terça-feira, 8 de março de 2016

30 ROCK / 1ª Temporada


A primeira série de 2016. Entre umas e outras, me pegava vendo um episódio de 30 Rock na TBS, mas nunca tomei coragem pra ver uma temporada completa do seriado, uma das séries de comédia mais aclamadas e queridas da TV americana atual. Baixei no fim do ano passado a primeira temporada, e comecei a assistir semana passada. Hoje terminei os 21 episódios. Cara, que show fantástico! E a Tina Fey... Menina de ouro! A primeira temporada de 30 Rock introduz a farta lista de personagens frenéticos que circulam pelos corredores do 30 Rockefeller Plaza (subsidiária da General Electric e estúdio da NBC, rede americana) e os bastidores de um programa de humor.

A protagonista de 30 Rock é Liz Lemon (Tina Fey), roteirista do programa "The Girlie Show" que só faz uma coisa da vida: trabalhar, e trabalhar, e trabalhar mais ainda. A mulher não tem descanso. Mas ela fica a um passo de perder a cabeça de vez quando recebe a escabrosa missão de escrever novas esquetes para um fenômeno cinematográfico, Tracy Morgan (por ele mesmo), que estrelará o "The Girlie Show", agora re-intitulado "The Girlie Show with Tracy Morgan". Lemon também terá de aturar o mulherengo e teimoso, mas gentil, Jack Donoghy (Alec Baldwin), seu novo chefe e diretor da General Electric. 

Liz se mete nas mais desastrosas armações ao lado da sua trupe de roteiristas e de sua melhor amiga, a "decadente" Jenna (Jane Krasinski) a ex-estrela burra do "The Girlie Show". Há ainda o mensageiro ingênuo Kenneth (Jack McBrayer).

Tina Fey, criadora/produtora/Liz Lemon/roteirista/mulher do compositor (Jeff Richmond), faz malabarismos com truques de humor inventivos e complexos. 30 Rock é uma delícia de se acompanhar porque é humor de verdade, é uma comédia admirável e excelentemente bem-feita. As sacadas geniais, o elenco, a Fey... 30 Rock é um trabalho digno e incomparável. Uma dádiva, plausível.

1. Pilot

Descobrimos Liz Lemon, a idealista roteirista do programa "The Girlie Show", exibido no canal NBC. Também são introduzidos os personagens Tracy Morgan, Jack Donoghy e Jenna. A cena da gravação, com o gato arranhando a cara da personagem Jenna, é bastante engraçada. Legal ver também a química rolando entre a Liz e o Tracy. Não é o melhor episódio desta temporada, mas tem suas qualidades.

2. The Aftermath

Donoghy aborrece a Liz Lemon quando renomeia o programa "The Girlie Show" para "T.G.S. with Tracy Morgan", eclipsando a melhor amiga de Lemon. Pra "recompensar" o erro, Tracy dá uma baita festa em um iate, "supostamente" dele. Episódio cool, com boas piadas.

3. Blind Date

Jack Donoghy se solidariza com a Liz  e marca um encontro entre ela e um "amigo" dele. Para conquistar a equipe do roteiro, ele se infiltra num jogo de pôquer. Episódio o.k.

4. Jack the Writer

Jack se convida para Liz para integrar a equipe de roteiristas. A ideia deixa Liz maluca, e apesar dos esforços para mantê-lo longe da equipe, tudo é em vão. Ao mesmo tempo, ela tenta convencer a sua assistente Cerie a se vestir de maneira menos chamativa. Esse episódio é bem engraçado.

5. Jack-tor

Jack vira o protagonista de uma esquete e não está convencido de que sabe atuar, e entra em desespero. Liz teoriza a possibilidade de Tracy não saber ler. Liz reata com seu ex-namorado, Dennis. Outro episódio que tem momentos cômicos memoráveis.

6. Jack Meets Dennis

Dennis, ficante da Liz, invade o espaço de trabalho dela e dá um show de idiotice. Jack demonstra seu repúdio à relação e aconselha Liz a procurar um alguém melhor. Tracy odeia ser normal, e quando vê uma matéria numa revista o "acusando" de ser normal, entra em pânico. Jenna demonstra certa preocupação quanto à sua carreira.

7. Tracy Does Conan

Jack troca Jenny por Tracy Morgan para ser entrevistado por Conan O'Brien novamente, uma vez que Tracy foi desastrosamente ruim numa entrevista anterior. O único problema é que Tracy está fora de si: esqueceu de tomar os remédios e agora está surtando. Cabe a Liz tentar contornar a situação, com 0% de sucesso.

