terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Crítica: "EX-MACHINA - INSTINTO ARTIFICIAL" (2015) - ★★★★


Estava com certa relutância em ver Ex-Machina, temendo odiar o filme visto que minhas expectativas quanto a ele não eram as das melhores - nem me perguntem o porquê. Mas confesso que eu gostei do longa, apesar de suas imperfeições. É claro, na melhor das hipóteses, seu quê futurista supervalorizado deixa a desejar em muito, mas a trama, que referencia e lembra muitos longas de segura qualidade, é bem feita e opta pela simplicidade em sua arquitetura sci-fi. Por incrível que pareça, essa escolha beneficia o suspense, dando consistência à bizarra ora elegante trama. A procrastinação de sua sacada, que resulta num xeque-mate demolidor, pode satisfazer, decepcionar ou satisfazer e decepcionar.

A verdade é que o comentadíssimo Ex-Machina - Instinto Artificial tem lá sua inspiração Kubrickiana, mas está mais para um cruzamento de Sob a Pele com Ela (apesar do final contraditório) do que uma direta influência do clássico 2001. Ex-Machina dá a sensação de ser um terror, com o favorecimento do constante clima de suspense e também do cenário sempre cinza e misterioso. Há comparações com Blade Runner - Caçador de Andróides, que em nenhum ponto merecem ser desclassificadas, já que é fato que o filme se inspira nele para a fermentação da sua trama, e na concepção da robô Ava, interpretada sexymente pela Alicia Vikander, que deslanchou em 2015.

Ainda não conferi O Agente da U.N.C.L.E., mas já já ela vem para os cinemas com A Garota Dinamarquesa. Pra ser mais completo, ela tá agora nos cinemas com Pegando Fogo, que teve uma recepção ruim por parte da crítica. Ex-Machina foi lançado diretamente em vídeo. Uma pena.

A bela, que tinha aparecido estonteante em Anna Karenina, retorna com mais uma parceria ao lado do ator Domhnall Gleeson (filho mais velho do ator Brendan Gleeson), com quem tinha contracenado lá, e que aqui faz o papel de um programador computacional "selecionado" por um magnata do ramo, considerado o Mozart da informática, que quer que ele inicie um processo de avaliação num sistema de inteligência artifical que ele montou, e está vetado ao conhecimento humano, com o centro de pesquisas desse homem sendo isolado na mata.

Uma coisa leva à outra. O jovem Caleb fica fascinado com a máquina, contemplando-a com todas as suas forças, e fazendo um enorme esforço para tirá-la de seu cativeiro. Hum. Mal sabe ele o que lhe aguarda. E mal estou eu apto dos spoilers que estão quase fugindo do meu controle agora, caramba! O amor pela robô o faz amaldiçoar Nathan, seu criador, e ele carrega nas costas o título de vilão - muito ingratamente - pelo resto do filme. É claro, até as reviravoltas começarem. Lá vem eu de novo.

Quem é fã do gênero se sentirá presenteado, já que Ex-Machina, mesmo não sendo aquele filmaço, é um trabalho interessantíssimo, e bastante inteligente. Visto o filme, se vê o porque da presença dele nas mais diversas listas de melhores do ano que já estão tão prematuramente saindo, e também elogios por parte da interpretação (espetacular e belíssima) da estupenda Vikander e do Oscar Isaac (talentoso pra cacete), que cada vez mais vem se mostrando uma figura importantíssima no rol de atores dos últimos tempos, tendo ele tido o privilégio de trabalhar com diretores do naipe dos irmãos Coen e Nicolas Winding Refn.

Ex-Machina - Instinto Artificial (Ex-Machina)
dir. Alex Garland - ★★★★

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Crítica: "UM AMOR A CADA ESQUINA" (2014) - ★★★


Finalmente! Apenas começo a desfrutar da minha almejada temporada de férias, que iniciou nesta glorificada semana, com um sorriso quilométrico estampado na cara e uma lista vergonhosa de filmes ainda não visto que devem ser conferidos até o cessar de 2015. Cara, vou te contar, chegou a tempo. 2015, nas questões de ofício, foi um ano pra lá de cansativo. E não tem jeito melhor de iniciar essa folga com uma comédia engraçadíssima, pra lá de extasiante e burlesca, certamente uma das melhores desse ano. Primeiro filme (realizado para distribuição cinematográfica) do cineasta americano Peter Bogdanovich em 14 anos (desde O Miado do Gato), Um Amor a Cada Esquina é um jeito leve e classicista de voltar à ativa selecionado pelo cineasta - que não melhor poderia fazê-lo - sem mencionar que é pura diversão, em todos os aspectos, e bem refinado. Trata-se também da evidência de um forte guarnecido do Peter: o roteiro, que há tempos não é visto tão bem trabalhado e desenvolvido, muito embora falhas estejam expostas. E só aumenta as expectativas quanto ao próximo longa dele, One Lucky Moon, western previsto para 2017 estrelando Cybill Shepherd.

