sexta-feira, 8 de abril de 2016

Crítica: "CASAMENTO GREGO" (2002) - ★★★★


Comédia romântica. Eu particularmente não acho que seja um gênero complicado. O problema é que fazem muitas comédias românticas sem originalidade atualmente, que sempre acabam beirando o clichê ou se marginalizando na falta de criatividade e competência (há muitos casos, quero dizer, muito embora existam inúmeras "exceções"). Mas eu não acho tão difícil apreciar um filme romântico. O pessoal de hoje maldiz o gênero como se fosse uma praga ou algo do tipo, mas não é. Seria a leveza do gênero, minha interpretação e reação, a história, a identificação que caracteriza esse meu fraco por comédias, ainda mais românticas? Eu sei que adoro de coração o gênero. E, por mais que existam filmes ruins, não dá pra dizer não quando a gente se depara com filmes do porte e do tamanho de Casamento Grego, referência dentro do gênero que habita.

A premissa dessa comédia romântica que eu amo rever é simples: Toula, descendente de uma família grega de raiz, passa seus dias lamentando o seu destino -- aos plenos 30 anos de idade, a moça, que ainda trabalha no restaurante "Dancing Zorba's", propriedade da família, nunca teve uma experiência amorosa antes e que está sendo alvo dos pais e dos tios para ser enviada à Grécia, onde deverá se casar com um "bom e honesto rapaz grego", como reza a tradição que paira sobre a família há várias gerações. 

No anseio de começar a viver, ela decide se arriscar, pedindo permissão ao pai para cursar informática na universidade. Não demora muito e ela se apaixona por um rapaz que conheceu no restaurante da família. O único "problema" é que Ian, este rapaz, não é um grego, ele é (nas palavras do pai rigoroso de Toula) um "xeno", o que atormenta a família "barulhenta" e "gigantesca" da moça.

Prazerosamente engraçado e cheio de vida, Casamento Grego é daqueles filmes que te pegam de surpresa e encanta profundamente e ingenuamente. É tão engraçado observar o discreto choque de culturas que se instala, por vezes com um ar cômico e comichão, e noutros uma levada grandemente interessante. Há quem ache desnecessário, mas pra mim é delicioso, muito engraçado. Aliás, graça é apelido em Casamento Grego. O filme é indescritivelmente brilhante como comédia. Não dá pra resistir. 

A surpresa mais grata de Casamento Grego é a sua protagonista excelentemente talentosa, Nia Vardalos, numa performance riquíssima. O roteiro da comédia romântica, levemente baseado nas experiências da atriz, que é descendente de gregos, também é da autoria dela (Nia, inclusive, foi indicada ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 2003). O marido dela na vida real, Ian Gomez, aliás, faz uma pequena ponta no filme, como aquele professor que é o amigo do Ian, que aparece na cena em que os dois vão lanchar no "Dancing Zorba's" e em outras cenas. Ele é o carequinha.

Se vale como um filme sobre os valores da família? Porque não? Toda família é torta mesmo, maluca mesmo, não há segredo nisso. O importante é conviver fraternalmente, cultivar o respeito, a lealdade. Em certos momentos a gente chega a perder a cabeça mesmo se a gente for se preocupar com os defeitos das nossas famílias. Mas não dá pra evitar. Isso acontece nas melhores famílias, como diria a Chiquinha. Afinal, família é tudo o que a gente tem no fim das contas. 

Se você é ou se você não é grego, é impossível não se deliciar de rir com as presepadas dos Portokalos. O filme se beneficia demais de sua abordagem narrativa equilibrada, de mãos dadas com o humor sem ser babaca ou supérfluo. O resultado é uma comédias das melhores e mais extasiantes. 

O elenco também se salva como uma das melhores coisas de Casamento Grego. A fanfarrona família de Toula, a maioria constituída por atores norte-americanos, é de fazer a gente gargalhar até molhar as calças. Não sei se é porque revi demais, mas me lembro que da primeira vez foi uma coisa mágica ter visto Casamento Grego, realmente eletrizante e muito, muito, muito engraçado. 

