domingo, 30 de outubro de 2016

Crítica: "THE SEARCH" (2014) - ★★★½


Se por um lado o promissor The Search não é como poderíamos esperar de alguém que dirigiu um filme tão bonito como O Artista, pelo menos tem alguns acertos bastante convencionais e mencionáveis dentre alguns defeitos que causaram tanto incômodo à crítica internacional. The Search, aliás, foi recebido com chutes e pontapés no Festival de Cannes, há 2 anos, onde estreou na linha competitiva. O longa segue sem data de estreia nos EUA, apesar de ter estreado por lá nos festivais de Palm Springs e Sonoma ano passado conforme consta no IMDb. A direção de Hazanavicius é um mérito maior em si. Algumas das cenas mais memoráveis de The Search os são por conta da sublime realização de Michel. 

A trama segue caminhos distintos e vaga por subtramas, contando as histórias de pessoas afetadas drasticamente pela guerra na Chechênia após a invasão do país pela Rússia em 1999. Um menino cuja família é brutalmente assassinada foge de sua casa com um bebê. Um soldado recém-chegado que sofre maus tratos por parte dos militares. Uma mulher desesperada à procura dos irmãos. Uma voluntária francesa que "adota" um garoto checheno aparentemente mudo. Histórias e personagens da guerra que se entrelaçam num filme que extrapola os limites do gênero (no bom sentido), sem deixar de se apegar à clichês "renovados" e inocentes que conferem ao longa um toque de frescor e emoção. 

A edição e a fotografia são excepcionalmente fabulosas. Se fosse para favoritar uma cena, favoritaria aquela cena dos soldados debaixo do helicóptero. Sei que não é provavelmente a melhor sequência, mas é a minha predileta, justamente por causa da montagem dela. A narrativa, embora trôpega e por vezes vaga demais, tem seus poucos pontos positivos ainda que opte por um padrão mais tradicional, convencional de se contar histórias e que talvez decepcione a quem procura complexidade e, digamos, sofisticação. Mas não dá pra dizer que é um filme ruim. Os trauma da guerra são explorados acidamente com uma distância perplexa, mas que se faz precisa. Hazanavicius mais e mais nos conquista com um cinema que enamora e enaltece o cinema em si e a arte de contar histórias, seja na intenção de nos emocionar, chocar ou provocar reflexão. 

The Search
dir. Michel Hazanavicius - ★★★½ 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Crítica: "JOVENS, LOUCOS E REBELDES" (1993) - ★★★★★


Essa semana me pegou de surpresa. As responsabilidades vão despontando e se apropriando cada vez mais de um significativo espaço da minha vida e tomando o lugar dos pequenos prazeres que cultivo. Mas há uma razão, afinal, para isso estar acontecendo. A semana está sendo extremamente exigente em diversos quesitos e a vida vem pregando peças e sustos em mim com uma frequência assustadoramente intrigante. Paranoia? Medo? Insegurança?  O bom (provavelmente) é que o ano está acabando. 2017 promete muitas coisas novas. Entretanto, foco no presente. Ainda tem um longo caminho a ser percorrido. E escrever no blog torna-se mais e mais uma missão rara e complicada com o surgimento das responsabilidades que vão se apoderando de nossas forças, tanto físicas quanto mentais. Bem, vamos falar de algo que é motivo de alegria: Jovens, Loucos e Rebeldes, um filme recentemente visto que me encantou bastante por uma série de coisas. 

É um dos primeiros filmes do gênio Richard Linklater, que dois anos após viria a dirigir Antes do Amanhecer, um de seus melhores e mais inesquecíveis longas, oriundo de uma fase mais descontraída de sua filmografia, ainda que tão potente e eloquente como qualquer outra. Já eram visíveis, lá atrás, traços marcantes que viriam a definir o estilo e o ritmo fílmico de Linklater. Popular e aclamado, Jovens, Loucos e Rebeldes marcou época. Não é o melhor filme do Richard (este posto, por sua vez, é ocupado por Antes do Pôr-do-Sol, e não me canso de repetir que é um dos meus favoritos de sempre), mas é um baita de um destaque, principalmente como um percursor do cinema independente norte-americano. Aliás, o próprio Linklater já é um veterano do cinema vanguardista e independente dos Estados Unidos. 