Não tenho muito o que reclamar de Um Amor a Cada Esquina. O que importa é que há uma porrada de elogios para fazer. Falhas é o de menos - felizmente. Comédia escrachada, Um Amor a Cada Esquina retrata o efeito do fantástico no ser e a transformação da ilusão em realidade, com direito a teorizações terníssimas acerca dessa evolução, ditadas pela personagem Izzy, atualmente atriz de cinema que está dando uma entrevista, e que recorda do seu passado e o que sequenciou sua ascenção à nata do mundo das celebridades. Outrora sofisticada e sonhadora garota de programa, a hoje Isabella Patterson, nas idas de um encontro com um renomado diretor de teatro, Arnold Albertson, vê seu desejo se realizar misticamente com a frenesi romântica de Arnold, que a garante um cachê de trinta mil dólares naquela mesma noite, com o diretor a humanizando, e apenas a prometendo a grana caso ela parasse de seguir com aquela vida e então rumasse seus sonhos. 

O que desencadeia essa primeira parte preenchida por ludíbrios devaneios românticos pode parecer suave para que a precede. Os amargos e pseudo-sérios personagens que vão tomando conta da tela e da trama após os delicados momentos iniciais reverte automaticamente o senso de parcimônia cômica e enaltecimento romântico que tanto parecem dar vida ao filme, muito embora esse teor não seja praticamente dizimado. O mais incrível de toda essa rebobinagem ao não bobinado é que de forma alguma atrapalha na interpretação da história, que continua objetivando conscientizar o paradigma lúdico da fantasia e da nossa eterna luta, aqui vitalmente filmada de um ponto lúdico para o espectador tendo como fundo o acelerado crescimento da tola Izzy, protagonista, pela concretização das nossas ambições, impossivelmente inalcançáveis quando nós nos encontramos embebidos no elixir da ilusão, aqui fortuna para os personagens dessa louca história de amor e sonhos. 

A dinâmica da construção dos personagens catalisa a força de um elenco riquíssimo, todo em conjunto, uma vez que os muitos núcleos amorosos em torno da trama complexamente enrolada une esses atores, em especial numa das cenas perto do fim, onde há um conglomerado de gente reunida nos ensaios da peça do Arnold, como os pais da Izzy, o detetive, a terapeuta e seu "cliente tarado" - cena irrealmente cômica, uma das melhores do filme, empatado muito provavelmente com a cena do hotel com o desencontro entre as prostitutas e a esposa. De fato, como muitos tem atestado, é uma comédia que remete ao antigo estilo de se fazer comédias, um mix de Buster Keaton, os Marx e Chaplin, que, mesmo nem tão satisfatório ou completo quanto devia, é milagrosamente remetente, e portanto, minimamente, fiel. As comparações ao Woody Allen, no entanto, são mais válidas ainda, já que Um Amor a Cada Esquina bebe na fonte de A Rosa Púrpura do Cairo, meu favorito, com a Isabella daqui se assemelhando com a Cecilia de lá, apesar dos distintos destinos que ambas as figuras tomam, isso lembrando que a personagem da Isabella tem como tema a ilusão.

Quanto ao elenco, estrelam aqui importantes amostras de humor de qualidade, já conhecidos do público (Owen Wilson, Jennifer Aniston, Will Forte, Richard Lewis, Austin Pendleton) e algumas outras que, ainda que conhecidas, mostram, primitivamente, talento na área (Kathryn Hahn, Rhys Ifans), e aquela que é o destaque e a graça do filme: a deliciosamente engraçada e ainda mais linda Imogen Poots, cuja existência só me veio a ser denotada no conhecimento de Um Amor a Cada Esquina, ainda que a beldade esteja no aguardadíssimo Cavaleiro de Copas, próximo do Terrence Malick que teve a sua estreia para esse mês adiada por tempo indeterminado. Droga! 

Outra participação interessante, mesmo que bem menor, é a de Lucy Punch, outra deusa que faz aqui um papel de prostituta, numa sequência hilária. A primeira coisa que subiu à minha cabeça foi de que a atriz nunca esteve mais familiar. Acontece que essa é a segunda vez que ela faz um papel de meretriz, pelo que eu conheço, já que há pouco tempo a vi imperdível em Você vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos - do Woody Allen. Fica a sensação de que essa garota ainda nos tem muita coisa pra mostrar. E porque diabos o título She's Funny That Way (Ela é Engraçada desse Jeito)? Eu ainda acho que Squirrel to the Nuts ficaria show (a frase, expressão que diz "esquilos para as nozes" é quase um bordão do personagem Arnold). 

Um Amor a Cada Esquina (She's Funny That Way)
dir. Peter Bogdanovich - ★★★

sábado, 5 de dezembro de 2015

Crítica: "A TRAVESSIA" (2015) - ★★★★


Desde que fui introduzido ao cinema de Robert Zemeckis, sempre olhava para o cineasta como se o mesmo fosse cópia/influenciado de/por Steven Spielberg. E, se formos ver de perto, não são poucas as semelhanças entre Zemeckis e Spielberg. Ambos trabalham com o visual de forma delicada e sempre muito atenciosa, tramas marcadas pela restauração narrativa e que sempre buscam encontrar o equilíbrio etário, sem falar que os dois são os que mais trabalham com o Tom Hanks, e por aí vai, contando com a especialidade principal presente em suas filmografias: o uso inaudito dos efeitos visuais, marca registrada em determinados filmes deles, com especial ressalva a Robert, que é praticamente um mestre nas mais variadas técnicas que englobam esse meio, do CGI ao 3D. Porém, levem em conta que na época em que afirmei que Zemeckis era um plágio do estilo do Spielberg eu havia visto pouquíssimos títulos de sua carreira. O primeiro foi O Voo, a exemplo dessa minha desinformação. Nunca fui muito chegado a Robert. Com o passar do tempo, essa minha teoria foi se desfazendo. E, muito embora eles sejam parecidíssimos, há determinadas características que os diferenciam.