8. The Break-Up

Liz rompe com Dennis, mas depois se arrepende. A nova namorada de Donoghy é ninguém mais e ninguém menos do que Condoleezza Rice. Episódio bom e com ótimos segmentos bem-humorados.

9. The Baby Show

Liz começa a refletir sobre a idade e criar uma família. Jack sofre com a persistência da mãe, que não para de ligar para ele e que está pensando em se mudar para o cafofo dele. Tracy trava uma guerra com Josh, membro da equipe de roteiristas.

10. The Rural Juror

Jenna está animada com o lançamento de "The Rural Juror", seu novo filme. Liz acaba não gostando do filme e tenta esconder a sua opinião da amiga. Tracy inventa a "máquina de carne", instrumento que promete revolucionar o consumo de sanduíches. Jack acaba aprovando a ideia e passa a estimular a imaginação de Tracy. Episódio de ouro. Um dos melhores da temporada.

11. The Head and the Hair

Liz e Jenna apelidam secretamente dois executivos do setor da General Electric: o "cabeça" e o "cabelo". É um dia especial no 30 Rock: Jack dá a oportunidade ao empregado mais baixo, Kenneth, para ser "chefe por um dia", e inverte de lugar com ele. Bom episódio.

12. Black Tie

Liz é o par de Donoghy no jantar de um príncipe austríaco. Jenna entra de penetra na festa após mostrar os peitos para o segurança e acaba atraindo o príncipe, um homem sem as pernas e os braços, pálido feito neve e deformado. Jack dá de cara com a ex-mulher, Bianca (interpretada pela Isabelle Rosselini, vejam só!). Jack conta para ela, mentindo, que Liz é sua noiva, e Bianca, numa crise de ciúmes, a ataca. O melhor episódio da temporada.

13. Up All Night

Dia dos Namorados. Liz recebe flores acidentalmente de um cara de outra divisão, cuja namorada se chama Liz Lemler (Anna Chlumsky). O grupo de roteiristas se reúne no 30 Rock para uma noitada. Episódio engraçado, um dos melhores. Curioso aquele jogo "casar, transar ou matar".

14. The C Word

A nervosa e rude Liz tenta mudar um pouco depois de ouvir certos relatos desagradáveis sobre a sua personalidade. Jack leva Tracy a um jogo de golfe, onde os dois se encontram com o "poderoso chefão" da General Electric, o C.E.O. Don Geiss. Episódio razoável.

15. Hard Ball

Jack decide usar a ideia de Kenneth sobre um programa, mas nem tudo dá certo. Liz convence Donoghy a não demitir Josh. Péssima decisão.

16. The Source Awards

Tracy Morgan entra para a lista negra de um poderoso produtor musical quando nega a ele a entrada em sua festa. Como forma de redenção, ele só vê uma saída: apresentar o The Source Awards. Liz acaba se decepcionando num encontro e tenta convencer o rapaz de que não está dando um fora nele só por causa dele ser negro. A cena final é provavelmente a mais engraçada dessa temporada.

17. The Fighting Irish

Jack reencontra o irmão, que lhe noticia que o patriarca da família Donoghy faleceu. Abalado, Jack decide reunir toda a família, e só sobra confusão pro lado dele. Ao mesmo tempo, ele comunica Liz que ela terá de demitir um certo número de empregados. Todos passam a querer agradá-la, mas ela já tem um alvo: a "outra Liz".

18. Fireworks

Jack precisa encobrir a programação da NBC com um especial quando Tracy se ausenta, mas está sem ideias. Enquanto isso, ele passa a competir com um executivo de uma filial da NBC, e que está usando Kenneth para obter informações.  

19. Corporate Crush

Liz começa um relacionamento de amizade com Floyd, que era namorado da "outra Liz", mas a largou depois que ela foi promovida por Jack. Enquanto isso, Jack se apaixona pela consultora de arte Phoebe (a sexy Emily Mortimer).

20. Cleveland

Liz fixa-se com o namorado Floyd, e ambos planejam se mudar para Cleveland. Mas nada é o que parece. Tracy decide sumir do mapa quando descobre que "A Cruzada Negra" está atrás dele. Jack pede Phoebe em casamento.

