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sábado, 11 de junho de 2016

Crítica: "OS PÁSSAROS" (1963) - ★★★★★


Mal podia aguentar a ansiedade voltando pra casa após ter comprado o DVD de Os Pássaros num sebo na última segunda-feira. Sou um fã de Alfred Hitchcock, e, por acaso, reparei numa banquinha de DVDs no sebo do mercadão de São Miguel depois de uma consulta médica. Parei para observar os DVDs e, para a minha surpresa, encontrei um Hitchcock escondido, Os Pássaros, da coleção Hitchcock da Universal. E também comprei Três Reis, que ainda não vi. Se o bolso permitisse, teria comprado mais (como por exemplo Traídos pelo Desejo ou outros títulos dos quais não me lembro agora). Enfim, ansioso do jeito que sou fui ver Os Pássaros no mesmo dia, mais tarde. Correspondendo às expectativas, o filme foi uma experiência cinéfila arrebatadora. É, definitivamente, uma obra-prima clássica do cinema, e um dos melhores filmes do mestre Hitchcock.

Imagino como seria se eu tivesse visto o filme no cinema. Se em DVD já foi uma baita experiência, imagine então na telona, que inesquecível seria... Puxa, é um sonho. Mas, enfim, bora discutir um pouco dos aspectos técnicos da obra, da direção do Hitchcock, do elenco, e de todas as qualidades dessa inegável joia cinematográfica.

A primeira cena do filme se passa num pet shop, onde Melanie Daniels (Tippi Hedren) conhece um advogado, Mitch Brenner (Rod Taylor), e fica tão interessada e encantada com o homem que decide segui-lo de carro até a cidade onde ele mora, localizada no interior. Após a chegada da moça, os moradores da pequena cidade passam a ser aterrorizados por uma série de ataques violentos de pássaros. 

Chega a ser incrível como o Oscar, em tempos passados, esnobou e deixou de fora tantas obras-primas do cinema, muitas delas dirigidas pelo Hitchcock, como Os Pássaros, que só recebeu 1 (sim, só uma) indicação, em Efeitos Visuais. Há quem diga que injustiça é o que não falta no Oscar nos dias de hoje, mas no passado essa onda era mais forte, se a gente for ver de perto. E isso não aconteceu só com Os Pássaros, no que diz respeito a injustiça e esnobações com a filmografia de Hitchcock. Será que a Academia não gostava do Hitchcock assim? Ou talvez os membros da Academia no passado eram muito invejosos pra não indicá-lo. 

De qualquer maneira, convenhamos, Os Pássaros, com Oscar ou sem Oscar, é um filme obrigatório, necessário em todos os sentidos. Inovador, refinado, autêntico, estiloso, marcante, simplesmente memorável. Os Pássaros possui de sobra todas as características de uma grande obra fílmica, e merece ser reconhecido à altura.

Num filme com tantos atores talentosos, tantas performances impecáveis (Suzanne Pleshette e Veronica Cartwright, ótimas, só pra mencionar), a grande estrela acaba sendo Alfred Hitchcock. Aliás, não sei em qual filme ele não é o principal, o mais importante. Poucos diretores conseguem ser tão influentes dessa forma. Afinal, é pela direção de Hitchcock que a maioria dos filmes dirigidos por ele esbanjam tanto sucesso, legado, classe e aclamação. A direção de Alfred é o melhor de Os Pássaros. Perfeição e excelência na medida certa. É também pela agoniante atmosfera de horror, pelas sequências tenebrosamente bem-dirigidas, pela condução extraordinária do elenco, pela qualidade do filme que Hitchcock deve ser parabenizado, e agradecido. 

Creio que Os Pássaros convença mais como terror do que como um suspense. Se bem que há algo de complexo e excepcional no mistério metafórico que o filme abriga. Afinal, depois da sessão, fica um clima de suspense no ar. Chega a ser algo até meio natural, tratando-se de um filme do Hitchcock, que já traz o suspense "automaticamente" cravado em seu estilo. 

Vale ressaltar que Os Pássaros é um filme magistralmente impressionante e convincente. Não que os filmes do Hitchcock não sejam, mas Os Pássaros é um destaque ímpar, e muito é por conta da direção, mais uma vez exímia, do mestre e as performances seguramente digníssimas de um elenco pra lá de versátil. 

Outra coisa espantosamente fascinante em Os Pássaros é a fotografia brilhante de Robert Burks, na 11ª parceria com Hitchcock. Exemplificando, a cena final é de uma beleza visual hipnotizante. Também gosto demais da sequência da Melanie dirigindo rumo a Bodega Bay no quesito visual, especialmente com aquelas lindas paisagens de fundo. A edição, primorosa, também é um artifício técnico notável, fundamental para a qualidade de Os Pássaros.

