segunda-feira, 21 de março de 2016

Crítica: "BORAT - O SEGUNDO MELHOR REPÓRTER DO GLORIOSO PAÍS CAZAQUISTÃO VIAJA À AMÉRICA" (2006) - ★★★★


Comédia de fazer a gente rachar de rir, o politicamente incorreto Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à America ou simplesmente Borat é um daquelas comédias que quando você for ver vai estar dando gargalhadas naturalmente. Uma cena atrás da outra, é impossível não rir e se deliciar com as aventuras desse cara insano acompanhado do seu produtor mais maluco ainda. Aliás, insano é apelido para esse filme. Talvez nunca haverá outro filme como Borat na história do cinema. É sério, não falando da qualidade do filme, que é certamente uma comédia fantasticamente exímia, mas sim me referindo ao formato, ao estilo do humor, às sacadas do roteiro, às sequências brilhantíssimas... Borat é um tesouro genial, no mínimo.

Descobri o filme faz uns dois anos, e da primeira vez que vi era manhã de sábado e minha irmã também viu comigo. Rimos demais. Vendo hoje em dia, dou umas risadinhas e tal... Mas da primeira vez foi uma coisa incrivelmente louca. Eu ri pra caramba, de cena em cena, sem parar, ininterruptamente. Até posso estar exagerando, mas eu garanto que Borat irá te fazer rir, goste-se ou não do tom satírico assumido pelo longa ou pelas piadas de mau gosto que o personagem principal, um repórter vindo do Cazaquistão sem noção que apronta as maiores loucuras em uma visita aos Estados Unidos. 

A loucura em Borat já está na premissa dos criadores: o filme foi inteiramente filmado como um pseudo-documentário, incluindo depoimentos e cenas gravadas ao lado de pessoas reais, que não sabiam que era tudo uma grande brincadeira, e que foram enganadas pela equipe de produção o tempo todo. É tanto que os produtores sofreram diversos processos após a estreia e o comediante Sacha Baron Cohen chegou até a ser investigado pelo FBI na época (Sacha revelou à imprensa que "o FBI recebeu denúncias de pessoas alegando ter visto um terrorista num carrinho de sorvete"). Os caras passaram dos limites... Mas e não é que o filme funcionou, rapaz? Funcionou de tal maneira que, como eu bem falei no começo do texto, muito provavelmente será irrepetível ou irreproduzível. 

Sacha, também roteirista (o controverso humorista inglês recebeu o Globo de Ouro pelo personagem Borat e foi agraciado com uma indicação ao Oscar na categoria de Roteiro Adaptado), brinca com as mais variadas situações e mexe com temas sérios e os desconstrói na vértice de um humor afiadíssimo e vulgar, hilariante e irresistível. O comediante submete o espectador a uma experiência triunfal. A aposta é bem arriscada, mas felizmente a fórmula funciona e o filme é majestoso, dotado de um humor radiante e engraçadíssimo.

Apesar da descontração e do humor piadista, Borat aborda com um olhar fiel e sólido quesitos de vital importância e fundamenta uma sátira política repleta de simbolismos e críticas ao american way of life e à cultura do pós-9/11 e a posição da sociedade americana em relação a temas como homossexualismo. Interessante observar o filme também como um ataque à xenofobia e ao preconceito, sem cair no ridículo. 

Algumas das sequências cômicas de Borat estarão marcadas pra sempre na minha vida cinéfila como as cenas mais engraçadas que eu já vi, como a cena do hotel, onde onde o Borat e seu produtor doidão começam a brigar pelados e acabam invadindo acidentalmente um salão de apresentações (a particularmente cena mais engraçada do filme inteiro), ou também a cena do jantar high society, onde Borat leva uma prostituta à casa de um grupo de burgueses hipócritas... Também há aquele segmento onde Borat e o produtor, antissemitas, passam uma noite na casa de um casal de idosos judeus. Perto do começo, também há a cena onde o Borat entra no metrô e começa a cumprimentar as pessoas, e depois solta uma galinha no vagão. A cena onde ele vai ao lançamento do livro da Pamela Anderson e a "propõe em casamento" também é demais. E várias outras, que não me vem à cabeça nesse momento. Ah, sim, também tem aquela cena onde o Borat vai a um encontro com um grupo de feministas, ou também a cena do rodeio, onde o Borat anima a plateia com comentários de apoio às tropas no Iraque e a Guerra ao Terror, do tipo "...que Bush beba o sangue de todas as mulheres e crianças do Afeganistão!" (a plateia começa a aplaudir incessantemente).