Casamento Grego funciona, é de qualidade, tem um elenco magistral, uma protagonista e roteirista estrondosamente engenhosa e íntegra por trás do projeto inteiro, sequências que chegam a ser marcantes de tão engraçadas e deleitosas. É simplesmente um primor de filme, genialmente excepcional. Faz um tempinho tentei procurar a série do filme, My Big Fat Greek Life, mas nada encontrei. Vou tentar retomar minhas pesquisas. E Casamento Grego 2 já está nos cinemas, trazendo o elenco original do filme de 2002 de volta após quase quinze anos desde as gravações do primeiro. Estou ansiosíssimo, muito embora o que mais andam falando da comédia é que se trata de um filme "batido" e "ultrapassado". Tomara que não seja desse jeito. Nutro um carinho enorme por Casamento Grego e espero gostar de Casamento Grego 2 tanto quanto, apesar de tais desencorajamentos. Ah, e alguém aí sabia que o diretor do filme (Joel Zwick) é também o diretor da série Três é Demais? Fato curioso.

Casamento Grego (My Big Fat Greek Wedding)
dir. Joel Zwick - 

Crítica: "O DIABO VESTE PRADA" (2006) - ★★★


Hoje em dia, muitos atores são banalmente comemorados e idolatrados por motivos, no mínimo, irracionais ou simplesmente passageiros. Mas há lendas populares que realmente merecem ser celebradas, agraciadas, aplaudidas e veneradas como as melhores de todos os tempos. Eu já falei em outros posts e eu não me canso de repetir: a Meryl Streep é a melhor, incomparável. É a dona dos Oscars, é a dona dos melhores papéis, é a dona da pose, é a dona do talento! Ninguém jamais superará a gloriosa Meryl. E quando eu digo que a Meryl Streep é popular, quero dizer que ela é reconhecida, vangloriada por quase todos (muito merecidamente). Afinal, é raridade encontrar nos dias de hoje alguém do perfil dela, talentosa e reconhecida justamente por todos. 

Não vou dizer que é o melhor filme que ela já fez (nem de longe), mas interpretar a fria, sólida, rígida, incansável e vilanesca Miranda Priestly foi uma das melhores coisas que a Meryl Streep já fez enquanto atriz. Não à toa é ela quem mais brilha em O Diabo Veste Prada, muito embora ela esteja mais para coadjuvante do que uma propriamente dita protagonista (este posto, por sua vez, é de Anne Hathaway, que contracena ao lado de Meryl na pele de uma jornalista à busca de um emprego que cai nas mãos de uma difícil editora-chefe de uma revista de moda conceituada). 

O filme não é lá essas coisas. Tem seus prós e seus contras. Encaro O Diabo Veste Prada no geral como um filme leve, despretensioso e meramente astuto, mas que não consegue passar disso. Por exemplo, tem certas coisas que não me agradaram, e mesmo assim gosto dele do jeito que penso, leve e bobinho, artificialmente especial. 

E o que mais me agradou aqui foi, inevitavelmente, a Meryl Streep, no papel de uma dondoca do mundo da moda carrasca e desprezível, que quer que todos se curvem diante dela, fazer o que ela quer a qualquer momento e a todo custo. Chega a ter, em certos momentos, em que a gente fica nervoso com as atrocidades dela e o jeitão mandona (qual é, a mulher só ao morder o lábio faz com que um estilista mude sua coleção inteirinha -- quem tem esse poder?). 

E pensar que o filme é a adaptação de um livro escrito por uma jornalista chamada Lauren Weisberger baseado nas experiências da jovem ao lado de Anna Wintour, editora-chefe da Vogue americana, como sua assistente pessoal. Saber que a dona Wintour é como a carrasca Miranda na vida real a gente não sabe, mas alguns relatos de quem já atuou profissionalmente ao lado dela são bem assustadores e difamadores. 

