quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Crítica: "UM OLHAR DO PARAÍSO" (2009) - ★


Há quem estranhe o envolvimento de Peter Jackson nesse pesado, porém fraco, drama, que marca uma das últimas recentes produções de um cineasta competente e que raramente desaponta. Bem, a raridade foi quebrada na realização deste pequeno melodrama que não convence, é total perda de tempo e, de tão sacana, desperdiça um elenco massa, que tem brilho próprio, mas é minimizado pelo desgosto e o fracasso geral dessa bomba. Mistura imprevisivelmente ruim de drama familiar, fantasia e suspense, Um Olhar do Paraíso tinha tudo pra dar certo. Só faltou mesmo qualidade. 

Os momentos iniciais do filme, que retratam o cotidiano da ainda viva Susie Salmon, suas aflições pessoais, e a vida em família, até que dá pra engolir, embora também seja, em determinadas partes pra lá de incômodo. Porém, é justamente depois de uma hora, ou menos que isso, que o filme começa a queimar, os olhos ardem e o cansaço bate. Um Olhar do Paraíso peca quando, depois de um maturo prólogo, vende uma sensibilidade batida e defeituosa que contrariam o que essa abertura justamente propôs, é tanto que eu não entendi muito o que veio sendo mostrado a partir dali, e qual era a real intenção do Peter abordando metáforas espirituais mescladas com um amargo tom de culpa e brutalidade. 

Há muito o que ver em Um Olhar do Paraíso, mas é tudo muito confuso para ser tragado de uma só vez. Tudo vem misturado, como numa avalanche. A hipocrisia do roteiro, tremendamente ruim (para alguém do nível de Peter Jackson, acompanhado da esposa Fran Walsh e Phillipa Boyens) confirma essa falta de precisão, adequamento e sentido dele. Um Olhar do Paraíso, na pior definição do termo, é um drama poser. De tanto explorar vida após a morte, assassinatos diabólicos, delegação filosófica e superação inconsequente, não satisfaz a fome das expectativas, e uma desgraçada desnutrição nos abate, junto da certeza da porcaria que é, após um final desolador que mesmo assim não consegue pagar o estrago - a mesma situação do elenco e de outros elementos, por exemplo técnicos, aqui membrados. 

Digo, ainda que seja um lixo, não deixa de ser escassamente apreciável, na existência de uma bela fotografia do Andrew Lesnie, colaborador de Peter e o responsável pelo brilhante visual épico da trilogia O Senhor dos Anéis, a grande obra-prima do Jackson; uma trilha sonora que funciona perfeitamente no fundo das cenas passadas no paraíso da garota morta, comandada por Brian Eno; um elenco mais uma vez excelente, que re-revela o poder de Saoirse Ronan, famosa por Desejo e Reparação, e ainda sim fabrica, por mais incrível que soe, a melhor performance cinematográfica do Stanley Tucci, na pele do sádico e monstruoso serial killer George Harvey, embora até mesmo nessa sucessiva performance que levou Stanley à várias premiações seu personagem seja muito mal escrito. Ou melhor, adaptado, já que o filme vem do best-seller The Lovely Bones, da Alice Sebold, romance elogiadíssimo, ao contrário do seu desastroso filme. Sem falar no Mark Wahlberg, Rachel Weisz, Susan Sarandon, entre outros que compõem esse rico pessoal. E, mesmo assim, tão bem financiado e com uma equipe fera, Um Olhar do Paraíso mostra mesmo que Peter, mesmo tendo no currículo um drama acentuadíssimo, o glorioso Almas Gêmeas, não deveria ter trocado o universo fabuloso que lhe rendeu O Senhor dos Anéis e O Hobbit, desperdiçando energia num trabalho asqueroso desses, mais um exemplar do mal que acomete os filmes modernos, que, com tanto potencial, desanda por desordem. E que título nacional ferrado, não? Parece nome de livro da Zíbia Gasparetto, cara. Não sei as outras plateias que viram, mas o chamariz dele em favor à abordagem do filme não conseguiu me pegar não. Mas, afinal, é a distribuição no Brasil.

Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones)
dir. Peter Jackson - 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Adeus, CHANTAL AKERMAN (1950 - 2015)


Com a notícia de que o mais recente filme da diretora belga, Não É Um Filme Caseiro, tinha chegado ao Festival do Rio desse ano, tendo o Chico Fireman postado ontem uma crítica ao filme em sua passagem no festival, fiquei muito animado e ao mesmo tempo pra baixo, já que moro em São Paulo e estou abarrotado de tarefas, que me impedem de conferir as estreias do festival de cinema carioca. Ironicamente, ontem faleceu Chantal, em Paris, com a notícia chegando à tona hoje. Uma pena mesmo. Poxa. É com lamentação que recebo a notícia da morte da cineasta, revolucionária no cinema femininista, e famosa pelo clássico Jeanne Dielman, que também se aventurou bastante no gênero experimental. Tendo consigo uma vasta filmografia, a principal suspeita da morte de Akerman é suicídio. Como muita gente deve (ou não) saber, Chantal sofria de alguns problemas psicológicos que se agravaram de uns tempos pra cá. Espero mesmo que Não É Um Filme Caseiro venha para a Mostra de Cinema daqui de São Paulo, e que eu tenha o imenso prazer de ver o longa. Pois é, Chantal. Grande mulher. Grande cinema. Até o último ano, ativa e continuamente feminina e sempre idealista. O blog a agradece por inúmeras contribuições à indústria cinematográfica, e lamenta neste triste momento.

"Para tudo, o cinema personifica a crise"


- Chantal Akerman

Crítica: "21 GRAMAS" (2003) - ★★★★★


"Dizem que você perde 21 gramas no exato momento da morte". 21 Gramas não se distancia tanto dos outros dois colegas Amores Perros Babel, já que os três filmes juntos constituem a Trilogia da Morte, mas se destaca por ser o mais dramático e intenso dentre todos eles. Com um elenco arrasador, um roteiro forte e bem-escrito e a direção empenhada de Iñárritu, 21 Gramas reflete sobre os altos custos da culpa, da superação e da esperança que recaem sobre nós em momentos de tensão e conflito. É verdade que é mais semelhante a Amores Perros do que Babel, já que 21 Gramas remonta em sua trama a história do primeiro, que unia um grupo distinto de pessoas a um acidente de carro. Porém, quando digo que se trata de um filme forte, 21 Gramas, por exemplo, não consegue superar a densidade do anterior, Amores Brutos, embora seja um filme mil vezes melhor do que Babel, um trabalho menor do Alejandro. 

Comentar a sinopse de 21 Gramas é uma tarefa que de longa já cheira a spoiler, uma vez que o desenvolvimento da narrativa é todo dispersado, desmontado. O filme é basicamente um quebra-cabeça de cem peças pronto para ser arquitetado. A figura só é descoberta perto do final da montagem. Por isso, evitarei abrir qualquer notificação sobre o argumento do filme aqui. Prefiro apenas falar sobre o filme e o quanto profundamente me deixou depressivo e pensativo. E confesso que não sou fã de Alejandro González Iñárritu, nem um pouco, mas 21 Gramas até despertou curiosidade em mim sobre a carreira dele, algo que nunca veio tão disparado como hoje. 

O que, de fato, é o mais interessante e inteligente sobre 21 Gramas é sua estrutura narrativa não linear, que na época do lançamento tinha sido merecidamente comparado a filmes como Pulp Fiction, e Amnésia, embora a comparação ao primeiro tenha sido inicialmente atribuída ao também genial Amores Perros, já que essa ausência de ordem cronológica é característica da trilogia inteira. O roteiro é assinado brilhantemente por Guillermo Arriaga, que soube trabalhar com eficiência numa trama complicada cujo nível dramático ultrapassa os limites de um filme normal do gênero, tanto que não tão cedo voltarei a assisti-lo, e olha que ele é um sujeitinho em quem eu não tão facilmente confiaria o roteiro de um filme meu, diríamos, mas que soube criar toda uma teia complexa e cativar o espectador com uma história que, embora já venha rotulada com o típico chamariz dos conflitos dramáticos, é inegavelmente dedicada e esplêndida.

