Paixão é mais um dos filmes que entram no arquivos dos adiados no Brasil, não-lançados, ou muitas vezes lançados diretamente em V.O.D. (esse caso não se aplica aqui), muitas vezes filmes sujeitos à procura por outras vias. O recente Pasolini, À Prova de Morte e Mais um Ano são alguns dos casos do gênero que mais sofreram destaque nos últimos tempos em via do descartamento de seu lançamento no circuito nacional (citando Leigh, Mr. Turner - visto ano passado fora do circuito - é outro que também caminha para a mesma situação). E eis que nesse sábado, deparo-me com a proposta estupenda de ver este filme, da autoria de Brian de Palma, filme que fora tão escancaradamente vaiado em sua exibição no Festival de Veneza 2012, e que recebeu uma recepção um tanto desfavorável por parte da crítica especializada - algo que me chamou a atenção justamente por tratar-se de uma película do mestre Brian.
E na mais sincera verdade, a crítica "especializada" que me perdoe, Paixão é um grande filme. Uma obra sem precedentes do diretor Brian De Palma, ainda sim que tenha que afirmar que algumas características usuais a filmes do cineasta encontrem-se, de forma reservada mas bem contada, neste filme, uma mistura excêntrica e maravilhosa de suspense e terror psicológico. E o melhor é que quando você pensa que não podia ficar pior, o filme dá a volta e consegue reformular todo seu padrão, em uma singela e bizarra trama. O filme narra a história de uma mulher chamada Isabelle, que trabalha em uma produtiva corporação multinacional eletrônica e sua conflituosa relação com sua superior direta, Christine, uma mulher ambiciosa e poderosa, que não mede esforços a fim de conseguir o que quer. Na disputa pelo poder, Isabelle, inicialmente despretensiosa e calma, trava com Christine uma batalha sedutora e manipuladora. Até que no final, Isabelle vê-se irreversivelmente contagiada pela inebriante e calculista personalidade da amante.
A história, por vezes, pode transparecer suficientemente confusa a ponto do espectador não mais conseguir compreender seu sentido, mas é muito importante, essencial, nesse filme atender aos mínimos detalhes, pois, nos olhos de alguém sem percepção (foi mal, críticos especializados) Paixão pode ser um desastre - algo que, ao meu ver, não é e fica bem longe de ser. Mas, sempre há um porém. O filme deixa, de leve, alguns elementos escaparem, irresolvidos, inexplicados, e aparentemente incoerentes - são poucos, mas é necessário avaliar isso (apesar de que esse elemento - falo de um só - que é construído numa única cena conecta-se parcialmente a um outro elemento do meio da trama - cuidado, esses elementos confundem, mas tornam a história concretamente inteligente). E sobre a eroticidade: se é, é pouca, pois as cenas sensuais do filme não agradaram tanto às minhas expectativas, pra ser exato. Não lançada no Brasil, a película é formalmente perfeccionista e acerta em quase todos os pontos, sem exceder demais nem ser tão previsível (a previsibilidade é outra coisa que sutilmente pode embaralhar o senso de entendimento do espectador). Mas o final - que final! - é uma coisa de louco. Raro final. O último filme realizado por De Palma consegue ir bem além do esperado, sendo tão efetivamente memorável. Atuações consistentes, tendo no elenco a belíssima Rachel McAdams (numa atuação com falhas e alguns exageros, mas ainda sendo sensível e atenuante) e a sueca estrela da versão original de Millenium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres Noomi Rapace, numa performance merecedora de aplausos, quão semblante e igualmente sensível por dignidade. Destaque no elenco também para a alemã Karoline Herfurth, atriz de O Leitor, aqui na pele de Dani. Fotografia excelente, autoria do espanhol colaborador de Almodóvar José Luis Alcaine, aqui trabalhando em um conteúdo menos colorido, ainda sim que abuse comunalmente do vermelho. Uma trilha sonora plausível, trabalho marcante de Pino Donaggio, frequente parceiro de Brian. E além de tudo isso que Paixão é, um retrato incondicional e ferozmente psicopático, gentilmente experimental, da relação impactante de duas mulheres no ramo do negócio e o sangrento e deslumbrante fruto dessa parceria; o filme ainda trata-se de uma estrondosa e marcante homenagem ao diretor francês Alain Corneau, autor do verdadeiro Paixão, o filme de 2010 com Kristin Scott Thomas Crime d'Amour - seu último (no mesmo ano do lançamento, Corneau faleceu em Paris aos 67 anos).
