sábado, 19 de setembro de 2015

Crítica: "FÉRIAS FRUSTADAS" (2015) - ★★


O clássico Férias Frustadas, de 1983, é um dos maiores sucessos dos anos 80, embora nem eu mesmo goste tanto dele quanto tantos outros. Esta sequência sem dúvida divertida faz rir, mas é motivo de desapontamento e me deixou baita nervoso. Sem falar que minha situação com o Ed Helms não é lá das melhores, e, embora tenha segmentos claramente cômicos, a graça do filme é passageira. O elenco também é muito meia boca e a trama, pouco convincente. Tá certo que é uma comédia, mas eu não sabia que para ser bem-humorada tinha que ser propositalmente desfigurada e toda mal-acabada.

O filme é cheio de clichês. Primeiro erro. O filme abusa da autoridade do espectador. Segundo erro. Nem mesmo o quê de road movie satisfaz, terceiro erro catastrófico de um roteiro mal-escrito. Achei pouquíssimos cinemas aqui em São Paulo que tinham por opção Férias Frustadas legendado. Esse erro é culpa das nossas infelizes distribuidoras. Tive que me contentar com uma cópia dublada num cinema mais próximo. Até que o público desta vez estava em sintonia, todos rindo. A sala não estava tão lotada. No início do filme tinha um grupinho conversando alto, mas nem dei atenção. 

Ed Helms é um cara de fama controversa em meu histórico. Participou de The Office, talvez seu melhor trabalho, e tem alguns títulos cinematográficos em sua carreira. Muitos acham que a face loser, natural, de Helms, é engraçada: em alguns momentos, na minha opinião. Sempre achei esse lado da comédia de Ed muito forçada, irritante, e isso afetou na minha relação com ele. Se em The Office não tinha muita simpatia, embora elogiasse muito sua atuação, especialmente lá pras últimas temporadas, aqui em Férias Frustadas, que já é uma porcaria de filme, fico intensamente abismado com ele. A Christina Applegate funciona medianamente em comédia, e seu rostinho bonito não engana não, e creio que ela não é tão adequada para o gênero. Destaque para os atores mirins, Steele Stebbins e Skyler Gisondo (que já não está tão mirim assim, mas ficou bem conhecido por ter feito o jovem Moe no Os Três Patetas dirigido pelos irmãos Farrelly). 

Há quem diga que o humor apelativo de Férias Frustadas seja inteligente, mas pra mim é totalmente ao contrário disso. Seguindo os mesmos padrões de uma viagem em família, com direito a lanchonetes na beira da estrada e aqueles serenos hoteizinhos (uma coisa que me lembrou muito de Pequena Miss Sunshine, excelente comédia dramática que também é um road movie bonitinho), Férias Frustadas altera a sugestão do título para Sessão Frustada, e mais uma vez neste ano desperdiço um bom bocadinho de dinheiro em um filme que trouxe mais raiva do que alegria. 

Férias Frustadas (Vacation)
dir. Jonathan Goldstein, John Francis Daley - 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Crítica: "MELINDA E MELINDA" (2004) - ★★★★


Uma bela surpresa esse Melinda e Melinda, tímida obra de Woody Allen que não é muito comentada, mas merece ser vista, principalmente por sua inteligente abordagem. O grande elenco, as piadas geniais que entonam o lado cômico dessa trama e a fotografia obscura e sempre lindíssima de Vilmos Zsigmond que oferecem um gosto azedo e equilibrado ao lado trágico de Melinda e Melinda. Quem já viu Blue Jasmine não ficará surpreso em nada com o desfecho dramático do filme, basicamente plagiado pelo de 2013, ainda que com uma maior imaginação e evolução. Um grupo de escritores se reúnem numa chuvosa noite num bistrô em Nova York, onde começam a argumentar sobre tragédia e comédia. Um deles dá a ideia de contar uma história, e os outros escritores tem de palpitar se ela é um drama ou uma comédia. Essa passagem de abertura recorda demais Broadway Danny Rose, só como nota.