Em muitos aspectos, Borat trata-se de um trabalho louvável. Comédia exemplar, é bem-feito, genialmente engraçado, deliciosamente complexo na sua premissa satírica, e traz um dos comediantes mais talentosos e excelentes dos últimos tempos, Sacha Baron Cohen, no melhor e mais engraçado filme de sua carreira, isso sem falar no diretor, Larry Charles, da série Curb Your Enthusiasm, à frente de um projeto que exige audácia, firmeza, coragem, objetividade e sanidade, sem falar nos inúmeros perigos da produção... Borat é I-M-P-E-R-D-Í-V-E-L.

Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América
(Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan)
dir. Larry Charles - 

Crítica: "O VISITANTE" (2007) - ★★★★


Em virtude da vitória do filme Spotlight - Segredos Revelados em Melhor Filme na mais recente edição do Oscar, decidi rever O Visitante, dirigido e escrito pelo mesmo de diretor/roteirista do longa, Tom McCarthy. Aliás, O Visitante foi o primeiro filme do cineasta que vi. Quando vi pela primeira vez, estávamos em plena Copa do Mundo (2014) e lembro da minha tia cozinhando alguma coisa, agora não me vem à cabeça o quê, enquanto eu assistia ao filme. Era dia de jogo do Brasil, e estava a maior balbúrdia, é tanto que eu nem lembro de ter terminado o filme. O Visitante, vibrante drama de McCarthy (seu segundo longa-metragem), rendeu a Richard Jenkins, o protagonista, uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Ator, que foi, por sinal, uma baita de uma merecida indicação.

Jenkins encarna um professor universitário viúvo que leva uma vida vazia e sem emoções. É quando ele vai presenciar uma conferência em Nova York que sua vida muda bruscamente: o professor encontra um casal de imigrantes morando no apartamento dele. O homem fica surpreso, mas não demora muito para se solidarizar com os estrangeiros, e passa a dividir o local com eles. Inclusive, o professor faz amizade com o rapaz, que até o dá aulas de tambor, muito embora seja quase sempre visto antipaticamente pela namorada do rapaz.

O filme prossegue num ritmo calmo mas constante, sempre vigilante. É tanto que são duas, eu creio, as cenas realmente tensas que podem ser notadas durante o filme inteiro. A primeira é a cena onde o professor encontra a moça senegalesa na banheira de seu apartamento, e a outra é a cena do surto, perto do final, onde o professor, geralmente pacato, expulsa sua raiva e seu desapontamento diante de uma notícia ruim. Não por acaso, essas duas cenas são duas das melhores do filme inteiro. O drama de Tom McCarthy dá corda a uma tonelada de conflitos em torno de uma história mundana e simples, profundamente tocante e poderosa.

Discretamente, Tom põe o dedo na ferida de uma temática atual e que ainda provoca polêmica, mas sem ser necessariamente escandaloso ou impessoal. É a história sobre o encontro de dois mundos diferentes, duas culturas diferentes, hábitos diferentes, histórias diferentes, numa só. O Visitante opta por um retrato afável de uma realidade cruel. Também é sobre a esperança em um mundo perdido e desgovernado, aprender a lidar com a derrota e seguir em frente, acreditar no poder da união. 

O elenco dá um show de competência bem-sucedido e certeiro. Richard Jenkins, o protagonista sessentão do longa, é dono de uma performance irreparável, absolutamente plausível e emocionante. Além dele, também vale mencionar as atuações ainda mais inesquecíveis e bonitas de Haaz Sleiman (o imigrante sírio Tarek), Danai Gurira (a namorada senegalesa de Tarek e vendedora artesanal, Zainab) e Hiam Abbass (como Mouna, mãe de Tarek que rouba a cena nos atos finais de O Visitante com um desempenho pra lá de versátil).

Além de ser um verdadeiro gênio na área roteirística, Tom McCarthy mostra que sabe trabalhar bem com o gênero dramático e executa em O Visitante uma aquarela de emoções, diálogos e planos sensacionais que tanto contribuem para a atmosfera dramática da trama quanto à estruturação da lista de personagens. Controle e maturidade sustentam a história. É brilhante.