O longa é basicamente sobre jovens, loucos e rebeldes. Ou melhor, a sociedade dos jovens, loucos e rebeldes. Em si, é um filme de pura descontração. O público se diverte, se identifica e se maravilha com as presepadas doidas do grupo de personagens que toma a conta da trama com alma subversiva e coração rebelde deste que é um trabalho excepcional.

As referências, o contexto crítico ao padrão de vida americano e às irregularidades do sistema escolar levemente tonalizam uma certa seriedade a uma história tão despretensiosa, natural e repleta de honestidade. Não dá pra negar que o filme é um estouro de tão bom. Além de tudo isso, é revolucionário, é importante, é tudo de bom. O elenco é formado por hoje astros renomados de Hollywood que na época ainda eram pivetes, como Milla Jovovich, Parker Posey, Adam Goldberg e Shawn Andrews, sem falar nas participações de Matthew McConaughey (all right, all right, all right) e Ben Affleck, ainda um completo desconhecido àquela altura. Até Renée Zellweger esteve no filme, como figurante (vejam só!). Quentin Tarantino revelou que este é um de seus filmes prediletos à Sight & Sound. 

Brilhante. Imensamente brilhante. Richard Linklater conseguiu fazer um filme agradável de se ver, inspirador e universal. Os velhos tempos de escola que ninguém esquece. As aventuras do colegial, os amores da juventude, as festas malucas. Um retrato mais que convincente, impactante, emocionante das agitações da idade e a representação quase onírica de uma época decorada pela liberdade de expressão e pela redescoberta moral. Excelentemente bem-feito! Quanto à "sequência espiritual" Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!, estou doido pra conferir. 

Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused)
dir. Richard Linklater - 

domingo, 23 de outubro de 2016

Os Destaques da Semana | 16 a 22


Vou comentar aqui alguns filmes que vi esse semana. Não deu pra ver muita coisa. Minha lista na Netflix continua abarrotada de filmes, várias recomendações, mais outros vários filmes que baixei, e por aí vai. É tanto filme que não acaba mais. Em novembro vou tentar dar uma apressada e ver alguns mais atuais também. O pessoal fala de tantos lançamentos, e tanta coisa já saiu, mas o tonto do Lucas ainda não viu quase nada. 


"Tá legal. Uma Aventura Lego não deve ser grande coisa.". Eu nunca pensei que diria isso, mas estava enganado. E fico entristecido por ainda existir preconceito em mim em relação a filmes de animação. Mas, depois de Uma Aventura Lego, a gente se sente até motivado a procurar mais trabalhos tão dedicados e primorosos como esse. 

Pode não parecer, mas Uma Aventura Lego fala muito sobre quem nós somos, o mundo em que vivemos, a manipulação da sociedade, o aprisionamento do sistema, a verdade sobre o que está acontecendo com nós e como estamos nos tornando vítimas das mentiras de quem está por trás de tudo tentando controlar nossos pensamentos, atitudes e vontades. 

A conclusão, tida por muitos como decepcionante, é excepcional. O filme se encaixa em muitos níveis, e se aprofunda em diversas camadas. Inesperadamente, é um filme imensamente satisfatório e pra lá de bom. Um estímulo bastante convincente para que a criançada e os jovens descubram e se interessem mais a desvendar a realidade sobre o nosso mundo. Uma crítica social feroz, Uma Aventura Lego é magnífico.