À parte da Meryl Streep, que está pra lá de ótima, a Anne Hathaway está razoável, mas quem rouba a cena (?) é a estonteante Emily Blunt, que faz Emily, a escrava da Miranda Priestly, chegando até a se parecer com ele na personalidade em certas sequências do filme. A coitada sofre para obedecer às demandas da chefe, fisicamente e psicologicamente, e isso resulta na sua frieza e constante seriedade. Nunca é bom se focar demais no trabalho. A personagem dela se afoga no próprio ofício, que a impede de ter uma vida e construir uma carreira. 

Chega a dar pena, em certos momentos, do rumo que a personagem toma, e da vida dela, sempre encafifada no escritório da Miranda, estressada e inquieta consigo mesma. E olha que é só um filme. Imagine na vida real? A gente aprende que o mundo da moda é um mundo confuso, doentio e irreparavelmente cruel vendo essas coisas. Pra que, minha gente? Tanto dinheiro pra nada, tanto tempo pra nada. Não vou botar a culpa em ninguém, mas moda é pura perda de tempo. Um universo nojento, insustentável e supervalorizado. Não dá pra crer que a moda tem tantos seguidores assim. Mas, enfim, como eu disse, não posso julgar ninguém. 

O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada)
dir. David Frankel - 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Crítica: "MIAMI VICE" (2006) - ★★★★


Um dos cineastas mais cultuados dos tempos recentes, Michael Mann a cada novo filme que traz busca revigorar seu estilo, aprimorar a sua ação, imortalizar as suas obsessões. Confesso que no passado não cultivava esse apreço que hoje tenho por Mann e sua filmografia excepcional. É claro, não cheguei a ver todos os títulos dele, mas certamente vi o suficiente para reconhecer seu padrão e sua dignidade fílmica, o ritmo e outros aspectos marcantes de seu cinema, que vão desde o visual cadente à primorosidade das sequências de ação. 

Há muitas coisas que fazem a gente ficar fascinado com Miami Vice. O filme tem seus defeitos, mas é um trabalho tão bem-feito, pulsante e novo que simplesmente não dá pra deixar passar em branco. Chega a ser, arrisco, um dos melhores filmes do Mann (levando em consideração que ainda não conferi certos filmes bem badalados do diretor, como Fogo Contra Fogo -- vergonhoso eu não ter visto, né? --, Ali e O Último dos Moicanos, só pra citar alguns). Pra ser mais exato, só vi, dos filmes dele, de Colateral Hacker (à exceção deste, gostei de todos). E, já que mencionamos Colateral, Miami Vice fica um pé atrás do filme de 2004, que pra mim é, até agora, o melhor filme de Mann. Muito embora seja rítmico, estiloso e charmoso, Miami Vice não consegue alcançar a qualidade de Colateral.

Michael Mann foi, originalmente, produtor executivo do Miami Vice na década de 80, seriado que inspirou esse filme. Confesso que desconhecia a existência do programa até então, mas vou ver se o encontro mais tarde na internet (estou aberto a sugestões). O que interessa é que Miami Vice já é por si só um trabalho de primeira. Curioso ver que a maioria dos críticos caiu detonando no filme, que recebeu várias críticas negativas em seu lançamento, e teve uma aclamação bem turbulenta e, em consequência, também negativa. E o mais curioso de tudo isso é que Miami Vice está longe de ser um filme ruim. Tem seus defeitos, como eu já disse, mas não é tão grave assim.

Um dos maiores méritos de Miami Vice é a competente dupla de protagonistas, Colin Farrell e Jamie Foxx, que fazem dois detetives envolvidos em um sistema de contra-inteligência perigoso e complexo, envolvendo um contrabandista, e chefão do cartel de drogas colombiano conectados com um grupo neo-nazista, membros da Comunidade Ariana. 

O interessante de Miami Vice é que não se trata apenas de um filme de ação. A trama é mais que um desfecho de ação mastigado. Os diálogos são poderosos. A complexidade dos esquemas estabelecidos, o desencontro de personagens, o clímax enigmático. Sem falar na fotografia magnífica e exburante do Dion Beebe. Ainda que seja um extravasador filme de ação, não vale deixar de fora certos pontos de enorme contribuição para a qualidade de Miami Vice.