21. Hiatus

Episódio final da 1ª temporada. É divertido, embora um pouco dramático. Floyd está longe da cidade e desencontros de comunicação simulam um rompimento entre ele e Liz. Enquanto isso, Liz descobre quais são as intenções da Phoebe e Jack fica doente.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Crítica: "UMA NOITE FORA DE SÉRIE" (2010) - ★★★★


Nesses últimos dias, finalmente tomei coragem e comecei a ver 30 Rock, a premiada série da humorista Tina Fey, popular, aplaudida, e vencedora de uma porrada de Emmys, Globos de Ouro e etc. Agora é pra valer. E quando você começa não quer mais parar. Até agora, estou gostando, viu? E, como eu estou nessa fase de revisões, decidi pegar a comédia Uma Noite Fora de Série, estrelada pelo Steve Carell e pela Tina, que vi há uns cinco anos e gostei pra caramba na época. É incrível como tanta gente odiou o filme à toa. Eu adorei. Um exemplo de comédia. E uma dupla de protagonistas sensacionais (que ninguém devia botar defeito). 

A premissa é astuta: um casal de Nova Jérsei leva uma vida tediosa e guiada por um cotidiano cansativo. O único momento de felicidade acaba sendo a "noite de encontro" que eles realizam semanalmente, um jantar fora de casa e longe dos três filhos, para descontração e descanso. E até mesmo esses clássicos jantares fora perdem a magia e tornam-se rotineiros. É aí que o casal decide mudar os ares jantando num restaurante upper class em Manhattan. E tudo dá errado: eles decidem roubar a reserva de um outro casal, os Tripplehorn, e, no meio do jantar, são escoltados por uma dupla de capangas que estão à procura de um pen drive. 

A comédia até que pode ser exagerada nas bobeiras e no humor sem noção, mas tudo é muito luxuosamente leve, e não dá pra negar que esse espírito cômico despretensioso e bobo é o que sustenta e carrega a trama. Os caprichos de um roteiro criativo e engraçado impulsionam na medida certa o desenrolar agradável e equilibrado do longa. 

Ainda que conte com o auxílio de diversas atrações, o melhor do filme certamente é a dupla principal, Tina Fey e Steve Carell, em duas atuações humorísticas de ouro. Na minha opinião, a charmosa Tina é quem se sobressai, mas o Steve é um artista tão genuíno e carismático que é impossível negar a sua importância vital nesse trabalho. Os dois executam um timing perfeito. É uma delícia. A química entre os dois é ainda mais sadia e prazerosa. Tomara que no futuro eles voltem a trabalhar em um projeto cinematográfico juntos. 

E, na dianteira, temos Mark Walhberg, Mila Kunis, James Franco, Mark Ruffalo, Ray Liotta, Taraji P. Henson, Kristen Wiig, Common, William Fichtner, J.B. Smoove... O elenco é grande. E, mesmo com tanta estrela assim, a tela é todinha do casal protagonista. 

O diretor desta comédia rica e bem-feita, Shawn Levy, tem uma experiência ampla com o gênero comédia, mas, de filmes bons, só placa mesmo Uma Noite Fora de Série e a trilogia Uma Noite no Museu (na verdade, só o primeiro que se salva - o segundo é mais ou menos - gostei da participação da Amy Adams, confesso - e o terceiro não vi ainda). A Pantera Cor-de-Rosa também não é um desastre mas não fica longe, e tem momentos bons, apesar da grande maioria boba e cansativamente despretensiosa. 

Uma Noite Fora de Série é um filme fora de série, completamente diferente das comédias atuais. É certamente um destaque maior. No fim das contas, é a história de um casal doido pra sair da rotina, e que acaba tomando um rumo inesperado, perigoso e pra lá de engraçado. E nem preciso repetir que a dupla-simpatia de protagonistas tem uma influência colossal nisso, né? 

Uma Noite Fora de Série (Date Night)
dir. Shawn Levy - 

domingo, 6 de março de 2016

Crítica: "NEBRASKA" (2013) - ★★★★


Lembro de ter acompanhado avidamente e com energia o Oscar 2014, do início ao fim, desde as previsões baratas pós-Oscar 2013 até o anúncio dos indicados ao Globo de Ouro, prêmios de sindicato & cia. Creio até que o Oscar 2014 foi a edição mais badalada que eu já segui, se bem que eu sou novo no ramo então não posso afirmar mais. Também foi a 1ª edição que eu vi pela TV, inteira, desde o tapete vermelho até o anúncio do vencedor de Melhor Filme. No Oscar 2013, dormi bem no começo, e estava acompanhando pelo celular, vejam só! Peguei o Oscar 2012 bem no meio, e só deu pra conferir alguns vencedores. E lembro de só ter conferido alguns flashes do Oscar 2011 (vale lembrar que sou um cinéfilo de tempo recente, pessoal). Enfim, voltando ao que interessa: em compensação, um montão de filmes indicados ficaram pra ver depois do prêmio na época (fiquei dando atenção para as categorias menores e esqueci os fortões). De 2014 pra cá, desde que consegui uma cópia de Nebraska, tentei ver um bilhão de vezes e nunca terminava. Até hoje. 