Uma Aventura Lego (The LEGO Movie)
dir. Phil Lord, Christopher Miller - 


Faz um bom tempo, peguei Johnny & June passando na TV. Peguei uma cena bastante interessante, que acabou me hipnotizando naquele exato instante. Johnny & June é o que poderia se esperar de uma cinebiografia regular. O grande quê do filme é a atuação extraordinária de Joaquin Phoenix, uma das melhores do ator que sempre aparece com uma ótima interpretação atrás da outra. No filme, ele interpreta o renomado cantor Johnny Cash, um dos mais famosos e aplaudidos astros da música americana do século passado, e seu relacionamento tempestuoso com June Carter, interpretada por Reese Witherspoon numa performance básica, doce e amarga, natural, mas sem atrativos. Comparada às outras candidatas naquele ano, Reese não merecia o Oscar de Melhor Atriz, mesmo que seja uma intérprete tão talentosa. Não me levem a mal, a atuação dela não é ruim em nada, mas é simplesmente superestimada. Por outro lado, deveriam ter premiado o Phoenix, que está excelente. 

O filme é tecnicamente bombástico, mas seu roteiro é fraco, não consegue se sustentar por muito tempo. As intrigas de Cash retratadas aqui chegam a tal ponto que fica sem graça acompanhar a jornada do cantor e o espectador perde a fé na relação entre ele e June. Faltou tom, e um ritmo mais acentuado, que acompanhasse melhor a história. Johnny & June é longo demais, e pouco inventivo. Segue um padrão de cinebiografias cansativo e atrasado, embora preze por chamar a nossa atenção loucamente com uma premissa atrevida, mas que no final é praticamente transparente.

Johnny & June (Walk the Line)
dir. James Mangold - 


O filme que inicialmente deu fama e reconhecimento à hoje internacionalmente conhecida e aclamada Jennifer Lawrence. A performance corajosa, imbatível e poderosamente furiosa da atriz, na época bastante jovem e matura o suficiente para incorporar uma personagem tão multifacetada e exigente. O desempenho arrebatador da jovem Lawrence é o que sustenta esse filme com traços dramáticos tão relevados e marcantes. 

Uma jovem à procura do pai desaparecido num lugar aparentemente no meio do nada devastado pelo frio. Resistindo fervorosamente ao alvoroço da população local e aos ataques dilacerantes dos contrários, Ree (Jennifer) cuida sozinha dos irmãos e da mãe que está debilitada, não se cansa de procurar e procurar pelo pai, um sujeito envolvido com o tráfico. Essa busca quase frenética a leva a um destino muito perigoso e atormentador.

Segundo as minhas expectativas, seria um filme mais agudo, chocante, afiado. E não que não seja. Inverno da Alma trabalha bem sua proposta e seus objetivos estão bastante claros. Não é um filme defeituoso. Talvez, se a gente for pensar mais em relação a ele, a conclusão talvez soe descompromissada, mas é algo ligeiramente subjetivo.

Muita gente fala dos trabalhos de Lawrence, mas visando apenas a franquia Jogos Vorazes e filmes recentes da era pós-Oscar da atriz, e se esquece desse trabalho tão importante da carreira dela, que conta com uma de suas interpretações mais plausíveis e memoráveis, quão essencial e primorosa. Me lembrou bastante do excelente Rio Congelado.

Inverno da Alma (Winter's Bone)
dir. Debra Granik - 

sábado, 22 de outubro de 2016

Crítica: "UM DIA PERFEITO" (2015) - ★★★


Muito mais do que eu jamais poderia imaginar sobre um filme com uma temática tão envolvente e abrangente. Aranoa renova a fórmula de um gênero clicherizado por natureza com pura genialidade, e de uma forma tão honesta que torna maravilhosa a experiência de vê-lo. No filme, Um Dia Perfeito, um grupo de missionários na Iugoslávia na década de 90, quando o país atravessava duros conflitos políticos, tenta retirar um cadáver jogado em um poço que contaminou a água de um vilarejo, mas logo se veem confrontados por outros problemas, como a falta de recursos e a ilegalidade da retirada do corpo. 

Um Dia Perfeito extrai humor e simpatia de uma história cujo tema quase que automaticamente sempre tende a atrair uma atmosfera de seriedade, sem desrespeitar os propósitos da temática abordada e seu caráter anti-cômico, digamos. O elenco é em sua maioria formado por celebridades internacionais que fizeram sucesso em Hollywood recentemente, como o porto-riquenho (ele não é mexicano, pessoal) Benicio de Toro, a francesa Mélanie Thierry (talvez a menos conhecida, ainda que tenha estrelado alguns filmes recentes notórios, como O Teorema Zero) e a ucraniana Olga Kurylenko. A única personalidade americana do filme é Tim Robbins, em uma atuação escancarada e descontraída. 