Muita gente odiou Melinda e Melinda. E eu entendo. Talvez o filme lá não faça tanta lógica, ou ainda por cima seja totalmente oblíquo, desnecessário. Mas eu gostei demais da conta. Afinal, o cara é Woody Allen, e sou um mega fã do diretor. Certamente minha obsessiva paixão pela carreira dele no cinema e por seu estilo tenham me guiado nesse caminho, onde muito dificilmente digo "não" à seus filmes, ainda mais aqueles considerados fracassos, como este - que na minha sincera opinião de fracasso não tem nada -, o último do diretor filmado em Nova York antes da temporada europeia dele, que começou com Match Point - Ponto Final e foi terminar com Para Roma Com Amor, num breve intervalo com Tudo Pode Dar Certo, outro tímido título da carreira de Woody, que voltou a ser filmado em Nova York, com o dinheiro da Sony Pictures Classics. 

Uma das coisas mais interessantes e incríveis de Melinda e Melinda é seu elenco, formado por Will Ferrell, Chloë Sevigny, Amanda Peet, Wallace Shawn e Jonny Lee Miller, que, apesar de não ser tão conhecido, é muito talentoso, e a grande maioria dessa nova safra de atores conseguiu acompanhar o ritmo de Allen muito bem. O mais incrível ainda é a tal Radha Mitchell, de quem eu nunca ouvi falar, mas que se sobressai de forma tão autêntica aqui que não ressaltar sua importância para Melinda e Melinda seria um erro trágico. Ela funcionou bem em ambos os planos, mas acredito que o trágico combina mais com ela do que o cômico. 

Chiwetel Ejiofor, Zak Orth, Steve Carell e Josh Brolin fazem pontas pequenas aqui no filme, e achei bem estranho da parte do casting tal desperdício. Falando em Carell, o ator substituiu o sacana do Bruce Willis no novo filme do diretor, que estreia ano que vem. Willis abandonou as filmagens do nada sob a desculpa de que estaria trabalhando na adaptação para a Broadway de Misery, do Stephen King, conhecido como Louca Obsessão nos cinemas, filme que deu o Oscar a Kathy Bates.

Woody esbanja seu melhor em dois contos que só são diferentes pelas impressões que deixam. Afinal, a vida é um espelho, cujos lados refletem a tragédia e a comédia, e mesmo que não sejam tão parecidos, no final são praticamente a mesma coisa. A vida, o amor, o cotidiano. É assim que o cinema de Woody Allen funciona. E que a nossa vida é uma tragédia, ou comédia, por opção. É como a personagem de Radha Mitchell, que em determinada cena se emociona ao ouvir uma canção no piano e, quando questionada o porque de estar chorando pelo pianista, responde que a música tocava quando ela conheceu um homem. O pianista volta a perguntá-la se eram lágrimas de dor ou felicidade. E ela responde: "não são a mesma lágrima?". É aí que encontramos o conceito de Woody: sendo dor ou felicidade, é a mesma lágrima. Momentos bons ou ruins sempre passarão, e depois deles sempre vem algo pior ou melhor. É essencial se acostumar a esse fato. Talvez esse conceito até funcione como resposta à crítica, que nos últimos tempos veio reformulando o estilo do cineasta a partir do gênero de suas obras. A aparência e o gosto não são os mesmos, mas a receita sim. 

Comprei no início do ano Adultérios, um dos livros escritos pelo Woody, que vem com três peças nele. Melinda e Melinda facilmente poderia virar uma peça daquelas, ainda mais quando o vivant clima teatral dá um realce especial nas cenas da película. E, realmente, me surpreendi. É um filme pequeno do cineasta, mas é elegantíssimo e delicioso como qualquer outro. O sublime roteiro de Allen, um dos melhores escritos pelo diretor nos últimos tempos, a Radha, o resto do elenco, a trilha sonora que rima clássica (tragédia) e jazz (comédia) com perfeição... Digam o que quiser, mas esse filme pediu minha adoração. 