Bem perto do final, o filme logo se metamorfoseia de drama em filme-denúncia, quando logo se propõe sua crítica ao sistema de imigração americano e às pertinências e absurdos do governo da "maior nação do mundo". Direta e indiretamente, a dura alfinetada de Tom. É claro, no quesito filme-denúncia, Spotlight fica na frente, mas é bom observar que o diretor desde então já cultiva essa característica fílmica tão benévola e precisa. Ainda sim, O Visitante é mais drama do que filme-denúncia, enquanto Spotlight perece como mais um filme-denúncia do que um drama propriamente dito. Entretanto, ambos os trabalhos dão conta do recado e funcionam astutamente de ambas as maneiras.

O Visitante é um filme, acima de tudo, sobre a humanidade, sobre abraçar as diferenças, celebrar a união e preservar a boa vontade... É um filme espetacularmente belo e que merece uma conferida. Poderoso e sensível, O Visitante é maravilhoso, tocante, de deixar qualquer um estonteado. Por favor, vejam!

O Visitante (The Visitor)
dir. Tom McCarthy - 

sábado, 19 de março de 2016

Crítica: "TUDO VAI FICAR BEM" (2015) - ★★


É, nada ficou bem com Tudo Vai Ficar Bem. E pensar que um trabalho tão impotente como esse foi dirigido por Wim Wenders e tem no elenco astros do escalão mais refinado, tais como James Franco, Charlotte Gainsbourg, Rachel McAdams e Marie-Josée Croze, só pra começar. O mais recente trabalho de Wenders estreou no Festival de Berlim, hors concours, ano passado, e chegou neste mês aos cinemas nacionais. Se vale ir conferir na telona? Olha, pra ser sincero, há certas coisas que são bem decepcionantes em relação ao filme, mas contando o elenco talentoso e a fotografia exuberante, rende ir ver sim. Mas, infelizmente, nem elenco nem fotografia, por mais excepcionais que sejam, são capazes de sustentar esse filminho maçante, que é uma grande de uma gororoba dramática sem pé nem cabeça.

E olha que eu recebo bem os dramas. É quase prioritário. Gosto pra caramba do gênero. Mas não dá pra suportar Tudo Vai Ficar Bem. E a questão nem é ser um filme dramático demais, porque na verdade nem é tão dramático assim e ser dramático demais às vezes nem é necessariamente um problema. Tem horas que Tudo Vai Ficar Bem é mais como um anti-drama, sabe? Mas o resultado é estranhamente incompleto e ruim. O filme é "vai drama, sai drama, vai drama..." e a história é confusa demais. Não tem sentido em fazer um filme assim. Eu pelo menos não vi graça alguma em tal proposta.

Tudo Vai Ficar Bem conta a história de um escritor (James Franco) vivendo um relacionamento conturbado com uma moça que deseja construir uma família com ele (Rachel McAdams) cuja vida muda após um acidente de carro trágico. Com o passar do tempo, ele vai tentando lidar com o crime e com as pessoas afetadas por ele.

Um jogo de emoções desencantado e sem controle paira sobre a trama e deixa o filme arrastado e desnecessário de muitas formas. A impressão que fica é de que Tudo Vai Ficar Bem é exageradamente forçado, sem força, sem intensidade, sem freio. Luto, sentimentalismo abstrato, desencontros amorosos, passado, culpa e ainda sobra pra redenção... Tem alguma coisa faltando? É tudo junto e misturado. Daí a gororoba dramática: não há sentido, não há direção, não há razão, não há nada. Tudo Vai Ficar Bem é uma grande de uma palhaçada.

No máximo, como eu já disse, vale ver: pelo elenco, de desempenho consideravelmente razoável (o James Franco atipicamente inexpressivo me deixou um pouco confuso) e a fotografia estonteante do Benoît Debie, o belga que já trabalhou com Gaspar Noé (Irreversível e no recente Love), Ryan Gosling (Rio Perdido), Dario Argento (Jogador Misterioso) e que agora concluiu uma bela parceria com Wim (pena que o filme é meio perdidinho, mas o visual é chocantemente avassalador; se eu tivesse visto o filme em 3D, ah, que maravilha seria - ou não?).

