domingo, 26 de abril de 2015

Crítica: "M, O VAMPIRO DE DUSSELDORF" (1931) - ★★★★★


Realizado com tanta excelência e mérito, M, o Vampiro de Dusseldorf, clássico imortal de Fritz Lang, autor de grandes obras cinematográficas como Metrópolis e O Testamento do Dr. Mabuse além de ter sido um dos maiores representantes do expressionismo alemão, consegue ser até hoje aplaudido e compreendido pelo público, ainda que a obra tenha sido feita há oitenta anos atrás - e muitas diferenças tem existido desde lá então, levando em conta os aspectos que a história analisa. Mas é inevitável dizer que não se há uma certa conexão da narrativa de M, o Vampiro de Dusseldorf com a realidade criminal de hoje, com tantos casos da "justiça com as próprias mãos" e as tão infiéis impersonalidades da lei; torna-se até bem mais compreensível acreditar no velho estereótipo universal de que, mesmo o mundo dando voltas, tudo termina-se num ciclo - os tempos, passando, continuam os mesmos (o que, se visto de um ponto mais aberto da coisa, é um fato).

M, o Vampiro de Dusseldorf retrata o caos, a impertinência e o desconforto dos cidadãos de uma cidade alemã com o surgimento de um perigoso e misterioso serial killer, cujas vítimas são meninas de geralmente pouca idade. E diante de tal caso, todos passam a desconfiar de todos, gerando tal confusão que acaba desconcertando a polícia, que sem resultados, opta por realizar buscas mais tradicionais, com guardas vigiando as ruas e os locais minuciosamente e incansavelmente, prendendo àqueles que mais se caracterizem com o assassino, por sua vez à solta. A irreverência deste filme concentra-se tão enfocadamente nas investigações padronizadas da polícia, à tecnologia da época (algo que simplesmente me deixou fascinado, e que merece um maior destaque nesta película que, com frequência tão grande, analisa o anseio dos membros da investigação e da população da cidade em meio às virtudes geradas pelos crimes). 

Outra coisa importante a denotar é que o filme dá uma impressão surreal de estar à frente do seu tempo - justamente por conta dessa sensação que o filme gera de estar tão aproximado da nossa realidade, quando no máximo ele tenta retratar a decorrência de um crime e a frenética procura por seu dono, realizada por pessoas, qualificadas e inqualificadas, que tentam descobrir e organizar o que se passa. É um verdadeiro e ambicioso retrato de época, como nenhum outro. Lang, tão convenientemente apaixonado e orgulhoso por ter realizado o filme, disse em 1967: "Têm-se escrito muitas coisas sobre M, o Vampiro de Dusseldorf. Se um filme sobrevive por muito tempo, está correto chamá-lo de obra de arte", estando da forma mais concreta possível certo a partir do ditado, que tão resumidamente caracteriza tanto a competência da película quanto o gosto em que Fritz Lang teve de fazê-la, o que demonstra afetivamente a passionalidade da representação, o que é logicamente algo a se comemorar.

Quanto aos feitos técnicos de M, o Vampiro de Dusseldorf, não estamos mais nem menos exatos ao dizer que, desta vez sim o filme estava à frente do seu tempo. O que justifica? Tão belamente as imagens do filme foram coordenadas que torna-se uma falta de consideração esquecer-se de reconhecê-las aqui (algo que tão impressivamente me deixou emocionado em Metrópolis, outra memorável obra de Lang). A câmera, neste filme, sofreu diversas inovações. Novos ângulos foram experimentados, e com sucesso, atingiram uma autônoma consagração. Posições, efeitos, iluminação, colocação, ajustamento, além das primeiras técnicas emergentes de um ainda primário zoom; Tudo, com uma magnânima perfeição, foi executado da mais evoluída forma.

Um elenco gracioso, fortemente armado com seus truques valiosos e inteligentes, comandados tão influentemente por Fritz. Ao citar o elenco, devo dizer que seu melhor membro, aquele que rigidamente condicionou uma sensação de percepção e audácia ao seu personagem como nenhum outro aqui dentro fez, foi o talentoso Peter Lorre como o enigmático e louco assassino Hans Beckert, que alguns anos depois, lançou-se em Hollywood com êxito em filmes como Relíquia Macabra, a versão de 1956 de A Volta ao Mundo em 80 Dias, e é lembrável, em Casablanca, no papel de Ugarte. Sem sombra de dúvidas, sua melhor interpretação foi aqui nesta película: a maior, a mais impactante.

Não costumo, e devo dizer que é bem difícil, submeter-me a filmes de cunho moral que costumam identificar e/ou julgar seus personagens, mas isso é tão essencial e preciso na composição de M que a beleza da obra centraliza-se em sua capacidade de montar todo um jogo de intrigas que aplica-se perfeitamente dentro do caso, cujo você não consegue ficar de fora. A ética torna-se a energia do filme, a substância que move e comove, tanto por essa personalidade de caracterizar a fúria e o suspense da trama, tanto por amplificar e dar uma noção mais confortável, justa do conflito gerado pelo crime. Concluindo: M, o Vampiro de Dusseldorf consegue ser singularmente tão pavoroso e complexo, que a experiência de vê-lo não consegue ser igualável a de nenhuma outra, dentro de seu gênero em particular. Vale afirmar sobre ele, que não só é uma obra de arte mas uma peça de importante valor dentro da sétima arte, digamos um tanto obrigatória à cinefilia. E acredito eu que nada seria essa obra sem a primordial condução de Fritz Lang - um gênio do cinema, dono de um trabalho que, como ele mesmo disse, sobreviveu até os dias de hoje, e que com certeza tenderá a sobreviver no futuro. Uma obra sem limites, no melhor sentido da afirmação.

M, o Vampiro de Dusseldorf (M)
dir. Fritz Lang - ★★★★★

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