21 Gramas, além de ser um sinal de maturidade e estabilidade cinematográfica para diretor e roteirista Alejandro e Guillermo, também simboliza, junto a outros filmes que se dispõem dessa mesma espécie de narrativa, uma significante evolução na linguagem dos filmes e na construção das tramas. Afinal, este estilo narrativo não é mais novidade para muitos uma vez que nossa indústria celebra vários longas de sucesso que usufruem dessa mesma edição construtiva, embaralhada (a dobradinha Kill Bill), de ângulos multifacetados (Pulp FictionInterestelar), time loops (Feitiço do TempoBrilho Eterno de uma Mente sem Lembranças), escolha múltipla (CachéA Origem), simbolismo "easter egg" (Cisne NegroO Homem Duplicado), e por aí vai, filmes com segredos escondidos em si, e que convidam o público a desvendá-los. 

No fundo, o filme é um retrato sobre o horripilante desencadeamento das tragédias em nossas vidas, e a nossa defesa contra elas, seja contraindo mais tragédia ou buscando um novo caminho para seguir, encarar de frente a dor do passado e dos episódios que não podem ser apagados de nossa lembrança, e o quanto esse passado, essas tragédias, nos perseguem até o último momento, mesmo contra vontade, mesmo com a reza mais braba, ou a tentativa mais poderosa possível, o passado sempre estará ali, e ele nunca desaparecerá. É um tumor maligno. E o que fazer quando mais desgraça sucede essa desgraça? Poxa vida, hein. É aí que a gente para e pensa que não tem como ficar pior. O fundo do poço. E tem como cavar mais ainda dentro desse buraco infeliz? Até quantas vezes o ser humano consegue superar as perdas que surgem? É uma visão pessimista das nossas escolhas e do mal, nos aprisionando. Ou é melhor chamar essa praga de azar?

E esse elenco, simplesmente arrebatador e inigualável? Sean Penn encarna um dos melhores personagens de sua carreira numa performance única, mas incrivelmente subestimada. Naomi Watts, que aceitou a proposta de filmar o longa sem ao menos ter tido a oportunidade de ler o próprio roteiro de Arriaga tem uns momentos de tensão pesados, e o talento da atriz é explorado ao máximo, no limite, por Alejandro, e é provável que esse seja mesmo o melhor trabalho dela. Benicio Del Toro, de derrotado a crente, é inteiramente memorável (eu só acho que o personagem dele, incluindo a vida criminal, poderia ter sido melhor explorada, embora eu acredite que esses detalhes foram intencionalmente explicitados por Arriaga na montagem do roteiro), e o mesmo digo da Melissa Leo, em uma das primeiras grandes atuações de sua carreira. E, falando em montagem, só pra concluir o texto, também vale lembrar do Stephen Mirrione, que colaborou Iñárritu em outros filmes, como Babel, e aqui é um contribuinte nato num filme totalmente dependente de uma edição afinada.

21 Gramas (21 Grams)
dir. Alejandro González Iñárritu - ★★

domingo, 4 de outubro de 2015

Crítica: "A REDE SOCIAL" (2010) - ★★★★


Ambicioso e simples ao mesmo tempo, o "queridinho" A Rede Social tem seus motivos para ser um dos longas mais comentados dos últimos tempos, justamente por sua atual abordagem, que certamente é bastante chamativa e complicada: o Facebook e seu criador, o jovem bilionário Mark Zuckerberg. A depressiva e inteligente síntese que compõe o filme analisa nossa própria busca pela identidade em padrões pouco evolutivos, que retardam nossa socialização e minimalizam nosso círculo social. A rede social mais usada e que também é o fenômeno tecnológico do século é realmente tudo isso que inicialmente aparenta? Os segredos por trás da criação do Facebook, seu desenvolvimento e Mark são muitos. O retrato de David Fincher por cima de toda essa história é apenas uma lanterna iluminando uma vasta escuridão. Ainda sim, não deixa de ser completo e preciso, em todos os sentidos.

