sexta-feira, 6 de março de 2015

UNBREAKABLE KIMMY SCHMIDT / 1ª Temporada


Com um elenco talentosíssimo, Unbreakable Kimmy Schmidt é mais um resultado triunfal da brilhante parceria de Tina Fey e Robert Carlock, conhecidos principalmente pelo aclamado 30 Rock.

Depois de quinze anos após raptada, privatizada e transformado-se em membra de uma seita apocalíptica, Kimmy Schmidt, junto com outras três reféns, é libertada. Porém, todo o tempo que perdeu nesse fatídico episódio constroem uma enorme influência na vida de Schmidt após sua saída, o que ocasiona a ela alguns problemas como: emprego, dinheiro, casa... 

O primeiro episódio é um dos mais estranhos, por que tudo acontece muito rápido. Mas não deixa de ser engraçado e igualmente prazeroso. Só a partir do segundo é que você começa a compreender o conceito criativo de toda a série, incluindo a sátira subversiva e o humor afiado, já presentes no trabalho anterior de Fey (e seu mais, repetindo, conhecido) 30 Rock. Desta vez, Tina não atua, o que possivelmente não funcionaria, já que quebraria aquela imagem mais séria e contundente que ela passa nos seus personagens. 

Ellie Kemper, no papel de Kimmy, é divertidíssima. Eu ainda acredito que poderia ter uma escolha melhor para o papel, no entanto, como no momento Kemper é uma das comediantes de mais sucesso e agraciação, a personagem caiu-lhe bem. Gostei da performance de Tituss Burgess, na interpretação de Titus, o companheiro de quarto de Kimmy, que confesso: me fez rir muito.

É claro, também contando com participações extras, como a de Carol Kane, já idosa, mas ainda ativa. Um roteiro estratégico e verossímil, assinado por Fey, Carlock e Burditt. Uma direção bem instintiva, cheia de pontos e conflitos altos. A série é bem incomum, de fato, mas é uma delícia. Tina Fey continua satirizando como sempre, aqui de uma maneira um pouco menos rígida e com um objetivo bem mais comercial, já que a série é transmitida pela Netflix (a NBC cancelou a exibição da série), impossibilitando àqueles que não tem acesso ao canal pago da internet de assistir, o que meio a limita de favorecer todo o sarcasmo dos diálogos e a marcação do roteiro, coisas que eu gostava bastante de 30 Rock

Comédia americana é coisa de louco mesmo. Até por que cada episódio é bem mais complexo do que o outro, afinal, as opções limitam-se. Hoje em dia há uma variedade de produções televisivas, principalmente comédias, no circuito da mídia, o que me alegra. Unbreakable Kimmy Schmidt aborda o cotidiano num humor mais fácil, suave, simbólico, mas ainda liberal, concreto e agradável. São as novas comédias. Sempre é necessário usar alguns artifícios mais carinhos e deixar aquela expressividade monumental de lado, pois nem sempre todos querem comprá-la. Mesmo não sendo daquele estilo Fey cem por cento, eu comprei Unbreakable Kimmy Schmidt. Quem admira o trabalho da comediante americana, tem uma aprovação garantida, da sua, mais uma vez, competência genial.

1ª TEMPORADA ★★
MELHOR EPISÓDIO: Kimmy Goes on a Date! - ★★★★

Crítica: "COLD MOUNTAIN" (2003) - ★★★★


Fabulosa! Uma obra digna de reconhecimento por toda a sua produção épica. Discordo, mas respeito, aqueles que acharam Cold Mountain um saco, pois sei eu que tenho um fraco por dramas históricos, cujos aprecio muito, então, aqui me expresso apenas para informar a precisão desta película no meu ponto de vista cinematográfico, espiritual e reflexivo.