Miami Vice
dir. Michael Mann - 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Revisão: "SCOOP: O GRANDE FURO" (2006) - ★★★★


Não sei o que deu em mim para não ter gostado de Scoop quando vi o filme da primeira vez ano passado. O filme não conseguia sair da minha cabeça. Tinha que rever. Ainda no ano passado, revi com minha irmã e apreciei bem mais do que da primeira vez. Vai saber. É cada uma que me acontece. Estava devendo de escrever sobre Scoop: O Grande Furo, há um bom tempo, muito por conta do mal-entendido com o filme. Eu sabia que era estranho demais para ser verdade, o Woody fazer um filme ruim. Corri atrás e decidi rever, e rever, e rever, para ver se o compreenderia melhor. E não é que eu simpatizei com o filme, rapaz? Puxa vida. Essas últimas revisões foram espetaculares, clarearam a minha mente e foi aí que me ocorreu de reformular a minha ideia a partir desse longa astuto e suntuoso que tanto me intrigou e encantou.

A questão é interpretação, ir além, saber distinguir a brincadeira da filosofia. Pode parecer banal, mas do que tem de cômico Scoop também é filosófico, tentador, multifacetado. É complexo, apesar das aparências. A começar pela linha tênue que separa a comédia do suspense, e que facilmente pode confundir a cabeça do espectador. Woody monta uma trama obscura, a de um serial killer à solta e uma estudante de jornalismo que, durante uma apresentação de mágica, encontra o espírito de um falecido repórter que quer que ela investigue o paradeiro do jovem filho de um rico lorde, suspeito de ser o "Assassino das Cartas de Tarô". A jovem universitária americana, com a ajuda de Sidney (Splendini, o mágico), vai atrás da história. 

Woody mistura elementos do thriller e da comédia bolando uma surpresa imediatamente estupenda. Cabe ao espectador com qual clima se identificar. Ou seja, nem vale julgar Scoop como uma comédia ou como um suspense propriamente ditos. O filme não é um e nem é outro, mas sim o derivado do mix dois, uma brincadeira ingênua e atrevida do Woody, que solidifica dois gêneros num só. A proposta do diretor é entregar uma experiência que beira o humor e a tragédia, capaz de tanto amedrontar quanto gargalhar o seu público.

Vale rir, vale questionar, vale entrar na história sem medo de ser surpreendido. O bacana é prestar atenção aos detalhes, à maneira como Woody costura a trama e apronta diante dos nossos olhos truques de mágica cinematográficos invencíveis. O que o diretor quis dizer com esse filme que tanto pode ser encarado como despretensioso e sério (ou, de um ângulo mais profano, é despretensioso, porém sério -- ou sério, porém despretensioso). 

Mas Scoop não é um filme ruim. O propício é relaxar e deixar o filme te levar. Woody faz de conta que é Hitchcock e tira sarro das empreitadas de seu suspense gritante e enigmático (embora despretensioso -- viram como é que funciona?), mas ainda sim vai levando ele sem deixar que a sátira tome conta e desvirtue os momentos mais obscuros, suspensos.

A química da "dupla de detetives" Woody Allen e Scarlett Johansson é fabulosa. Os dois funcionam plenamente. Não tem como não se deliciar diante das aventuras impagáveis deles adentro a investigação secreta que eles manejam. As participações de Hugh Jackman e Ian McShane são gloriosas. 

De uma forma mais lúdica, Woody brinca com a morte, ao encenar o repórter Joe Strombel no barco da morte, tentando chantageá-la, típico truque de jornalista, para descobrir o destino. Essa sequência é uma das mais memoráveis do filme. O final também reflete certo otimismo acerca a misteriosa passagem. Scoop é sobre a busca pelo sentido, a tentativa de compreender e codificar os acontecimentos que nos cercam, a consequência dos nossos atos, a intriga, os porquês. O furo jornalístico da estudante Sondra, os truques de mágica de Splendini e a curiosidade sobre o pós-morte que passageiramente instiga Strombel. Todos estão à procura, tentando rastrear as respostas para as suas questões, dando corda à enigmática existência. Também merecem menção, pela construção de uma atmosfera de suspense e constante escuridão tenebrosos, que tanto contribuem para esse lado obscuro do filme, a trilha, que faz uso de composições musicais bem intensas do naipe de "In the Hall of the Mountain King" e um trecho de "Cisne Negro", de Tchaikovsky, que abre o filme brilhantemente e a fotografia de Remi Adefarasin, o mesmo de Match Point.