Melinda e Melinda (Melinda and Melinda)
dir. Woody Allen - 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Crítica: "ALÉM DA VIDA" (2010) - ★★★★


Está longe de ser um grande longa do velho Clint, mas é um trabalho maior na carreira dele e não só apenas por isso merece respeito. Trata-se de uma das únicas concepções cinematográficas que eu já tive a oportunidade de ver que é totalmente convincente abordando um assunto complicado e bem divido. Nunca pensei que Clint Eastwood me faria duvidar do meu ateísmo incontrolável, mais uma vez. Encarar o vazio que todos nós estamos destinos ao fim deste jornada é demais melancólico e abalador, mas de vez em quando é bom fugir da realidade e abusar de novas experiências, na busca de um novo significado. E não mentirei não: apesar de ainda continuar cético após a sessão, Clint mostra seus poderes de ilusão mais uma vez numa história espírita profunda e muito tocante, que é capaz de levar qualquer um aos prantos. 

Na verdade são três distintas histórias, unidas por um laço triangular entre os três personagens protagonistas: uma jornalista francesa, um vidente ocasional americano e um garoto inglês, cuja mãe, apesar de amar a ele e seu irmão gêmeo, é uma viciada em drogas. Logo na cena inicial a jornalista, na Tailândia, vivencia um catastrófico tsunami, onde, após ficar morta por um tempo, retorna à vida. O vidente, que vive em São Francisco, teve uma doença na infância e morreu durante uma cirurgia, mas voltou à vida. O menino enfrenta a perda súbita do irmão e procura ajuda espiritual, na esperança de contatá-lo. Três diferentes vidas. Um só destino. 

Embora a religião católica seja abordada pelo diretor de diversas maneiras em sua variadíssima filmografia, que de uns tempos pra cá foi se concretizando em sensíveis e intensos dramas de sucesso, como o vencedor do Oscar Menina de Ouro e Sobre Meninos e Lobos, é a primeira vez que o diretor lida com o espiritualismo, nu e cru. Mais uma vez com sucesso. Além da Vida está em algum lugar entre um de seus antecessores, Gran Torino, cuja força dramática não demorou para me deixar completamente maravilhado, e A Troca, que teorizou bastante sobre a perda em seu magnífico roteiro. Creio que aqui também não se ausenta características de Menina de Ouro, uma vez lembrando da relação conflituosa entre o padre e Frankie Dunn. 

Em Além da Vida não vi sequer uma gota de sangue à exceção da cena do acidente, o que talvez possa ser bem estranho para alguém do gênero de Clint Eastwood, cuja filmografia, mesmo distinta, não dispensa a presença de violentos choques e uma tensão acentuada - aqui também ausente -. E se por um lado Além da Vida apresenta esse Clint mais "suavizado", apostando certeiramente num drama carregado por uma fotografia desoladora (Tom Stern) e uma linda trama com mensagens emocionantes, o mestre continua genial, ainda sim deixando de lado tiro, porrada e bomba.

E que venha mais filmes dele do mesmo patamar de Além da Vida, e ainda maiores do que este. Filmes convincentes, firmes e que não desistem de tocar o espectador, deixar o recado. É até uma forma do diretor de simbolizar nossos preconceitos em relação ao assunto, como muitas vezes descartamos importantes posições diretamente relacionadas à religião, e como somos juízes da nossa própria ignorância... É preciso saborear a ideia para sentir de perto o que Além da Vida tenta nos comunicar. Não seria incrível poder contatar entes queridos, já falecidos? Ou então parentes que nem ao menos nós tivemos a oportunidade de conhecer bem, o que não falta pra mim. Embebido da ilusão, é até crível confiar em tais circunstâncias. Chega a ser mágico. 

Matt Damon, que estava em Invictus, retorna melhor aqui do que estava no longa anterior, em boa forma e praticamente intacto, exibindo sua positiva química com Eastwood, que funcionou muito bem em ambos os filmes. A excepcional participação de Cécile de France mexe muito também. Bryce Dallas Howard, que aparece em poucas cenas, brilha à seu jeito. A trilha sonora assinada por Clint Eastwood, primorosa como sempre. O rico roteiro original de Peter Morgan. Chega a ser interessante ver como Além da Vida foi rapidamente esquecido, e como se trata de um grande trabalho do cineasta, mas que não soube ser aproveitado pelo público com o tempo. Além da Vida me fez pensar e re-questionar o sentido da minha existência, que tanto venho investigando e tentando encontrar as respostas corretas, e confesso que até agora não obtive muitas. O melhor é aproveitar a vida, enquanto tudo continua bem controverso e é impossível ficar de um lado sem se preocupar em estar no outro. As possibilidades são inevitavelmente infinitas. Ver Além da Vida, esse show de humanidade imperdível, ajuda a acalmar, e evitar a (maioria) desnecessária tensão. É bom saber que não estamos sozinhos. 