Primeiro de tudo, Cold Mountain não seria algo sem a perfeita dramatização do elenco. Isto é, Jude Law, Renée Zellweger, Nicole Kidman, Natalie Portman (uma surpresa pra mim, já que não tinha a informação de que ela fazia parte do filme) e Philip Seymour Hoffman. Porém, minha atenção fixou-se mesmo em Renée Zellweger, numa performance badalada por aclamação e prêmios, todos igualmente merecidos à ela. Kidman puxou para uma coadjuvante, apesar de ter tido bons momentos na trama. Jude Law surpreendeu e maravilhou, mas deixou de preencher alguns espaços que fizeram falta. Portman belamente roubou a cena. Um dos maiores, roubos de cena. Apenas por alguns minutos, ela foi a estrela. 

Anthony Minghella analisou estonteantemente o romance de Charles Frazier, tão bem quanto O Paciente Inglês. Na verdade, seus filmes, a maioria adaptações, tem cara de romance, em tudo: o diálogo, a caracterização... É incrível. Ainda mais nesta obra, cuja vos garanto que é maravilhosa neste quesito: roteiro. A direção também pode alegrar alguns, apesar de não ser nada ao lado do que ele fez em O Paciente Inglês e em O Talentoso Sr. Ripley. Neste filme, não temos Binoche, mas, como já dito, temos Zellweger, que lá não faz tanta diferença, já que ambas são dotadíssimas de talento e uma aguçada percepção para encarnar atrizes coadjuvantes nos filmes do britânico Anthony (e faturar Óscares por elas). 

Quebrando logo a dúvida de quem ainda não assistiu ou procura assistir Cold Mountain: não é um musical. Pouquíssimas canções, ao todo quatro, são apresentadas ao longo de seus 150 minutos, o que já de início pode causar eventuais desencontros pelo espectador, afinal, Cold Mountain muito bem poderia ser um musical, mas aí, teria que ser bem mais esforçado do que é como drama. Não sei bem se funcionaria, mas não custava tentar (ou custava?). 

Milhões de vezes tentei ver Cold Mountain. Certo tempo, achei no Telecine Cult, mas não vi até o final, logo que o mesmo estava no meio. Não consegui encontrar na Netflix, e igualmente não teria paciência, apesar de ter apenas poucas dúvidas de que lá pode-se encontrar-lo. O jeito mesmo foi procurar em DVD. Procurei e achei. E depois de um longo tempo, apenas nesta tarde, minha missão de vê-lo foi cumprida. Bem, Cold Mountain pra muitos é um dramalhão "chorável" cheio de blé-blé-blé e uma história de amor frouxa e fraca. Na minha opinião, não é verdade. Até por que o filme envolve, cria, ocasiona um clima tenso de mistério e persuasão, mesmo que esteja em desfoco, ao narrar a tão impiedosa jornada romântica de Ada e Inman. Muita gente, ao seriamente desvalorizar Cold Mountain, recomendou o drama francês Amor Eterno, de Jean-Pierre Jeunet, com Audrey Tautou e Marion Cottilard, que automaticamente entrou para minha lista de pedidos. Acredito que o mesmo possa até me encantar mais do que este filme em si, pois compreendo que histórias recheadas de sentimentalismo ou com personagens fortes variam de pessoa para pessoa, no entanto, Cold Mountain foi muito lindo. Sinceramente, é lindo mesmo. Elenco, fotografia, (brilhante) trilha sonora... Tudo te cativa até o último segundo, pois é isto que nos move dentro da sala de projeção: a paixão pela história que é contada. 

Cold Mountain (Cold Mountain)
dir. Anthony Minghella - ★★

terça-feira, 3 de março de 2015

Crítica: "MAIS UM ANO" (2010) - ★★★★★


O que acontece em torno de 365 dias? O que muda e o que continua? O que surge e o que se vai? Basicamente, um dos últimos filmes de Leigh, sucedido atualmente por Mr. Turner, analisa a vida de um casal em torno de todo um ano. Isso inclui suas relações familiares, amigas e próximas. O conflito dos acontecimentos, as descobertas, as inovações. Não há moral em Mais um Ano. Vale lembrar que é um filme de observação, envolvendo lentas passagens do cotidiano. Resumindo, Mais um Ano repete o estilo de seu anterior, Simplesmente Feliz, só que de uma forma bem mais reflexiva e bem menos rebelde. 