A qualidade estrutural e técnica do longa desencadeia em diversos fatores que contribuem para o status de obra-prima de Os Pássaros, como na arquitetação de uma atmosfera de tensão genial, no dimensionamento do horror e na propagação de um mistério inquieto e afiado, contribuintes indispensáveis à trama e à primordialidade do desfecho. 

Os Pássaros é mais uma das fiéis provas da maestria e primor de Alfred Hitchcock, definitivamente um dos maiores diretores de todos os tempos e um gênio cinematográfico atemporal. Os Pássaros é sobre o medo do desconhecido nos controlando, a peculiar natureza do caos e dos mistérios que nos cercam, o desespero diante da incomunicabilidade... É também sobre a nossa capacidade quase invisível de auto-manipulação, de como nos transformamos em alvo dos nossos próprios medos diante da mudança, do incomum, da transformação. Um filme mais que genial. Muito bem-feito. Muito bem produzido. Muito bem em tudo. Nota 10 é pouco para Os Pássaros.

Os Pássaros (The Birds)
dir. Alfred Hitchcock - ★★★★★

terça-feira, 14 de julho de 2015

Crítica: "UM CORPO QUE CAI" (1958) - ★★★★★


Assombrador, inesquecível e genial, Um Corpo que Cai é um daqueles filmes únicos. Únicos mesmos. Incrivelmente originais e sensacionais, cujo final estremece e deixa o espectador acordado por toda uma noite, sem tirar de sua cabeça as cenas atormentadoras, brilhantes e sensivelmente torturadoras do longa, saídas da perplexa e contundente mente de Alfred Hitchcock, gênio absoluto do cinema, e um dos diretores mais idolatrados e conceituados da história. Depois de vistas obras do cineasta, tais como esta aqui, Psicose, Os Pássaros, Janela Indiscreta, Disque M Para Matar entre outras plausíveis películas encantadora, vê-se bem mais além dos motivos dessa aclamação. 

Inacreditável a crítica, na época do lançamento do filme, ter tão veemente atacado Hitchcock e difamado essa belíssima obra, com acusações, desculpem-me a severa linguagem, idiotas e sem sentido algum. Sem querer maldizer a década de 50 inteira pelo tal erro crítico, mas sinceramente, Um Corpo que Cai foi um filme visto de uma maneira errada, já que a interpretação do filme àquela altura foi da qual a trama era supostamente mal-contada por Hitchcock e o desfecho final era inteiramente controverso e inadequado, além de irracional, já que o vilão, à vista da crítica daquela época, repito, foi uma personagem muito "escondida", que não teve a oportunidade de ser explorada na história, e isso foi uma catástrofe para o desenvolvimento da trama - uma desculpa quão fatídica e sem conteúdo algum -. Enfim, só queria mesmo deixar claro o quanto fiquei triste por tal recepção, pois não tenho dúvidas de que Um Corpo que Cai é um dos melhores filmes que eu já vi em toda a minha vida, e possui uma das tramas mais bem-montadas e inteligentes da história do cinema. O sucesso de Um Corpo que Cai, grandioso, ainda sim pra mim foi pouco, para a extensa qualidade dessa obra de primeira.

Candidato provável e certeiro ao top 5 dos melhores filmes de Alfred Hitchcock, Um Corpo que Cai surgiu como última opção. Minha internet, hoje, por volta das duas da tarde, caiu repentinamente. Foi um pequeno erro da operadora. Depois de muita discussão, só agora ela foi voltar, inesperadamente, já que o prazo dado por uma das atendentes era de até 72 horas - absurdo -. Como eu tinha planejado anteriormente ver Drácula de Bram Stoker, numa cópia legendada na internet, fiquei sem ver. Por sorte, encontrei aqui no computador um download de Um Corpo que Cai, em uma pastinha intitulada "filmes", com vários outros títulos cinematográficos que me deixaram com, de fato, "água nos olhos". Minha Bela Dama, Crash - Estranhos Prazeres, Domicílio Conjugal, Dogville, O Bebê de Rosemary... Deu vontade de ver todos, mas a cópia que mais me agradou foi a de Um Corpo que Cai, em high definition, com legendas perfeitas... Uma cópia, de fato, dos deuses. Tais artifícios mais contribuíram para a minha ânsia em vê-lo, e que no final não pode ser contida. A sessão via computador, que eu tanto já previa detestar, acabou me agradando mais do que tais expectativas. E tanto ajudou para a minha adoração por essa obra de caráter singular e notório. 

