domingo, 15 de novembro de 2015

OSCAR 2016 - 7ª Cerimônia do Governors Awards


A 7ª Cerimônia do Governors Award, que premia o Oscar Honorário, o Jean Hersholt Humanitarian Award e o Irving G. Thalberg Memorial Award (extinto há cinco anos), ocorreu na última noite de sábado no Ray Dolby Ballroom em Hollywood. Várias celebridades estiveram presentes na premiação, como Laura Linney, Jennifer Aniston, Patricia Clarkson, Cate Blanchett, Daniel Craig, Meryl Streep, Samuel L. Jackson, Denzel Washington, Jane Fonda, Rachel Weisz, Jason Segel, entre outros. A cerimônia foi especialmente criada para então dar espaço à esses prêmios honorários, anteriormente aceitos durante a cerimônia do Oscar. A presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, Cheryl Boone Isaacs, esteve presente e reservou seu discurso para homenagear as vítimas dos recentes atentados terroristas em Paris, e mostrou respeito e suporte às suas famílias. Os laureados desse ano foram:

Oscar Honorário
Academy Honorary Award


Spike Lee
"Um campeão no gênero independente e inspiração
para jovens diretores"


Gena Rowlands
"Um talento original cuja devoção por seu ofício lhe presenteou
reconhecimento mundial como ícone do cinema independente"

Prêmio Humanitário Jean Hersholt
Jean Hersholt Humanitarian Award


Debbie Reynolds
A atriz não esteve presente na cerimônia. Contudo, o prêmio
foi aceito por sua neta, Billie Lourd

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Crítica: "007 CONTRA SPECTRE" (2015) - ★★★★


Pensei que ia ter um ataque cardíaco. Ainda estou em dúvida se tal sensação foi ocasionada ou pela bombástica energia de 007 Contra Spectre ou pela sala equipada com IMAX na qual o vi. É claro, não dá pra discordar nem de longe da qualidade de ambos, mas creio que a surpresa foi por conta do próprio filme mesmo, embora o IMAX, a cada projeção, tenha cada vez ganhado mais a minha confiança. Enquanto o filme remete ao antiquado estilo de filmes da franquia, também tem conexão com essa nova linhagem que surgiu juntinho da fase Daniel Craig, que supostamente estaria abandonando o 007, mesmo que tenha mais no contrato mais um filme para fazer (das duas mais "polêmicas" declarações de Craig à respeito desse assunto, estão a de que ele só voltaria a encarnar Bond por dinheiro e que preferia se enforcar a filmar mais um). Sendo uma despedida (que fica muito bonito tratando-se desse filme) ou não, o importante é que Daniel Craig mantém seu posto de um dos melhores intérpretes do James Bond, em um filme que por si só é bastante comovente e entretedor. 

Embora não seja um ponto final definitivo na trama dessa nova fase, 007 Contra Spectre é bem importante para ela, tanto por desvendar a ligação entre os três últimos desfechos da saga e o responsável por toda a tragédia que se instalou não só dentro dessas histórias mas que também abalou a vida pessoal do James Bond, com o ressurgimento de fantasmas desse macabro passado. A sequência pré-créditos do filme já pode ser anotada como uma das melhores que já abriram um filme da série em toda a sua história. Na Cidade do México, durante a festa do Día de los Muertos, Bond, fantasiado, caminha entre uma usual aglomeração de Catrinas e caveiras. É um cenário estonteante e ao mesmo tempo culminado pelo clima de suspense geral, centralmente proporcionado pela trilha sonora de Thomas Newman, pela segunda vez a assumindo. 

Após acompanhar uma sexy Catrina até um quarto num prédio, ele deixa o local e simplesmente começa a caminhar por cima das construções. Nessa mesma sequência, a explosão de um apartamento e a automática demolição desse mesmo é de tirar o fôlego. Mas o fragmento do helicóptero é o melhor. Incrível. Não tenho mais palavras para descrever a intensidade do embate entre o Bond e o misterioso homem de branco dentro de um helicóptero cambaleante. Muito embora seja uma abertura gigantesca, os créditos poderiam ter sido melhor. Só acho isso. Até a Ana mencionou isso: "Parece abertura de novela da Globo". E o pior é que não dá pra discordar disso. 

