domingo, 28 de dezembro de 2014

Crítica: "AMOR" (2012) - ★★★★★


Michael Haneke é um dos maiores mestres do cinema. Dono de uma carreira incomparável, repleta de obras dramáticas e renomadas, Haneke é o maior representante do cinema austríaco. Em 2012, Michael Haneke exibiu em Cannes Amor, que conquistou o diretor italiano Nanni Moretti, presidente do júri na edição do festival que deu a Palma de Ouro ao filme. De fato, não foi tanta surpresa. Amor é simplesmente genial. Por mim, é a melhor obra de Michael Haneke. Cinco indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Direção e Atriz para a premiada Emmanuelle Riva foram mais que merecidas. Amor é um dos melhores filmes produzidos nos últimos tempos, e afirmo isso com toda certeza. Posso lhes assegurar de que o filme tomou conta de mim em seus primeiros segundos, por ser tão forte e carregado de uma aprisionante característica que nos prende á tela de maneira eficaz e arredondante, transformando-a em uma película extravasadora.

Carregado pelo constante sentimento de culpa, e a transbordante estrutura dramática, o filosófico Amor narra a jornada de um casal de idosos e professores de música, Anne e Georges Laurent, que atravessam uma fase complicada de suas vidas: após ser submetida a uma cirurgia na carótida, Anne acaba sofrendo sequelas, e o lado direito de seu corpo paralisa após erros na cirurgia, o que causa algumas mudanças na vida dos dois. Este filme, assim como outros já publicados neste blog, é considerável ser visto por quem realmente entenda sua mensagem e também compreenda todo o paradoxo de Michael Haneke, desde Funny Games até o recente A Fita Branca. Não é um filme comum. Amor, como já descrevi antes, é uma rara observação vista de tempos em tempos. Não é um filme que se veja todo o dia. Amor foge do clichê cinematográfico, e essa é uma das razões para seu sucesso crítico.

É uma história pouco vista, uma narração lenta, dotada de poucos artifícios, de passagens eruditas. Não há trilha sonora em Amor, e é um dos filmes que se concentra em diálogos. Se você não está acostumado a esse tipo de filme, seria recomendável não assisti-lo. De qualquer forma, seria uma tremenda experiência assistir a ele, mas também trata-se de um filme forte, fortíssimo. Algumas pessoas o acharão sem sentido e pouco compreensível pela falta de ação ou justificação para o que acontece durante os poucos 120 minutos da película. É preciso entender Haneke para entender Amor. Como já conheço Michael Haneke há anos, desde A Professora de Piano, consegui captar Amor perfeitamente sem nenhum problema aparente. Sim, como seu título sugere, é uma história de amor. Trágica, por sinal. O objetivo desta obra é nos fazer interpreta-la, entrar na vida dos personagens, viver, encarnar o que na tela é apresentado. Sei que é uma tarefa difícil, mas é a única saída para Amor. É um filme teatral, a câmera não usufrui de tantos movimentos e o filme automaticamente vai se dividindo, como se a cada cena ganhasse vida própria.

Como já é conhecido, Michael aniquila o sentimentalismo no intuito de transformar a imagem do filme em algo mais tocável, realista. Amor aborda, de maneira completamente voraz e perspicaz, nosso desespero quando próximos do fim. Ninguém quer o fim. Como este filme, que nem mesmo deveria ter um fim de tão bom que é. E a questão aqui não é interpretar o fim como uma passagem simbólica da vida, uma nova fase, o "fim", mesmo. Não, não é isso que Haneke propõe. Ele quer desconstruir tudo o que possamos imaginar sobre a morte e refazê-la numa narrativa original e sem precedentes, torná-la o fatídico demônio apagador de memórias, conquistas e virtudes, e esse fim afeta muita gente ao redor a ponto de fazer tudo perder o rumo. E é isso que a torna uma experiência palpável, extraordinária. Não é "mais um filme". É "o filme": E, duplamente, somos expostos às visões do casal, e da filha deles, sobre o episódio. Anne encorpora um estado perplexo, depressivo, enquanto o marido soa confuso, perdido com o decorrer da situação, e isso faz com que ele passe a distorcer essa realidade em algo menos subjetivo e mais devaneador. A imaginação dele sabe, só que, em nome da permanência, não quer assumir a gravidade. É o pânico agindo de dentro pra fora. E, em casos desses, não se sabe o que vem a seguir. Não sabemos o que fazer, como agir, mesmo que tenhamos a ciência da extremidade enfrentada. É o nosso caráter sendo enfrentado sem pudor pela dor e pela incapacidade degenerativa de quem amamos. O nosso instinto reagindo contra a solidão e a amarga injustiça do tempo, o réquiem do sofrimento e da ilusão.

Aqui se constrói mais um retrato puro, raro. A história de duas almas fragilizadas pela ação do tempo e a decorrência do destino. Anne e Georges notoriamente são sustentados pelo amor verdadeiro, mas esse amor é colocado em teste quando a doença de Anne progride persuasivamente. A filha, Eva, ainda tenda entender tudo o que acontece ao seu redor, e se sente confusa por saber que não há nada a ser feito. Georges, tentando manter em segredo para se manter fiel á promessa da esposa, esconde sua doença de todos. A independência da mãe, Anne, se sentindo aprisonada á seu próprio corpo interrompida pelo seu desejo, tenta afastar toda a preocupação de seus familiares e amigos, tentando fazer com que tudo pareça bem, quando tudo está terminando de forma desenfreada e negativa. Pois é, assim Amor me ganhou facilmente. Uma película da qual eu nunca tinha visto. De Michael Haneke, surge outro filme dotado de uma sensibilidade autônoma e característica. Haneke apostou bem na história de amor trágica de Anne e Georges. Enquanto, ao mesmo tempo, é uma fuga do sensacionalismo barato, repreendido por Michael aqui na intenção de evitar a mesmice, de forma com que tal ausência não mude a qualidade dele. Amor é vibrante e convencional.

Apenas um diretor tão capaz e talentoso poderia dirigir uma história como essa, que carece tanto de coragem. Haneke provou mais uma vez que seu talento é o melhor de toda a sua excelência cinematográfica, dirigindo-o. A performance de Emmanuelle Riva é desoladora, e notória. Todos esses fatores contribuem para que Amor se transforme numa das melhores películas do cinema contemporâneo. Amor é uma obra-prima visionária, preenchida pelos elementos poéticos que a fazem tão bela, tão particular, tão amor. É disso que o filme fala. Nos coloca à frente da experiência de ver um ente querido na beira do fim da vida, caminhando à morte, sem nada a fazer. Mais uma vez, Michael Haneke ganha autoridade como um dos melhores cineastas, talvez, da história do cinema, e um profano ícone.

Amor (Amour)
dir. Michael Haneke - ★★★★★

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