Além da Vida (Hereafter)
dir. Clint Eastwood - 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Crítica: "MONIKA E O DESEJO" (1953) - ★★★★


Ando muito cansado ultimamente, sonolento, o tempo não tem ajudado em nada, e eu estou abarrotado de coisas pra fazer, sem falar nos mil e um problemas que sou obrigado a enfrentar de bico calado diariamente. Mesmo assim, não desanimo e nem deixo de ver meus filmes, e a tarefa, por enquanto, continua firme e forte apesar desses desencorajadores afazeres. Como hoje tive pouco tempo livre devido à esses mesmos afazeres, vi Monika e o Desejo, de Ingmar Bergman, que tem noventa minutos e passa tão rápido que é até estranho. Mas trata-se de um de seus trabalhos mais belos e sensíveis. 

Um fato curioso acerca deste longa é que foi o primeiro trabalho cinematográfico de Ingmar a ser lançado nos E.U.A., e fez muito sucesso por lá, ainda que tenha sido um de seus primeiros filmes. Na época, a belíssima Harriet Andersson era namorada do diretor, que era famoso na Suécia apenas pelo teatro àquela altura, mas - como bem sabemos - foi no cinema onde ele ficou reconhecido e marcou a história. A história relata a paixão de dois jovens que estão no limiar de um amor que imita um romance, mas no fundo é bem mais amargo e profundo do que eles poderiam imaginar. O retrato de Ingmar Bergman por cima desta que talvez seja a sua história, de longe, mais sensual, é demais tentador e simplório. O amadorismo presente na iniciante direção dele pode ser bem estranho, pelo menos pra quem já viu filmes maiores do diretor, exemplificando o último Fanny & Alexander ou Gritos e Sussurros. Muito embora isso não seja necessariamente incômodo de um ponto de vista menos exigente.

E, embora não seja um grande filme como à primeira vista promete, o desenvolvimento da trama e o elenco excepcional, com a talentosa liderança da jovem Harriet, dispensa qualquer olhar desaprovado em qualquer aspecto possível. Mas se bem que, para um filme pequeno, Monika e o Desejo não é nada mal. É agradável de se ver, inegavelmente surpreende, e pra não esquecer é bem contado. Não há nada de ruim aqui. Os primeiros traços do obsessivo e genial simbolismo filosófico que viria a se estabilizar na futura filmografia de Bergman já são intensamente visíveis aqui. Uma óbvia influência da época que o diretor trabalhou no teatro também é bastante notável quando o filme ganha esse quê teatral em cenas cenograficamente limitadas e com um extenso controle das performances em questão.

O filme lida muito bem com as questões da sexualidade na juventude e o desejo carnal. Não à toa, em quando chegou nos Estados Unidos provocou uma grande polêmica devido à primitiva, e muito pouca, exibição de nudez em determinadas cenas, o que por um lado causou o maior rebu, e pelo outro virou propaganda do novo cinema que ali na década de 50 nascia, livre de toda a ocultação e censura dos anos anteriores, para o público. Pouco visto, considero Monika e o Desejo, depois dessa rápida sessão, um filme obrigatório principalmente para o fã da carreira de Bergman. Definitivamente é o primeiro filmaço dele, e merece muito tal privilégio.

(lá vem spoiler) E essa fábula da juventude, embora soe romântica e muito fantástica nos primeiros segundos, logo se inverte e adquire um significado bem diferente. Um significado que não se afasta da realidade enfrentada por muitos jovens nos dias de hoje: gravidez precoce, juventude perdida... É tão contemporâneo que gradativamente não acharia nem um pouco estranho um remake do longa nos dias de hoje: é até uma boa ideia. A rebeldia e a pulsação por liberdade que é tanto esboçada pela extrovertida Monika, aprisionada por sua fome incessante de desejo. 