Afastado indeterminadamente pelo M depois do caos no México, Bond, monitorado pelo Q, tem apenas 48 horas para descobrir a identidade de um homem mencionado por Sciarra. Transitando entre Itália e Áustria, esse tempo é marcado pelo sensual, mas muito rápido pro meu gosto, encontro de Bond com a viúva de Sciarra. O mais inaceitável é terem desperdiçado à toa a Monica Bellucci, aqui desnorteante, ainda que aos (inacreditáveis) 50. A italiana revela-se muito bem conservada, com um rostinho e um corpo que nem gente de 20, hoje em dia, atiça. Não é por acaso que ela é a mais velha bond girl. E falando em bond girl, a Léa Seydoux, que mulher sensacional. Obra divina. No papel de Madeleine Swann, Léa encanta e excita. Certamente a francesa está melhor do que nunca, numa atuação forte. 

Inicialmente repulsa à Bond, Swann, abalada pela difícil relação com o pai, caçado pela SPECTRE, sendo ex-integrante da organização, mantém-se afastada do 007, apesar de seu instinto ir, aos poucos, socializando com a personalidade do agente, e não demora daí pra frente pra uma cena quente rolar. O bom é o clímax não falha ou morre em nenhum segundo. Até mesmo dentro de um trem, a ação se propaga com facilidade e ganha proporções absolutamente imprescindíveis, com a cena da luta entre o Bond e o Mr. Hinx, cena que também gera um eletrizante ataque, e confirma a química de James e Madeleine, como um trabalho duplo. É claro que tal sequência, tecnicamente vislumbrante, não escapa do clichê.

Ainda que esteja aquém de 007 - Operação Skyfall, 007 Contra Spectre, embora não reproduza com a mesma excelência a competência dos segmentos de ação, obteve um investimento bem maior que Skyfall, sendo a nona produção mais cara da história segundo atuais registros, com um financiamento de 245-300 milhões de dólares. É até estranho ver que comparado ao anterior, Spectre é inferior quanto à utilização desse mar de dinheiro. Sem querer falar que é um dinheiro jogado fora. Muito pelo contrário. Só acho que, com menos, Skyfall rendeu e foi melhor. O filme, quase atingindo a terceira semana nos circuitos cinematográficos de todo o mundo, obteve 314 milhões na bilheteria. Mas é um pouco cedo pra dizer que o filme fracassou, até por que atingir a média (ficar na frente ou no mesmo nível que o do financiamento) Spectre já atingiu. 007 Contra Spectre é dominado pela ambição. Dá pra se satisfazer, ainda que seria melhor a qualidade do filme então alinhar-se com essa faminta ambição.

O trio Logan, Purvis e Wade toma liderança de um roteiro que funciona na ação, mas falha diante de determinados pretextos que podem incomodar o espectador que procura algo mais racional e complexo dentro de um filme de ação. Mas, fazer o quê? Acho que os produtores, que praticamente manipulam toda a equipe a fim de seguir o tradicionalismo da franquia, também tem participação nisso. Isso sem querer manchar o espírito do 007 e sua ligação com o tradicionalismo da série de filmes, e que é algo que respeita os padrões da lendária criação de Ian Fleming.

Bom ver o Bond mais relaxado, a certo modo, quanto à esses embates do passado e à constante pressão das tragédias dentro de seu imaginário, contestado firmemente pelo retorno cômico dele em piadinhas que acrescentam à nossa face impressionada um sorrisinho bobo. Não é o melhor do senso de humor do personagem, que foi explorado muito bem em 007 - Cassino Royale, mas certamente passa o recado, em sacadas como ele, num hotel no Tânger, perguntando à um rato: "Para quem você trabalha?", e coisas do tipo. Bom ver que a atmosfera trágica que se instala sobre a relação dele com a dra. Swann perdura até o resto do filme, como se Bond fosse culpado, quando ele não é. Antes da agônica sequência onde Bond é torturado por Franz, sequência que eu "carinhosamente" apelidei de "sala branca" (e que lembra uma cena de 007 Contra Goldfinger, onde Bond está preso à uma suspensão de ferro, deitado, e Auric Goldfinger posiciona um fatal laser próximo da região íntima do agente), é possível ver a Madeleine chocada com o vídeo do pai se suicidando, captado por uma câmera de segurança instalada na casa do Mr. White na Áustria, é onde Bond mostra seu lado sensível e humano, pouco exibido nos outros clássicos filmes do personagem, e que só veio a aparecer agora, com o surgimento desses intensos últimos dramas da fase Daniel Craig.