E, enfim, é isso aí. Uma das decepções mais deploráveis de 2016, so far, veio, infelizmente, em forma de filme, dirigido por um cineasta fera (e bota fera nisso). Dá uma pena de ver um filme desses, um diretor desses desperdiçando filmografia. É isso aí. Tudo Vai Ficar Bem não me ganhou. É um dramalhão patético de segunda totalmente recusável e broxante. Mesmo com a performance da Charlotte Gainsbourg e a fotografia bombástica, é um filme baixíssimo e de pouco valor. Eca.

Tudo Vai Ficar Bem (Every Thing Will Be Fine)
dir. Wim Wenders - 

sexta-feira, 18 de março de 2016

Crítica: "UM HOMEM SÉRIO" (2009) - ★★★★


2016 está nos trilhos e eu estou mega atrasado com o calendário de estreias. Ainda bem que só estamos em março e se eu correr dá pra quitar a dívida. O problema vai ser se eu me apegar e deixar os lançamentos passarem e acumular filmes (como se já não bastasse a quantidade gigantesca de filmes que eu tenho pra ver). A anta aqui fica nessa onda de rever pra criticar e só se ferra. A culpa é da minha desorganização. Tenho que ser mais organizado. É uma questão de bem estar com o ambiente e o tempo. Otherwise, vou acumular filmes, vou me estressar e vou me atrapalhar todo com a minha rotina. Enfim, bora parar de reclamar e falar um pouco sobre Um Homem Sério, dos Irmãos Coen, que esse ano (daqui a pouquinho, pra ser mais exato) regressarão às salas de cinema com Ave, César!

Um Homem Sério é aquele tipo de filme que você vai ver desprevenido e acaba se surpreendendo além da conta. A questão nem é ir informado, mas é um filme peculiar que agrada pela peculiaridade, independente da simpatia. E isso não vai ser lá estranho pra quem acompanha os irmãos Coen, cujos projetos são bastante excêntricos por natureza, e em muitos sentidos. Neste filme, comédia de humor negro que também funciona formidavelmente como comédia dramática, ambientado na década de 60 (?) um professor de física judeu, Lawrence Gopnik (Michael Stuhlbarg), não está feliz com a sua vida e busca o auxílio espiritual de três rabinos diferentes no intuito de encontrar respostas para os seus problemas: a esposa está o deixando por outro homem, um aluno asiático está na cola dele tentando recuperar uma nota, e um turbilhão de acontecimentos seguintes inconvenientes e desprezíveis pousam no terreno de Lawrence. 

Antes de mais nada, é praticamente impossível não ficar contente com o espetáculo técnico que é Um Homem Sério. A fotografia sempre deslumbrante de Roger Deakins está presente, e em ótima forma; a trilha sonora é igualmente desnorteante; o elenco é autêntico; o roteiro é genial como nenhum outro da dupla; a direção é brilhante ao extremo... Um Homem Sério conquista fácil e, à medida em que corre, vai nos eletrizando com tamanha perspicácia que é difícil descrever. 

Ambição não é lá bem a cara de Um Homem Sério. É um filme bem despretensioso, na verdade, tratando-se dos irmãos Coen, muito provavelmente até o filme mais pessoal da dupla. O que vale é degustar a abordagem e as delícias da narrativa empenhada, que oferece muito ao espectador.

Algumas sequências são bem memoráveis, possivelmente concorrendo até mesmo a melhores da filmografia dos Coen, como a cena inicial, ambientada num tempo passado em um pequeno vilarejo onde um homem judeu chega em casa e relata para a esposa que se encontrou com um conhecido dela na vinda pra casa, que a moça já diz estar falecido. É aí que eles recebem a visita do tal fantasma, que foi convidado pelo marido para tomar uma sopa. A mulher o apunhala, e ele então deixa a casa, a sangrar, intrigando o casal. É um plano especialmente surreal mas delirante de curioso. O outro é a cena do bar mitzvah do filho do Lawrence, engraçada e estranhíssima. Destaco também a sequência final e algumas sequências oníricas com o o professor. 