A cópia remasterizada da Versátil Home Video, cujas caras cópias de Oito e Meio e Gritos e Sussurros me proporcionaram prazer e experiências primordiais, deste filme está esgotada em todo o lugar e que ousei a procurá-la. Isso quando estava de férias. O que me restou foi optar pelo download via torrent, que não é tão ruim quanto eu achei que seria, e rendeu o tempo de uma hora que gastei o baixando. A fotografia oferece ao filme um visual tão especial e singular que essa ascendente e característica sensualidade dele logo é fruto de seu visual igualmente provocador, num preto e branco que oscila perfeitamente entre o suave romance e a impactante tragédia. 

Monika e o Desejo (Sommaren med Monika)
dir. Ingmar Bergman - 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Crítica: "QUE HORAS ELA VOLTA?" (2015) - ★★★★★


A receita não é complicada. De fato é originada da simplicidade. Será um grande desaforo Que Horas Ela Volta? ser ignorado no Oscar 2016. Selecionado na última quinta para concorrer a uma vaga em Melhor Filme Estrangeiro, depois de tantas e cruéis rejeições a obras-primas como O Som ao Redor, Cidade de Deus e Carandiru nos últimos dezesseis anos desde que Central do Brasil foi indicado, será inaceitável a Academia ignorar um trabalho tão merecedor e bonito como esse, que bem de longe cheira a Oscar. Isso é, se o filme não for indicado e ganhar o prêmio de cara. Mas o que realmente importa é o filme, sendo ou não nomeado. Com certeza a maior surpresa do cinema nacional deste ano, Que Horas Ela Volta?, com leves pitadas de comédia, é um drama excepcionalmente bem-feito como nenhum outro, tem a Regina Casé na atuação da carreira dela e uma história pra lá de arrebatadora e emocionante.

Em Que Horas Ela Volta, Casé vive Val, uma empregada doméstica que, há dez anos, deixou a filha Jéssica no Nordeste para trabalhar como servente e babá de Fabinho, que considera a empregada sua própria mãe, e nisso ele mesmo descarta a existência de sua mãe biológica, Bárbara, sempre muito atarefada e raramente com tempo de estar ao lado do filho. Com um toque talentoso e muito forte de sensibilidade, Anna Muylaert, a mesma de É Proibido Fumar, constrói uma grandiosa obra sobre a ausência e a presença, o amor de mãe e a divisão das classes sociais no Brasil atual, que muita gente já diz estar bem menos preocupante, mas caso analisada de perto, é demais problemática.

Tudo se complica na trama quando Val recebe a notícia de que a filha, Jéssica, com quem ela mal falava e que a rejeitava interminavelmente, virá a São Paulo para prestar um concurso. Apta disso, Val se anima para a chegada da filha e se enche de felicidade, mas logo que a garota, já crescida, desembarca na cidade, a mãe passa por maus bocados ao lado da menina, que não obedece a ela em nenhum instante e ignora o clássico estereótipo de "filha de empregada", ficando bem à vontade com os patrões e ocupando até mesmo o quarto de hóspedes da casa ao invés do próprio quartinho dos fundos, moradia da mãe, o que enfurece ela e a patroa, que fica nitidamente incomodada com a situação. 

Tratando dos conflitos entre as classes sociais, tema que recentemente veio sendo debatido com um astronômico sucesso em longas como O Som ao Redor Casa Grande, Que Horas Ela Volta? marca pontos e se junta a esse grupo de filmes ótimos sobre o assunto, e mais uma vez simboliza a boa fase que o cinema brasileiro está passando. Foi exibido em Berlim, onde arrecadou um prêmio, e em Sundance, onde Casé levou pra casa o prêmio de Melhor Atriz. 