Os trinta minutos finais, falando nisso, são estremedores e merecem menção em relação às melhores cenas do filme. Destaco a da bomba demolidora instalada na antiga sede do MI6. Imagino o preço daquela cena, e até agora me arrepio com as lembranças do tenebroso cenário arquitetado pelo vilanesco Oberhauser (Christoph Waltz prova o ótimo e carrasco intérprete que é de vilões, somado aos impecavelmente feitos Bastardos Inglórios e Grandes Olhos). Um ótimo final encerra esses últimos minutos, exímios. A fotografia de Hoyte Van Hoytema é bem obscura, especialmente nos planos filmados na Áustria, mas é certamente um deleite. O contraste é bem executado, por mais que tenha feito meus olhos lacrimejarem. 007 Contra Spectre é adrenalina garantida, e também marca mais um sucesso, crítico e parcialmente comercial, da franquia 007, da qual sou orgulhosa e assumidamente fã.

007 Contra Spectre (Spectre)
dir. Sam Mendes - ★★★★

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Crítica: "EU ESTAVA JUSTAMENTE PENSANDO EM VOCÊ" (2014) - ★★★★


2015 tá chegando ao fim. Mal dá pra acreditar. E, enfim, novembro é o mês de ficar sobrecarregado até não poder mais e atingir o limite do cansaço. Não dá pra dormir direito, comer direito, ver o que eu tenho que ver, sem falar nos irresolvidos problemas pessoais, o ódio que não cessa e a vontade de mandar todos à merda de uma só vez. Essa semana já feri meu pé, tive torcicolo, e desde que contraí a maldita intoxicação alimentar no mês passado estou com uma gripe ferrada que acabou desembocando em uma crise de bronquite. Sem falar que meu nariz tá estranho esses dias. Não há paz, resumindo. Manter o controle e a sanidade tá bem difícil. Ah, eu já falei da falta de tempo? Pois é. O que salvou essa quarta foi ter visto os dois engraçadíssimos primeiros episódios da 4ª temporada de Curb Your Enthusiasm (em exibição no HBO Signature) e o belíssimo Eu Estava Justamente Pensando em Você, comédia romântica protagonizada por uma dupla certamente inesquecível e que leva em si influência de outros grandes filmes do gênero, e uma síntese inovativa que convida o espectador a embarcar numa experiência diferente de qualquer outra, com um especial viés que conecta uma peculiar rede suspensa de tempo e espaço dentro de um relacionamento amoroso entre dois personagens. 

A primeira cena detalha Dell todo desengonçado enquanto tenta decidir se segura ou não um buquê, parecendo estar à espera de alguém. Um flash transporta o público para outra cena, o encontro inesperado de Dell com Kimberly, com ambos eles, desconhecidos, aguardando uma chuva de meteoros. Nas cenas seguintes, o filme monta uma descentrada trama que vai narrando a engraçada e romântica relação entre os dois, as desavenças, opiniões e frenesis, já que ambos são dois desnorteados loucos. O ponto forte do filme é justamente esse estilo de narrativa bem descontraído e sem uma ligação direta, que aos poucos vai formando a imagem na cabeça do espectador, o que distancia a história de um clima clichê, batido. Muito pelo contrário. Quase todos os cenários, fechados e pouco explorados, dando a impressão de que foram filmados 100% em estúdio, e isso também faz do filme algo extraordinário, já que tal isolamento proporciona maior intensidade e foco aos diálogos. 

Apesar da ação ser limitada, o que move o filme são as histéricas conversações entre os dois, seja no primeiro encontro ou no pesaroso reencontro, marcantes e também conteúdo. Interessante ver como a interpretação avessa tanto do protagonista masculino quanto da feminina tem uma enorme importância para o desenvolvimento da relação, com uma estética até talvez feminista, já que ela tende a ser uma figura bem mais firme do que ele, na questão do pensamento sempre bem exposto e da vergonha ausente. Já ele é mais fechado, tímido, daqueles que não são de se meter em encrencas, o típico "certinho", cuja vida amorosa é sinônimo de vazio e solidão. Até Kimberly, é claro. Os dois possuem um distanciamento quanto à ideias pessoais o opiniões, até mesmo quanto ao amor, o que é bem declarado por todo o filme, com os dois protagonizando acirradas disputas sobre a existência do amor, com Dell contestando não acreditar que o amor realmente existe, e que toda relação, seja até mesmo o mais duradouro relacionamento, não é para sempre. Já ela, que experienciou na família o longo relacionamento dos pais, diz que que crê na força e na existência do amor, e ela mesmo parece depender desse contexto como forma de temperar, à certo modo, sua transparência quanto à relações. 

