Era 2013. Lembro-me quando adquiri gosto por Ingmar Bergman. No início de minha cinefilia, haviam duas obras do sueco que mais me interessavam: Morangos Silvestres e Sonata de Outono. Bons filmes. É claro, àquele ponto eu ainda desconhecia parcialmente a extensão da filmografia dele. Só foi ano passado, acredito que em agosto, que fui ver pela primeira vez Gritos e Sussurros. Fiquei abismado, desolado e muito, mas muito emocionado. Em tão poucos noventa minutos, Ingmar Bergman fez o que, talvez, nem mil horas do filme de horror mais atordoante faria. E olha que Gritos e Sussurros está longe de ser um filme de horror propriamente dito. É um drama, pesado e intenso. Mas é ótimo. Incrível. Uma das obras mais interessantes e belas deste cineasta talentosíssimo e genial.
Sou um grande fã de Bergman, apesar de não ter visto todos os seus filmes. Vi mesmo Morangos Silvestres, Sonata de Outono, este aqui (hoje pela segunda vez), Através de um Espelho, Fanny & Alexander e Crise. Bem, dentre os já vistos filmes do cineasta, Gritos e Sussurros talvez seja o mais forte, o mais catastrófico. Gritos e Sussurros começa bem suave, mas, à medida que a doença de Agnes vai se agravando, o cerco vai se fechando, e a única saída dos personagens é enfrentar o turbilhão de culpa, ressentimento e terror que os aprisiona.
Agnes está doente. Sofre de uma doença maligna. Suas irmãs, Karin e Maria, cuidam dela, na casa de campo da família, onde Agnes está hospedada. Karin e Maria, à uma parcial exceção de Maria, cuidam de Agnes com superficialidade. Quem mais se compromete em tratar da doença e aliviar a constante dor é a empregada da casa, Anna, cuja pequena filha morreu há um tempo. No que no início possa soar de maneira totalmente leve, como eu mesmo retratei, e menos fatal, vai se intensificando. O filme explode naquele momento que já não é mais possível esconder a crueldade da identidade da agonia, do medo, da impaciência e da infelicidade. Todos ali estão condenados ao mais atenuante estresse. Nesse ponto, Bergman monta a essência de sua obra. É aí que vemos o que está errado, e por que tudo veio à tona justo ali.
A mais brilhante coisa de Gritos e Sussurros é a forma com a qual Bergman rege, com eficiência e dádiva, os elementos do filme. Algo que já é característico do diretor, mas que aqui, com unicidade, é feito com um absoluto esmero e bravura. O modo com o qual todos estão interligados diretamente com a obsessão e à frenesi. Não há como escapar. Bergman costura com seu espírito de sensibilidade e filosofia uma experiência perturbadora e profunda, bela e horrível, ao mesmo tempo. Impetuosa e suja, tentadora e meticulosa. Nada é tranquilo. Nada é acalentador. Nada, em nenhum momento sequer, é propriamente alegre em Gritos e Sussurros.
Tudo é recheado com um misto de fúria, tensão e excentricidade. A narração impede o espectador de ter uma agradável sensação, à clara exceção de presenciar e observar a belíssima e excepcional fotografia de Sven Nykvist. Tudo é tão melancólico, triste, doloroso. Gritos e Sussurros exibe o sofrimento. Afinal: qual filme de Bergman não mostra tal artifício? Mas em Gritos e Sussurros o sofrimento vem acompanhado do horror psicológico, do drama agônico, da inquietude moral. É isso o que faz deste longa algo notório, sem igual, repercussivo e obrigatoriamente plausível.
Ninguém, em Gritos e Sussurros, está livre. Tal retrato bem que se assemelha à vida. Ninguém está livre da culpa, do temor, do passado, do peso da alma. Tudo, em um certo momento, ressurge, e vem com força, destruindo tudo o que vê pela frente: esperança, reconhecimento, paz, fortuna, calma. Vejam isso ou não como uma visão pessimista da realidade sentimental, mas é o que Ingmar Bergman centralmente protesta em Gritos e Sussurros. É uma visão muito verídica, embora seja obscura. Afinal, o que seria não só desta película, mas de Bergman, sem a sua obscura filosofia? O que seria do cinema, então?
Gritos e Sussurros funciona, no superficial, como um teatro, mas vai adquirindo proporções cinematográficas maiores do que suas proporções teatrais. Os flashbacks e as passagens em vermelho apresentadas durante o filme não só tendem a reforçar tal indicação como também dividem a história em capítulos, o que é muito interessante. Os figurinos ou branco ou preto desenhados por Marik Vos contrastam paralelamente com os cenários e a fotografia, que abusam densamente do vermelho, basicamente durante todo o filme. E tal cor só serve de apoio para dar ao filme certa entonação dramática e fascinante. Colaborador de longa data de Ingmar, o diretor de fotografia Sven Nykvist transforma o visual de Gritos e Sussurros em algo bem austero, de caráter proporcionalmente filosófico, sempre com contrastes bem controlados, e um vermelho que só tende a extravasar o pânico da situação e maximizar a tensão. O elenco, centrando nas quatro mulheres, três delas frequentes colaboradoras e famosas de Bergman (Liv - que faz Maria adulta e a mãe das três - Ingrid Thulin - como Karin, que leva o mesmo nome da protagonista igualmente perturbada de Através de um Espelho - e Harriet Andersson - que interpreta Agnes, de maneira desconfortável e excelente) é dotado de uma impecável caracterização.
Já disse e volto a repetir: Gritos e Sussurros, um dos melhores e mais importantes trabalhos de Bergman, não só é um longa impressionante e ora incômodo como também trata-se de uma análise desconcertante e primorosa do comportamento humano à beira do desastre e do abismo. Um filme comovente, eletrizante... Emociona, estabiliza, horroriza e toca. Que belo presente é Gritos e Sussurros, e que magnífico presenteador é Bergman!
Gritos e Sussurros (Viskningar och rop)
dir. Ingmar Bergman - ★★★★★

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