Em vez de Poppy, temos o casal Tom e Gerry. Tom é um conceituado geólogo e Gerry uma metódica psicóloga. Um pouco contrário da extrovertida e alegre protagonista da comédia de 2008, o casal leva uma vida melancólica, estável, tranquila, que acompanha o diário das pessoas do convívio, entre elas, o filho e sua namorada num relacionamento perfeito, uma desesperada e divorciada secretária na meia-idade a busca de um "novo amor"; um velho bêbado inconveniente que não suporta as lembranças de um tortuoso passado; um viúvo culpado pela morte da esposa e a teimosia do filho único. De portas abertas para o que dar e vier, sr. e sra. Hepple, num período de quatro estações, se oferecem a orientar essas pobres almas, cujas vidas entram num embate calculadamente eufórico.

Tratando do elenco formidável que participa do filme, é necessário destacar a performance de Lesley Manville, uma velha conhecida dos filmes de Leigh, da minha parte mais precisamente por Agora ou Nunca, Topsy-Turvy e Segredos e Mentiras. A atuação em foco é profunda, sobretudo as qualidades que a atriz exige para o papel. Não entendo como o elenco de Mike Leigh consegue ser desse jeito: amargo, mas ao mesmo tempo, exigente. Imelda Staunton, Sally Hawkins, Timothy Spall, Brenda Blethyn, Jim Broadbent, Dorothy Atkinson, Ruth Sheen, Peter Wight... Todos conseguem seguir esse padrão caracterial dos filmes do britânico, o que recentemente a cada filme de sua autoria me surpreende intensamente. Broadbent e Sheen, plausíveis como o casal Hepple. Apesar de Imelda Staunton roubar a cena nos minutos iniciais da película, quem ficou com destaque foi mesmo Manville, desta vez. Desoladora e rígida, mas sem perder o controle nem exagerar. Enquanto sua personagem vê-se perdida na ilusão de uma vida maravilhosa, a atriz consiste em abraçar o anti-sentimentalismo, o que é um desafio pleno. 

A direção de Leigh é suprema, tão como o roteiro assinado por ele. O elenco, já dito, numa das mais marcantes participações na carreira cinematográfica dele. Não é surpresa que essa obra tenha se transformado tão preciosamente num dos retratos mais belos feitos por Mike Leigh. Tanta repercussão por parte da distribuição do filme no Brasil, que só chegou aos cinemas, pelo menos em São Paulo ano passado, e olhe lá (sessões selecionadas), agora é bem compreensível. Enquanto isso, Mr. Turner continua sem data pra estrear. 

Quando nisso é impossível discordar de um filme que procura recordar através do concreto. O objetivo é mover o espectador com episódios comuns da vida, propícios a qualquer um, passados por quatro estações anuais. Mais um Ano é uma história convencional e surpreendentemente universal, que quase impossível não impacta o público. Um filme que celebra a sutileza e os encantos do universo que nos rodeia. 

Mais um Ano (Another Year)
dir. Mike Leigh - ★★★★

domingo, 1 de março de 2015

Crítica: "CINQUENTA TONS DE CINZA" (2015) - ★★


Logo no início do filme, a empolgação do público quebrou o clima de intimidade da película, o que pode ter atrapalhado um pouco na minha percepção do filme, apesar de eu mesmo acreditar que não estou errado a partir de Cinquenta Tons de Cinza. Li o livro, e torno a afirmar: é bem mais interessante e completo do que o filme. A ordem dos fatos mostradas nesta película não correspondem ao romance. As cenas estão embaralhadas, o que é uma tortura pra quem teve a grandiosa oportunidade de ler a obra literária de E.L. James, e a ver destruída agora, no cinema.