Sem falar que o filme é inspiradíssimo em três filmes românticos, com uma profunda recaída no primeiro citado: Antes do Pôr-do-Sol (crítica 1, crítica 2), Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Embriagado de Amor. Puxa, Eu Estava Justamente Pensando em Você tem muita coisa a ver com a obra-prima do Richard Linklater Antes do Pôr-do-Sol, a começar por alguns segmentos que deixam bem definido essa influência, não só a história de amor de Dell e Kim (que também parece ser inspirada em Antes do Amanhecer e Antes da Meia-Noite), a falar primeiro da cena do trem, onde esses filmes estão polarizadamente reunidos. Pra começar, a cena que Dell ouve de Kim uma suposta atração dela por um produtor executivo da MTV, ele sai, vai para o banheiro do trem e esmurra o espelho, lembrando uma das cenas mais eletrizantes de Embriagado de Amor, onde Barry Egan, nervoso, pede gentilmente licença para a amada Lena e se dirige ao banheiro, repetindo lá um ato até mais violento do que esse, chegando a derrubar portas e se ferir gravemente na mão, como o Dell. 

A cena da fila para ver o cometa, onde Dell e Kimberly se encontram pela primeira vez lembra vagamente da clássica sequência da fila em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, onde Alvy Singer começa a entrar em pânico com a alta conversa de um homem atrás dele, que cita Fellini e Marshall McLuhan, aqui comparado com o homem do encontro de Kim reclamando que Nova York é pior que Los Angeles, e o Dell, na frente, ironicamente o rebatendo para si mesmo. Seja nessas referências maravilhosas ou numa história que encanta e desespera ao mesmo tempo, Eu Estava Justamente Pensando em Você é simplesmente fabuloso.

Eu Estava Justamente Pensando em Você (Comet)
dir. Sam Esmail - ★★★★

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Crítica: "GUERRA DOS MUNDOS" (2005) - ★★★★★


É em filmes como Guerra dos Mundos que vemos o quão magnânima e interminável é a genialidade deste fenomenal carinha chamado Steven Spielberg, dono de uma filmografia de ouro, cobiçada, com certeza, por qualquer cineasta e adorada por todo tipo de espectador, do tímido mainstream ao mais cult possível. Pelo contrário do que se imagina, Hollywood passa por uma boa fase atualmente, que vem se dividindo em produções autênticas e tão cedo lendárias e sucessos de bilheteria que alimentam os grandes estúdios, sendo a boa parte destas últimas boas. Deixando de lado os podres do centro cinematográfico americano, é com certeza uma época de acertos, como eu disse tanto comercial quanto em qualidade. Guerra dos Mundos é um dos últimos melhores filmes que se destacam dessa fase e se encaixa duplamente em ambos os grupos, sendo o melhor filme do Steven fabricado na última década, o que é algo consideravelmente grande falando de um dos diretores mais importantes da história. E nós temos uma baita sorte por estarmos vivenciando não o auge, mas uma das fases mais produtivas dele, e também sucessiva, já que nenhum filme realmente ruim tem circulado por sua lista de realizações desde então. E será que Spielberg alguma vez já errou?

Parte de uma suposta trilogia pós-11 de setembro, segundo boatos idealizada por Spielberg no trio de filmes O Terminal, este e Munique, que estariam conectados à uma lógica, em cada filme diferente, conexão ao evento. Mas creio que, ao invés do Steven estar ao lado de um renegável patriotismo, tão afirmadamente contestado nestes três filmes, ele quer mesmo é explorar o frágil espírito da nação americana e o medo, a paranoia, instalados no país desde então, anos duros para qualquer dito americano, que desenvolveu uma trágica neurose quanto ao terrorismo após os fatídicos atentados, e um preconceito despontado pra todo lado ainda maior. É na humanidade e verdade de Guerra dos Mundos, na ambiciosa proposta de Spielberg em adaptar o clássico romance homônimo do H.G. Wells e no primor dessa obra que encontramos esta que é uma pérola cinematográfica única, recheada com entretenimento e uma grande intensidade, bem exposta nos efeitos visuais perfeccionistas e no som estremecedor, na fotografia desoladora do Janusz Kaminski, numa das melhores últimas colaborações com o mestre Steven.