"...Uma história real", começa A Travessia. Posicionado no topo da Estátua da Liberdade, Phillipe Petit (aqui interpretado por Joseph Gordon-Levitt, na possível melhor atuação de sua carreira, ainda que não seja uma performance tão grande quanto aparenta) narra a sua incrível - no mais literal sentido da definição - história de vida, desde a sua infância, quando ficou fascinado, numa visita ao circo, pela apresentação de um equilibrista, e a partir daquele episódio passou a treinar sozinho seus próprios passos baseados no choque sentimental daquele momento único, e ponto de partida para o começo de um sonho que apenas começava. Aos poucos, esse sonho adquire proporções que despontam em um estado de ambição e singeleza: Petit formula seu equilibrismo como arte, ele mesmo se auto-intitulando artista ao invés de ser apenas um personagem circense. Inspirado nesse conceito, e rejeitado pelo pai, ele se muda para Paris onde começa a realizar apresentações tipicamente circenses, mas revertidas por ele em arte, ilegais pelos bulevares e pontos turísticos da cidade.

Certo dia, após uma apresentação, Phillipe se dirigiu a um consultório dentista, queixando-se de dor de dente. Na recepção do local, enquanto lia a uma revista à espera de atendimento, ele logo foi de súbito tomado de deslumbramento por uma manchete sobre a construção das Torres Gêmeas (World Trade Center) em Nova York, que se tornariam, quando concluídas, as maiores do mundo inteiro. Naquele mesmo instante, com a dor de dente misticamente extraviada, Petit impôs a si mesmo uma arriscadíssima missão - porém ao seu ver a realização artística do século: caminhar entre aquelas dois edifícios num cabo de aço. A meta de Petit lhe custeou dedicação e trabalho incessantes, que só findaram no dia da apresentação pública, em 7 de agosto de 1974, iniciada no exato momento em que sua imaginação foi frisada por essa concepção maluca (e suicida, convenhamos) na minúscula clínica dentista.

Até lá, Petit passou por grandes desafios, não só físicos como psicológicos. Seu sonho sem limites foi questionado, repensado, negado e até mesmo esnobado por quem ficava à par de sua dimensão. Apenas pouquíssimas pessoas foram capazes de se disporem à esse arbítrio, e que apoiaram Phillipe veemente. Entre elas, Annie Alix (sua namorada na época), Jean-Louis, Papa Rudy (proprietário do circo onde Petit passava o tempo treinando e apreendendo sobre equilibrismo), Jean-Pierre e Jeff, fiéis contribuintes do sonho (muitas vezes contestado como inalcançável pelo próprio Petit).

O longa de Robert Zemeckis, talvez até bem mais bem-sucedido do que o documentário vencedor do Oscar O Equilibrista, que dispunha de um diversificado acervo de fotos, gravações e depoimentos, consiste numa elementar abstração que bate com as intenções do documentário em questão, mas, pela presença de um realismo fantástico e absoluto, imperdível, se sobressai. A Travessia é simples e despretensioso na sua avantajada ambição, e por isso fascina. Retrata o que há de mais grande na pequenez e simplicidade do tocável. Seu próprio protagonista leva essa contextualização no nome: Phillipe Petit (em francês pequeno). Eu costumo me maravilhar facilmente com a destreza e excentricidade com os caminhos que as ironias da vida beiram, e nessa situação o peso da ironia serviria até como título do filme, caso nomeado Petit, na minha opinião um título brilhante, e que foi até sugerido pelo co-roteirista Christopher Browne (editor de A Lenda de Beowulf, e que trabalhou com Zemeckis em duas animações de sua autoria, O Expresso Polar e Os Fantasmas de Scrooge).

Gosto da ideia de interpretar A Travessia, a história de Phillipe Petit num só conjunto, como uma metaforização para os sonhos e a transformação dos nossos desejos em realidade, etapa por etapa. É algo que respeita a história do cinema de Robert Zemeckis, com ele tendo começado com trabalhos ambiciosíssimos no cinema, sempre vistos de uma maneira contrária à qual ele costumeiramente protestava, isso desde De Volta para o Futuro passando por Náufrago e até mesmo Uma Cilada Para Roger Rabbit, visto que são filmes revolucionários na questão de serem visualmente potentes, e que desempenhavam um importante laço do cinema com o tecnicismo computadorizado. A arte de sua filmografia é reverenciada como comercial, mas a verdade se opõe em muito a essa fixação. Mas ele não tem culpa. Afinal, superproduções tem essa tendência a serem acusadas, injustamente, de inferioridade e de serem comerciais logo de relance.