Pra ser bem direto, não gostei. Inseguro, bagunçado, mal-interpretado, enfim, Cinquenta Tons de Cinza é uma bomba, pra não falar outra coisa. Acho que uma das únicas coisas que salvaram este filme foi a trilha sonora esplêndida de Danny Elfman. Por favor, não relacionem meu desgosto com o conteúdo erótico, que por sinal, também é incompleto. O livro também é bem mais sexy em alguns quesitos. O romance ainda consegue criar um mistério, visualizar mais a jornada e é bem mais divertido, e por um lado, romântico. O livro é narrado pela própria Anastasia Steele, o que o torna bem estiloso, mas o filme não faz isso. E esse elemento narrativo é essencial da história. Sem ele, não há emoção, ou até mesmo conflito. Porém, o que mais me intrigou e desapontou foi o final, que por sinal, também é diferente do original.

Por isso, leiam o livro. Aqui fica a minha mais solene dica. A diretora Sam-Taylor Johnson mostrou-se inexperiente e desfocada, o que favoreceu ainda mais o fracasso deste filme em meu conceito. Jamie e Dakota, nada plausíveis. Pelo menos, suas interpretações ambas são terrivelmente melosas. Confesso que estava animado para assistir. Como já tinha lido o livro, e passei a considerar alguns pequenos fatos, como a aprovação (com certeza forçada) da escritora E.L. James, que também lutou pelo final, aposto eu, luta que falhou, meu interesse subiu. Tudo foi em vão. Mas, fazer o quê?

Toda vez que a Dakota aparecia, lembrava da Anne Hathaway, e passei a imaginar como o filme seria se ela participasse, afinal, entre elas há uma diferença astronômica quando o assunto é talento e competência. Hathaway daria uma belíssima Anastasia. Uma lendária Anastasia. Os escolhidos deixaram a desejar. É sempre assim. Adaptações comerciais quase nunca funcionam por conta dessa desorganização na escolha da equipe, elenco e tudo mais. Atores não tem um pingo de dedicação aos personagens. Roteiristas escrevem algo qualquer, e sequer se dispõem a evitar alguns dos mais interessantes pontos da obra original, como o lábio de Anastasia e "Eu não faço amor, eu fodo com força.". Diretores fazem um bolado sem pé nem cabeça. Não vou culpar a pressão. Vou culpar a falta de interesse. Lógico, afinal, Cinquenta Tons de Cinza como filme é uma ideia pra lá de fascinante. Pena que o estúdio colocou o projeto na mão de pessoas que não tiveram, possivelmente, essa visão. Colocasse na direção, por exemplo, Sam Mendes e no roteiro a própria E.L. James, pra ver se não saía algo bem digno de aplausos, o antônimo disso aqui. Mendes está dirigindo Bond pela segunda vez, então, o perdoo. Mas, e James? A própria se ofereceu a escrever a adaptação. Totalmente incompreensível.

Enfim, é tanta decepção que mal consigo descrever o quão raivoso foi assistir Cinquenta Tons de Cinza. Elegante, estrutural, e um pouco romântico, mas ao mesmo tempo, infiel, ultrajante e passivo. Não há conflito. O filme deixa questões em branco. Anula resultados. E ainda por cima, infringe a autoridade do espectador. Como já disse, a história é boa, maravilhosa, sensata, sensual e demasiadamente excitante, só que o filme não acompanhou o ritmo da mesma. Lamentável, pra quem como eu, esperava um novo clássico do cinema erótico, como Instinto Selvagem e 9½ Semanas de Amor, desta fraca adaptação.

Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey)
dir. Sam-Taylor Johnson - ★★

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Crítica: "UM SANTO VIZINHO" (2014) - ★★★★


Feitiço do Tempo, Encontros e Desencontros, Um Santo Vizinho: Bill Murray continuará sendo um dos meus grandes heróis não importa qual personagem faça. Afinal, entre nós, só um mesmo já faz fama por si: o velho tranquilão convencido. Murray é um dos meus atores prediletos, até por que é um dos melhores. Vê-lo nos filmes é uma coisa que está se tornando raridade, salvo por sua participação nos longas de Wes Anderson, sendo o último O Grande Hotel Budapeste. Fora sua parceria com o cineasta, o vi mesmo em Caçadores de Obras-Primas e Broken Flowers, e agora em Um Santo Vizinho.