primeiro post: Scoop: O Grande Furo
Scoop: O Grande Furo (Scoop)
dir. Woody Allen - 

domingo, 3 de abril de 2016

Crítica: "AMOR POR ACIDENTE" (2015) - ★


Não bastasse ter lançado o infame Joy - O Nome do Sucesso, David O. Russell também trouxe ano passado o ainda inédito nos cinemas nacionais Amor por Acidente, que demorou um tempão para ser concluído. O que acontece é que Amor por Acidente, essa descarada comédia romântica mal-feita e sem sentido, é mil vezes pior que o horrível Joy. Não me estranha o David O. Russell ter assinado a direção do filme sob o pseudônimo de Stephen Greene. Quem iria querer assumir um projeto desses? É muita coragem.

Olha só a confusão: consta-se que as filmagens de Amor por Acidente tiveram início em 2008 (sim, há 8 anos). Na época, o título da produção era Nailed. O filme foi refilmado aproximadamente 14 vezes, sendo todas essas 14 vezes cancelado, por complicações com os pagamentos do elenco e da equipe técnica. Dois anos depois, em 2010, um certo produtor pagou para reiniciarem as filmagens de Nailed, mas o Russell naquele ano desistiu de dirigir o filme. Só em 2014 foi que o Russell decidiu voltar com o projeto, depois da insistência de um produtor. O David O. Russell, espertinho como ele é, pediu para o Directors Guild of America renomear os créditos de direção e roteiro dele para Stephen Greene (ou seja, o David aceitou gravar o filme mas renunciou o seu nome diante dele -- e, acreditem, ele fez a coisa certa).

O filme é desnecessariamente frenético e esquálido Me surpreende alguém ter se interessado em produzi-lo. Amor por Acidente conta a história de uma garçonete de uma pequena cidade que, comprometida com um policial "boa-pinta" da região, vai à um encontro com um rapaz, que deseja se casar com ela, e acaba sendo acidentalmente atingida por um prego na cabeça, devido à uma reforma no lugar. Correndo diversos riscos, ela tenta fazer com que o plano cubra a cirurgia, mas o preço é altíssimo e nem o policial tampouco sua família conseguem custear. É aí que ela tem o plano de ir para Washington, onde irá solicitar a um político medidas em relação à assistência médica urgente e à saúde. 

O filme é um monte de nada, nada, nada e nada. Andaram comparando o filme com Huckabees, o que eu acho completamente vergonhoso, já que de semelhantes Huckabees e Amor por Acidente não tem completamente nada. 

No máximo, o elenco tem seus charmes, ainda que poucos. Por mais que eu nutra certa admiração pela atriz Jessica Biel, aqui ela está totalmente fora do eixo, toda enfeiada e insanamente perdida, sem pra onde ir (não entendi se isso faz parte da personagem dela ou se ela estava mesmo desorientada filmando). As participações do Jake Gyllenhaal e da Keener por pouco não passam em branco. Se salvam o Tracy Morgan, com poucas falas e o James Marsden, que faz o policial bonzão Scott. Fora isso, não vi graça em Amor por Acidente. Sem graça, uma baita perda de tempo.