Com A Travessia, surge para Robert a chance de suas intenções serem compreendidas num espectro mais amplo aos mais diversos públicos, e que também serve de rechaço às acusações da crítica. O que importa é a esperança. Seja você Zemeckis, Petit, quem for, dos Estados Unidos, do Brasil, da França, da África, do Japão, do buraco que seja, seus sonhos um dia se realizarão. Ainda que esse sonho tenha um preço alto demais para ser pago. Mas, fazer o quê? Antes do mel, é preciso primeiro provar o fel. Regras da vida. Logicamente, se você não se doar e dedicar ao máximo para atingir esse sonho muito provavelmente correrá mais risco de não abraçá-lo. E isso para qualquer situação.

Do cineasta mal-compreendido que almeja ter seu trabalho menosprezado enaltecido como arte até o artista de rua que quer que quer performar num vão de quarenta metros entre as duas construções mais altas do planeta. E, para esse sonho, não há nada para impedir. Essa ideia é bem posta pelo Zemeckis, que se esforça para não impor limites às exigências da realização dessa ambição - por exemplo - na concepção de que um artista de rua pode conseguir dinheiro suficiente para financiar duas viagens de avião para Nova York, uma no intuito de conhecer a torre e na outra, acompanhado de seus cúmplices vanguardistas, de imortalizar seu feito.

Isso sem falar que A Travessia é bastante emocionante não só pela história, inacreditável, que mesmo já sendo conhecida por nós, não deixa de nos impactar (acho que teria ficado ainda mais estonteado com A Travessia se não tivesse visto o documentário), mas também pela sua arquitetação visual, que proporciona ao público um dos visuais mais lindos já feitos nos últimos tempos, provindo do espetacular uso dos efeitos visuais, e da fotografia impecável do Dariusz Wolski. A Travessia é uma poesia cinematográfica mágica. Os nossos sonhos, ambições de anjos e demônios, não tem limites. Mas é essencial sonhar. Senão, a vida não tem graça. Muito menos sentido e utilidade.

A Travessia (The Walk)
dir. Robert Zemeckis - ★★★★

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Crítica: "RICKI AND THE FLASH - DE VOLTA PARA CASA" (2015) - ★★★


Tá aí mais uma prova do talento irrepreensível da Meryl Streep, certamente uma das melhores atrizes da história, em mais uma interpretação adorável e brilhante na comédia dramática Ricki and the Flash - De Volta para Casa, novo trabalho de Jonathan Demme, o mesmo que trouxe à vida O Silêncio dos Inocentes e O Casamento de Rachel, e que também recentemente chegou a trabalhar em algumas séries na TV, como Enlightned (puxa, como eu quero ver essa série! O Todd Haynes também dirigiu um episódio lá, e a Laura Dern, que foi indicada ao Emmy, é a principal). Apesar de estar longe de ser o melhor, o comercializado Ricki and the Flash - De Volta para Casa tem muito em comum com O Casamento de Rachel. Ambos são filmes que retratam catástrofes familiares e colapsos de personalidade e realidade de suas protagonistas, mulheres que estão presas em outro tempo, numa outra idade, com um tipo de pensamento diferente, não porque querem, mas por traumas, conflitos psicológicos e abandono, muito embora Ricki and the Flash seja uma coisa e O Casamento de Rachel outra (mil vezes melhor).

A impressão que fica é que Demme tentou refazer o sucesso de O Casamento de Rachel neste, mas não diretamente de uma maneira que possamos dizer que ele tentou plagiar. O cara apenas quis reciclar as ideias neste aqui, sob parâmetros complexamente distintos. Mas o erro não está nessa falha tentativa inocente. Na sua velocidade alternativa - até bem espontânea - Ricki and the Flash se perde. O roteiro, assinado pela vencedora do Oscar por Juno, em 2008, Diablo Cody (que também tem alguns trabalhos na TV, como o seriado United States of Tara) corre demais, e esse ritmo não dá tempo para que determinados assuntos sejam explicados e clareados com calma, o suficiente. Se o objetivo de Cody com esse tecnicismo barato era o de desviar o clichê, podemos dizer que ela obteve o que quis. Mas há algo mais. É uma fórmula, inteligente, de originalizar a história real da vocalista da banda Silk and Steel, que é a sogra da Cody, mas que não consegue encobrir furos.

Muita gente andou reclamando da performance da Meryl Streep como a Ricki. Mas eu, sinceramente, não vejo nenhum erro nesta que talvez seja uma das melhores performances desse ano. Digam o que quiser. Só não me cobrem atestar cabimento à acusações do gênero "puxa-saco da Meryl". Lembrando que a Meryl não tem puxa-sacos. A mulher é talentosa à beça. Ninguém pode negar seu legado. E ela tá imperdível no papel de Ricki Rendazzo/Linda Brummell, vocal da banda "Ricki and the Flash", que se apresenta fixamente num barzinho na Califórnia. Ricki abandonou a família após a separação com o marido.

Agora, é a vez dela lidar com o divórcio da filha Julie (Mamie Gummer, filha da Meryl na vida real, numa atuação plausível, apesar de exagerada quando vai ganhando mais espaço lá pela segunda metade do filme. Ela é recebida com um violento bate-boca quando desembarca na casa, e lá vai re-fisgando a confiança da primogênita, enquanto ainda tem que acertar as contas com os outros dois filhos, um deles à beira do casamento (Joshua), que tenta fazer o de tudo para evitar comunicar a mãe do evento, e o outro gay, Adam, que não facilmente é aceito por Ricki.

