Charlie Kaufman é um dos maiores autores de Hollywood, e da história do cinema, provavelmente. Seu talento é visível em suas quatro atuais obras, de forma igual, pelas quais ele ganhou uma fama bem qualificada no universo cinematográfico. Uma dessas quatro obras é a fantástica e inteligente Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, a possivelmente maior de Kaufman. O interessante de assistir ao filme pela primeira vez é que ele te engana facilmente, e a história é contada reversalmente, revelando os elementos principais pouco a pouco, até chegar a um ponto onde todos se encontram efusivamente, como pura atração. É chamado de processo tempo não-cronológico, famoso por filmes como Pulp Fiction, que consagrou o gênero. No entanto, esta história não trata-se de um Pulp Fiction. É algo um pouco mais tentador e bem menos violento: a trama se centra em um casal, o que torna bem mais difícil o uso desse artificio, que já é por si uma mecânica demasiadamente complicada. É preciso prestar atenção para conseguir compreendê-la da forma mais contundente imaginável. E felizmente, eu tive a maravilhosa oportunidade de captar o processo apresentado ao longos dos pouquíssimos cem minutos da película.
Joel escuta um ruído no meio do nada e desperta. O filme se inicia. Joel está melancólico e mal-humorado: dia dos namorados. Confuso e sem ideias, Joel, quase por impulsão (como ele mesmo descreve), falta ao trabalho, indo para uma praia deserta em pleno inverno para, talvez, pensar um pouco nas consequências de seu fatídico cotidiano, iniciando uma busca por ele mesmo dentro do turbilhão de pensamentos de sua mente; Joel encontra uma mulher. Ponto. Essa cena é o ponto de partida crucial da trama. A partir daí, uma jornada alucinante e belíssima, que mistura alguns pontos do passado com pontos do presente, sem a ausência do místico e irreal, é contada através de capítulos misturados um nos outros, o que pode ocasionar um pequeno problema de comunicação entre o filme e seu público. Mas para encontrar a solução desse problema, é preciso prosseguir assistindo-o até o final.
Jim Carrey e Kate Winslet fazem um casal surpreendentemente bom, em minha opinião. Para quem tinha expectativas bem baixas em relação á isso, a performance dos dois resulta numa química brilhante, quase surreal, para ser sincero. Jim Carrey atua impecavelmente em uma das melhores atuações de sua carreira, que perde apenas para O Show de Truman. Na pele do inseguro e sensitivo Joel, um desintencionado, porém de bom coração, que apenas não consegue aceitar o fato de ser tão sozinho. A unica conexão de Joel a um possível, porém inexistente circulo social é Clementine, interpretada triunfantemente por Kate Winslet, numa performance bem inusual. Enfim, para evitar alguns spoilers em relação á película a partir das declarações daqui, é melhor encerrar a discussão sobre a relação de Joel e Clementine por aqui.
Uma das mais convenientes verdades que você poderá saber sobre Brilho Eterno de uma Mente
sem Lembranças é que, de qualquer forma, ela irá te fascinar.
Não precisa ter motivos tão profundos ou racionais. Com um elenco talentoso,
uma direção marcante (conduzida inerravelmente pelo francês Michel Gondry, que
alguns se recordaram por Rebobine, Por Favor ou O Besouro Verde.), e um roteiro genial e
marcante (é claro, vindo de Charlie Kaufman, não necessita-se causas adicionais
para justificar o uso de tais grandiosos adjetivos), já existe um pouco de
curiosidade e anseio em assistir. 2004, ano em que este filme foi lançado, foi
o ano da comédia romântica. Não é só por causa de Brilho Eterno de uma Mente
sem Lembranças, mas há um pouco do trabalho de Antes do Pôr-do-Sol na afirmação. Ao pensar nos
dois filmes, imagino-me coberto por um extenso manto de fantasia e prazer, que
me aproxima mais do gênero. Sim, confesso que além de ter uma paixão ávida e
compulsiva por roteiros cinematográficos, filmes estrangeiros, animações
clássicas, Woody Allen e ainda por cima um documentário bem filmado, as
comédias românticas também me atraem, e muito! O mais triste é que atualmente filmes
do gênero estão perdendo aquele substrato mágico que compõem sua originalidade,
onipresente em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. O mais ingênuo sobre mim
em relação á este filme é que sou tão inesperadamente inspirado por sua
complexidade incomum que sou capaz de considerá-lo uma das maiores películas já
filmadas na história do cinema. Sim, por que não? Contar histórias não era o
objetivo do cinema? Este filme, por si, já conta uma história e tanta. E olha
que existem tantos bônus. Além de tudo isso, também existe uma espécie de amor
por este filme. É tão visualmente recheado de tantos artifícios monumentais que
em poucos minutos sua beleza é evidente ao público. É impossível não ser
seduzido e impactado por este filme. Seus detalhes e sua jornada memorável me
introduziram aos encantos inabaláveis que possui: uma história de amor única e
visionária.
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind)
dir. Michel Gondry - ★★★★★

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