Acima
das Nuvens é
uma inteligente e incomum reciclagem do clichê. Neste filme, o clichê é algo
que funciona belamente e torna-se indispensável, é claro, se formos ver de um lado mais autêntico. Oliver Assayas utiliza a
ambiguidade e também simbolismos na arquitetura do filme como desculpa à história bem clicherizada, mas que não deixa de soar inovadora e ainda sim complexa. Não é genial? Eu,
pelo menos, achei bem interessante a experiência do francês nesta película. O filme
cria um mistério e engana o público, deixando as coisas mal esclarecidas, o que
ainda por cima revela um instinto natural da trama: a perplexidade. Mas é
óbvio, o clichê é um segundo plano, padrão reversal do roteiro, algo que para
um espectador comum, é totalmente invisível. Uma fuga para a sensibilidade
interativa de sua trama perturbadora, lotada de impressionismos tímidos e uma força dramática exótica.
Maria Enders é uma atriz em fim de
carreira que aceita contracenar com uma atriz mais jovem numa peça a qual ela já
interpretou na juventude, e agora, vive outro papel, o principal, de Helena. Claramente,
Enders entra num conflito irreversível com sua personalidade, no decorrer dos
acontecimentos mais profanos de sua jornada. E nisso, ela atravessa uma crise
da qual ela não consegue sustentar o passado e a própria intuição de
interpretar a obra da melhor maneira possível, sem falar nas lembranças e na sua percepção de Maloja Snake, o trabalho teatral que a consagrou ainda quando ela tinha 18 anos. Seu refúgio é a sua assistente
pessoal, Valentine, que por mais prestativa e fiel à ela seja, não consegue
acompanhá-la, e nesse desencontro é possível denotar tanto a existência de um embate de opiniões diversificadas quanto uma amizade pouco a pouco corrompida tanto por esse disparate de visões quanto o clima um tanto obscuro e imprevisível que a trama vai assumindo lá pela segunda parte do filme, que intensifica uma guerra contra a perdição que Maria vai tendenciando.
Embora seja irônico e demasiadamente
inverso, o filme tem pontos estratégicos e uma análise metódica da vida dos
personagens, algo que com raridade (atualmente) é visto num filme protagonizado
por Juliette Binoche, uma atriz que mesmo aparecendo em poucas obras-primas no
cinema contemporâneo, carrega um legado inconfundível e maravilhoso por trás de
sua máscara. Juliette está ao lado de Kristen Stewart, uma
novata que agora começou a aprender a atuar. Quer dizer, a jovem está simplesmente fantástica/deslumbrante/mais-talentosa-que-nunca/brilhante no papel da sobrecarregada Val, assistente sem descanso de Enders.
Até agora, este é o melhor filme de Stewart, que pra mim, era apenas conhecida pelo errôneo sucesso da saga Crepúsculo. Vejo muito de Stewart na personagem do filme Jo-Ann Ellis (personagem de outra estrela do público adolescente, Chloë Grace Moretz, pra mim, já conhecida por A Invenção de Hugo Cabret): uma atriz arrogante, prepotente, e que geralmente atua em sucessos comerciais do cinema. Mas Stewart, diferentemente desta peculiar personagem, vem mudando muito. Espero que no futuro, ela ainda consiga usar seu talento para algo bem mais prestativo e reconhecedor do que o trabalho feito na já citada saga.
Até agora, este é o melhor filme de Stewart, que pra mim, era apenas conhecida pelo errôneo sucesso da saga Crepúsculo. Vejo muito de Stewart na personagem do filme Jo-Ann Ellis (personagem de outra estrela do público adolescente, Chloë Grace Moretz, pra mim, já conhecida por A Invenção de Hugo Cabret): uma atriz arrogante, prepotente, e que geralmente atua em sucessos comerciais do cinema. Mas Stewart, diferentemente desta peculiar personagem, vem mudando muito. Espero que no futuro, ela ainda consiga usar seu talento para algo bem mais prestativo e reconhecedor do que o trabalho feito na já citada saga.