Por uma certa ignorância, Ricki é frequentemente rejeitada, e isso perdura até os momentos finais, quando ela, no casamento do próprio filho, faz um discurso (cena que lembra a desastrosa sequência de O Casamento de Rachel onde Kym é alvejada com olhares e rostos desapontados durante um jantar, onde discursa) sobre como se sente culpada e triste por não ter participado da criação dos filhos, e também demonstra alegria pelo promissor casamento de Joshua. No fim do discurso, sem ter ganho o perdão da plateia, ela agradece à Maureen, quem criou os filhos de Ricki no lugar dela depois que se casou com Pete (interpretado por Kevin Kline, par de Meryl no clássico A Escolha de Sofia - impossível não lembrar). Nisso, a platéia começa a aplaudi-la.

E, mesmo quando ela sobe no palco e começa a cantar Bruce Springsteen, "My Love Will Not Let You Down", muita gente nas mesas continua olhando para ela com repreensão e desgosto. A cena mais impactante do filme. Mistura de agitação e tristeza. Embora não tenha a força de O Casamento de Rachel, quem procura pela Meryl em mais um espetáculo de atuação não sairá enraivecido do cinema. Mas aqueles que menos aceitarem o status de "filme de atriz" de Ricki and the Flash sairão maldizendo até os próximos projetos do Jonathan além da própria Meryl, como eu mesmo testemunhei em certas rígidas e desnecessárias resenhas. Afinal, roteiro que é bom termina bem + ou -. A fotografia de Declan Quinn nem de longe está como a colaboração anterior. Não dá pra captar se a ausência da filmagem documental foi proposital, mas fez mal, por que dá a impressão de que ele quis fazê-lo de outro jeito, até mais digitalizado, profissionalizado, e bem menos documental. Jonathan Demme como diretor não dá pra reclamar, mas também não há novidade alguma, notável. Era Meryl ou nada. Aceitar dói menos, folks.

Ricki and the Flash - De Volta para Casa
(Ricki and the Flash)
dir. Jonathan Demme - ★★★

Crítica: "IGUAL A TUDO NA VIDA" (2003) - ★★★★


Pedir mais de Igual a Tudo na Vida quando o filme já é um arraso é bem feio, e sinal de ingratidão pelo conteúdo excepcional que é. Poxa vida, ainda mais nesse projeto onde o diretor tinha tudo para calar a boca dos especialistas críticos com um, praticamente, revival de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, fato que talvez poderia cessar as exigências sem cabimento à um filme maior ou igual a, que tanto veio sendo protestado pela crítica nessa fase mal falada e nas primárias obras que sucederam o clássico Alleiano no fim da década de 70 e 80, com poucos exemplares tendo satisfeito o controverso paladar para cinema dos críticos. Quanto à mim, não tenho nada a reclamar. Igual a Tudo na Vida é um primor cinematográfico. Num de seus últimos grandes longas românticos, o diretor faz bom uso de autorreferências e constrói uma trama delicada e sem nenhum grave defeito, que prioriza acima de tudo a performance dos jovens astros Christina Ricci e Jason Biggs, casal no filme, o que certamente exemplifica o espaço do elenco jovem na filmografia do diretor, muito bem vista na sua última década de trabalho e nessa também, com a passagem de Emma Stone, Allison Pill, Jesse Eisenberg, e entre muitos outros. O próprio filme mais recente dele, Homem Irracional, compartilha essa temática.

Muito provavelmente pela idade, ou experiência, Woody veio abordando a juventude bem explicitadamente em suas últimas produções. E, nesse meio, Igual a Tudo na Vida pode ser visto tanto como o ponto de partida para esse idealismo quanto um bem-concluído destaque. O longa gira em torno de um iniciante escritor de piadas e humorista, Jerry Falk, cuja atual namorada, a espontânea e culta/"melindrosa" Amanda (por sinal admiradora de jazz, mencionando Cole Porter e Billie Holiday em um certo momento do filme, e também de literatura, dando de presente no aniversário de namoro com Jerry um livro de Sartre), só tira proveito, negativamente, de sua boa vontade e fascinação/ingenuidade fazendo com que ele seja humilhado, rejeitado, chifrado e pisoteado por ela sem descanso, e ele permanece indiferente diante de tais atos. Nem no sexo ele tem paz com as frescuras da mulher, apesar dela mesma não aguentar se afastar dele. É na vinda da mãe de Amanda, Paula Chase, que as coisas deslancham. Na tentativa de integrar o showbiz teatral com apresentações musicais, Paula passa a ocupar o tão adorado escritório do comediante e também atrapalhar a sua concentração com ensaios 24 horas num piano locado bem na meio do apartamento. 

Sem falar no agente anti e inadequado do rapaz, interpretado por Danny DeVito, com quem ele tem certos problemas com a renovação de um contrato que durará 7 anos. O receio de Jerry com a consumação desse contrato é que sua carreira poderá ir por água abaixo, e muito possivelmente não sairá do lugar. Mesmo assim, ele sente que deve agradecer, com esse contrato, aos anos de dedicação do homem à ele. Nesse cenário, surge a cômica figura de David Dobel, também escritor de piadas que, apesar de ser ateu, é fanático pela religião e violentamente contra o antissemitismo, como o filme bem deixa claro em cenas únicas, como a onde o diretor espatifa o automóvel de dois rudes caras que tomaram a sua vaga. Definitivamente engraçado. 