O roteiro excelente escrito por David Koepp e Josh Friedman demonstra a mão boa que Spielberg tem para selecionar roteiristas dispostos e sempre estupendos, e também de proporção. O furioso clima apocalíptico grava no espectador uma frenesi eletrizante e tão claustrofóbica quanto a personagem de Rachel, filha de Ray Ferrier, que trabalha num porto e, ao voltar para casa, recebe a visita dos filhos que teve com a ex-mulher, Rachel e Robbie, e durante essa visita acaba recebendo outra visita maior: uma catástrofe alienígena caótica. Desesperado e imensamente confuso, sem acreditar no que testemunhou, a única saída de Ray é a todo custo garantir a segurança e proteção dos filhos, ainda que esse dependente cuidado acabe desencadeando em uma crise familiar gigantesca, principalmente tensionada entre o filho mais velho de Ray, Robbie, que quer ajudar no exército a combater as aterrorizantes máquinas de destruição vindas-de-outro-espaço, mas o pai bate o pé e não quer que ele vá. Ao contrário do que se imagina acerca desse encontro, que bem poderia simbolizar a re-união da família, há uma desavença ainda maior. Mas Spielberg monta bem a peça e guarda essa construção para um final um tanto "aliviador". Guerra dos Mundos, sendo a adaptação de um clássico magistral da literatura, reimagina esse universo com uma fábula original.

De forma a afastar os clichês viáveis a filmes-catástrofe e de destruição, Spielberg é minucioso na sua proposta e fabrica um marco na sua carreira, nem tão icônico quanto E.T. - O Extraterrestre, mas sutilmente próximo do status de um dos maiores clássicos do diretor (e com os extraterrestres de Guerra dos Mundos significantemente menos gentis, fofos e amáveis do que este, com o próprio diretor tendo contestado este filme o primeiro onde ele aborda os seres extraterrestres como malignos). Embora não seja lá o melhor do Tom Cruise, há certo destaque para a Dakota Fanning, ainda menina quando fez o papel, bem talvez o maior da sua carreira (favor não confundir com sua irmã, Elle Fanning, igualmente talentosa). Cada cena mais impactante e apocalíptica que a outra. Ambos Wells e Spielberg acertaram em Guerra dos Mundos. Uma história de caos e fúria, sensibilidade e família, coragem e desespero. Ray não é um herói. É um cara comum. Assim como todo aquele bando de gente, correndo destemida por cima do carro de Ferrier durante uma das cenas mais intensas do longa, mas depois que ele saca a sua arma, todos se afastam com uma enorme cautela. Todos ali não passam de gente comum. Gente como eu e você, que com certeza reagiria da mesma forma, sendo de um lado ou de outro. E quem é que tem, nessas horas, alguma moral para julgar o que é certo ou não?

Guerra dos Mundos (War of the Worlds)
dir. Steven Spielberg - ★★★★★

domingo, 8 de novembro de 2015

Crítica: "A DOCE SEDE DE SANGUE" (2014) - ★★★


Sumido o Spike Lee, hein? Apesar da sua recente refilmagem de Oldboy ter sido lançada no Brasil ano passado, o diretor parece ter desaparecido das telonas, tanto que A Doce Sede de Sangue foi lançado diretamente em DVD esse ano. E parece que desde A Última Noite ele não tem lançado um filme bem-recebido ou aclamado, tanto por lançamento ou crítica, digamos, já que Milagre em Santa Anna, Oldboy e até mesmo o documentário Michael Jackson - Bad 25 não foram lá bem aceitos. E, embora seja um filme compreensivelmente delicado, A Doce Sede de Sangue merecia ter, pelo menos, uma melhor distribuição internacional. Acredito que o impacto de tê-lo visto em casa é pequeno comparado caso o filme fosse lançado no cinema. Metade terror metade suspense, A Doce Sede de Sangue, de tão mal financiado não é aquele filmaço, mas caso melhor produzido daria uma bela obra, e mesmo assim não deixa de ser valioso.

Financiado com o dinheiro de internautas, através de um site organizado pelo próprio Spike Lee, que estava com mega dificuldades para produzir o filme, A Doce Sede de Sangue, bem como eu falei, é mediano por natureza. Seu quê de filme grande tem a intensidade reduzida com a escassa exploração da trama devido à falta de recursos e um tecnicismo falho que certamente surpreende em certos pontos, mas não é aquilo que se pode esperar de alguém do tamanho de Spike Lee, aquele que dirigiu a filmografia de três horas do Malcolm X e o clássico Faça a Coisa Certa. De longe não parece o mesmo diretor. Mas, enfim. É o que tem pra hoje. E não posso dizer que estou decepcionado. Muito pelo contrário. Até acho um trabalho bem enigmático, e por isso interessante. É bom ver que, ainda diante de pobres condições, Lee consegue se virar, razoavelmente.

