"O caos é uma ordem por decifrar". Que obra genial! "Simplesmente" genial! O Homem Duplicado é, talvez, um dos filmes mais enigmáticos que eu já tive a oportunidade de ver. É uma obra brilhante. Brilhante. Você fica abismado com a mensagem transmitida pela encucada trama que nos é primeiramente apresentada. E, que esteja avisado: pra você, espectador que não tem senso para filmes não-lineares, nem assista O Homem Duplicado. Sincera e seriamente. O filme não é para qualquer tipo de espectador.
O diretor é Denis Villeneuve, que no mesmo ano de lançamento deste longa estreou outra grande obra, Suspeitos. Villeneuve também dirigiu o indicado ao Oscar Incêndios, e este ano traz consigo um filme que só vem colecionando elogios: Sicario, exibido em Cannes mês passado. Extremamente delicado com a condução das cenas e o roteiro, Denis é exímio. O filme narra a história de um professor de história que, certo dia, após ser aconselhado por um colega de trabalho a ver um determinado filme, descobre que nele há um ator estranhamente igual à ele. Obcecado com tal descoberta, o homem decide ir à procura de seu sósia, embarcando numa aventura que deixará sua vida e a de todos ao seu redor de cabeça para baixo.
Caro espectador, não se sinta inferior caso não compreender ou se confundir com O Homem Duplicado. É um filme raro, mesmo. A confusão é proposital, meio que faz parte da completa compreensão dos detalhes em sua forma mais pura. Se for essa a sua preocupação, ou até mesmo para quem ainda não viu o filme, recomendo um vídeo especial (clicando aqui), que poderá te ajudar a entender melhor. E no final, só pra dá um spoiler, é tudo sobre a infidelidade, assunto que aqui é retratado com maturidade e um nível de excelência maravilhosa. Não sei por que, mas O Homem Duplicado me lembra, em aspectos, do clássico de David Lynch Cidade dos Sonhos (profano sinal da conexão do filme com a irrealidade abstrata).
O bom daqui é a reflexão. Se você não parar e refletir sobre o que foi mostrado no filme, de nada a sessão terá adiantado. O que vale é pensar profundamente sobre os quesitos levantados pelo filme. Não só essa questão da infidelidade, mas também o propósito do filme de mostrar essa compulsão do ser humano em criar novas identidades para a sua pessoa a fim de fugir de problemas, inventá-los ou qualquer outro motivo propício. É comum. É quase natural. É uma espécie de impulso inevitável. É preciso lidar com essa característica. É preciso controlá-la. É quase como dita o discurso da aula do professor sobre as ditaduras, referenciada por muitas vezes adiante no longa. Inicialmente, a impressão é de o que filme marque um embate entre os dois alter-egos, mas é totalmente inverso (ou quase não). A intenção do longa em si é justamente exibir as duas personalidades que, na verdade, são apenas uma (o professor), do ponto de vista dos personagens. As aranhas são representações femininas que, de um lado, simbolizam a traição e a infidelidade do protagonista. É como se o protagonista fosse um alcoólatra compulsivo, que sempre promete à próximos sua recuperação e seu afastamento do vício, mas que sempre retorna à ele depois de tais falsas declarações.
É preciso saber codificar cada elemento. É preciso prestar atenção aos detalhes que nos são apresentados, tal como propõe Cidade dos Sonhos, apesar deste longa em si ser bem menos forte se comparado à outra obra citada. No entanto, é impossível negar que ambas possuem uma grande inteligência ao retratarem de forma incrivelmente sensata e abaladora temas e gêneros tão enfocados. E enquanto o filme se torna uma magnífica obra pra mim, o elenco recebe "umas palmadas". Jake Gyllenhaal poderia se esforçar. Não sei. Faltou a essência de encarnar seu personagem. E não culpo o espírito non-sense do longa. Aliás, não culpo ninguém. Só desejo expressar que fiquei um pouco desapontado com a interpretação de Jake aqui. Mélanie Laurent, a bela Shosanna de Bastardos Inglórios, é incrivelmente imperdível, apesar de também carregar consigo uma atuação de pontos fracos. Sarah Gadon, colaboradora de David Cronenberg nos filmes Um Método Perigoso e no recente Mapas para as Estrelas, também é bem calma e soa indisposta em sua performance. Talvez seja por que o clima do filme é naturalmente melancólico e solitário, algo que talvez, ou provavelmente sem dúvida tenha influenciado as performances (a fotografia com tons bem definidos e rigidamente fortes de amarelo, branco e cinza também ajudam, causando uma peculiar sensação de distopia).
Quanto à adaptação, formidável. Acho que essa foi a intenção do filme: tornar a adaptação o máximo possível semelhante ao romance homônimo de José Saramago, incessantemente incompreensível (a quem conhece o estilo particular dele de escrever). E, digo que nisto o filme conseguiu um bravo êxito. Melhor do que, por exemplo, em Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, com Julianne Moore e Mark Ruffalo, visto mês passado. O filme também não é igual a O Duplo, visto faz uma semana, que adapta o romance homônimo de Dostoiévski, que não tem nada de parecido com este filme quanto à trama, apenas ao fato de que seus protagonistas são dois sósias (Jesse Eisenberg).
O Homem Duplicado (Enemy)
dir. Denis Villeneuve - ★★★★

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