No outono de 2003, após levar um pontapé da namorada, Erica (Rooney Mara, que no ano seguinte viria a encarnar Lisbeth Salander em Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, também dirigido por David), Mark, como vingança, publica num blog um depoimento nada respeitável sobre a recente ex, e depois cria um site de votação, cujo tema é a mulher mais bonita do campus. Em uma única madrugada, o website obtém mais de 10.000 visualizações em toda a universidade, porém, depois de um tempo, Mark é convocado pela equipe da universidade a depor sobre a invasão da segurança da rede de Harvard, descoberta pouco após por um administrador. É neste episódio de vingança que, acidentalmente, toda a ideia e criação que originaria o Facebook nasce.

A proposta do filme, pelo contrário do que se pensa, não é favorecer Mark pelo seu sucesso, muito menos parabenizá-lo pela invenção de um dos websites mais populares da rede, se não é, de fato, o mais, e sim desconstruir seu personagem envolto dos altos e baixos que ele atravessou para alcançar esse sucesso, que não é tão limpo assim. Com uma ficha que vai de hacker até falsa autoria intelectual, a fama de Zuckerberg, antes do Facebook, era atribuída a deslizes constantes que o vitimizavam. A impressão que A Rede Social passa é de que Mark foi a vítima e o culpado de sua própria criação, cobiçada, invejada e protestada por muitos, como os irmãos Winklevoss, que foram a tribunal contra Mark na acusação de que o mesmo teria roubado a ideia deles da projeção do Thefacebook. Chega a ser irônico a pessoa menos sociável de todas, contra tudo e todos, rejeitado a mil, ser o fundador dessa que já pode ser considerada uma sociedade online, com vida própria.

Muita gente pode sim ter em mente a impressão da sorte de Mark. Por um lado, a balança de azar, por mais incrível que pareça, é a que pesa mais, e os detalhes são todos verídicos. Ainda que sua rede tenha conquistado 500 milhões em um curto período de tempo e cada vez mais vem ganhando reconhecimento e prestígio mundial, sobretudo nessa enorme rede que é a internet, Mark, nos tempos de faculdade e no início do desenvolvimento do Facebook, só conhecia a amizade vinda de uma só pessoa, Eduardo Saverin, creditado hoje como co-fundador da rede social, e que ainda sim, depois de uns "vira-e-mexe", entrou com uma ação judicial contra Mark, também o processando. O final dessa trama toda é bem subjetivo, para o espectador, afinal, é uma espécie de débito, já que é da nossa própria imaginação que deve sair a formulação de Mark, se ele realmente fez todas aquelas atrocidades para destruir quem estava a seu lado, ou se o mundo virou as costas pra ele no momento mais altivo, e o coitado teve de experimentar o amargo gosto do azar - mais de uma vez. Vale ao espectador decidir qual dessas versões é a mais apropriada. 

A visão minimalista de David Fincher reconstrói todo o universo moderno da tecnologia e suas questões duvidosas e interessantes, especificamente aquelas que dizem respeito à integração social por meio da internet, muito debatida hoje em dia. A edição do filme, assinada por Kirk Baxter e Angus Wall, é toda bem estruturada e faz par perfeito com o roteiro de Aaron Sorkin, adaptação do livro The Accidental Billionaires, lançado em 2009. Bom ver que David dispensa pesados atrativos e opta por uma direção mais alternativa, que segue rigidamente o roteiro e faz dele o guia do longa (não é de se estranhar, com um roteiro desses também...). A trilha sonora que oscila em metálicas faixas e oníricas notas de Trent Reznor e Atticus Ross também é demais. Palmas à fotografia excelente do Jeff Cronenweth. E que elenco, hein? A revelação do impecável Jesse Eisenberg é desoladora, numa atuação aclamada e devidamente respeitada, e logo em seguida vem o Andrew Garfield (na minha opinião, deveriam ter selecionado um ator brasileiro para o papel do Eduardo) e Justin Timberlake. 