Foi bom, confesso. Gostei desse filme. Pode ser tal moralista, tal pedante, mas é um filme que tem uma certa elegância. É divertido, bem além do engraçado. Bill Murray se saiu fantasticamente ótimo em Um Santo Vizinho. Um personagem novo dele, também. Um lado que eu, assim  como muita gente, não havia visto dele. O veterano ranzinza e bêbado é incomparável aos personagens que estamos acostumados a vê-lo interpretar. 

Gostei do elenco, bem escalado, sem muito exagero. Naomi e Melissa merecem destaque. O jovem Jaeden, que interpreta o, segundo Vincent, "nanico" Oliver, também consegue agradar o espectador. Talvez estar ao lado de Bill Murray seja tão significante quanto uma influência na atuação. Talvez deva ser muito nervoso estar ao lado dele. Ele é uma lenda, no final. Até mesmo o diretor, Theodore Melfi, tenha tido um pouco de receio em escrever o personagem. Na estreia, ainda por cima. 

O roteiro tem pontos estratégicos, utilizando alguns truques básicos, mas não é nada para levar em caso. Piadas de conteúdo, humor de qualidade, não dá pra reclamar do filme nessa parte. Seria praticamente desnecessário. A direção tem algumas falhas, nada para levar em conta igualmente, já que este é a primeira vez de Melfi. O elenco, como já foi dito, de parabéns. Nada mais a notar sobre. 

Compartilhei Um Santo Vizinho. Competente, sem divergir da trama. Engraçado, o que é a base primordial do sucesso desta película. Enfim, eu achei Um Santo Vizinho bem precioso. Um filme com cara de família, se não fosse por alguns elementos e cenas. Concordo que a moralidade pode irritar um pouco o espectador. Não é algo tão grande assim, vai. Um Santo Vizinho é alem de tudo, nostálgico. Ver um Bill Murray velho, mas ainda potente e talentoso, já pode agradar bastante.

Um Santo Vizinho (St. Vincent)
dir. Theodore Melfi - ★★★★

Crítica: "RELATOS SELVAGENS" (2014) - ★★★★


Esplêndido! Não me estranha Pedro Almodóvar ter colocado dinheiro numa obra tão excelente como esta. Crítica social, crítica econômica, sátira, comédia dramática, antes de tudo isso, Relatos Selvagens primeiramente é um filme moderno. Apesar de não ser tão complexo, o que pode ter desapontado quem esperava isso no final, Relatos Selvagens é delicioso. Engraçado e dramático em alguns pontos, mas sempre com o foco em seu padrão. 

Assustador, brevemente. A cada segmento, há suspense. Há humor, há desastre, há sátira. É bizarro, por isso, é tão louco. Logo no primeiro episódio, pessoas dentro de um avião descobrem algo em comum: todas conhecem Gabriel Pasternak. O mistério se precede até quando descobre-se que Pasternak é um doente psiquiátrico e sua vingança é esta: matar a todos que atrapalharam sua vida, inclusive ele mesmo, num acidente de avião. O mais curto (precede os créditos, como uma "introdução"), mas o mais simbólico.

O filme foca-se em vingança. Tudo se resolve com a vingança. E aí segue. Desse sentimento nasceu todo o furioso talento em impactar de Relatos Selvagens. Seus personagens querem sangue. São movidos a sangue. Vidas cinzas em busca de um vermelho entonado. Traição, ódio, repulsa, vivacidade, personalidade.

É bem lógico. O espectador pode ter desconsiderado a falta de procedimento das histórias. É como se não houvesse final. Pode ser feita uma pequena observação: a cada episódio, com a exceção do terceiro, o diretor "corta" o final, deixando um clima de ambiguidade no ar. Peculiar, mas legal. Funcionou, é o que nos importa. Quem não imaginou Pedro Almodóvar dirigindo Relatos Selvagens? O filme é a cara dele. Pode não ser aquele clássico Almodovariano, cheio de brega e cores quentes, mas o estilo é familiar, por que é todo dele. Inspira.