Oliver Assayas, como de costume, faz um
trabalho incrível e excelente na direção e no roteiro. E é claro, mais uma vez,
rigorosamente abusa da personagem principal de todas as formas possíveis apenas
para conseguir a mais plena visão de sua filosofia, um processo que bem feito
foi em Carlos, a sucessiva minissérie
do cineasta que lhe rendeu o Globo de Ouro em 2011. Como é comunal, a presença de diálogos profundos e duradouros é constante em Acima das Nuvens, fazendo referência a outros mais trabalhos do diretor que abusam de cenas carregadas por palavras e conflitos verbais.
E perceptivelmente, há um poderoso jogo
de cena entre Kristen e Juliette, dando ênfase às cenas de ensaio de Maloja Snake, algo que perdura o filme inteiro. Nessas cenas, houve uma química fabulosa entre as duas atrizes,
e as personagens também. Onde se concentrou o clichê, também se concentrou a
minha atenção. No filme, Maloja Snake é
a peça da autoria de um dramaturgo e cineasta chamado William Melchior. Na cena
inicial, indo para Sils Maria, nos Alpes Suíços, Maria descobre o suicídio de
Melchior por Val. A partir desse infeliz evento, o que seria uma plausível estadia nos
Alpes em função de uma homenagem a ele se torna um virtuoso capítulo de
intrigas e dúvidas morais. Como consequência à morte do autor, Maria tem de encarar as mil e uma faces que seu maior trabalho nos palcos carrega, sendo muitos ares de inquietude, memórias sórdidas e desvanecidas, principalmente proporcionadas pelo austero reencontro com o ator com quem contracenou na primeira versão, o odiado por ela, mas idolatrado pela assistente, Henryk Wald (Hanns Zischler), e também desconforto. Quando ela é proposta a atuar na pele da personagem com quem contracenou na primeira versão agora em um remake por um conceituado diretor, ela não consegue negar - por educação e respeito ao trabalho do e recém falecido Melchior - mas também não consegue demonstrar alegria, uma vez da tortura que foi ter de vivenciar os nojos da atriz que a interpretou da primeira vez, e que perturbam sem parar Enders.
Não é à toa que muitas vezes a relação Maria-Val é referenciada na relação entre as personagens protagonistas do texto de Melchior, Sigrid-Helena, mas aqui espelhadas de uma maneira onde a jovem assistente sucumba calada aos mandos da decadente mestra. É claro, há exceções, mas o diretor trabalha tão bem em cima dessa relação que essa sensação perpetua muitas vezes num tom despretensioso e que não facilmente se deixa transparecer pela realidade da situação, como nas cenas onde as duas treinam as falas de Maloja Snake, onde não dá pra saber se são Maria e Val conversando ou se é o treinamento do diálogo entre Sigrid e Helena. O desencontro opinativo delas talvez não explicite com tanta expansão essa intercomunicação entre as personagens. A entrada de uma terceira personagem nessa relação, a atriz Jo-Ann, faz com que o ciclo retorne à seu padrão de origem, formando um triângulo que reflete sobra a cultura etária e a relação entre personalidades em ascensão e queda, sucesso (fama e vida amorosa) e desgraça (esquecimento, alucinações e divórcio). Ou então quando uma tenta imitar a outra, estabelecendo diferentes conexões e sinalizações para uma só relação funcionar como um todo, como se tudo fosse a mesma coisa quando na verdade não é.