A história é meio confusa no início, mas vai sendo detalhada com o passar do tempo, resultando numa narrativa bem exercitada e temperada. É sobre um especialista em arte que trabalha com artefatos históricos africanos e que está realizando investigações ao lado de outro curador, homem de temperamento duvidoso e que tem frequentes transtornos suicidas. Num segmento mal explicado, ele tem um surto e acorda esse especialista na tentativa de acertá-lo com um machado. Tentando se proteger dele, Lafayette acaba utilizando um misterioso e amaldiçoado instrumento, supostamente utilizado por uma rainha egípcia sedenta por sangue que acabou dizimando a população de seu reino bebendo seu sangue, matando-o. Ele se mata, mas o outro acaba revivendo, empoderando-se de uma sede insaciável de sangue. Pouco a pouco, ele vai vitimando mais pessoas, que vão integrando sua sociedade de "vampiros".

Termina sem muito sentido, mas é aterrorizante. E, pra quem não via um filme do Spike Lee há muito tempo, A Doce Sede de Sangue é a oportunidade de vê-lo numa fase mais relaxada, ainda que subestimada, onde o diretor parece tecer um olhar renovado sobre as suas perspectivas do universo negro e afro-americano. Enquanto serve de crítica à religião, é também um magistral terror que faz múltiplas conexões, dando diferentes ângulos à complexa trama, que pode ser subentendida de um jeito por mim, e por você de outro. É bem bizarro, mas é simplesmente estremecedor. E, ainda mais num ano onde o terror anda sucumbindo à repetição, ao incompreensível sobrenatural e ao tédio, A Doce Sede de Sangue pode ser visto como um sucesso adentro tantos, de fato, horrores (se é que me entendem) por hora vistos por aí. Sem contar na espetacular trilha sonora, que, como forma de adocicar a melódica sensualidade da peculiar história, leva dois títulos da MPB consigo, bem vistos em duas cenas, uma delas a fervorosa cena de sexo entre o especialista e a sra. Hightower e a sequência final, na voz icônica de Jorge Ben e Milton Nascimento (algo que deve ter uma direta influência com a demorada visita de Spike Lee no Brasil, faz um tempinho já, uma vez que ele veio filmar um documentário passado aqui, que não foi lançado, se eu não me engano).

A Doce Sede de Sangue (Da Sweet Blood of Jesus)
dir. Spike Lee - ★★★

sábado, 7 de novembro de 2015

Crítica: "UM SENHOR ESTAGIÁRIO" (2015) - ★★★


Novo filme da diretora Nancy Meyers, "especialista" em comédias românticas, Um Senhor Estagiário, apesar de não ser assumidamente uma comédia romântica, leva consigo aquele mesmo clima descontraído e simpático de outros filmes da diretora como Simplesmente Complicado, Do Que as Mulheres Gostam e O Amor Não Tira Férias. Se fosse pra comparar, acho que da curta filmografia da Nancy (que tem mais títulos como roteirista), Alguém Tem Que Ceder cairia como uma luva. Não é só pelo protagonismo de atores da terceira idade, como De Niro e Diane Keaton, mas também pela abordagem dos idosos cada vez mais ativos, não falando da disposição, mas sim o acompanhamento da evolução do mundo, tal como nos relacionamentos e no trabalho. Falando da participação dos idosos no avançado caminhar da rede de vendas por internet e do universo empresarial, Um Senhor Estagiário acumula pontos. 

O interessante é que esse retrato da desenfreada evolução desponta não só nessa área, mas em outros vínculos, o que faz dele um monumento multifacetado. Por exemplo, a relação da Jules com a família, mais especificamente com o marido, Matt, que conheceu trabalhando na empresa que hoje é CEO. Matt saiu do emprego e passou a cuidar integralmente da filha que teve com ela, contrariando o clássico estereótipo do marido sempre desatencioso e distante, posto passado diretamente para a personagem de Jules, e apesar dessa mudança de papéis o já conhecido rumo das coisas com a distância da mulher e os usuais conflitos do casamento não sofre quaisquer alterações. 