Apesar do amalucado trânsito de emoções e das poucas e boas, o casal se entende e é justamente nesse ponto onde o romantismo atinge seu auge, na beleza de um disparate de visões e num furacão hormonal incessante, que perdura por todo o filme, com a Amanda vira e mexe se autointitulando gorda - o que, acreditem, não é pra menos, quando o personagem é mesmo um saco sem fundo, e o Jason Biggs, na insegurança de sua vida amorosa jovial, incapaz de encerrar relacionamentos, o que talvez bem seja a razão para ele aturar o filme todo calado as patifarias da amada.

Do elenco, a dupla protagonista, os talentosíssimos prodígios Christina Ricci e Jason Biggs, já conseguem comandar o filme com certa maturidade, mas Woody Allen, aqui coadjuvante, consegue falar mais alto com um personagem incomum e nunca visto em sua carreira, que já foi bem definido anteriormente. Quero dizer, é um pouco estranho vê-lo num personagem da altura, ainda que o mesmo esteja adepto aos sensacionalismos neuróticos típicos à Allen. Mas o mesmo é preenchido por uma coragem, uma personalidade psicótica e certeira tão intensa, que acaba assustando. Mas vale pelas piadas excelentes, como sempre. Só de exemplo, a na qual ele fala que aprecia a masturbação mais do que o próprio sexo, visto que ele, uma vez, fantasiou um ménage à trois entre ele, Sophia Loren e Marylin Monroe. Posso parecer normal, mas ri feito um condenado nessa parte. 

O final, confesso, decepciona, mas não por isso deixa de ter sua parcela de qualidade, até porque tem vezes em que o amor é difícil de se controlar, imprevisível (ou não) à sua maneira, e nem sempre dá pra sair ileso de seus conflitos. Igual a Tudo na Vida, apesar de ter sido financiado pela Dream Works, produtora do Spielberg, e também ser si próprio um trabalho mais popular, de clima cool de Sessão da Tarde, não conseguiu chamar a atenção em seu lançamento, que resultou em apenas 13 milhões. Vai entender. Afinal, para um Woody Allen não é um filme tão existencial ou intelectual como é de costume. 

A leveza de Igual a Tudo na Vida concentra-se na sua rica filosofia que projeta o romance jovial em seu melhor, o amor que não depende de estereótipos inflados para fazer sentido e que consegue vencer as pretensões da idade de tão mágico que é. Um amor verdadeiro, quando sua força aniquila segundas intenções. Talvez nem tão correspondido assim, mas que deixa sua marca por autenticidade, por ser, de fato, uma experiência desconcertante. Ele até pode ser visto como um retrato anti-machismo, com a mulher fazendo a cabeça do rapaz, o traindo e até mesmo o minorizando, relevando outros elementos além dele, e sequer atestando a existência do amor na relação, o que vai contra a frequente imortalização feminina. É uma pena que não foi (surpreendentemente) visto, ainda mais pelo público juvenil e povão, o qual este é direcionado, muito menos aceito tanto pela crítica e público no geral. Consiste numa ideia tão simples e divertida, contagiosa. Maravilhoso, ao meu ver.

Igual a Tudo na Vida (Anything Else)
dir. Woody Allen - ★★★★

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Crítica: "TODOS DIZEM EU TE AMO" (1996) - ★★★★★


Puxa, nem dá pra acreditar que dezembro chegou. É isso aí, fellas. 2015 tá chegando ao fim, mas a sensação de que você não fez nada do que queria durante o ano inteiro apenas começa a refletir efeito. Muita gente diz que passou rápido, o que até pode ser verdade, já que tempo é uma coisa bem relativa, mas eu apenas tenho que dizer que eu estou aliviado. 2015 foi um ano duro. Isso porque nem acabou ainda, mas só falta apenas uma semana para dizer olá às férias e adeus ao cansaço e à depressão do cotidiano. Afinal, quem não gosta de férias, minha gente? E pensar que no início desse ano, particularmente deste, estava super animado para voltar à ativa, talvez por conta das minhas férias paradas. Hum. Mas, enfim, deixando de lado as amarguras de 2015, comento Todos Dizem Eu Te Amo, um dos longas mais românticos do Woody Allen ainda que mal criticado na época de seu lançamento e pouco visto. Além do elenco bombástico, a fita traz clipes riquíssimos e cheios de vida, cada um memorável, vindos do repertório do cineasta, é claro, com direito a simbólicas canções de amor e muito jazz de qualidade. A obra é lindíssima, rara oportunidade de vê-lo se exercitar no musical, gênero no qual ele poderia ser bastante promissor, se formos tomar como exemplo esta experiência.

A história é centrada em uma desvairada família nova-iorquina bem-sucedida, ao olhar da jovem Djuna, fruto do relacionamento anterior da matriarca da família com o escritor Joe Berlin. O filme abre com uma cena divertidíssima, onde Edward Norton e Drew Barrymore interpretam "Just You, Just Me", canção-tema do longa, e que serve de fundo à uma sequência desnorteante. Todos Dizem Eu Te Amo tava arquivado há tempos na "Minha Lista" da Netflix. Em clima do aniversário de 80 do cineasta, decidi riscá-lo dela vendo neste meu tempo livre antes que suma de vez da rede. Minha sorte foi que a qualidade estava ótima, e deu pra apreciar de bom grado a fotografia maravilhosa do Carlo Di Palma, fotógrafo que trabalhou em diversos filmes do Woody especialmente na fase 80-90, aqui numa de suas fotografias mais inspiradas, iluminadas e bem anguladas. 