Dirigido por Alexander Payne (é estranho, mas o Payne não tem nem 30 anos de carreira - às vezes, dá a impressão de que, com aquela filmografia, o cara é um veterano), Nebraska é uma reflexão intensa e simplista sobre a velhice, o tempo e as singelezas que a vida nos apronta. Nebraska é muita coisa ao mesmo tempo. E é também uma obra pra lá de espetacular. Na minha opinião, o melhor filme do Payne continua sendo Sideways - Entre Umas e Outras, muito embora eu não tenha conferido ainda nem Os Descendentes nem As Confissões de Schmidt (esse eu vi parcialmente, confesso), mesmo assim Nebraska tem sua importância e devido lugar na filmografia do americano.

É a história de um idoso, Woody (Bruce Dern, numa performance absolutamente incrível), que recebe uma carta que diz que ele recebeu 1 milhão de dólares. A carta, no entanto, é a propaganda de assinatura de uma revista (marketing). O homem então decide partir para a cidade de Lincoln, em Nebraska, para "buscar" a tal fortuna. O filho dele (Will Forte), que trabalha numa loja de aparelhos eletrônicos, ciente da presepada, decide fazer uma viagem só para distrair a mente dele. 

Apesar do desenrolar contido e pouco conflituoso, a narrativa de Nebraska é de ouro. O roteiro, magistral, leva a assinatura de Bob Nelson. O astral melancólico do filme proporciona momentos confortáveis dramáticos bem como certos destaques cômicos (a atuação excepcional da June Squibb, por exemplo), muito embora o filme esteja bem distante de ser uma comédia propriamente dita. É um road movie com pitadas de drama, mas que também não é um drama propriamente dito. É difícil descrever a qual gênero Nebraska pertence. Comédia dramática? Sim, sim, acho que ficou melhor dessa forma.

A fotografia em P&B, de tons cinzentos e prateados, ampliam a sintonia com um clima melancólico e vagaroso assumido pelo filme. As paisagens, os cenários, os espectros antiquados... Nebraska é visualmente potente, sem sombra de dúvida. Um prato cheio pra quem aprecia um filme bonito e bem filmado. Alexander decidiu trabalhar novamente ao lado de Phedon Papamichael (de Sideways), e o resultado é delicioso. A fotografia é uma das melhores coisas de Nebraska, presumo. A indicação ao Oscar foi muito justa, e caso vencesse melhor ainda seria, mas era impossível alguém daquela lista bater a fotografia maravilhosa de Gravidade.

Leva um tempo pra compreender mais profundamente Nebraska. O filme vai amadurecendo na nossa memória com o passar do tempo. A influência do cinema pensante de Yasujiro Ozu é notória, como de costume (é possível encontrar a referência em outros exemplares dirigidos por Alexander). A história de passos lentos e largos de um homem procurando "sarna pra coçar" filosofa sobre a emergência do tempo e contempla a busca e seu significado, as raízes da reflexão e a desconstrução da glória e da bondade, da harmonia entre as relações humanas e do medo por aquilo que está perdido.

Seja pelo elenco sadio (além dos ótimos Bruce Dern e June Squibb, Will Forte também tá imperdível), pelo roteiro plausível do estreante Bob Nelson, o Alexander Payne, a fotografia de Papamichael, a trilha sonora divina (Mark Orton), Nebraska é um filme precioso, de muitas maneiras. Rende ver. Um carrossel cinematográfico completo, visionário e bem-feito. Pode não ser marcante, mas é inestimável, essencial. Um olhar complexo e delicado sobre a vida ao redor. 

Nebraska
dir. Alexander Payne - 

sábado, 5 de março de 2016

Crítica: "EU, MEU IRMÃO E NOSSA NAMORADA" (2007) - ★★★


A princípio achei que iria odiar mas acabei gostando dessa fofa e doce comédia romântica, estrelada por Steve Carell, no auge da sua carreira cômica, e Juliette Binoche (tendo sido a presença desta que me motivara a conferir Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada). A história? Um jornalista viúvo que se atrapalha todo tentando criar as três filhas e que parte para uma desastrosa temporada de férias em família, onde se apaixona pela ficante de seu irmão, Marie. 

