeito à ela é primordial e necessário. 

Bem, já que A Dama de Ferro me desagradou bastante como filme, vou falar do quanto gostei de Meryl Streep em uma das performances mais eletrizantes e imbatíveis de sua carreira, e candidata à mais importante, em termos de dimensão, apenas perdendo para A Escolha de Sofia. Intepretar Margaret Thatcher é de uma responsabilidade do cão para qualquer fera do cinema. E, se a história de Thatcher fosse passada no Brasil, se tivéssemos uma ícone da política semelhante à ela (e temos, acredito) ela seria interpretada perfeitamente por Fernanda Montenegro. Nem de maquiagem precisaria. Mas, enfim, como estamos bem longe de ter uma ícone totalmente igual à Margaret uma vez que a república foi declarada em 1889, e A Dama de Ferro leva em si aspectos bem distintos do que uma história brasileira teria (primeira-ministra filha de um quitandeiro que também é prefeito da cidade no Brasil?), propriamente dizendo, melhor não fantasiar demais para não criar paranoia. Embora esteja portando quilos de maquiagem na maioria das cenas em que aparece, Meryl em nenhum segundo deixa de ser espetacular, e seu talento é esboçado com força aqui. À exceção do ar de autoridade, nenhum papel jamais feito por Meryl é semelhante a este aqui. Ela deve ter ficado bem animada e atarefada com esta performance. Mas nada é difícil para Meryl. Embora eu particularmente ache que A Dama de Ferro poderia ser bem maior do que o apresentado aqui, ela deixa seu recado e faz de um fracasso a moradia de uma de suas mais icônicas atuações. Isso porque não caiu uma gota de lágrima dos olhos dela o filme inteirinho, e visto de um ponto mais radical isso faz parte da interpretação minimalista de Thatcher, figura autoritária e séria. Por Meryl, vale ver A Dama de Ferro. E no final, ela acabou sendo a melhor escolha para este papel, já que autoridade é um dos traços mais marcantes de sua linha de personagens (O Diabo Veste Prada, Dúvida e o legado dela mesma como atriz, só como exemplo). 

A Dama de Ferro (The Iron Lady)
dir. Phyllida Lloyd - 

domingo, 6 de setembro de 2015

Crítica: "IMPÉRIO DOS SONHOS" (2006) - ★★★★★


O segredo para aproveitar Império dos Sonhos é tentar não entendê-lo. É bem tentador quando Lynch faz de tudo para transformar essa embaralhada e absolutamente non-sense trama num suspense de mão cheia, o que este filme certamente não é. Quanto menos você tentar entender a complexa conexão que instala-se por essa série de segmentos apresentados aqui em Império dos Sonhos você evitará o desapontamento, e mais cultivará um apreço por essa obra, que tem uma tremenda qualidade. Muita gente, na esperança de encontrar um novo Cidade dos Sonhos neste Império dos Sonhos (o título nacional para Inland Empire pode deixar muita gente confusa devido à semelhança com o filme de 2001), acabou não gostando deste último justamente por não ter achado nenhuma compatibilidade suficiente para esses dois filmes. E não é mesmo. Como sempre, as distribuidoras brasileiras semeando a infelicidade por conta dos idiotas títulos dados aos seus filmes... Segundo o próprio David, Inland Empire - o original - nem mesmo faz sentido para a própria história que aqui ele apresenta. Imaginem então Império dos Sonhos?

O característico pseudo-suspense que David cria em suas obras como uma maneira inteligente de disfarçar o bizarro surrealismo delas é testado constantemente neste Império dos Sonhos. E o público, nesse mix de curtas realizado pelo diretor, até pode se confundir. Mas a mais pura verdade é que não tem nada do que compreender nesse Império dos Sonhos. E se tem, é através dos símbolos que representam o nosso medo pelo inexistente, pelo possível que nem aconteceu. Esse medo, muitas vezes tema do surrealismo presente do cinema dele, também é voluntariamente inexistente. De mentirinha. A bizarrice de sua filmografia representa esse medo pelo nada, medo que nem mesmo faz tanto sentido assim. E com certeza não é pra. Em Império dos Sonhos, Lynch deixa o controle nas mãos do espectador e somos nós que alimentamos esse suspense para depois descartá-lo numa alternativa transparente e traíra. A ideia por trás de Império dos Sonhos não é concreta. Consequentemente, nossa compreensão é totalmente desnecessária. Tudo porque David Lynch, ao convidar a atriz Laura Dern para filmar uma série de curtas, viu que entre esses distintos curtas havia uma certa conexão que não era proposital. Daí surgiu Império dos Sonhos: segmentos distintos com uma ligação que na verdade só significa uma simples ligação, e nada mais além.

Quem acompanha a filmografia de David sabe que seus filmes geralmente são bem soltos, as pistas ficam jogadas, prontas para serem codificadas pelo espectador. E aqui é totalmente ao contrário. A pista é a ligação. E só. David Lynch faz dessa coincidência a grande sacada de todo o longa. Mas isso não necessariamente leva à conclusão de que Império dos Sonhos é um grande nada. Essa especial ligação, ao lado da nossa interpretação, é o que faz do filme algo de valor. David, de uma certa maneira, nos convida a dirigir o filme com ele. Escrevê-lo com ele. Sentir o medo na pele. Sentir esse estranho impacto que é a ilusão. E o que mais assusta é a complexidade que esse medo assume com a aproximação dos eventos. Medo que é vítima e cliente da ilusão. Assim como os segmentos paralelos se conectam, há uma ligação muito essencial entre medo e ilusão que compõe o clima tenebroso de Império dos Sonhos.

Quem já viu Rabbits, curta surreal de David protagonizado por três coelhos e um segredo, verá fragmentos do curta que não é tão rápido assim utilizados na trama de Império dos Sonhos, isso não só uma vez, o que talvez serve de prova que o filme é mesmo uma interconexão de trabalhos de curta-metragem do diretor misturados em uma coisa só. E essa mistura resulta em algo muito único, excêntrico, e de fato interessante. Império dos Sonhos - muito provavelmente o trabalho mais enigmático e inexplicável de David Lynch - é sensacional e primordialíssimo.

O primeiro filme digital de Lynch deixa uma impressão cuidadosa e horrenda de que as estranhezas da imagem também contagiam o espectador. Não é por acaso que o filme soa tão amador. A utilização desse serviço só reforça o suave e onírico terror que a proposta do longa já nos introduz. E quem sabe Império dos Sonhos não seja um grande sonho? Ou pesadelo? Ou a junção de um bom sonho e um torturador pesadelo, uma vez que a atriz Nikki recebe no início a maravilhosa notícia que ingressará o elenco de um filme mas com o passar do tempo essa sua notícia vira um inferno depois que ela supostamente se apaixona por um ator e essa proibida paixão repercute numa desconexão da realidade e da ilusão? A prova de que Império dos Sonhos é um filme genial está nessa sua falta de sentido abismadora e firmemente surrealista: as interpretações que são concebidas depois de visto o filme também provam que, no fim das contas, até um filme com o mais fraco propósito é capaz de refletir em duvidosas impressões. E a Laura Dern, essa figura que simboliza o estranho palco de assombrações enquanto dá um show vibrante numa performance preenchida com delírio, amor e perdição - performance da qual Lynch fez um baita esforço para concorrer a um Oscar em 2007. Lynch, Dern e Inland Empire. Que coisa louca são esses três juntos... Que coisa louca e fantástica é Império dos Sonhos!

Império dos Sonhos (Inland Empire)
dir. David Lynch -