À exceção da Drew Barrymore, que insistiu para que sua voz fosse editada, todos os atores cantam sem qualquer alteração na voz, desafinados e enamorados. Há um certo romantismo da parte do Woody em fazê-lo, e é o que possibilita o filme a esse status de sofisticação tão fino e atraente. Afinal, Todos Dizem Eu Te Amo também é uma homenagem, esplêndida, e esse gênero, idolatrado pelo diretor, que também é um grande fã do jazz. Uma coisa, muito possivelmente, tenha levado à outra. E, quem achava que não era suficiente o Woody também estrelar além de dirigir e escrever o filme, há a surpresa dele cantando, na sequência em Veneza, mesmo que rápida, e que é tocante. Quem dera ele resolvesse se arriscar em mais uma experiência com musical. 

O elenco é esplêndido, e já começa com uma trupe de beldades irreparável, liderada pela linda Julia Roberts e a Goldie Hawn, incrivelmente conservada, como amante e ex-mulher, respectivamente, do personagem do Woody. O cara ainda tem a chance de beijar as duas em distintas sequências. Sortudo. Em seguida, vem a participação das ainda jovens Natalie Portman e a Natasha Lyonne, que ganhou sucesso muito recentemente no seriado Orange is the New Black. 

Todos Dizem Eu Te Amo, assim como o último visto Hannah e Suas Irmãs, é uma celebração ao sabor da vida, seu ritmo frenético, e sobretudo à paixão. De romance em romance, Woody constrói uma saudável trama que continua naquela mesma leveza de suas comédias românticas, mas que maneja um astral até mais simpático e descontraído do que certos exemplos dentro da sua filmografia anos 90. Mas é um filme que também discute a ilusão, a ilusão de viver a vida perfeita ao lado de um alguém perfeito - que teoricamente não existe -, bem como é proposto pelo núcleo do Joe, que, através da filha, obtém informações privadas da vida da lindíssima Vonnie (Julie), tal como sonhos e fantasias erógenas, fazendo proveito dessa fonte preciosa iniciando um fervoroso caso com ela. Através de atos engraçadíssimos e belos, canções que nos fazem refletir sobre o mel e o fel que é o amor, Allen nos fala com muita poesia daquele sentimento que parece surgir do nada para ficar em nós para a eternidade, surreal, estranho, difícil de desapegar e até mesmo de se falar, mas charmoso e cordial como nenhum outro. Amor é amor. Amor é Todos Dizem Eu Te Amo. Música é amor. A vida, enfim, é amor e amar.

Entre meus segmentos prediletos, estão a abertura, já mencionada, "Hooray for Captain Spalding", homenagem de Woody aos Irmãos Marx, grupo do qual ele é assumidamente fã, "All My Life", "My Baby Just Cares For Me", um dos primeiros, e "I'm Through With Love", ambas as versões do Allen e da Hawn, sendo a da Goldie a minha favorita do filme inteiro. A valsa dela e do Woody é simplesmente inesquecível. Só de lembrar dos detalhes daquela cena icônica estremeço. Bem, sendo para os admiradores de um bom jazz, de um bom musical, ou para os fãs do diretor, Todos Dizem Eu Te Amo é uma obra. Muito difícil não gostar dela.

Todos Dizem Eu Te Amo (Everyone Says I Love You)
dir. Woody Allen - ★★★★★

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Crítica: "HANNAH E SUAS IRMÃS" (1986) - ★★★★★


"Nunca existiu e nunca existirá alguém como o Woody" - Faço das sábias palavras de Diane Keaton, ex-parceira do diretor e estrela de um de seus maiores longas, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, as minhas. Hoje completa 80 anos aquele que é, à minha humilde perspectiva, o maior, melhor e mais talentoso diretor que já viveu. Com uma extensa filmografia lotada de pérolas, o diretor, mesmo à beira dos 100 anos, não para de produzir, a cada ano trazendo aos cinemas um novo trabalho. Tradição. Cada um mais primoroso que o outro, diga-se de passagem. Afinal, quem jamais chegou ao seu nível, completando 80 anos e com quase cinquenta filmes adentro sua extensa carreira, todos escritos e dirigidos por ele mesmo, sem abrir exceções? Histórias que discutem e relatam a vida, de vários ângulos e de potentes reviravoltas, a vida que cada um leva. Seja em Nova York, seja em Paris, em Barcelona, em Londres, em São Francisco, aonde for, essas narrações não perdem nem força e nem sentido. São cabíveis a qualquer um de nós. Seja na ilusão de uma garçonete infeliz que se apaixona por um galã de cinema que sai da tela para ajudá-la, no romance de um humorista neurótico com uma cantora nervosa, no inacabável amor pela cidade que sedia o mundo e o espírito romântico, e que ele tanto faz questão de idolatrar, a cada filme como se fosse pela última vez... Na dondoca perdida que tenta se reencontrar na mudança para a casa da meia-irmã, mas que só traz à si, e para ela, mais problemas... E por aí vai. Fantástico. Apaixonante. Erudito. Novo. Elétrico. Instintivo. Genial. Acima de tudo, genial. A vida fazendo ou não algum sentido, Woody sempre está ao nosso dispor, com filmes que facilmente ganham nossos aplausos, e que nos fazem apenas querer mais e mais embarcar nesse badalar de emoções que é essa mística vida. Eu só peço que, se puder, que venham mais 80 anos com ele!