A Rede Social (The Social Network)
dir. David Fincher - 

sábado, 3 de outubro de 2015

Crítica: "HOMEM IRRACIONAL" (2015) - ★★★★


Desde que me entendo por cinéfilo, considero Woody Allen meu grande ídolo. E, no mínimo, é uma obrigação ver os seus filmes, em especial aqueles que integram sua filmografia a cada ano, mesmo que tal tarefa, até hoje, não passasse de um sonho (uma vez dada a circunstância da minha localização), tendo eu visto Magia ao Luar ano passado na internet. Hoje, tive a oportunidade única de ver um filme do cineasta no cinema, mais especificamente no Espaço Itaú de Cinema da Augusta (2), numa sessão que, embora tenha sido reservada a uma sala pequena demais pro meu gosto, não deixou de ser agradável e aconchegante. Uma experiência que, com certeza, se repetirá nos anos seguintes com as respectivas estreias dos filmes de Woody em nosso circuito, apenas com a probabilidade da qualidade desses filmes oscilarem, creio. E, além dessas aquisições, o que centralmente torna essa experiência um primor é o fato de ter sido exibida uma obra excelente dele: o extraordinário thriller Homem Irracional.

Allen, abusando menos do humor aqui, apresenta a inusitada história de Abe Lucas, professor de filosofia afogado numa crise existencialista que reprime suas forças e faz dele um personagem autodestrutivo e depressivo, cheio de defeitos. Após aceitar o convite de lecionar numa determinada universidade, Abe conhece uma linda e dedicada aluna, Jill, que está claramente apaixonada por ele, embora Lucas sempre a rejeite. Impotente, alcoólatra e suicida, Abe (como ele mesmo cita em uma de suas falas) chegou psicologicamente ao fundo do poço. É num encontro com Jill, em um pequeno café, que ele reencontra a esperança numa obscura e perigosa ideia: matar um juiz injusto. Após ouvir os relatos de uma mãe que perdeu a guarda dos filhos para o ex-marido, que cuida mal deles, e nesse relato a mãe falar que desejava a morte desse juiz, que comandou o caso, Abe torna dessa ideia maluca sua missão, e obsessão.

No entanto, a impressão de Abe sugerida por esse argumento é de um cara frio, louco, provável esquizofrênico, entre outras atribuições do gênero. Engana-se quem pensa que a nossa interpretação de Abe para por aí. O que explica essa obsessão inusual do professor é a sua angústia e infelicidade com o mundo ao redor dele. Tendo visitado diversos países, experienciado as piores condições, Abe é uma pessoa depressiva por natureza. Quem não fica triste por viver num mundo tão injusto e cheio de maldades? Abe é aquele cara que quer mudar o mundo, mas não sabe por onde começar. Acha que dando aulas de filosofia poderá mudar os pensamentos e as noções sobre o universo, mas no fundo essas aulas não o satisfazem por completo.

O idealismo de Lucas necessita de um preenchimento, de um resultado. Caso esse resultado não seja obtido, sua vida é totalmente sem significado, totalmente vazia. Por um lado, é bom ver que Woody tá evoluindo nessa questão do existencialismo, que, em filmes passados, era projetada em moldes cruéis e excessivamente transtornados. Aqui, pelo menos, o conceito que move essa ambição criminal justamente já muda dos filmes anteriores dele. É um mundo injusto, infelizmente. Mas, o que fazer? Como podemos contribuir, fazer “a nossa parte”, estampar a humanidade? Embora levemente exagerada, essa obsessão de Abe contrasta com a aparência dessa terrível sociedade, e o intuito de matar uma pessoa ruim é de uma extremidade tão grande que muito bem pode significar a mudança.