Aliás, descontração é uma boa definição do estado do elenco de Um Dia Perfeito. Todos os personagens convivem entre si levando na "esportiva" tudo o que acontece ao redor deles, apenas com a exceção da personagem novata de Thierry, desacostumada àquele universo e as táticas de trabalho, o que frequentemente a causa espanto e incômodo, enquanto é visto de forma diferente pelos colegas já experientes, que vez ou outra brincam sarcasticamente com as reações dela em torno das situações que encaram.

O que é justamente o grande acerto do filme às vezes acaba se tornando um complicado defeito. Esse astral anti-diplomático que pinta em Um Dia Perfeito em certas cenas faz da resolução algo bastante confuso, incerto. A neutralidade que essas sequências passam ajudam a evidenciar uma certa falta de segurança em relação à conclusão da trama, enquanto devem ser tidas, ao mesmo tempo, como uma grata surpresa num filme que rompe as expectativas e traz algo realmente novo e interessante de se ver, ainda que cause confusão em determinados momentos. Então, pode-se dizer que o grande mérito de Um Dia Perfeito é que o filme não se leva a sério. E, acreditem, isso é fantástico. 

Um Dia Perfeito (A Perfect Day)
dir. Fernando León de Aranoa - 

Crítica: "O VENCEDOR" (2010) - ★★★★★


Faz tanto tempo que eu vi O Vencedor (para ser mais específico em fevereiro) que nem posso confiar a essa resenha um certo caráter analítico ou dissecativo. Seria preciso revê-lo. Na época, eu tinha gostado bastante. E a sensação de que eu tinha visto um grande filme, concretizada após o fim da sessão, continua nítida e fresca na minha memória. O melhor filme de David O. Russell até agora. David, que sempre foi considerado um cineasta muito instável, tem como seu melhor filme uma obra cinematográfica dilacerante e remotamente maravilhosa, repleta de sequências preciosíssimas e com um roteiro excepcionalmente bem-escrito. 

Para se ter uma noção, o pessoal é tão duro com o David O. Russell, dizendo o quão superestimado e egocêntrico o diretor é, que parece que eles sentem prazer com esse julgamento pífio e completamente controverso, de tão frequente e comunal que é testemunhar acusações, a maioria destas injustas e incabíveis, em cima de um cara que faz filmes bons, alguns razoáveis e com certos desapontamentos, mas digeríveis, e que se esforça ao máximo para trazer um filme que cause impacto no público. Sempre retorna com algo novo e diferente em sua filmografia repleta de pérolas, como O Vencedor, seu trabalho máximo.

Até de seu menor filme, Joy: O Nome do Sucesso (que tem alguns pontos negativos) eu gosto. E olha que inicialmente eu tinha odiado o filme, mas com o tempo comecei a olhar para ele com outros olhos, e adquiri uma inusitada admiração por ele. A comédia romântica O Lado Bom da Vida foi uma experiência emocionalmente romântica (há quem não goste, mas eu simplesmente não consigo entender como alguém não pode gostar de um filme tão bom assim) numa época da minha vida em que meus sentimentos estavam mais aflorados e que qualquer filme romântico que eu via era um espetáculo de emoções e graças. Trapaça também me pegou de surpresa. A primeira vez que vi foi delicioso.

O legal de David O. Russell é que o cineasta raramente se repete. Seus filmes compartilham certas semelhanças entre si, que vão de algumas mais perceptíveis (como o visual) até outras menos visíveis, como as obsessões narrativas do diretor. Se Joy tem um roteiro extensivamente supérfluo, O Vencedor é o perfeito oposto. Consegue-se explorar as angústias, os dramas e as agonias de cada um dos personagens da multifacetada trama de O Vencedor, que gira em torno de um lutador (Mark Wahlberg) cujo irmão, consumido pelo vício (Christian Bale) outrora fora um lutador profissional, mas que perdeu a credibilidade com o tempo conforme se afundou nas drogas. 