Muita gente pode achar que as situações pelas quais Val é obrigada a trilhar ao lado de sua filha possam ter certa influência cômica, mas sinceramente o clima dramático e o desconforto que o público também sente na pele é tão grande que fica impossível rir diante de momentos tão tensos. Sem falar no brilhante roteiro que constitui o filme, e que, além de ser uma fonte constante de reflexão, devido à contemporaneidade da abordagem, é também produto do retrato e da consistência narrativa. Afinal, mesmo que tanto tempo desde então tenha se passado, a posição da doméstica hoje em dia é a mesma da escravidão, onde continuam ativos os velhos limites da casa grande-senzala, senhor-escravo, e mesmo que a família tenha certa consideração pelo empregado, na grande maioria das vezes, essa restrição ainda é existente. E eu lhes pergunto: como uma pessoa tem a coragem de proferir encorajada e descaradamente que em nosso país não existe mais o preconceito? Por favor, né?

Apesar do fim "revolucionário" que toma, a personagem Val não mostra quaisquer incômodo com essa restrição. Depois de tantos anos submetida a esse tratamento, ou até nem mesmo tendo vivenciado-o, apenas por ter visto em uma situação semelhante, ela soa muito indiferente, acostumada. Só quando a filha chega em São Paulo é que ela põe pra fora o quão está cansada da vida que leva, tendo que servir calada e obedecer regradamente às tarefas impostas pelos "superiores" e ainda sim ter que passar o resto do tempo que lhe sobra preocupada e intrigada com os maus-tratos da filha, que em certo momento a indaga citando que "não é regra e não está escrito em nenhum lugar para ela se pôr no lugar de uma serva", apesar da profissão já em seu nome nos remeter à esse preconceito. Não é essa a vida?

Chega a ser assustador - sufocante, especificando - imaginar, ocasionalmente, que isso continuará por anos, e que o preconceito não acabará enquanto ele continuar sendo praticado. Afinal, é a maldita herança de tempos obscuros em que o Brasil era regido injustamente e com um rigor inabalável. Uma vez que essa herança não foi arrancada pela raiz, não há mais como exterminá-la. O que nos leva a conclusão de que por um bom tempo essa mesma história se repetirá. E dentro dessa repetição, outra infame repetição: a vinda dos menos afortunados para os centros em busca de melhores condições, e usualmente essa busca toma como resultado esse mesmo ciclo. E nem sempre a realidade vai condizer com a ficção, como acontece aqui no longa.

Mas, nem tudo são pensamentos negativos. Como vive revolucionariamente proferindo uma amiga minha, a força e persistência faz a mudança. E, em tempos de inovação do modo de pensar, com a juventude tão ativa logo cedo lutando pelos direitos e pela igualdade, a ideologia evolucional da geração tão almejada parece finalmente ganhar vida. 

E nesse ponto, Que Horas Ela Volta?, além de terrivelmente chocante, é muito interessante. Sua proposta me deu muito o que pensar, e, porque não?, me fez enxergar melhor sobre certos quesitos, e com certeza fará muita gente repensar sobre esse inquérito das barreiras e preconceitos que permeiam a sociedade brasileira desde os primórdios do descobrimento até os dias de hoje.

A performance de Regina Casé, muito possivelmente a maior da atriz que, apresentadora do popular e cativante Esquenta! e outras atrações televisivas, é sim muito talentosa e aqui demonstrou excelentemente a força de seu talento para com a interpretação. Mais do que nunca, ela apresenta um lado atraente e muito digno em Que Horas Ela Volta? de seu lado atriz, um dos muitos lados de sua multifacetada carreira artística. Por estes mencionados e mais outros motivos, recomendo muito Que Horas Ela Volta?, uma experiência mais que marcante pra mim.

Que Horas Ela Volta?
dir. Anna Muylaert - 

domingo, 13 de setembro de 2015

Crítica: "O PEQUENO PRÍNCIPE" (2015) - ★★★★


Quase que chego atrasado para a sessão deste fofo O Pequeno Príncipe. Mas culpo a catastrófica fila, e a moça do caixa que saiu bem na hora que o filme tinha começado, às 16h50, e demorou um bocado antes de me atender. Quando cheguei, terminava o último trailer antes da exibição. Felizmente, eu adorei o filme, embora esperasse mais da adaptação. Enfim, o que realmente importava nesse caso era o filme ser tão mágico quanto o livro. Não é, mas chega bem perto. O Pequeno Príncipe, o novo belíssimo e agradável trabalho do animador americano Mark Osborne, que curiosamente é uma produção francesa, e sequer foi lançada nos E.U.A. ainda, consegue encantar demais, e me levou às lágrimas com sua preciosa e acalentadora ode à obra-prima literária homônima do escritor Antoine de Saint-Exupéry, fabricador do melhor livro infantil já escrito. 