É de invejar o talento de Hitchcock para o cinema. A forma com a qual o cara assume a liderança da direção com tanta bravura e excelência, e ainda sim conduz os elementos com tanta delicadeza e extrema virtude... Invejável é pouco. Talvez maravilhoso, ou algo do tipo. Um Corpo que Cai, mais do que um suspense inovador e que de uns tempos pra cá tem influenciado muitos outros thrillers, que fizeram bastante sucesso (citando um exemplo, Garota Exemplar, que praticamente copia o estilo da trama de Um Corpo que Cai, apesar de tal exemplo também nem ter tanto crédito assim vai, já que seu diretor, David Fincher, é um dos alunos mais competentes de nosso querido Hitchcock, para não dizer que é o aluno mais competente e fiel dele). 

Um Corpo que Cai é puro Hitchcock. Uma trama desfigurada, obsessiva e complexamente trágica, que não só transporta a loucura e o pânico da história para o público como também nos deixa mais sensíveis e até mesmo conspirados. Bom filme é assim. Mesmo depois que termina, ainda conspira e deixa marcas em quem o viu. No geral, boas marcas, já que a maioria delas diz respeito à sua qualidade.

Um Corpo que Cai é uma exigência cinéfila, em meus padrões. Hitchcock, de fato, é uma exigência cinéfila. E eu, como cinéfilo protestante - risos -, sou um fã ávido de Alfred Hitchcock. Na verdade, para ser bem sincero, o diretor, no início de minha cinefilia, que ainda é jovem, não me era tão interessante assim. Só de uns tempos pra cá vim a me intimar com o mestre do suspense e admirar todo o seu legado incomparável, de ponta a ponta, reconhecendo a inteira maioridade de sua carreira e a intensa qualidade de seus filmes. 

E ver Um Corpo que Cai pode muito bem traduzir-se em uma experiência de cunho esplêndido e magnificente. Não só me apaixonei de cara pelo filme como também pude avaliar meticulosamente seus traços, conseguindo arrancar de cada um deles suas preciosidades criativas. Fracasso? Que nada. Desculpa para falta de explicação. Afinal, é até bem compreensível essa eminente falta de explicação. Diante de um longa tão forte e raro como esses, palavras ausentam-se no primeiro instante, e falar sobre tal filme torna-se uma missão bem mais difícil do que a facílima inicial missão de amá-lo. Só pra encerrar: a trilha sonora é surreal/divina/insubstituível.

Um Corpo que Cai (Vertigo)
dir. Alfred Hitchcock - ★★★★★

quinta-feira, 12 de março de 2015

Crítica: "PSICOSE" (1960) - ★★★★★


Dentre os filmes essenciais da cinefilia, é impossível exceder Psicose, o filme mais conhecido do cineasta mais impactante de uma geração inteira (e um dos mais geniais, temo). Psicose, por mais dos poucos recursos que utiliza, é um filme fantástico. Uma lendária obra-prima cinematográfica, um dos nossos tesouros mais preciosos. As técnicas simplistas de Alfred Hitchcock não necessitam de explicação em um de seus filmes onde a direção é um dos elementos que mais se destaca.


Não há como duvidar, sob qualquer visão, do filme, quero dizer, das técnicas. São primitivas, é correto, mas são revolucionárias. É um dos pontos mais extraordinários de Psicose. Numa época onde filmes do gênero eram bem mais arriscados por serem polêmicos e violentos, Psicose tende a ser uma inovação lindíssima, e isso inclui a divina performance de Janet Leigh e a eletrizante trilha sonora.

O fim do espetáculo é o melhor. Inteligente, fugaz, indelicado e louco. É esse Hitchcock que eu admiro. Dono de uma filmografia ímpar, única, Alfred parece estar bem relaxado à Hollywood, um avulso universo de gêneros. Parece indiferente ao notar que é o maior representante de um gênero complexo e difícil. Homem de poucas palavras, não o culpo. Suas maravilhosas películas respondem ao título lhe dado. 

Sem efeitos visuais, sem computação, sem maquiagem, sem mixagem... Hitchcock fez nascer um cinema. Um cinema que particularmente me encanta. Neste filme, esse cinema dispensa pesados atrativos, ainda que nele tenha uma cena das mais icônicas já feitas na história, além de ser uma das mais bem fotografadas (e incluir um grito ainda mais simbólico). Cabelos molhados, papel rasgado, toalha arrancada... Psicose é tenebrosamente detalhista. Característica que exige atenção do espectador. Pra mim mesmo, clássico que é clássico só mesmo como Psicose: elementar e provocante, belo e feio ao mesmo tempo, novo e sensato, e que é claro, conte uma memorável história, para matar a fome, sabe? Nesse quesito, posso-lhes confiar: Psicose é um banquete!

Psicose (Psycho)
dir. Alfred Hitchcock - ★★★★★