sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Crítica: "AZUL É A COR MAIS QUENTE" (2013) - ★★★★★


Adèle é uma jovem adolescente. Leva uma vida comum. Sua inexperiência ainda não a permitiu conhecer o mundo de uma visão mais ampla. É claro, Adèle tem suas dúvidas e mantém algumas curiosidades em relação ao mundo aberto em que vive. O que Adèle ainda não conseguiu compreender é que o cotidiano está privando-a de viver a vida. Ela tem que se afastar desse cotidiano para conseguir aprender a conviver na sociedade. Não que o cotidiano esteja a atrapalhando, mas sim, na sua intenção de conhecer melhor o que está à sua frente. E esse cotidiano é evidente influência nos seus pensamentos e ações. Nos primeiros minutos, apesar disso, Adèle demonstra um interesse bem inusual para a sua idade: a homossexualidade. Com o passar do filme, Adèle ganha um pouco mais de curiosidade em sua descoberta, o que a leva até Emma, uma artista lésbica por quem ela ganha uma intensa amizade, que rápido se torna um amor incondicional.

Com Emma, Adèle consegue ver um mundo que não via antes. E no universo tão diferente do qual Emma enfrenta, Adèle vê uma atração especial, quase que uma força natural, um instinto que não consegue reagir ao mais intenso impacto, e isso a causa fascinação. É nesse mundo onde Adèle aprende a viver, libertando sua alma para unicamente amar a Emma, seu amor verdadeiro. A significância desse amor para Adèle é tão grande que ela rejeita seus amigos mais próximos apenas para apartar o preconceito, infelizmente existente na atualidade. 

Também trata-se um ato particular de Adèle, a necessidade de experimentar coisas novas, ou até mesmo preencher o vazio desse dia-a-dia simplório e lento. É em Emma onde ela encontra a verdadeira razão para prosseguir sua jornada. E há um amor melhor do que esse? É possível amar alguém existindo tanto preconceito e limitação? Será que a dúvida atrapalha uma relação tão diferente e singular? São algumas das questões provocantes dirigidas do filme ao seu público, que há de buscar a resposta de cada uma delas dentro dele, através dos elementos preciosos apresentados. 

Aqui vai uma longa confissão: foi difícil resistir ao filme. Não é por causa da duração de três horas nem da questão da homossexualidade (da qual eu já sou consideravelmente acostumado), mas sim, por causa da profunda mensagem que é mostrada ao público. Há momentos em que você é domado pela história, e outros em que você doma a história. Ou então, a delicadeza de alguns momentos torna-se tão real que é quase possível tocá-la. 

Eu, fora da tela, lutei pelo amor de Emma e Adèle. É algo tão extremo que é mágico. Esse amor tão forte, e tão frágil, que nos sufoca tanto por ser imprevisível. É nestes momentos em que percebo seu grandioso contexto, e a genialidade que foi usada para fazê-la. É claro, dando um destaque bem notório à belíssima protagonista já citada Adele Exarchopoulos, na performance desoladora e cativante de Adèle, capaz de render as mais duradouras sessões de aplausos. 

Um dos filmes mais comentados de 2013, Azul é a Cor Mais Quente foi demasiadamente criticado por seu alto teor de sexualidade e cenas implícitas, protagonizadas pela revelação Adèle Exarchopoulos e a talentosa Léa Seydoux. E realmente, o que você ouviu sobre ele em relação á polêmica não estava errado. Algumas dessas cenas foram filmadas realmente, sem o uso de nenhum artifício impedindo o contato dos atores. Bem assustador. Algo que me levou a 9 Canções. Mudando de assunto, independente de tudo, Azul é a Cor Mais Quente é uma obra obrigatória, principalmente por ser tão aproximada da realidade, mesmo se tratando de uma ficção.

A simplicidade da película é o que mais me encantou aqui. Abordar a homossexualidade em ângulos tão ambiciosos e independentes é uma tarefa bastante arriscada para qualquer cineasta. E parece que Abdellatif Kechiche conseguiu captar a homossexualidade da melhor maneira possível, tornando esta obra num dos melhores filmes sobre o tema, tão questionado por ser tão desconhecido, peculiar e proibido para a maioria das pessoas. Mas o desejo de Kechiche é quebrar essa imagem que a homossexualidade tem: proibida a ponto de ser criminosa. Sei que nem todos vão celebrar Azul é a Cor Mais Quente, mas aos olhos certos, esta é transformada em uma obra-prima inovadora e revolucionária do cinema contemporâneo. Moderna por brindar o amor e a liberdade, duas coisas que vem gerando tão profundos debates e até mesmo guerras. Eu realmente acho que o cinema é usado a favor desses meios, de forma bem pacífica. Azul é a Cor Mais Quente é um protesto, contra as regras e estereótipos de autoria da sociedade opressiva. E que forma melhor há de protestar do que através de uma original história de amor? O amor. Apesar de levar para alguns lados mais particulares, o amor é o centro dessa trama. E o amor, intencionalmente, é o passaporte para a liberdade, que infelizmente, nem todos tem acesso (uma das mensagens mais lindas que tive o prazer de observar na película). Azul é a Cor Mais Quente é brilhante. Belíssimo em sua atitude e autenticidade. Eterno clássico instantâneo, um visionário drama de um cineasta que revelou-se um dos melhores de sua geração.

Azul é a Cor Mais Quente (La Vie D'Adele: Chapitres 1 & 2)
dir. Abdellatif Kechiche - 

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