É verdade que o gênero comédia romântica está bem deteriorado e são raros os exemplares de qualidade de safra que invadem o nosso circuito em tempos recentes. Apesar de não ser um grande filme, Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, mesmo com os quilos de clichê e as bobeiras usuais convenientes às produções de fins cômicos nos dias de hoje, consegue se safar e até que, no fim, é bem-sucedido na missão "ser uma boa comédia romântica". Lembrando "ser uma BOA...". O filme não vai muito além disso. É claro, há certas exceções nesse meio, mas ele é, no mais, um filme bom.

Quem viu Um Grande Garoto ou Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador deve conhecer o nome Peter Hedges. Diretor de Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, Peter lançou-se no cinema como roteirista de Gilbert Grape (ele também é autor do livro), e foi engatinhando até chegar em Um Grande Garoto, comédia romântica que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, em 2003, em Roteiro Adaptado, e que finalmente pôs a sua carreira como roteirista, e também diretor, nos trilhos. No ano seguinte ao lançamento de Um Grande Garoto, ele lançou-se como diretor, em Do Jeito Que Ela É (não vi). Este filme aqui foi seu segundo experimento como diretor. 

Ainda que tenha se saído bem dirigindo o filme, o roteiro continua sendo seu forte. É claro, semelhanças à parte, Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada está aquém de Um Grande Garoto no quesito roteiro, mas não se pode negar que é um exercício tão comovente quanto. Hedges marca pontos por ser um diretor de elenco. Ele comanda com astúcia um elenco gigantesco e lotado de talentos que, caso em outras mãos, poderia ter resultado em algo diferente, independente de qualidade. 

Fora os protagonistas Carell (cheguei à conclusão que você chega ao fundo do poço quando começa a se identificar com os personagens losers do Steve) e Binoche, temos ao fundo Dane Cook, o irmão "toupeira" do jornalista Dan, Alison Pill (ainda jovem, num papel coadjuvante), Dianne Wiest, Amy Ryan (ela não tem nenhuma fala - até agora eu não sei porque diabos ela foi elencada), Britt Robertson (não conhecia até esse filme), John Mahoney, e por aí vai. Das melhores atuações, destacaria o Steve, a Juliette, a Alison e a Britt. 

Particularmente, todos são ofuscados pela Juliette Binoche. Já é um achado vê-la como estrela de comédia semi-besteirol com pegada romântica, e ainda não-francesa, e quando se é fã da diva, não tem como não ficar extasiado pela participação dela aqui (acho que mencionei acima que ela foi quem me levou a Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada - gostei mais desse título nacional do que do título original). Legal ficar pensando o porque ela aceitou o convite, se foi porque ela se identificou pela história, se ela foi forçada, se ela achou gostosa a narrativa, se ela achou que seria bom trabalhar em um terreno cinematográfico mais despretensioso como descontração... As possibilidades são incontáveis, bem como os motivos para dar uma chance e ir ver de Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada. O segredo é relaxar e ter a consciência de que este é um trabalho mais leve e despretensioso. Se dá pra gargalhar? Meu amigo, no quesito "se rachar de rir", Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada é nota 10 (ok, posso estar exagerando, mas é por aí: garantia de satisfação). Como diz no pôster: "espere ser surpreendido". 

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (Dan in Real Life)
dir. Peter Hedges - 

quinta-feira, 3 de março de 2016

Crítica: "O ESCAFANDRO E A BORBOLETA" (2007) - ★★★★★


Lá vou eu me aventurar de novo em uma revisão. Há uns dois anos, O Escafandro e a Borboleta estava passando no canal Telecine Cult. Eu parei pra ver e não me lembro se vi inteiro (acho que comecei a ver pela metade, ou parei na metade, aí depois eu voltei e vi... Sei lá, só sei que, na minha memória, desde então, trata-se de um título deprimente - e ele, de fato, continua sendo, até mais do que tinha sido na época). Produção francesa financiada com dinheiro saído de bolso americano, e dirigida por um, O Escafandro e a Borboleta é uma obra vigorosa e inesquecível, uma das biografias mais bem-feitas dos últimos tempos e certamente um deleite cinematográfico pra quem aprecia um filme de qualidade. O longa acompanha o trágico destino do jornalista francês Jean Dominique Bauby, que sofreu um derrame e após um curto período em coma, como consequência, desenvolveu a raríssima síndrome do encarceramento, mal neurológico que afeta o sistema nervoso e paralisa todos os músculos do corpo humano, à exceção das pálpebras (o intelecto, bem como a visão e a audição da vítima, permanece intacto). Confinado a uma vida hospitalar incessante, o homem logo faz amizade com uma terapeuta que, ao lado dele, pratica uma linguagem de sinais através do olhar. Das piscadelas para "sim" e "não" à esquematização de um alfabeto, Bauby logo tem uma ideia: escrever um livro. 