Por um lado, Jill é mais emotiva, otimista, esperançosa, e acha que, mesmo matando uma pessoa que possa ter prejudicado outra, devemos levar em conta o caráter que não nos é visível correspondente a ela. No mundo de Jill, nem todo mundo é imprestável e ruim como pode parecer, superficialmente. Jill acredita na culpa e na desonestidade, e quer protestar que pra tudo tem uma saída. O que dá a entender, a partir de um final irônico e bem-feito, é que Woody teoriza que, quanto mais possamos nos sentir reprimidos e decepcionados com nosso mundo, não é sempre que essa nossa concepção sairá viva da batalha. Afinal, é a própria Jill que começa e termina com toda essa ideia. Ela, e seu idealismo consistente e moralista, transformam a vida de Abe. É uma questão de ética filosófica. Esse contorno minimalista do moralismo rege a relação deles, sempre enfeitada por altos e baixos. 

A trama de Homem Irracional não sofre com um desperdício de dois úteis e claros finais alternativos, e seu fim continua sendo crível e inteligente, particularmente semelhante a um outro filme do Woody, O Sonho de Cassandra. A filmografia dele, pelo menos a boa parte dos suspenses, é inteiramente duvidosa quanto a finais alternativos. Mas, deixemos isso de lado. O roteiro assinado por Woody, mesmo com fracas sacadas, se salva em função de personagens bem-elaboradas e à presença de um clima Hitchcockiano esplêndido, somado às implicações filosóficas sobre a moral do autor russo Fiodór Dostoiévsky (especificamente Crime e Castigo, clássico literário tão sucessivamente adaptado por Woody em filmes como Match Point e Crimes e Pecados, aqui novamente utilizado como base), além do uso impecável da narração.

Muito se esperava de Homem Irracional desde que Joaquin Phoenix foi anunciado no elenco, e a parceria que tanto estava sendo comentada entre ele e Woody não podia ter sido melhor, afinal, mais com mais dá mais. A atuação de Joaquin como Abe Lucas marca mais um rico exemplar do esforço e da excelência desse homem, que em sua filmografia lendária leva títulos grandiosos, e com este aqui a lista fica mais cheia. Sem dúvida, é uma performance espetacular. E só agora vim perceber como o Joaquin tá envelhecendo. Espero que não seja por acaso ele estar no papel de um acabado.

Por mais incrível que pareça, a comédia em Homem Irracional é costurada por Parker Posey, que está linda como a Rita, ficante de Abe. Sua personagem é a única do elenco “iluminada” por um senso humorístico tipicamente Alleiano. Não é sempre que dá pra rir, e nestes raros momentos temos em cena Parker, que veio sendo muito elogiada por essa atuação, e eu sinceramente não vejo porque não, mesmo que ela apareça esporadicamente. 

A fotografia de Darius Khondji assemelha-se a um filtro cool de Instagram, mas mesmo assim é colírio para os olhos. Consegue acompanhar o clima do suspense em tons ensaiados e quentes que aromatizam o telão. Ele e Woody são tecnicamente ótimos juntos, ainda que eu estivesse esperando desde o início Vilmos Zsigmond, embora o Khondji também seja tão brilhante quanto. Enfim, não negarei que esperava mais do filme, mas o que importa é que saí da minúscula sala saciado. Afinal, não se pode exigir demais de um diretor como Woody, que realmente, nesta altura, não vai começar a desembestar em novas e alternativas produções, e só tem mesmo a usar como base as experiências que funcionaram em sua carreira. Todo gênio precisa de um tempo. Woody está tendo o dele. E, nesse ponto, Homem Irracional, ode à ironia e às muitas perspectivas em torno da moralidade, aqui entonadas pelo embate entre Jill e Abe, já tá de bom tamanho, ainda que seja suavemente decorado por falhas. Woody em boa forma é tudo o que necessitamos. Homem Irracional exemplifica otimamente essa boa fase, de exemplares ímpares. 

Homem Irracional (Irrational Man)
dir. Woody Allen - 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Crítica: "EMBRIAGADO DE AMOR" (2002) - ★★★★★


O que falar de um filme que tanto me impactou em duas rápidas sessões? Essa revisão de Embriagado de Amor, um dos trabalhos mais geniais do Paul Thomas Anderson, fez muito bem pra mim, ainda mais quando da primeira vez tinha terminado encucado, com muitas dúvidas na cabeça. Alguns textos e recomendações aliviaram a pressão dessa confusão, e me ajudaram muito a compreender a proposta do simples Embriagado do Amor, um filme que dialoga sobre os efeitos insanos do amor em nosso ser, com direito a um roteiro bem construído e a mais talentosa performance de Adam Sandler (talvez a única também, levando em consideração o número de porcarias que ele fez), na pele de um tímido pequeno empresário que fica perdidamente apaixonado por uma colega da irmã, e faz absolutamente de tudo para protegê-la e ficar ao seu lado, sendo capaz de qualquer coisa para dominar esse amor. 