A graça de Acima das Nuvens está na atualidade da sua abordagem sem deixar de soar antiquado em certas partes. É nos carregados diálogos que se centra essa idealização de que futuro não se faz sem passado, e de que o novo e o velho estão conectados. Entre essas duas faixas, há uma longa transição entre possibilidades e mudanças. Mas, afinal, o que une esses dois pólos? O excesso de vaidade? A forma de como costumam lidar com a atenção, tratamento que varia de acordo com o contexto? Ou então de como a catástrofe psicológica pode emergir da mesma forma para ambas? Acima das Nuvens pretende comunicar a exauridão e complexidade do ser sob distintos estados de espírito. E como essa estrutura não depende da sua variedade para resignar excentricidades absurdas. A branda e ao mesmo tempo chocante densidade do tempo.
Não é à toa que muitas vezes a relação Maria-Val é referenciada na relação entre as personagens protagonistas do texto de Melchior, Sigrid-Helena, mas aqui espelhadas de uma maneira onde a jovem assistente sucumba calada aos mandos da decadente mestra. É claro, há exceções, mas o diretor trabalha tão bem em cima dessa relação que essa sensação perpetua muitas vezes num tom despretensioso e que não facilmente se deixa transparecer pela realidade da situação, como nas cenas onde as duas treinam as falas de Maloja Snake, onde não dá pra saber se são Maria e Val conversando ou se é o treinamento do diálogo entre Sigrid e Helena. O desencontro opinativo delas talvez não explicite com tanta expansão essa intercomunicação entre as personagens. A entrada de uma terceira personagem nessa relação, a atriz Jo-Ann, faz com que o ciclo retorne à seu padrão de origem, formando um triângulo que reflete sobra a cultura etária e a relação entre personalidades em ascensão e queda, sucesso (fama e vida amorosa) e desgraça (esquecimento, alucinações e divórcio). Ou então quando uma tenta imitar a outra, estabelecendo diferentes conexões e sinalizações para uma só relação funcionar como um todo, como se tudo fosse a mesma coisa quando na verdade não é.
A graça de Acima das Nuvens está na atualidade da sua abordagem sem deixar de soar antiquado em certas partes. É nos carregados diálogos que se centra essa idealização de que futuro não se faz sem passado, e de que o novo e o velho estão conectados. Entre essas duas faixas, há uma longa transição entre possibilidades e mudanças. Mas, afinal, o que une esses dois pólos? O excesso de vaidade? A forma de como costumam lidar com a atenção, tratamento que varia de acordo com o contexto? Ou então de como a catástrofe psicológica pode emergir da mesma forma para ambas? Acima das Nuvens pretende comunicar a exauridão e complexidade do ser sob distintos estados de espírito. E como essa estrutura não depende da sua variedade para resignar excentricidades absurdas. A branda e ao mesmo tempo chocante densidade do tempo.
O trio Binoche, Stewart e Assayas carrega o filme nas costas. Pode ser exagero, mas uma
indicação na maior premiação cinematográfica poderia ser algo de grande
autoridade a Binoche em compensação ao trabalho feito aqui. Binoche e
Cotillard. Duas damas francesas que muito bem poderiam dividir uma indicação neste ano.
Uma grande pena a categoria de Melhor Atriz Principal ter apenas cinco finalistas.
Mas enfim, o desempenho de Juliette neste drama é algo realmente essencial, e
que me impactou demasiadamente. Não só ela merecia uma indicação como também a Kristen, fabulosa pra alguém que porta uma cara de cochilo aonde vai (e aqui não foi diferente - acho que é até primordial destacar que a natural face de preguiça da Kristen ajudou na construção de sua personagem sempre cansada e com aquela dura impressão de insatisfeita, ou até mesmo interrompida). À Binoche, à Assayas, à Stewart, ao filme: uma
realização superior do cinema, e brilhante. Um grande “parabéns” e uma salva de
palmas ao grande elenco e à dedicada equipe que produziu esta obra de arte.
Acima das Nuvens (Clouds of Sils Maria)
dir. Oliver Assayas - ★★★★★
Acima das Nuvens (Clouds of Sils Maria)
dir. Oliver Assayas - ★★★★★

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