Julian Schnabel é um artista completo. Diretor de O Escafandro e a Borboleta, o homem só possui quatro títulos na sua filmografia (incluindo este aqui). Acontece que o diretor trabalha muito no ramo das artes plásticas e realiza diversas exposições mundo afora, e ele também já atuou dentro da música. Lembrando que esses são quatro vastos títulos, diga-se de passagem. O que essas produções tem em comum? São retratos de artistas problemáticos e complexos de coração. O primeiro filme de Julian, Basquiat, falava da vida do artista múltiplo Jean-Michael Basquiat, descoberto por Andy Warhol (interpretado no filme por David Bowie), envolvido nas artes literária, cinematográfica, musical... O segundo, Antes do Anoitecer, rendeu a Javier Bardem a primeira das três indicações do ator até hoje ao Oscar,  na categoria de Melhor Ator. O espanhol encarnou o poeta e escritor cubano Reinaldo Arenas. Como O Escafandro e a Borboleta, Antes do Anoitecer inspirou-se na autobiografia literária de seu principal. Basquiat, Arenas e Bauby. O que esses homens tem em comum? Seres humanos vivendo em prol da expressão, apaixonados pela vida e de alguma maneira aprisionados aos seus demônios e mais obscuros medos e à dor, à perdição e à culpa. Só o pouco falado Miral, o último dele, que não se encaixa nesse grupo das cinebiografias.

Não vi ainda nem Antes do Anoitecer e Basquiat, mas pretendo num futuro próximo desvirginá-los dos meus olhos. A garantia é que O Escafandro e a Borboleta é um baita de um filmaço e creio que já por este é possível desvendar, muito facilmente, a potência cinematográfica e artística de Schnabel. O filme, de veia poética, reconta a trajetória final de um homem que, impossibilitado de se movimentar, teve como único recurso a imaginação para a sobrevivência. Imaginar para viver. A beleza por trás dessa trama toda vai bem além de um puro e inocente sentimentalismo lotado de atrativos. O Escafandro e a Borboleta é também a história de um cara arrogante e que fez muita burrada aprendendo a lidar com a redenção e com os seus próprios erros num estado vegetativo profundo e abstinente. É o ser frente a frente com os seus mais sórdidos defeitos.

O Escafandro e a Borboleta tinha tudo pra ser um melodrama furado e sem vida. Felizmente, não é: passa longe da cruel possibilidade. Há um jogo tenaz de gêneros e diálogos e climas que livra do filme do pecado e da perdição de um dramalhão sem vida. O sentimento que fica é de melancolia, ao contrário daquela sensação frívola de peso dramático nas costas que geralmente vem a ocorrer ao fim de um fracasso do drama, que não é o caso aqui. Há, inclusive, a adição de humor, o que chega a ser muito bem-vindo e extraordinário tratando-se de uma história dessas, tão carregada e intensa. Mas a descontração serve, nesse caso, para degustar melhor o tom do filme em si e também como confronto à certos embates morais cabíveis ao estado do Jeando. 

À medida em que vamos nos aproximando do fim, surgem as revelações e os emblemas. O Escafandro e a Borboleta é também um desafio ao nossos limites morais, à aceitação e à desconstrução dos erros. Todos somos humanos. Ser humano é o primeiro passo para abraçar a redenção e a liberdade de espírito.

A ciranda visual comandada por Janusz Kaminski que é a fotografia de O Escafandro e a Borboleta proporciona ao espectador uma experiência nutritiva, eletrizante e belíssima, das mais cativantes e fascinantes. A câmera brinca com as posições e muitas vezes nos põe na pele de Bauby. A pungência é delirante. A unicidade é ainda mais encantadora. Os ângulos trêmulos e planos individuais ajudam a construir o clima quebradiço e o cenário blue.