Paixão (Passion)
dir. Brian De Palma - ★★★★★
E na mais sincera verdade, a crítica "especializada" que me perdoe, Paixão é um grande filme. Uma obra sem precedentes do diretor Brian De Palma, ainda sim que tenha que afirmar que algumas características usuais a filmes do cineasta encontrem-se, de forma reservada mas bem contada, neste filme, uma mistura excêntrica e maravilhosa de suspense e terror psicológico. E o melhor é que quando você pensa que não podia ficar pior, o filme dá a volta e consegue reformular todo seu padrão, em uma singela e bizarra trama. O filme narra a história de uma mulher chamada Isabelle, que trabalha em uma produtiva corporação multinacional eletrônica e sua conflituosa relação com sua superior direta, Christine, uma mulher ambiciosa e poderosa, que não mede esforços a fim de conseguir o que quer. Na disputa pelo poder, Isabelle, inicialmente despretensiosa e calma, trava com Christine uma batalha sedutora e manipuladora. Até que no final, Isabelle vê-se irreversivelmente contagiada pela inebriante e calculista personalidade da amante.
A história, por vezes, pode transparecer suficientemente confusa a ponto do espectador não mais conseguir compreender seu sentido, mas é muito importante, essencial, nesse filme atender aos mínimos detalhes, pois, nos olhos de alguém sem percepção (foi mal, críticos especializados) Paixão pode ser um desastre - algo que, ao meu ver, não é e fica bem longe de ser. Mas, sempre há um porém. O filme deixa, de leve, alguns elementos escaparem, irresolvidos, inexplicados, e aparentemente incoerentes - são poucos, mas é necessário avaliar isso (apesar de que esse elemento - falo de um só - que é construído numa única cena conecta-se parcialmente a um outro elemento do meio da trama - cuidado, esses elementos confundem, mas tornam a história concretamente inteligente). E sobre a eroticidade: se é, é pouca, pois as cenas sensuais do filme não agradaram tanto às minhas expectativas, pra ser exato. Não lançada no Brasil, a película é formalmente perfeccionista e acerta em quase todos os pontos, sem exceder demais nem ser tão previsível (a previsibilidade é outra coisa que sutilmente pode embaralhar o senso de entendimento do espectador). Mas o final - que final! - é uma coisa de louco. Raro final. O último filme realizado por De Palma consegue ir bem além do esperado, sendo tão efetivamente memorável. Atuações consistentes, tendo no elenco a belíssima Rachel McAdams (numa atuação com falhas e alguns exageros, mas ainda sendo sensível e atenuante) e a sueca estrela da versão original de Millenium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres Noomi Rapace, numa performance merecedora de aplausos, quão semblante e igualmente sensível por dignidade. Destaque no elenco também para a alemã Karoline Herfurth, atriz de O Leitor, aqui na pele de Dani. Fotografia excelente, autoria do espanhol colaborador de Almodóvar José Luis Alcaine, aqui trabalhando em um conteúdo menos colorido, ainda sim que abuse comunalmente do vermelho. Uma trilha sonora plausível, trabalho marcante de Pino Donaggio, frequente parceiro de Brian. E além de tudo isso que Paixão é, um retrato incondicional e ferozmente psicopático, gentilmente experimental, da relação impactante de duas mulheres no ramo do negócio e o sangrento e deslumbrante fruto dessa parceria; o filme ainda trata-se de uma estrondosa e marcante homenagem ao diretor francês Alain Corneau, autor do verdadeiro Paixão, o filme de 2010 com Kristin Scott Thomas Crime d'Amour - seu último (no mesmo ano do lançamento, Corneau faleceu em Paris aos 67 anos).
Paixão (Passion)
dir. Brian De Palma - ★★★★★

Olá!
ResponderExcluirTerminei de ver esse filme agora e estou desesperada! não consigo entender o que efetivamente aconteceu e o que foi um sonho. Gostei muito do filme, mas o fim realmente ficou em aberto para mim.
Se você tiver um tempo, poderia explicar para mim sua interpretação?
Obrigada
Oi, Alessandra. Primeiramente, obrigado pelos elogios e pela visita ao blog!
Excluir"Paixão" é um filme com uma certa dose de complexidade mesmo e não é de se estranhar que ele cause desconcertamento ou até um pouco de confusão no espectador. Da primeira vez que vi, obtive uma interpretação bastante satisfatória e resolutiva, muito por conta do final do filme, que é auto-explicativo. Levando em conta que o filme em si é "um caos por se decifrar", vale lembrar que essa minha interpretação é apenas uma teoria:
Durante os sonhos, a Isabelle é uma assassina. Na verdade, é tudo uma ação do subconsciente dela. Quando ela acorda (por exemplo, na cena em que ela acorda assustada na prisão, pensando ser um pesadelo, ou a cena final) ela realmente não sabe que cometeu. Ela não acredita que foi ela, porque, na verdade, tudo é uma ação do subconsciente, e por isso ela interpreta os assassinatos como meras ilusões.
Se você ainda tiver dúvidas, recomendo que reveja o filme. Às vezes, rever é a melhor coisa a se fazer. Quanto às cenas em que ela está sonhando e as cenas que se passam na realidade, aí eu recomendo que você reveja o filme. Algumas coisas podem passar em branco da primeira vez, acontece.
Caso tenha mais dúvidas, é só perguntar. Espero ter ajudado.