A fábula moral-religiosa dos Coen filosofa sobre fé e validade do pensamento humano diante das expectativas do existencialismo e a nossa posição sobre o bem e o mal e como isso reflete na nossa perspectiva sobre a vida em si. A questão está em interpretar aquilo nos cerca. Tudo depende de como vemos as coisas, do jeito que interpretamos aquilo que nos acomete, como bem diz a frase que dá partida no filme: "Receba tudo o que te acontece com simplicidade". Será que a nossa posição sobre os valores da religião estão, de fato, justos? A fé implica no rumo das nossas vidas? O filme levanta diversas questões. A meditação metafórica sobre aceitação, crença e realização desdobra-se eu uma série de questionamentos saudáveis e que tendem a amadurecer no nosso consciente com o passar do tempo. É intrigante e atraente. Sem falar também que o filme mexe com diversas temáticas dentro do judaísmo (passagens, provérbios, personagens, éticas...), o que é recomendável e tanto pra quem é mais afeminado à religião, familiarizado com a cultura judaica. Ah, e eu adorei a inclusão da música-tema "Somebody to Love", da banda Jefferson Airplanes. É uma das minhas canções prediletas. Só de terem a posto aqui fiquei estonteado. 

Um dos mais recentes (e primorosos) trabalhos dos Coen é um interessante e memorável exercício de reflexão que instiga e maravilha o espectador, que abre portas para várias possibilidades e divagações. Penso e penso, e o filme vai crescendo na minha mente. É impressionante. Mais uma vez, os geniais Coen Brothers emplacam pontos com uma obra deliciosamente bem-feita e digníssima de aplausos, uma experiência única.

P.S.: Pra quem procura uma análise mais aprofundada sobre o filme, recomendo demais este endereço. Me ajudou a compreender muita coisa, mas vale lembrar que o processo de digestão de Um Homem Sério é vagaroso mesmo. O filme respira com o passar do tempo. Mas se você não viu o filme ainda, não é aconselhável visitar, já que ele contém spoilers. 

Um Homem Sério (A Serious Man)
dir. Joel Coen, Ethan Coen - 

quinta-feira, 17 de março de 2016

THE OFFICE / 1ª Temporada


A primeira temporada de The Office, muito provavelmente por ser a mais curta (são 6 episódios no total), é a mais leve das temporadas. E, mesmo sendo também despretensiosa e minimamente introdutória, a temporada inicial de um dos seriados mais aclamados e populares da televisão norte-americana não escapa de certas falhas. Por outro lado, é interessante pra quem começou a acompanhar a série lá nas últimas temporadas (como eu) observar esse pontapé inusitado e acomodado. Se formos ver no geral, até que a 1ª temporada de The Office vale a pena, viu? 

Não sei se já narrei essa história antes, mas meu professor de inglês ficou de me emprestar há mais de um ano, eu acho, o box da versão original do Ricky Gervais (The Office britânico), segundo ele "mais hilário que o americano". Mas o tempo passou e eu acho que ele acabou se esquecendo, muito embora uma hora ou outra ele ainda me lembre. O pior é que na época não consegui achar na internet. Quando eu tiver um tempo, vou tentar procurar em torrent. Enfim, Ricky Gervais leva o crédito de co-roteirista e produtor executivo dessa primeira temporada. Legal a iniciativa dele de ter emprestado a sua criação para os americanos, já que ele não obteve muito sucesso mesmo na TV britânica (a versão original chegou a ganhar um Globo de Ouro, mas a fama foi pouca). 

Foi até inteligente da parte dele, digamos, já que, em comparação ao inglês, o The Office americano foi mil vezes mais bem-sucedido e amplamente recebido e distribuído mundo afora. E, de qualquer forma, o projeto, independente desses aspectos, é uma obra. Eu ainda não vi o britânico, mas o americano é maravilhoso. O reconhecimento à versão americana teria justificado o insucesso da versão britânica? Se foi esse o objetivo do Gervais, pode-se dizer que não houve desapontamentos. E, afinal, que mal há nisso? 

Não há muita coisa a se dizer sobre a 1ª temporada de The Office. O desenvolvimento da versão americana foi lento. A lista de personagens é o básico do básico do básico da lista de personagens da série. O clima satírico impera e em certos momentos até se mostra um tanto incômodo (num bom sentido). Há momentos engraçados? Muitos. Há momentos sem graça? É, tem algumas coisinhas que não colam, mas é pouca coisa. Os seis episódios são todos bem agradáveis e digeríveis. É difícil não gostar.