A sessão do longa, por outro lado, nem tanto me agradou. Definitivamente não estou e provavelmente não me acostumarei, tão cedo, à exibição digital, que tanto as salas de cinema por todo o país vem substituindo a película, a favorita de muita gente (incluindo eu) e que, se a moda pegar, fará uma falta do caramba. Além disso, a sala estava lotada de ignorantes e no fim da sessão só ouvi gente falando que não tinha entendido nem gostado do filme, enquanto outra multidão, da qual eu fiz parte, aplaudiu emocionadamente à medida em que os créditos subiam. Não fui o único a me emocionar não. Ouvi muita gente "fungando" em muitas partes do longa, que é inegavelmente bonito. E é em poucos momentos que dá pra rir. Sentei ao lado de um pai e seu filho. O homem ficava de cinco em cinco minutos checando o celular e mandando mensagens, o que me irritou em demasia, além de  ter ficado explicando o filme todinho para a criança, muito pequena, e que cochilou num determinado momento. Os dois saíram da sala, foram no banheiro, voltaram, e depois de uns dois minutos - para a minha comemoração - o garoto falou ao pai que queria ir embora. Minha cunhada se irritou com o barulho dos pacotes de salgados/doces e latinhas de refrigerante que os espectadores tanto faziam questão de colocar pra cantar, algo que antigamente me irritava, mas com o tempo fui obrigado à me acostumar. Em compensação, a qualidade do filme, estremecedor, vingou esse desconforto que não é muito inusual no cinema.

O que talvez tenha me decepcionado em relação ao longa é justamente que ele não é uma adaptação direta do livro. Essa adaptação é fragmentada, mas em vez disso as mil e uma mensagens contidas dentro da obra literária são traduzidas ao filme e à garotinha, a pequena princesa daqui. E por isso, já lhes informo que, embora o título muito traga esse ar, O Pequeno Príncipe não irá apresentar apenas, centralmente, a história do livro. Afinal, que filme poderia fazê-lo, não? Trata-se de um livro difícil de adaptar-se para o cinema. Um dos grandes sucessos foi a versão de 1974, dirigida pelo Stanley Donen, protagonizada por Bob Fosse e Gene Wilder, embora lá o filme também tenha servido de inspiração para a montagem de seu musical. E quem sabe a animação mesmo não seja a melhor forma de nos contar essa história do que o live-action. Não diria que o apresentado aqui é um desperdício muito pelo contrário. Está mais para uma reciclagem - daí, uma adaptação, mesmo que não inteiramente fiel. 

Minha cunhada insistiu para vermos dublado, uma vez que ela estava acompanhada da minha sobrinha, e lá fomos nós. Mas isso me irritou pouco, em relação ao filme. É claro, muito não perderia o elenco das vozes francês que compõe o filme, estrelado por Marion Cotillard, Vincent Cassel, André Dussollier e Guillaume Canet, mas fiquei em dúvida se a sessão legendada do filme seria em francês ou em inglês, que também só tem gente fera como Rachel McAdams, Jeff Bridges, James Franco, Paul Giamatti, Benicio del Toro, Ricky Gervais e Albert Brooks. 

A delicadeza da trilha sonora que enaltece a beleza do longa é impagável. Mais uma vez, Hans Zimmer, bem-acompanhado por Richard Harvey, tocando nossos corações com notas abismadoramente deliciosas. Um triunfo para meus tímpanos. Enquanto isso, as mãos de Mark, redesenhando o espaço do livro tão originalmente, alimentam meus olhos e traçam com perfeição meu imaginário. Impossível não amar, não ficar estonteado. 