Há também a análise da perspicaz atividade da mulher dentro do mundo comercial, que igualmente se liga à proposta do filme de explorar a evolução e à anexação do sexo feminino em novos padrões. Ver Anne Hathaway no papel da durona de coração mole Jules Ostin, num escalão de alto poderio, comandante de uma rede de venda de roupas online bem-sucedida, é mais que um deleite e delicioso comeback pra quem viu ela, em 2006, ainda no início da carreira, sofrer na pele da Andy, a quase-escrava da Miranda Priestly em O Diabo Veste Prada, até porque aqui se ela não exige muito do senhor estagiário Ben Whittaker, ela também extravasa com a secretária Becky, imitando a relação Andy-Miranda do já citado O Diabo Veste Prada, que parece ter levemente inspirado Um Senhor Estagiário em determinados aspectos, ainda que Jules não seja tão ignorante, rabugenta e excessiva quanto a Miranda em si. Dentro desta Jules, pelo menos, sobra uma grande porção de sensibilidade e humanidade, aprofundados à medida em que a relação entre chefe e estagiário vai se intensificando.

[spoilers] Fica difícil resistir a Um Senhor Estagiário ainda mais quando o filme estampa Robert De Niro, setentão e durão astro de filmes com teor gângster, criminal, na pele do tal estagiário do título, viúvo e que, morando no Brookyln, onde a sede da empresa é sediada, decide aventurar-se por uma última vez num trabalho que o remeta às velhas lembranças do passado, onde trabalhava no mesmo local onde hoje é sediada a loja online. Depois de ganhar a atenção e bondade da exigente Jules, bem explicitado em episódios como o qual ele leva a filha dela para uma festinha depois que o marido "fica doente" ou quando ele evita que a mensagem erroneamente direcionada à mãe da chefe dizendo que ela era uma megera e mais outros infames xingamentos entrando à força na casa dela, com um alarme supostamente falso acionado, gerando uma cômica confusão, é aí que vemos o espírito caridoso e atencioso do personagem. Outros segmentos são pérolas para o filme, como o que ele começa a treinar o "piscar" sabido de que Jules não gosta da pessoa que não pisca, ou quando a massagista da empresa, interpretada sublimemente pela Rene Russo, começa a massagear a região da sua perna, e então um dos amigos de Ben entra e se assusta, chocado pela simulação de sexo oral que tal cena premeditou.

Ainda que não seja tudo aquilo que se possa imaginar à primeira vista, Um Senhor Estagiário agrada pela competência de sua diretora/roteirista Nancy Meyers, consolidada como uma das maiores fabricantes de comédia dos últimos tempos, e a força de um elenco extraordinário, a maior parte do mérito deste desviado para os dois excelentes protagonistas, Anne Hathaway e Robert De Niro, numa química excepcional e raramente vista em semelhantes. O roteiro da Nancy evita clichês com a elaboração de uma boa fórmula, que faz com que a trama não fique tão pesarosa e chata, e ajuda a dar realce ao elenco. Um Senhor Estagiário é modelo de comédia bem-feita, em moldes originais e com uma parcela de encantos e qualidades infinitesimal.

Um Senhor Estagiário (The Intern)
dir. Nancy Meyers - ★★★

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Crítica: "DOIS LADOS DO AMOR" (2014) - ★★★★★


Por que diabos não lançaram aqui no Brasil os dois primeiros filmes da trilogia, que são The Disappearance of Eleanor Rigby: Him e Her, em vez de apenas terem trago o último (Them), ainda que seja este seja a "junção" (editada) dos outros dois primeiros, sob o título Dois Lados do Amor?. O Him discute a história na visão do protagonista masculino, Conor Ludlow, e o Her a perspectiva da personagem do título, Eleanor Rigby (nomeada assim por conta da famosa música do Beatles, já que seu pai e sua mãe se conheceram enquanto esperavam juntos por um suposto concerto da banda em Nova York). Se bem que pedir mais depois de Dois Lados do Amor fica até um pouco embaraçoso, já que se trata de um filme espetacular. Multifacetado prisma que espelha a relação de um casal após uma tragédia familiar, Dois Lados do Amor combina, com enorme perfeição, drama e romance, além do elenco sensacional, com especial destaque a Jessica Chastein (num dos melhores papéis recentes dela) e James McAvoy (brilhante, como nunca esteve). 