Steve Carell, que antes de The Office era praticamente um Zé Ninguém (realmente, o seriado fez a carreira de Steve decolar) encarna Michael Scott, gerente regional da Dunder Mifflin, corporação responsável pelo transporte e pela confecção de papel e materiais relacionados, que lidera uma sede da empresa localizada em Scranton, Pensilvânia (sim, essa cidade existe) e mantém uma relação de fraternidade bem complicada com o resto dos funcionários (espectro ora cômico ora decepcionante, no geral mais cômico). A 1ª temporada explora uma fase de downsizing que afeta a Dunder Mifflin e põe em risco a filial de Scranton, que está sujeita a corte de gastos e demissão de empregados. 

Ainda conhecemos Jim Halpert (John Krasinski), um homem que está claramente infeliz com o trabalho tedioso mas que não vê outra alternativa em sua vida, e que tem uma queda pela recepcionista da filial, Pam Beesly (Jenna Fischer), uma garota meio deprimida (por natureza) que vive sendo perturbada por Michael. Enquanto vai levando o emprego chato aos bocejos, Halpert ainda tem que aturar o colega imaturo e bagunçado, Dwight (Rainn Wilson), seu "arqui-inimigo". Há ainda Ryan Howard (B.J. Novak), funcionário novato, Oscar Martinez (Oscar Nunez), Angela Martin (Angela Kinsey), Kelly Kapoor (Mindy Kaling), Kevin Malone (Brian Baumgartner), Meredith (Kate Flannery), Phyllis Lapin (Phyllis Smith) e Stanley (Leslie David Baker). 

Vou confessar: sou frequentemente um grande simpatizante dos personagens do Steve Carell (como ele era gordo, não é?), mas tem certos momentos em que o Michael Stone chega a ser bem irritante, hein? Puxa vida. O cara faz de tudo pra transformar a área de trabalho em um ambiente de diversão e mutualidade, mas só termina em encrenca. E o mais engraçado de tudo é que a gente, indiretamente, acaba se identificando com certas situações em que o personagem se mete, mesmo cientes dos exageros do chefe, sempre muito positivo e brincalhão, mas que chega a ser tão, mas tão descontraído que incomoda pra caramba. E, a certo modo, é bem assim que acaba quando nós tentamos consertar as coisas ou tentar novas coisas. E, é claro, tem aquelas horas que é simplesmente muito, mas muito engraçado. A vida de escritório é mesmo uma aventura. E The Office continua sendo minha série predileta.

1. Pilot

Episódio piloto. Michael Stone e o resto dos personagens são apresentados. Aquele já característico aspecto fílmico de mockumentary infesta a tela. É triunfal. Não é o melhor episódio, mas é uma boa introdução. Começamos a compreender logo por aqui o relacionamento dos funcionários e o comportamento do protagonista, o chefe Michael Stone, que perambula pelo escritório fazendo piadinhas, se exibindo em entrevistas, brincando com os demais personagens, e na maior parte do tempo difamando a ele mesmo, o que acontece com frequência nos episódios seguintes.

2. Diversity Day

Michael decide convidar um palestrante para discursar no "Dia da Diversidade" no escritório. Ele se atrapalha todo tentando deixar bem claro seu "não-racismo", e propõe aos funcionários da empresa um jogo de adivinhação relacionado a raças, culturas e religiões. A sequência do jogo é bem engraçada. Esse episódio é muito bom. Ri bastante. O melhor episódio da 1ª temporada. 

3. Health Care

Para reduzir as chances da filial cair em downsizing e economizar dinheiro, Michael coloca Dwight no controle das sistematizações do seguro de saúde dos funcionários. Episódio confuso. Não é lá engraçado, mas apesar de tudo tem seus charmes. 

4. The Alliance

Os empregados ficam paranoicos com a ameaça de downsizing. Dwight propõe uma aliança a Jim, que, ao lado de Pam, o sacaneia. Enquanto isso, Michael está sem ideias para o aniversário de Meredith. Episódio cômico, em especial a cena do aniversário, quando a Meredith e o Michael vão ler o cartãozinho com as piadas. Ri alto.

5. Basketball

Esse episódio é o mais engraçado da temporada, ao lado de "Diversity Day". Para interagir com os funcionários, Michael decide esquematizar uma partida de Basquete com os entregadores. O segmento do jogo é brilhante de tão engraçado. 