Como forma de celebrar seu octogésimo aniversário, revejo Hannah E Suas Irmãs, obrigação minha há tempos, já que o tinha visto, incompletamente, em 2013. Mas o jazz que introduz, e que desde que escolhi o longa para a homenagem veio tintilando dentro da minha mente, é inesquecível. Creio que é a melhor música que já abriu um título do Woody. O filme é deliciosíssimo. É claro, fica o mérito da especialidade do diretor em não deixar nenhum elemento escapar, ainda que seja um detalhe quase imperceptível, o que contribui muito para um dos melhores finais já realizados por ele, num filme que já envolve uma certa complexidade quanto às muitas tramas que compõem seu carrossel romântico. O desfecho é cuidadoso, como sempre, e essa perícia roteirística, aqui trabalhada fascinantemente, dominada inigualavelmente por ele, foi o que levou à sua terceira estatueta, ganha no Oscar 1987, em Melhor Roteiro Original, o segundo de três na categoria, sendo a mais recente vitória Meia Noite em Paris. Merecidos. 

A história se desenrola em cima das três personagens que intitulam a película: Hannah, a mais acertada de todas elas, com uma carreira formada, família, realmente uma mulher de sorte, que teve tudo o que sempre quis e na medida certa, até que seu casamento vai amargando lentamente com o passar do filme, com o distanciamento do maridão, feito por Michael Caine (numa atuação espetacular, por sinal), que se apaixona por Lee, belamente interpretada por Barbara Hershey, no auge da beleza, que também atravessa um casamento marcado pela distância, falta de comunicação e química, sendo seu par Max von Sydow, frequente colaborador de Bergman e aqui participação indispensável, ainda que rápida. E ainda temos a Holly, que só ganha espaço lá pela segunda metade do filme, a irmã perdida e desorientada que já se envolveu com drogas e que parece estar emergida numa constante onda de azar, o que a afasta de aventuras amorosas, e gerencia a ela um carregado protótipo de depressiva.

Disputa pau a pau com Meia Noite em Paris no quesito melhor elenco. Reunião imprescindível de atores excelentes, alguns deles conceituadíssimos (Michael Caine, o próprio Woody, e Max von Sydow, por exemplo), e outros ainda em desenvolvimento, mas que deslancharam principalmente por conta deste filme, como é o caso da adorável Dianne Wiest, que havia feito uma ponta no anterior A Rosa Púrpura do Cairo, e que ganhou de mão beijada, muito obviamente, o prêmio de Atriz Coadjuvante no Oscar por este aqui, um ano depois. O prêmio de Ator Coadj., por sua vez, foi concedido a Michael Caine, com razão. 

O diretor mantém, com punhos de ferro, o equilíbrio entre a leveza e o drama da história que vai costurando, sempre a movimentando com conflitos bem fermentados e imaginativos, prato cheio para o espectador que adora o entrar e sair de reviravoltas, incessantes até os últimos minutos, literalmente, de Hannah E Suas Irmãs. É aquele momento em que há o desespero contagiante do Mickey, o pastelão hipocondríaco feito por Woody Allen, em uma atuação memorável, quando ele passa a desconfiar que uma surdez etária seja indicador de um tumor no cérebro, realizando uma bateria de exames para provar o contrário, o que possibilita alguns sustos, ainda que abordados com certo humor. A frenesi da morte, e com sua chegada uma eternidade de completo e inacabável vazio, formidavelmente temperada com uma das cenas próximas do fim, quando Mickey se encontra num cinema, e lá reencontra a razão para o viver. Do mais, Hannah E Suas Irmãs é uma homenagem à vida. Afinal, é na ironia de sua duração (um turbilhão de eventos ocorrem num período extasiante de um ano na vida dos personagens, mas que parecem, de longe, serem passados em uma duração maior) que se encontra a revitalização e celebração da vida pelo diretor. Experiência mais que encantadora. O bom é, no fim das contas, viver a vida sem se preocupar com tais aspectos. Perder tempo pra quê? Como vive proclamando um amigo meu, a vida é preciosa demais para ser gasta em vão. Num resumo geral, Hannah E Suas Irmãs é o filme mais "feel good" já feito pelo cineasta. 

TOP 10

1. A Rosa Púrpura do Cairo (1985)
2. Match Point (2005)
3. Manhattan (1979)
4. Dorminhoco (1973)
5. Hannah E Suas Irmãs (1986)
6. Meia Noite em Paris (2011)
7. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)
8. Zelig (1983)
9. Broadway Danny Rose (1984)
10. Desconstruindo Harry (1997)

Hannah E Suas Irmãs (Hannah And Her Sisters)
dir. Woody Allen - ★★★★★