Vou te falar, esse ano a Chastein chegou com tudo. No início de 2015, carregava consigo glamour e beleza no pesado O Ano Mais Violento, onde enfeitava com doçura e às vezes rigidez sua personagem, esposa e "conselheira" de um bem-sucedido empresário do ramo petrolífero. Um pouco mais tarde, em maio, voltou a encantar na pele de Miss Julie, talvez seu melhor papel e mais radiante visto neste ano. Não tive a chance de conferir Perdido em Marte, ainda, onde a performance da atriz veio recebendo bons elogios. Só tinha sobrado dela, pra ver, Dois Lados do Amor, que chegou tímido aos cinemas, em março. A única palavra para pontuar o desastre de ter perdido o longa no cinemaé pecado. Erro é muito pequeno para identificar o meu desapontamento comigo mesmo por não tê-lo visto à altura, se bem que eu nem sabia de sua estreia até agora.

Ned Benson, que já foi namorado da Jessica antes dela fazer fama, convida o público a acompanhar a trágica e belíssima trajetória de um casal, atravessando um profundo período de luto, cada um reagindo da própria maneira à agitação desse capítulo, de um ângulo inteiramente singular e diferenciado das demais abordagens que se vê por aí. Enquanto vemos na carismática e energética figura de Conor Ludlow um estado de despreocupamento e calmaria, Eleanor Rigby, sua amada, enterra-se num espírito de luto emergente e abalador, provocando seu afastamento do marido e da sua própria vida - de fato, seu desaparecimento -. Após uma falha tentativa de suicídio, ela retorna à casa dos pais onde tenta reconstruir a vida isolada de Conor e de todas as memórias que pudessem a remeter à perda, só que aos poucos ela vai criando alguns problemas com os familiares quando todos parecem coroá-la com um misto de superproteção e preocupação com seu estado psicológico. Se não viram ainda Dois Lados do Amor, não ousem ler nenhuma sinopse ou até mesmo ver o trailer, senão estraga a surpresa e a grande sacada do monumento dramático que é, e até o clima de suspense que fica no ar por conta dos frequentes desencontros entre o tempo atual e os misturados flashbacks, desaparece, e isso talvez influencie no entretenimento. 

Enquanto muitos outros filmes que retratam o luto, e seu catastrófico efeito na vida da gente ao seu redor, reverenciam um incólume, mas caso realizado sem os precisos cuidados inflado, modelo que sempre procura conectar os centrais envolvidos à uma avalanche de revelações, sentimentos contrastados e uma auto-repreensão interminável, mas que são os necessários elementos da composição da trama, em Dois Lados do Amor o espectador vai desvendando os segredos dentro da narração à medida em que o luto não está nitidamente perceptível (ele vai ganhando camadas com a evolução do filme), o que resulta num exemplar protótipo e bem incomum.

Eleanor representa a culpa, a dor e a dúvida do ser emergindo depois do grande break, sentimentos antes encobertos, mas que ressurgem misticamente com o baque. Conor representa o "ir em frente", deixar pra trás, "aprender a conviver com o passado". Como um casal, Conor e Eleanor representam num uníssono essas características na própria pessoa, que determinam o luto. Enquanto uma parte de nós não aceita a verdade e fica preso naquela onda de tristeza e inconsolável melancolia, a outra é forçada, pelo tempo e pelas suas tarefas, a abandonar essa instabilidade. E, enquanto essa relação é a pura demonstração de todo o processo que reúne a aceitação da partida, também há todo um contexto romântico por trás dessa simbolização, a caracterização do amor verdadeiro. É uma história muito bela, cuja impactante sensibilidade me silencia de um veredito contrário a esse. A insuficiência de defeitos, a caracterização, a encarnação. É absolutamente excelente, inesquecível. 

Como eu não tinha ouvido falar muito de Dois Lados do Amor, sequer estar ciente da participação de atores fenomenais à exceção da Jessica e do James, e também da minha eterna diva Isabelle Huppert, no já mencionado indescritível elenco, fiquei abismadamente surpreso com a presença de William Hurt, Viola Davis e o Bill Hader neste mesmo, sem falar na Nina Arianda, que faz uma pequena ponta. O roteiro é maravilhoso, constrói bem as personagens e costura a história com um intransitivo esmero, além da perpetuação de um clima que enverniza bem as performances e o temperamento do relacionamento da Eleanor e do Conor, permeado pela paixão e pela depressão. Vale elogiar a desprevenida entrada de conflitos familiares que, apesar de não ser amplamente observada, rende uma exótica apreciação. Dois Lados do Amor é marcante quão indispensável. É com certeza um dos melhores de 2015. 

Dois Lados do Amor (The Disappearance of Eleanor Rigby: Them)
dir. Ned Benson - ★★★★★