Somos introduzidos à uma menina, de uns dez anos de idade, creio, cuja rigorosa mãe a treina diariamente para o teste de uma conceituada academia controlando o cotidiano dela e montando suas tarefas. A garota, impossibilitada de aproveitar as férias, se vê forçada a estudar os montes de livro e seguir corretamente um calendário atarefado e certinho. Até que certos eventos, como uma hélice de um avião rasgando a parede de sua casa, a levam a um antiquado, porém simpático, senhorzinho, seu vizinho, que possui uma casa diferente de todas as outras do bairro (bairro que inusitadamente lembra o mesmo de Meu Tio, eterno clássico do Jacques Tati), redecorada por um clima boêmio e cheio de velharias. A menina e o vovô vão passando o tempo juntos, enquanto a menina logo se vê cativada por uma intrigante história que passa a chamar a sua atenção, que levou o senhorzinho à ela. A história de um homem, a queda de seu avião no meio do deserto, e um menino que o aborda com o pedido de um desenho de um carneiro. 

Assim começa O Pequeno Príncipe. Se vivo, Saint-Exupéry estaria pulando de alegria com esta adaptação. Afinal, tudo o que interessa é a magia, o que esse filme tem de sobra. No fim, acho que não combina muito com a criançada. Quem já teve a oportunidade de ler, e possivelmente reler, o livro homônimo, aproveitará demais a animação, que imita o conto reformulando seus lendários simbolismos, genialmente. Uma cópia fiel, eu diria. Mark Osborne se baseia na obra para criar a sua própria. E um final muito cordial faz de O Pequeno Príncipe uma versão bem menos séria, mas estrategicamente parecida, de As Horas. E essa beleza toda, hein? A adaptação pode valer muito, mas não bate a beleza desse longa, que de lindo tem até demais da conta. 

O Pequeno Príncipe (Le Petit Prince)
dir. Mark Osborne - 

Crítica Combo: DOIS FILMES + ou -


Segurança de Shopping 2 (Paul Blart Mall Cop 2)
dir. Andy Fickman - 

Engraçadíssimo como nunca, mesmo que não seja tão divertido quanto o primeiro, Segurança de Shopping 2 é uma comédia exemplar, embora falhe em certos aspectos e deixe muito a desejar no quesito qualidade. E ainda que faça rir à beça, no fim é mais do mesmo - e muito pelo contrário, não desaponta por isso -. O talento de Kevin James explorado de maneira fantástica e de bom grado, tanto quanto aconteceu lá no primeiro, é combustível energético para a comédia. Lançado diretamente em DVD (um equívoco das distribuidoras, na minha opinião, que obteriam um baita lucro com esse filme nas salas de cinema), rir em Segurança de Shopping 2 não é nada difícil não. Mas o problema chega com o mix da comédia com o thriller, que funcionou direitinho em Segurança de Shopping, mas aqui ficou bem chatinho.


Sem Escalas (Non-Stop)
dir. Jaume Collet-Serra - 

Vi no início do mês passado e, na preguiça de escrever sobre o filme, acabei adiando a tarefa. Nunca achei que gostaria deste que é um razoável suspense dirigido por Jaume Collet-Serra, cujo mais novo filme, Noite sem Fim (ainda não conferi), também estrelado por Liam Neeson, deixou muita gente irada (infelizmente no mal sentido). Visto que Jaume é um diretor empenhado e talentosíssimo, dono de outros grandes e gordos títulos em sua vasta, porém curta, filmografia, como A Casa de Cera e A Órfã, terrores inacreditavelmente bem-falados, é de se estranhar quer ele tenha sido tão descaradamente subestimado no círculo cinematográfico, e até seu quê de oscarizado é descompensado. E, se no caso houvesse um filme pelo qual o diretor pudesse ser indicado ao prêmio é esse Sem Escalas, que além de pura adrenalina pulsante, conta com as performances excepcionais de Liam Neeson e Julianne Moore (para a minha surpresa arrebentando aqui, roubando a cena). Se no final o suspense nem convenceu tanto como se era esperado, pelo menos houve todo um envolvimento que prendeu o espectador até ali, o que pode ser levado como mérito, e realmente eu não esperava que o filme conseguisse essa atenção tão facilmente.