Afinal, é a superação que faz o herói? Indiretamente, o transtorno do jornalista desencadeou na auto-descoberta dele mesmo, na aceitação das decisões erradas e das feridas emocionais, de alma corrompida e moral descreditada. O filme, no geral, é crível e bem conduzido. Não há como reclamar. A pérola estonteante e maravilhosamente triunfal de Schnabel trata-se de uma obra-prima atordoante. Sua força é tocante. A performance de Mathieu Amalric, alado um elenco extraordinário, cheio de gente boa, é desoladora. Além da dupla Mathieu e Julian, temos, atrás das câmeras, o roteirista Ronald Harwood (que já trabalhou com cinebiografias anteriormente, por exemplo O Pianista, também vindo da autobiografia de um pianista polonês sobre sua trajetória em guerra), a editora Juliette Welfling (colaboradora do cineasta Jacques Audiard), e a produtora Kathleen Kennedy (sim, aquela que de algum jeito sempre aparece nos créditos dos filmes do Spielberg). O Escafandro e a Borboleta é, enfim, primoroso. Não tem como ir além disso. O filme é assim, impactante e delicioso, difícil de desapegar.

Só pra terminar, a cena mais dolorosa do filme: o derrame, ao som de "La Mer", provavelmente uma das cenas mais tristes que eu já vi em toda a minha vida. A reconstrução é épica. Posso estar enganado, mas é a melhor cena do filme.

O Escafandro e a Borboleta 
(Le scaphandre et le papillon / The Diving Bell and the Butterfly)
dir. Julian Schnabel - 

quarta-feira, 2 de março de 2016

Crítica: "SHERLOCK JR." (1924) - ★★★★★


Apesar da popular estrela, o lendário Buster Keaton, Sherlock Jr., curta-metragem de 44 minutos, não foi lá um grande sucesso comercial quando lançado, mas arrancou aplausos dos principais veículos de informação americanos na época, como os jornais The New York Times e The Washington Post. Este que é provavelmente o melhor e mais cômico e astuto trabalho de Keaton veio a ser valorizado com o passar do tempo. O interessante é que Sherlock Jr. é bem mais que um simples curta à primeira vista despretensioso. O filme, além de ser um dos projetos mais importantes da sua época, é uma completa revolução técnica e quão impressionante que ainda maravilha e fascina mesmo com quase um século de diferença. O primor dos detalhes, das estratégias e de um roteiro que mistura comédia e suspense com genialidade compõem Sherlock Jr., espetáculo cinematográfico do mais bem-feito. 

Um projecionista de um cinema de uma pequena cidadezinha ocupa as horas vagas no trabalho com a imaginação e a fantasia do universo policial, através de um pequeno livreto, um guia de detetive. O rapaz é um baita azarento e vive com os bolsos vazios. Certo dia, ele decide comprar um presente para a amada, mas logo é surpreendido por um galã charlatão que o incrimina injustamente e ganha a atenção da namorada do rapaz. No trabalho, o homem misticamente se infiltra na telona e passa a investigar uma dupla de espertalhões do filme em exibição. 

O deleite é inexplicavelmente gigantesco. Buster Keaton, gênio da comédia, fabricou uma autêntica pérola do cinema ao assumir a direção e o protagonista de Sherlock Jr. Não à toa o filme conquistou uma enorme legião de fãs e hoje é considerado um dos melhores filmes já feitos (e com razão). Os truques são de deixar qualquer um de boca aberta. Aquela cena da fuga, por exemplo, perto do final, é inesquecível de tão inacreditável e fabulosamente rica. Já que estamos falando de sequências impactantes aqui presentes, vamos lá, entre as melhores estão: a cena da sinuca, a cena final, a cena da fachada do cinema... Enfim, acho que todas as cenas de Sherlock Jr. são as melhores. Não consigo ver porque não. Que engraçado!

Sherlock Jr. inspirou Woody Allen em A Rosa Púrpura do Cairo, meu filme favorito do Woody, que narra a história de uma mulher infeliz durante a Grande Depressão, que é agredida pelo marido e cujo único momento de alegria na vida é quando vai ao cinema. Certa noite, após ir ver pela centésima vez o mesmo filme em cartaz, ela se surpreende: o grande herói do filme, encantado, sai da tela e foge com a dama. Embora não exista lá um diferença de enredo tão grande, muito embora existam certas diferenças significantes, A Rosa Púrpura do Cairo é, ainda sim, mais mágico. Posso até estar enganado, já que Sherlock Jr. é um filme excelente e fantasticamente exótico, mas é uma preferência bastante pessoal. Pode-se dizer que os dois tem em comum a qualidade: excepcionais trabalhos de vigor e grandeza. 