O filme traça uma linha honesta na luta do personagem de Wahlberg contra os abusos e as manias de sua família, comandada pela matriarca instável interpretada excelentemente por Melissa Leo, na performance de sua carreira que a rendeu o merecido Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2011. Enquanto ele tenta seguir sua vida, seus planos com a nova namorada, uma bartender (Amy Adams) mas sempre com a família no seu pé, criticando seus atos, e constantemente tentando impôr a razão. 

Ao mesmo tempo em que se acompanha o estado de divisão e dúvida do personagem de Wahlberg, que sente como se estivesse preso à família, porém mais e mais ganha espaço a necessidade dele de contornar os conflitos familiares para vencer na vida, ser alguém. Essa necessidade é justamente o produto desse peso cruel que se lança sobre o personagem, já que afeta diretamente à sua família, sempre prezando por seu melhor, mas que acaba se tornando um grande problema para ele.

O elenco, aliás, está fenomenal. Graças a ele, o filme se torna um espetáculo de atuações extraordinárias de gente talentosíssima em ótima forma. Destaque para a já mencionada Melissa Leo, Christian Bale, que venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2011, Mark Wahlberg e Amy Adams (também indicada ao Oscar de Atriz Coadjuvante em 2011, ao lado de Leo, que venceu). 

A estética documental  reforça o espírito de realidade que paira sobre o filme, além de realçar as atuações e uma especial atenção às minúcias do roteiro genial. A montagem e a fotografia são outros dois méritos indispensáveis. Por esses e outros motivos, O Vencedor é um filme precisamente necessário. David O. Russell nunca caprichou tanto em um filme sobre as relações familiares e a família americana dos tempos atuais. Mais que importante e bem-feito, a obra-prima de um cineasta que cada vez mais prova ser um dos maiores de sua geração.

O Vencedor (The Fighter)
dir. David O. Russell - 

sábado, 15 de outubro de 2016

Crítica: "TRÊS MACACOS" (2008) - ★★★


Depois que Nuri Bilge Ceylan ganhou a prestigiada Palma de Ouro pelo excepcional Winter Sleep, seus filmes anteriores começaram a ser revisitados, repensados pelos cinéfilos e especialistas. O cineasta turco, que dirigiu até hoje 7 longas, é dono de um estilo bastante próprio, marcado pela distinção e pela lenta dissecação dos personagens e dos detalhes. Trata-se de um dos diretores mais importantes da atualidade, cuja rica filmografia merece destaque e atenção.

Levando em conta que fiquei extremamente fascinado por Winter Sleep, filme seu que chega a ostentar um status de obra-prima, confesso que Três Macacos foi um pouco decepcionante. Aliás, muita gente detestou esse filme dele, que não é assim ruim como dizem, mas que peca na estrutura irregular e no roteiro fraquíssimo.

O filme ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes em 2008, e esse bem provavelmente foi o que me atraiu em relação a esse filme, o que me fez revogar as opiniões desfavoráves quanto a ele que, depois que o filme foi conferido, passaram a fazer um baita sentido. De todo modo, nem mesmo o tal prêmio tem justificativa. São poucas, esquecíveis as “grandes” cenas de Três Macacos.

Eu não diria que é um filme fácil de entender, mas o problema é que não dá pra explicar direito o que o mesmo quer passar, o que ele significa. Provavelmente, os subtextos estarão mais claros e óbvios para quem tiver proximidade com a filmografia de Bilge Ceylan e seu padrão cinematográfico. A “olho nu”, é um filme visualmente perspicaz e bem arquitetado, entretanto é raso, apático, forçado.

Quem sabe caso eu reveja ele no futuro ele não soe melhor ou mais prudente? É uma possibilidade. Certas vezes um filme precisa ser revisto para melhor digestão da história, do contexto, do material dramático, das interpretações. Quem sabe eu não me surpreenda com uma cena que não me passou nada dessa vez, ou com algum detalhe que passou despercebido?