Amor por Acidente (Accidental Love)
dir. Stephen Greene (David O. Russell) - 

Crítica: "AMORES BRUTOS" (2000) - ★★★★★


Chega a ser engraçado ver como o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu foi recebido com uma enxurrada de críticas boas e aclamação internacional com seu filme debut, o excepcional Amores Brutos, e veio minguando desde então aos olhos da crítica, que passaram mais a odiar o trabalho do diretor do que prestigiá-lo. E não que Amores Brutos seja um filme ruim ou superestimado: se formos fazer um ranking, é bem provável que Amores Brutos apareça entre os 3 ou 2 primeiros, talvez, ou quem sabe até em primeiro lugar. O filme me pegou de surpresa. É uma obra-prima incomparável e inestimável. Filme de estreia do Iñárritu, o filme teve uma recepção calorosa no mundo inteiro e recebeu inúmeros prêmios e indicações, muito justamente. É um espetáculo cinematográfico, completamente e absurdamente explosivo, uma obra a ser aplaudida e comemorada. Nunca se viu um filme assim, profundo na sua premissa e autêntico na sua construção e trama. Inesquecível. Imensuravelmente colossal.

A sequência que abre Amores Brutos, uma perseguição confusa e que acaba resultando num acidente de trágicas proporções, é o ponto de partida de uma trama eletrizante envolvendo um disperso grupo de pessoas, interligadas por esse acidente automobilístico, envolvendo uma supermodelo e uma dupla de amigos desesperados em fuga. É uma história sobre redenção, conflito, angústia, niilismo, e, principalmente, sobre amores e cães. Um rapaz cujo cachorro é um fenômeno em lutas de cães em um subúrbio da Cidade do México, sua bela cunhada, por quem ele é apaixonado, e seu irmão desnaturado, marido dela. Um homem que deixa a família por uma modelo, que, após um acidente, revela sua verdadeira personalidade, pondo em teste a agressiva relação deles. Um ex-guerrilheiro libertado após 20 anos na cadeia que trabalha como matador de aluguel e vive como um mendigo, tentando encontrar a jovem filha que nunca o conheceu e reatar com um passado irresolvido. 

Iñárritu dirige fabulosamente este conto moderno multifacetado com uma astúcia excepcional. No que diz respeito à direção, todos os filmes do cineasta são nota 10, mas Amores Brutos é realmente digno de nota 1.000. A estrutura é recheada de qualidades, que vão desde a fotografia inspirada de Rodrigo Prieto até a edição miraculosa. Os ângulos irregulares e tortos da câmera dão um gostinho de ação e amadorismo brilhantes ao filme. O roteiro de Guillermo Arriaga é versátil em todos os sentidos, o melhor trabalho roteirístico dele. O desenvolvimento da trama, os personagens, as temáticas que a história abraça... Só tenho elogios para o roteiro de Amores Brutos. O elenco é uma pérola. Todos estão triunfais, mas merecem menção honrosa Gael García Bernal (Octavio), Emilio Echevarría (El Chivo), Vanessa Bauche (Susana) e Goya Toledo (Valeria). Os quatro são os melhores do elenco, devastadoramente estupendos. 

Considerado por muitos o Pulp Fiction do cinema mexicano, Amores Brutos é um filme que dificilmente sai da nossa cabeça tão fácil. Algumas cenas são tão desconcertas que ficam gravadas na nossa memória. Amores Brutos, que é um drama, também guarda elementos do horror, por conta do conteúdo ultra-violento e do impacto transmitido ao espectador. Iñárritu, que filma o sofrimento como ninguém filma, fez de Amores Brutos um dos dramas mais ricos, tristes e desoladores de todos os tempos. É tentador, memorável, exemplar. A filosofia moral que se instala em Amores Brutos funde-se aos brilhos do drama dos personagens e da peripécias do roteiro de Arriaga, que empurra à trama certos pontos de vital importância para a montagem de um pensativo caleidoscópio reflexivo. Amores Brutos também é, inclusive, uma crítica feroz à desigualdade, ao perpetuar em um mesmo acidente de carro pessoas de diferentes classes, uma top model e dois jovens da periferia, que, caso não tivessem colidido, nunca iriam ter a chance de interagir em suas vidas. É uma coisa assombrosa, mas ridiculamente verídica. 