Sherlock Jr. é um filme glorioso. Buster Keaton é genial, em todos os sentidos. Pra fazer um filme desses inteligência, talento, força e paixão pelo que faz é o que não deve faltar. Afinal, não é todo dia que a gente se depara com clássicos desse patamar, a cada sequência admirável e mais e mais memorável. Sherlock Jr. é imperdível. Cinco estrelas chega a ser pouco para esse marco inovador e essencial. Afinal, é de fantasias e ilusão que faz-se a vida. Caso contrário, pra que viver? Pra que viver sem sonhar, minha gente? Eu ficaria desnorteado. Isso com certeza. Sherlock Jr. é, acima de tudo, sobre nossos sonhos, sobre o poder da nossa criatividade e da fantasia ilimitada, das nossas ambições obscuras e infinitas. Sonhar é viver. E viver é sonhar. Assim que é viver num mundo onde nada é demais. 

Sherlock Jr.
dir. Buster Keaton - 

terça-feira, 1 de março de 2016

Crítica: "TANGERINE" (2015) - ★★★★


Merry Christmas Eve, bitch!

Interessante observar como o gênero independente cresceu rapidamente de uns anos pra cá, e conquistou, gradativamente, um enorme espaço na indústria cinematográfica contemporânea, processo que ainda está em andamento e que tem muitos obstáculos a serem enfrentados. Na noite desse último domingo, de Oscar 2016, a produção independente Spotlight - Segredos Revelados, por exemplo, abocanhou o prêmio principal, de Melhor Filme, saindo à frente de outras potentes superproduções, como O Regresso e Mad Max - Estrada da Fúria, tidas como favoritas. No quesito cinema independente, o ano de 2015 foi marcado por vários destaques importantíssimos. Tangerine foi um dos exemplares mais comentados da safra e chegou aos cinemas nacionais no início de fevereiro. Por onde passou, de Sundance a Sight & Sound, o filme acumulou elogios. 

É a história de duas amigas transsexuais que passam por poucas e boas durante a véspera de Natal. Sin-Dee Rella, recém-saída da prisão, foi traída pelo noivo e cafetão, um traficante, e agora está atrás da mulher com quem ele dormiu, e Alexandra, que está acompanhando a amiga desvairada e que está promovendo uma apresentação musical sua. As duas saem andando pelas ruas de L.A. discutindo a vida, comentando o mundo ao redor e tirando sarro dos problemas.

Uma coisa que eu não sabia sobre Tangerine, me interessei e corri pra ver, (graças à resenha do Ailton Monteiro) é que o filme foi inteiramente filmado na câmera de um iPhone (assim que soube lembrei daquela piada do Ben Stiller quando ele apresentou o Oscar de Fotografia em 2009. Ele disse que Quem Quer Ser um Milionário tinha sido filmado em um celular. A princípio, até pensei que era verdade, mas só depois fui me dar conta de que ele estava brincando). E, como o próprio Ailton mencionou, o legal do filme está justamente no visual, que, caso não fosse revelado o tal fato sobre o celular, passaria despercebido. A fotografia de Tangerine é excepcional, by the way.

O filme é, na maior parte do tempo, uma comédia. O núcleo do taxista é um pouco mais dramático do que o núcleo das travestis, por exemplo. Acho que só o final mesmo que recaí para o drama, mas Tangerine é definitivamente mais cômico do que dramático. Por conta da montagem e da cronologia da trama, os 79 minutos de filme passam num piscar de olhos. Dá impressão do mesmo ser um curta.

A verdade mesmo é que o filme é delicioso. Tangerine desconstrói a Los Angeles dos crimes e da perdição e reconta a cidade numa crônica moderna e cheia de excessos maravilhosos. Vale também reconhecer o valor das duas protagonistas do filme, as inexperientes e talentosíssimas Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor (que venceu recentemente o Independent Spirit Award de Atriz Coadjuvante, que aconteceu no último sábado), que encarnam as desvairadas transsexuais Sin-Dee e Alexandra. As duas atrizes, que são transsexuais na vida real, estão incríveis. E como são poucas as artistas transsexuais hoje em dia em Hollywood, não? Eu mesmo só consigo lembrar da Laverne Cox, da série Orange is the New Black.

Tangerine já é um dos melhores filmes desse ano, so far. O filme explora com audácia e excelência o universo das transsexuais e do mundo da prostituição em Los Angeles, com uma leve pitada de sensibilidade e espírito, leveza e crítica. O trabalho é definitivamente um destaque do cinema indie. Merece ser visto. Na minha opinião, merecia ter um reconhecimento mais amplo. E confirma-se a autenticidade do promissor cineasta Sean S. Baker, diretor e roteirista do longa.

Tangerine
dir. Sean S. Baker -