6. Hot Girl

Participação (muito) especial da Amy Adams, a moça que nomeou este episódio. Michael faz de tudo para atrair e chamar a atenção de uma vendedora de bolsas, Katy (Amy) que está ocupando uma salinha na filial. Enquanto isso, a Dunder Mifflin irá presentear o melhor funcionário com um prêmio... Até o Michael chegar. Episódio de ouro, bastante engraçado. 

terça-feira, 15 de março de 2016

Crítica: "CLOSER - PERTO DEMAIS" (2004) - ★★★★


Já vai fazer dois anos que o inigualável gênio do cinema Mike Nichols nos deixou. Inacreditável. O mestre, em um período que corresponde a um longevo meio século de atividade, presenteou-nos com alguns dos maiores e mais importantes filmes já feitos (A Primeira Noite de um Homem e Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, por exemplo) e que raramente consegue decepcionar, mesmo sob projetos considerados menores, como aconteceu com Jogos de Poder (seu último filme) e A Difícil Arte de Amar (quase comprei a cópia em DVD uma vez, mas pisei na bola e agora o único jeito parece ser apelar pro torrent). Closer, o antepenúltimo filme realizado por ele, e talvez o mais popular (pelo público), é um filme intenso e voraz, poderoso a todo custo. Mike assume a direção de um trabalho thought-provoking eletrizante. O elenco talentosíssimo e inspirado é a atração principal de Closer - Perto Demais.

Julia Roberts, Jude Law, Clive Owen e Natalie Portman encarnam quatro personagens (uma fotógrafa, um jornalista, um médico e uma stripper, respectivamente) culminados a uma trama romântica repleta de desencontros e reviravoltas inusitadas. Traição, passado, intriga, verdade, mentira, obsessão, ilusão, Closer explora os limites das relações humanas e seus detalhismos e a natureza do estranho. O roteiro genial de Patrick Marber, adaptação da própria peça dele (conheci Marber no excepcional e inesquecível Notas sobre um Escândalo) capricha nos diálogos afiados, inteligentes e formalmente observadores. É difícil não se maravilhar com tamanho trabalho. A escolha de Nichols está bem clara, uma vez que Marber filosofa sobre a traição, tema recorrente na filmografia do cineasta, com sensibilidade e complexidade fenomenais. 

Falando em teatro, o filme bem que se parece mesmo com uma peça, viu? As cenas duradouras, os diálogos bem estruturados, a fotografia pálida e discreta, a valorização do elenco, a câmera, entre outros recursos que transformam Closer em um filme-teatro. Não me estranha o filme ter sido tão finamente elogiado pelo elenco. Clive Owen e Natalie Portman arrecadaram duas indicações ao Oscar. E eles estão certamente brilhantes. Ainda sim, os quatro estão igualmente dispostos e ótimos. Quem se destaca mesmo é a Natalie Portman, aqui estonteante e simplesmente gloriosa em todos os sentidos. Se tem alguém aqui que merece ser chamado de "o melhor" é ela. O Clive Owen também está formidável, mas quem realmente merecia a indicação, e possivelmente a vitória, era o Jude Law, também excelente. Isso pra não esquecer a Julia Roberts, numa das melhores atuações da carreira dela. 

Não acho mesmo que Closer seja um filme esquecível, como muitos proclamaram, mas creio que se trata justamente do contrário. Closer é memorável. Não é o melhor do Mike Nichols, mas é um trabalho notável e que merece respeito. E por último mas não menos importante, a trilha musical é primorosa. De Beethoven a Bebel Gilberto, a seleção é íntegra e combina perfeitamente com o clima do filme. A canção-tema, que abre e encerra Closer, "The Blower's Daughter", de Damien Rice, é melancolicamente belíssima (Ana Carolina e São Jorge produziram a versão nacional da canção, "É Isso Aí", tão emocionante quanto). 