Meu episódio favorito foi o final, mesmo que eu ainda tenha gostado muito do terceiro, por ter mais humor ou, sei lá, o desafio de ausentar a sensibilidade. O último me agradou muito. Tem tudo, ou melhor, ele resume toda a ambição do filme de Szifrón. É o mais irônico e ousado. Empolgante e revoltado. Alegre e triste. Cinza e vermelho. Almodóvar. Merecedor de aplausos também é o nervoso segundo, que pode ter deixado muitos à flor da pele. Ricardo Darín e Erica Rivas dão as melhores performances do filme.

O filme mostra o ridículo mundo em que vivemos, cheio de interesse, desordem, incapacidade, crime e pecado. Aborda a impaciência do ser humano em tudo, nos grandes e pequenos fatos: uma briga de trânsito, uma cadente traição, um insurgente reencontro. Mudar já não é mais possível. O jeito é perder o controle. Temos que aprender a perder o controle para sobreviver neste mundo. Senão, não teremos transformação. Não teremos clímax. Não teremos a liberdade.

Relatos Selvagens (Relatos Salvajes)
dir. Damián Szifrón - ★★★★

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Crítica: "VIOLÊNCIA GRATUITA" (2007) - ★★★★


Louco. Obsessivo. Gratuito. Violência Gratuita é assim. Pode ser traduzido para a sensação mais eufórica em pouquíssimas palavras, isto por que trata-se da análise da refilmagem do mesmo filme de 1997. Tudo bem que é um remake, mas desde que seja escrito e dirigido pelo mesmo autor da versão original, aqui Michael Haneke, que depois de dez anos do lançamento de uma de suas obras mais cordiais, decidiu revendê-la ao público com um elenco americano, é totalmente aceitável.

Confesso que Violência Gratuita me superou. Só pelo elenco, Naomi Watts, Tim Roth e Michael Pitt, já tinha uma noção do que seria, mas não pensei que Michael levaria tão á sério a questão da "fidelidade", entende? De qualquer forma, Violência Gratuita é uma das melhores refilmagens que eu já vi, sem medo e sombra de dúvida. Todo o impacto que envolve a trama de 1997 é presente, reprodução magnífica! Não irão se surpreender muito com relação ao que é contado, por que a história, pra quem assistiu ao original, é a mesma, em tudo, até nas cenas, nos detalhes das cenas, com pouquíssimas (mesmo) mudanças. Na verdade, pra ser bem sincero, os dois filmes são idênticos. É quase surreal. É claro, trabalhos vindos de um mestre incomparável como Haneke, não há como duvidar da excelência. 

Achei que nessa refilmagem do suspense austríaco para o cinema americano, Michael poderia aproveitar a oportunidade e colocar Isabelle Huppert, sua musa, no papel principal, o que eu acharia esplêndido. Naomi, no entanto, conseguiu encantar aqui como protagonista solenemente. Ela e Tim Roth. Ela, Tim Roth e Michael Pitt. Estão todos bravíssimos. 

E pensar que esta história poderia acontecer a qualquer um em qualquer lugar... É uma coisa esquisita, e ao mesmo tempo, carente de perspectiva: os dois jovens, aparentemente do nada, instalam um pânico viral contagioso. E no final de tudo, Violência Gratuita espelha mais uma vez a grandiosidade da obra de Haneke e sua genialidade cinematográfica. De tudo, acharia que este, de 2007, não funcionaria se não fosse por ele. Mas isso questiona, afinal, se tivéssemos nas mãos uma obra-prima valiosa e inteligente que no lançamento não teve reconhecimento suficiente, não poderíamos muito bem refilmar cena por cena, diálogo por diálogo, mudando apenas os atores? Esperto foi Haneke. Sete milhões a mais rende bastante. Resumindo: é a tradução de uma bem-feita, mas subestimada, obra-prima. E o mais audacioso desta versão se encontra justamente na proposta de refilmar quadro a quadro o anterior, com um sucesso tão extenso quanto.

Violência Gratuita (Funny Games)
dir. Michael Haneke - ★★★★½