Aliás, o adjetivo "assombroso" define bem Amores Brutos. É um filme no mínimo chocante, intenso, espesso, pesado. Não fui às lágrimas, mas tem certos segmentos, como por exemplo a sequência final e as cenas das brigas caninas, e também a do acidente, que são fortíssimas, emocionalmente carregadas o suficiente para transtornar e perturbar a quem assiste, e até mesmo levar às lágrimas. O clima de tensão e de constante tenebrosidade nos impulsiona a acompanhar com atenção e nervosismo, num sentido de inquietude, o filme, até mesmo em momentos nem tão propícios, onde gera-se uma tensão inebriante, ora boba, ora densa. 

Iñárritu disseca com genialidade a tragédia e a plenitude do sofrimento em Amores Brutos. Há algo de muito humano em Amores Brutos também. O filme intervém a violência de uma maneira bastante rude mas humana. O filme é inteiramente cruel, mas que faz o uso de artifícios violentos para entreter ou divertir o espectador, mas sim para encarar, encurralar, pressionar, realmente emocionar. Dessa forma, a violência se materializa em rígido impacto dramático, ocasionando geralmente a humanidade, a dura reflexão.

E a cada filme que vejo, respeito e endeuso mais e mais Iñárritu. O homem mal quase completou duas décadas de carreira, sequer uma filmografia numerosa, e já beira a maestria, muito justamente. O primeiro filme dele, aliás, é uma das provas mais certeiras e dignas de seu talento e sua unicidade cinematográfica, o estilo, a forma de filmar, os personagens e as tramas sempre instigantes, apreensivas, densas e que despertam a admiração em quem vê. Discutindo a "Trilogia da Morte" do Iñárritu, Amores Brutos só perde em "sofrência" (o que talvez não seja um problema) para 21 Gramas e complexidade para Babel (é lógico!), mas é definitivamente o melhor, mais impactante, profundo e sensível filme não só dentre esses três mencionados, mas talvez de toda a filmografia do Iñárritu. Amores Brutos é magnífico, poderoso, doloroso, mais que uma obra, um filme para não se esquecer jamais. Sua força é comovente.

Amores Brutos (Amores perros)
dir. Alejandro González Iñárritu - 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Crítica: "CONSPIRAÇÃO E PODER" (2015) - ★★★★


E já estamos em abril. O ano corre rápido e a gente quase nem percebe. Isso deve ser coisa da idade. A gente quando vai ficando velho passa a enxergar o tempo de outro jeito. Mudanças, sempre me pegando de surpresa. A melancolia da nostalgia... Enfim, a gente deve ficar com a mente livre desses pensamentos senão o presente não valerá de nada. A questão é que eu estou indo ao cinema menos do que queria e estou tendo que conferir os lançamentos de casa (como é de costume), o que nem sempre me reserva o que uma sessão no cinema reservaria, por exemplo, mas isso nem sempre é um problema. O dinheiro não é muito (tenho que balancear as economias, que já são pequenas), e com essa história do retorno da gripe H1N1 a gente tem que se prevenir e evitar os centros (faço parte do grupo de risco e ainda nem tomei a tal da vacina). Mas, enfim, o tempo não para e eu mais e mais me pego chocado ao ver a enorme quantidade de filmes que tenho pra conferir (é realmente grande, não estou brincando). O jeito vai ser começar a ver é 3 filmes por dia. Só falta arranjar tempo.

Até uns dias atrás, Conspiração e Poder sequer tinha data de lançamento e título nacional, revelado há pouco. Foi lançado faz umas duas semanas, eu acho. Desde que foi anunciado, ano passado, o filme passou a ser apontado como um dos favoritos ao Oscar. E eu não acho que era possível duvidar do filme àquela época: James Vanderbilt, o roteirista do fenomenal Zodíaco, em sua estreia como diretor (não é desconhecido que a Academia tem um fraco por diretores estreantes -- Benh Zeitlin por Indomável Sonhadora em 2013, Tony Gilroy por Conduta de Risco em 2008, Rob Marshall por Chicago em 2003, Stephen Daldry por Billy Elliot em 2001, Sam Mendes e Spike Jonze por Beleza Americana e Quero Ser John Malkovich, respectivamente, em 2000, e por aí vai...), o elenco, o roteiro, entre muitas outras coisas. Conspiração e Poder não é exatamente um filme Oscarizado, mas faz o estilo dos filmes que o Oscar costuma abraçar e isso foi suficiente para chamar a atenção e ser uma das apostas recorrentes para o prêmio. Não foi indicado em nenhuma categoria, mas que tinha força isso eu não vou negar. 