Muito provavelmente é meu trabalho favorito do Paul, ainda que eu idolatre Sangue Negro e Magnólia. Embora tenha me deixado um pouco zonzo na primeira vez visto, é o filme menos complicado de Paul. O falso clima de comédia romântica pode decepcionar quem esperava por algo maior. É um tremendo erro rotular Embriagado de Amor com esse gênero tão diverso, extenso e poluído (por natureza). No máximo, trata-se de uma comédia. É apenas um filme. Dá pra rir e dá pra chorar em certos momentos, mas ao certo não é nem comédia nem drama. Afinal, amor é amor independente de tais exigências, e parece que é isso que ele quer deixar inicialmente claro. É uma maneira de purificar a história, na precisa ausência dos abusivos clichês e os julgamentos inofensivos que aniquilariam o poder da narração. 

O cara de terno azul todo desajeitado a quem somos introduzidos logo na estranha cena inicial do filme é Barry Egan, tímido e pouco sociável empresário que trabalha com desentupidores e realiza suas vendas num galpão, onde se localiza o escritório dele e de seus colegas. Aparentemente sem sucesso no que faz, e também não dando a mínima para o desenvolvimento desse trabalho, Barry é atormentado por suas sete irmãs, que o traumatizaram na difícil infância que ele enfrentou, que agora estão loucas para arrumar uma pretendente para o irmão, que está farto da vida que leva e, todo reprimido, vive à beira de um ataque de nervos, e não raramente Barry tem problemáticas crises nervosas, onde ele literalmente quebra tudo, desde a cena do jantar no aniversário, onde ele arrebenta uma janela de vidro numa cozinha depois de ser insultado pelas irmãs, até a do jantar com a Lena, onde ele pede para ir ao banheiro e quebra todo o local depois de ouvir a amada falando que as irmãs comentaram com ela sobre o comportamento dele. 

Minha gente, esse é o amor. Nós achamos um pouco desconcertante e estranho o comportamento do Barry, mas, diante da paixão, quem não automaticamente vira ele? A cena inicial do acidente de carro exemplifica nossa falta de interesse no mundo ao redor enquanto apaixonados. As cenas que mostram o Adam revoltado com os insultos da irmã ou destruindo a trupe do mafioso de Utah demonstram a nossa força enquanto apaixonados. A viagem dele para o Havaí é símbolo da devoção. E a duradoura conversação dele com a mulher do sexo via telefone metaforiza nossa vontade de relatar o nosso amor para os outros. Quem não é louco, tímido, perdido, espontâneo e neurótico diante do amor? O retrato desse sentimento tão inexplicavelmente bonito e eufórico vindo de Paul Thomas Anderson, embora exale um ar meio incomodado em partes, é acalentador e belíssimo. O romance nu e cru.

Sem esquecer da performance estrondosa de Adam Sandler, certamente a melhor já feita pelo ator no cinema, até o momento. Quem diria que um sujeitinho do porte de Adam teria talento o suficiente para trabalhar ao lado de Paul Thomas Anderson em um personagem tão complicado como o Barry. Quem mesmo sonharia que Adam ingressaria a tão rica lista de protagonistas masculinos da carreira de Anderson, ao lado de Mark Wahlberg, Daniel Day-Lewis e Joaquin Phoenix? Fica até difícil reconhecer Sandler num papel tão estrondoso como esse. É raridade, pessoal. A presença da (ainda) tocante Emily Watson, torna essa jornada amorosa ainda mais deliciosa. Philip Seymour Hoffman, perto dos minutos finais, rouba a cena, de leve. A fotografia de Robert Elswit, que no início soa um pouco nervosa devido aos excessivos contrastes, capta a particularidade da nossa loucura em prol do amor, e a instabilidade de Barry, à mercê do desastre e do sucesso em sua missão. Ser apaixonado exige demais da conta. Mas, em compensação, o resultado vem como num sonho perfeito. Embriagado de Amor talvez não seja a mais completa, mas é uma experiência única e lindíssima. Está aí: a "porrada-bêbada de amor"!

Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love)
dir. Paul Thomas Anderson - 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Crítica: "IN THE LOOP" (2009) - ★★★★


Taí um grandioso exemplo de sátira política, que soma toques exagerados de humor negro, a competência de um elenco e o controle de um gênio absolutamente imprescindível, Armando Iannucci. Inspirado no seriado britânico The Thick of It, In the Loop, estreia cinematográfica de Armando, típica comédia sorriso-canto-de-boca, não vai provocar altas gargalhadas nem nada do estilo, apesar da acirrada verborragia que acaba, por vezes, penetrando no imaginário cômico do público, mas capricha num humor de qualidade raramente visto, ainda mais num filme que dribla política e um gênero tão complicado de se trabalhar. O filme não passa de takes locados em gabinetes, prefeituras, departamentos, aeroportos, comitês, focados num inusitado personagem, o ministro Simon Foster, enquanto tenta amenizar os efeitos de um catastrófico, acidental e polêmico depoimento que gera consequências inimagináveis.

Na Inglaterra, Foster enfurece Malcolm Tucker, o diretor de comunicações do primeiro-ministro, seu colega sarcástico e boca-suja que parece não suportar o trabalho de tanto reclamar e maldizer os tropeços da trupe dele. O novato Toby Wright passa a acompanhar Simon em suas viagens, frequentes, e reuniões, e especificamente vivenciar a tensão de trabalhar ao seu lado. Nesse depoimento "fatal", Foster citou uma "imprevisível guerra", algo que alerta os E.U.A. de um possível conflito e gera o maior tabu.

Em outro ponto, Simon volta a citar tal guerra usando um confuso exemplo de um avião, um congestionamento, e uma montanha, o que novamente é motivo de falatório. Entre comitês que não resultam em nada e furos confidenciais, a trama explosiva de In the Loop ganhou minha aprovação, até porque fica bem ridículo exigir de um filme sem ao menos ter o visto e receber como resposta uma revanche bem justa à essa expectativa com diálogos inteligentes e passagens divertidíssimas, e ainda não gostar do filme. Certamente, In the Loop fez por merecer. 

A comédia desmascara de vez a política e a despe numa vertiginosa jornada adentro seus personagens eufóricos e suas manias de autoridade impulsivas, o que é extremamente delicioso. Enfim, é Armando Iannucci. Tudo lembra mesmo um pouco de Veep, ainda mais o núcleo americano, que ainda tem a Anna Chlumsky roubando a cena. O Zach Woods, do The Office, também deixa In the Loop com um arzinho meio pseudo-documentário, embora não seja (oficialmente). O uso de contextos simbólicos e piadas infladas fortificam o senso hilário de toda a história, estrategicamente falando.

Afinal, como eu mesmo vivo proclamando, política posa de séria, mas no fim é um monte de nada. No fim, só nos resta rir das situações constrangedoras que essa área vitimiza. E quem é melhor do que Armando Iannucci para fabricar comédias tão boas como essa? Tão sarcásticas e malévolas, mas no fundo humanas, que tentam racionalizar a esperança e o comportamento humano dentro de um setor que porta um caráter tão nervoso, rígido por natureza, mas que na verdade não passa de uma enorme brincadeira. Política é isso, minha gente. A intenção não é entendê-la, mas sim desfrutar da confusão que ela é. In the Loop, por essas e outras mais razões, é uma obra sinceramente engraçadíssima e versátil, e com certeza merece ser vista, ainda mais em virtude da situação atual da política brasileira.

In the Loop
(título não-oficial no Brasil: Conversa Truncada)
dir. Armando Iannucci -