terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Crítica: "VICKY CRISTINA BARCELONA" (2008) - ★★★★


Assistindo pela quarta vez Vicky Cristina Barcelona, percebi pela primeira vez sua estrutura literária contundente e singular. Dirigido por um dos maiores gênios americanos, Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona desfruta de alguns artifícios ausentes em produções anteriores do cineasta, tais como a linguagem interceptiva e a trilha sonora onipresente. De qualquer forma, esta é uma das melhores obras do diretor, de um inevitável sucesso.

Filmado em Barcelona, a película do cineasta é a confirmação mais fiel de que seu talento continua intacto, mesmo após algumas falhas nos últimos tempos, que tiveram uma certa polêmica. Este filme também é um dos mais populares filmes de Allen, sendo exibido inúmeras vezes na televisão e tendo uma considerável alta bilheteria no ano de seu lançamento, 2008. Mas aqui, não venho discutir sobre o sucesso comercial (e nem crítico) do filme, e sim, sobre o que mais me atraiu nele. Primeiro de tudo, saibam que sou um grande fã de Woody Allen, a ponto de considerá-lo um dos maiores cineastas da história do cinema. 

Segundo de tudo, para aqueles que também o veem como um grande cineasta, passem a considerar Vicky Cristina Barcelona como um filme indispensável da carreira dele. Uma das razões é que este é um filme raríssimo na carreira de Woody. Em vez de filmar nos famosos ângulos sobrepostos e observativos de seus longas, Woody filma Vicky Cristina Barcelona abusando de uma instintiva liberdade, quase absoluta. 

No elenco, figuram Scarlett Johansson, Rebecca Hall, Javier Bardem e (a gloriosamente histérica) Penélope Cruz, fazendo um dos melhores papéis de sua carreira, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2009. Esse quarteto me surpreendeu da forma mais inesperada, para ser sincero. Scarlett Johansson, uma das mais íntegras musas de Allen, pelo menos, apareceu aqui melhor do que em Match Point, outro filme do diretor que me causou um certo espanto por abandonar de forma tão brusca algumas das fórmulas mais usadas por ele. Rebecca Hall se revelou no papel de Vicky. Javier Bardem, um dos mais consistentes atores da temporada, revelou um suficiente controle da performance. E a já citada Penélope Cruz... Simplesmente fantástica. A musa de Pedro Almodóvar deslumbrou muita gente no papel desesperado e violento de Maria Elena, a ex-esposa problemática de Juan Antonio, interpretado por Javier.

Quanto á trilha sonora, confortavelmente envolvente e cativante. Em um contraste excelente com a ação lenta e própria da película, foi intensamente maravilhoso ter experienciado ouvir a trilha sonora catalã em Vicky Cristina  Barcelona. Confesso: a trilha sonora me deixou estonteado, de tanta beleza. E esta palavra, beleza, é o que claramente define Vicky Cristina Barcelona. Narrado instantaneamente sob um único gênero por Allen, a romântica película também trata-se de um drama, por mostrar tão calculadamente a festa da vida. 

Com uma certeza impávida, afirmo: "Prazer é o êxtase da vida". É claro, assistir á uma obra tão incomum como essa na carreira de um diretor tão rígido e concreto é um presente divino. E no final, tudo o que tenho a dizer é que trata-se de uma das mais formais homenagens á vida do cinema, aqui, abordada como suntuosa e frágil, por mais que sem sentido. Nada substitui a magia de Vicky Cristina Barcelona, tão simples e inteligente por ser poético. 

A cada vez que assisto, minha percepção diante dela cresce e automaticamente se renova, como se ela nos fizesse questionar o que é a vida, em tão poucos minutos, recheados euforicamente por essa abstrata personalidade misteriosa. Vicky Cristina Barcelona é profundamente memorável e sensual, mais que uma obra de arte: uma triunfante escultura cinematográfica. 

Vicky Cristina Barcelona
dir. Woody Allen - 

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