terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Crítica: "ANTICRISTO" (2009) - ★★★★


Nunca se sabe o que esperar quando o assunto é Lars Von Trier. Em Anticristo, não foi diferente. Ao mesmo tempo em que assistir ao filme era uma situação propriamente desconfortável, também era primorosamente interessante. Protagonizado por Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe, Anticristo é o filme mais sombrio já dirigido por Von Trier. Nem mesmo seu atual Melancolia pôde superar o impacto transbordante da alucinante jornada deste filme. Neste drama peculiar e aterrorizante, vi um Lars Von Trier consolidador e principalmente misterioso. Nem na experiência revigorante do Dogma 95 de Os Idiotas Von Trier esteve tão "louco". Tampoco na reprodução substancial de uma obra teatral numa linguagem cinematográfica inovativa em Dogville. Este é o primeiro, e possivelmente, o único filme de Lars Von Trier que usou inapropriadamente elementos tão fortes para causar uma sensação constante de pânico e atração.

Confesso, não foi fácil resistir ás cenas de Anticristo. Para ser mais justo: foi algo impossível (não tecnicamente). E tratou-se de uma experiência um tanto satisfatória por mais que subversiva. Não vi a filosofia de Von Trier abordada com a estabilidade genial de Melancolia, apesar da mesma ter recriado todo um universo com base em recursos incríveis. Não vi o comportamento humano desfocado de Ondas do Destino, no entanto, Gainsbourg pôde refazer toda essa conexão em sua atuação primorosa, ao lado de Dafoe. Não vi um drama tão bem esquematizado e feito como vi no inesquecível Dançando no Escuro, apesar de encontrar um terror pesadíssimo que conseguiu concretizar pontos dramáticos essenciais necessários para esquentar a alma do espectador durante a projeção. Nem um pouco a Björk apareceu aqui, mas isso não foi problema com a britânica Charlotte Gainsbourg, galardoada com o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes em 2009 entregue pelas mãos da atriz francesa Isabelle Huppert, que deu uma performance estrondosa e memorável, igualmente talentosa. Willem Dafoe, amigo de longa data de Lars Von Trier, acompanhou perfeitamente o climáx complexo de Anticristo que parecia só ter olhos para Gainsbourg. 

Nem todos irão gostar de Anticristo, e menos vão compreendê-lo. Talvez, seja uma história que tente associar o prazer e o sofrimento, de uma forma pouco rentável e um tanto estranha, mas, como já citei, avassaladora e profunda. A cada capítulo, a trama torna-se mais aterrorizante. As cenas, mais fortes. O impacto, mais profundo. A cena inicial não corresponde á cena final. O sentimento de culpa da personagem de Gainsbourg a influenciou ao medo e á desolação, sucedendo os fatos numa série de acontecimentos inversos e relacionados á perdição. Algum tempo antes de rodar esta controversa película, Lars Von Trier foi diagnosticado com uma depressão avançada, o que o levou á criação da "Trilogia da Depressão", inciada com Anticristo. E finalizada, recentemente com Ninfomaníaca. Anticristo, com certeza, será um marco, não por ser algo também brilhante, mas por ser tremendamente horrendo e demasiadamente alternativo. Como dito no início, aqui vê-se um Lars Von Trier jamais visto em toda a sua carreira, e por isso, peço o extremo cuidado dos espectadores ao assistirem á este monumento lento e silencioso, que por sua vez, é intensamente inadequado, mas ainda sobrevive com um gostinho saciável de "ótimo".

Anticristo (Antichrist)
dir. Lars Von Trier - ★★★★

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