Além de dirigir e roteirizar o filme, Nuri também o produziu e editou (não sabia que ele editava seus próprios filmes – todos os seus filmes, à exceção de A Pequena Cidade, sua estréia, foram editados por ele – e que também era diretor de fotografia e diretor de arte!).

O filme conta sobre um político que paga seu chofer para ir para a prisão no lugar dele. Enquanto ele está preso, sua esposa tem um caso com o político. Seu filho está o tempo todo emburrado (sério, esse personagem me enervou de tão parado e entediado). Quando o homem retorna à casa, as coisas fogem do controle e a família enfrenta uma crise moral que provoca seus instintos e afeta cruelmente seus destinos.

Bom, vou aproveitar que estou “in the mood for Nuri Bilge Ceylan” e vou baixar mais um filme dele: Climas. Enfim, ainda que 3 Macacos não seja lá um grande filme, ou o melhor de Ceylan, é um exemplar seguro de que o cinema turco está fortalecido e, aos poucos, ganha o devido reconhecimento internacional. 

Três Macacos (Üç Maymun)
dir. Nuri Bilge Ceylan - 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Crítica: "MEETIN' WA" (1986) - ★★★★


Godard tem uma filmografia tão extensa (isso contando com longas, curtas, filmes que não foram lançados nos cinemas...) que é preciso ir vendo aos poucos seus trabalhos para ir se aprofundando e reconhecendo o estilo e a marca desse mestre genial. 

Meetin' WA (Meeting Woody Allen ou Encontrando Woody Allen, tradução para o português) é fascinante. Godard foi visitar seu amigo Woody Allen pessoalmente em Nova York a convite do diretor, e aproveitou para gravar esse curta que consiste numa entrevista de Godard a Woody. Como poderia se prever, o resultado é excepcional. Dois mestres em tela, conversando e discutindo sobre cinema e afins é uma coisa maravilhosíssima de se ver.

Interessante notar como o Woody Allen é modesto. No começo da entrevista, ele diz que é grato à imprensa, porque a mesma tem sido muito generosa com ele, mais do que deveria. Mais à frente, ele ainda comenta que gosta de seus filmes quando surge a ideia de fazê-los, quando está no papel, mas assim que ele começa a rodar, perde-se a graça e a qualidade do material para ele. Woody sempre foi um pessimista, mas a modéstia, quase irreal, é algo totalmente novo pra mim. Seria a consequência do negativismo de Woody?

Outra coisa bastante curiosa é que Woody classifica seus filmes como se fossem derivações de romance. Quando ele comenta sobre Hannah e Suas Irmãs, ele diz que o filme foi escrito na estrutura de um romance. E, se a gente for analisar de perto, os trabalhos de Woody tem uma raiz mais literária do que cinematográfica mesmo, como ele mesmo chega a descrever.

Em outro momento, Woody confessa que acha que é um crime os jovens terem acesso ao cinema através da televisão, e cita grandes trabalhos como 2001: Uma Odisseia no Espaço, O Diabo a Quatro e Cidadão Kane, que deveriam ser vistos obrigatoriamente nos cinemas. Ele também revela, em outra sequência inspirada da entrevista, seu fascínio em ir ao cinema, que antigamente costumava ser um lugar bastante luxuoso, e que se sentia triste quando o filme acaba, e ele era obrigado a voltar à realidade.

Entre um trecho e outro dessa entrevista preciosa, Godard faz o uso de intertitles com um jazz gostoso ao fundo. Woody discute sobre a televisão, sua paixão pelo cinema, memórias de infância, e seu filme Hannah e Suas Irmãs, na época (1986) seu lançamento mais recente. No ano seguinte, Woody teve uma pequena participação em um filme de Godard, o brilhante Rei Lear

Tive de me contentar em ver o filme sem legendas no Vimeo, mas até que deu pra entender algumas coisas. Só foi complicado quando Godard questionava Woody em francês (que sempre reagia com uma cara de "ué") mas depois uma tradutora repetia a mesma frase em inglês. O filme também está disponível na plataforma Dailymotion.

Uma pena que uma entrevista tão deliciosa assim dure tão pouco.

Meetin' WA
dir. Jean-Luc Godard -