Closer - Perto Demais (Closer)
dir. Mike Nichols - 

sábado, 12 de março de 2016

Crítica: "NÃO ESTOU LÁ" (2007) - ★★★★


Cinebiografia do músico americano Bob Dylan, Não Estou Lá é fascinante. Aproveitei o tempo livre e fui ver na Netflix (me surpreende, aliás, o fato do filme estar no catálogo da rede por tanto tempo - acho que já faz mais de um ano que o coloquei na minha lista), ontem à tarde. A premissa do filme é simples: 6 intérpretes diferentes representam a figura e a música de Bob Dylan em seis episódios intercalados relacionados à vida dele. Quer dizer, nem tão simples assim. A complexidade, gostosa e que distingue o projeto de qualquer outra cinebiografia (ainda mais sobre um músico), é o que proporciona magia e deleite. O formato da narrativa é original e aguçado, distante de exemplares menores e menos competentes de cinebiografias musicais recentes. E funciona.

A princípio, não há como não ser atraído pelo elenco monumental, realmente de dar água na boca: Christian Bale, Heath Ledger, Cate Blanchett, Ben Whishaw, Marcus Carl Franklin e Richard Gere representam Bob Dylan em distintas personas. Mas, também brilham: Charlotte Gainsbourg, Julianne Moore, Michelle Williams e David Cross (esses dois últimos aparecem tão raramente que mal dá pra degustar da participação deles). Quem é o melhor do elenco? Olha, não consigo ver ninguém melhor ali que a Cate. Ela está fabulosa. Quanto à indicação ao Oscar em 2008 (a única indicação do filme para o prêmio, injustamente), foi supermerecida. Pelo menos ela merecia a estatueta mais por esse trabalho do que por O Aviador (ainda que seja uma performance boa, foi superestimada ao meu ver). As semelhanças com o Bob Dylan real são muitíssimas.

Ainda acho que saber que é a Cate Blanchett em tela complica um pouco as coisas, o efeito, sem querer mexer na qualidade da atuação dela. Creio que se eu tivesse visto o filme sem saber que era ela interpretando o Bob Dylan enalteceria-a ainda mais, e seria, provavelmente, bem mais impactante e harmônico descobrir com o desenrolar do filme, já que a grande parte do tempo ela está de óculos escuro. E, ainda que ela esteja brilhante, há um equilíbrio constante entre a participação dela e dos outros atores, sem desfavorecimentos. Todos estão de parabéns, mas a Cate Blanchett está incrível de plausível. Atrás dela, ficam o Heath Ledger e a Charlotte Gainsbourg.

Como o Todd Haynes tem uma carreira pequena, fica difícil fazer comparações no quesito direção. Todos os filmes dele são bem-dirigidos. Do maravilhoso Carol ao versátil Longe do Paraíso, tudo é caprichado ao máximo, sem exceções. E não foi nada diferente com Não Estou Lá. Uma obra cinematográfica gigante, importante e muito bem-feita. O mais legal é que ninguém faz cinema como Todd Haynes. O cara é único. E é um baita prestígio ser agraciado com um filme tão excelente como Não Estou Lá, de um diretor tão impecável e talentoso.

O principal é deixar o filme te levar. Embarque na brincadeira sem medo de ser surpreendido. Alguns se emocionarão e outros coçarão a cabeça. Mas o essencial é deixar o filme te levar. Só assim você compreenderá a fórmula, a trama, os personagens... A construção é o que encanta. Não Estou Lá é inusual e recheado de coisas boas. É triunfalmente prazeroso.

A fotografia calorosa e excepcional, conduzida pelo colaborador de longa data de Haynes Edward Lachman é uma dessas coisas absolutamente especiais e incomparáveis em Não Estou Lá. O filme por si só já vale pela fotografia do Lachman. Todos os filmes do Haynes, não por acaso, possuem fotografias belíssimas, e que já fazem o filme valer por elas mesmas. É claro, Não Estou Lá não é um espetáculo visual como Carol ou Longe do Paraíso, mas carrega uma fotografia impressionante (as sequências do Jude Quinn, que lembram bastante o clássico de Fellini Oito e Meio, com diversas referências inclusive, são visualmente potentes e indispensáveis).

Enfim, Não Estou Lá é simplesmente imperdível. E a cada filme a mais que vejo do Todd Haynes, ele engrandece no meu conceito. A cinebiografia do "malabarista" que mudou o mundo da música americana em grande escala. Ah, e também tem o elenco primoroso! Não Estou Lá é um monumento fílmico imperdível. Vejam!

Não Estou Lá (I'm Not There)
dir. Todd Haynes -