James Vanderbilt nada mal para um diretor estreante, e caso fosse indicado acharia até merecido. Uma indicação em roteiro para Vanderbilt seria mais que merecida, mas, como aconteceu com Zodíaco, foi esnobado. A grandiosamente excepcional Cate Blanchett numa performance de ouro, que tinha tudo para levá-la ao Oscar e até, quem sabe?, ter a garantido uma terceira estatueta. Possível seria. Não vejo muita graça na atuação do Robert Redford, que aparece em poucos planos (a dona do filme é a Cate), mas do jeito que a Academia é se o filme tivesse sido mais promovido, era bem capaz dele ter aparecido em Ator Coadjuvante.

Conspiração e Poder constitui-se de muitas qualidades na abordagem e na reconstrução geral de uma história chocante quão essencial. Às vésperas das eleições presidenciais nos E.U.A. em 2004, a equipe do renomado programa "60 Minutes" montou uma reportagem em cima de um escândalo envolvendo o então presidente e candidato a reeleição George W. Bush, uma investigação acerca o paradeiro do passado de Bush, envolvendo desde polêmicas escondidas sobre a carreira militar do presidente até uma suposta conexão entre a família Bush e a família Bin Laden através de uma corporação, a Arbusto. 

É também bastante interessante acompanhar os bastidores da investigação e os contrapontos que vão atrapalhando a jornada dos repórteres e da redação na montagem da reportagem. Nesse meio, está Mary Mapes (Blanchett), uma sucessiva repórter que atuava como produtora do "60 Minutes" na época e que liderou a investigação e o trabalho por trás do caso Bush. A performance de Cate é certamente uma das melhores coisas de Conspiração e Poder. A australiana embarca na sua personagem com alma e razão, do jeito que ela é, adotando características e estabelecendo uma relação com o espectador. Muito estranho e injusto o desempenho dela ter sido tão descaradamente esquecido, por mais que ela esteja ainda mais fabulosa em Carol. Não vale indicar a mesma atriz por duas performances não?

Spotlight é melhor? É. Muito mais. Mas aí estamos entrando num outro território. Por mais parecidos que sejam, Spotlight e Conspiração e Poder possuem certas diferenças, algumas mínimas e outras significantes. A abordagem, a veracidade, a eloquência, o método, os simbolismos, o padrão, o andamento... E, ainda sim, são filmes que funcionam exemplarmente como odes ao universo jornalístico e à denúncia. Spotlight fica um pouco à frente nesse quesito, já que Conspiração e Poder assume um caráter mais informativo (e não que Spotlight não seja, mas acontece que o filme de Tom McCarthy trabalha plenamente tanto como filme informativo, reflexivo, carta de amor e denúncia, como quase nem sempre ocorre aqui); mesmo assim, são bem semelhantes nisso, sem dúvida.

O traquejo de Vanderbilt dentro da área roteirística é demasiadamente espetacular. Tomara que o roteirista prossiga em filmes desse patamar, delicados e astutos, e cultive em seu lado diretor as mesmas qualidades que sua face de roteirista demanda. Ainda veremos um filme dele chegar no Oscar, seja pela direção ou pelo roteiro, dessa forma.

Conspiração e Poder merece ser lembrado com um trabalho de peso, mais um da levada dos "filmes-denúncia", sendo, aliás, um exemplar nato do subgênero, mesmo que não reconhecido à altura. A competência de James Vanderbilt na direção e no roteiro e as atuações influentes de um elenco sensacional, liderado pela atuação digna de uma das melhores atrizes dos últimos (e todos os, so far) tempos, (a diva) Cate Blanchett. O Oscar errou feio ao ter deixado ela de fora. Conspiração e Poder é um exemplar seguro de qualidade e maturidade cinematográfica. Não percam.

Conspiração e Poder (Truth)
dir. James Vanderbilt -