sexta-feira, 15 de maio de 2015

Crítica: "DIÁRIO DE UMA CAMAREIRA" (1964) - ★★★★


Devido à algumas tarefas, estou temporariamente impossibilitado de ver as grandes estreias cinematográficas da temporada, que incluem Casa Grande, Mad Max: A Estrada da Fúria e Últimas Conversas. Em virtude disto, peço um pouco de paciência aos meus leitores. E para não deixar o conteúdo do blog vazio, assisto à antigos filmes que se encontram ao meu alcance. Esta tarde, escolhi ver um clássico de Buñuel: Diário de uma Camareira, de 1964, estrelado por Jeanne Moreau. 

E confesso que eu adorei Diário de uma Camareira. É uma obra com aspectos tão delicados e únicos, vivos e inteligentes. Ao mesmo tempo em que é um belíssimo drama também é uma furiosa crítica social cheia de vivacidade e fúria. Como é um filme de Buñuel, fica até meio desfuncional discutir sobre a surrealidade, os contextos subversivos e as bizarrices presentes no longa. É algo que já é do diretor. Logicamente, vale ressaltar que essa surrealidade é algo necessário ao estilo de Buñuel, mas digo que é perca de tempo idolatrar tal característica quando a mesma já é uma declarada marca-registrada da obra do artista.

A história do filme narra a jornada de uma camareira de Paris chamada Célestine que vai trabalhar na mansão dos Monteil: um circo desenfreado de atrações medonhas e bruscamente peculiares. A Madame Monteil governa o lar com punho de ferro e constantemente mantém-se rígida em relação aos empregados. Rude e descontente, ela é frequentemente traída pelo marido, Monsieur Monteil, um homem firme e extravagante, estranhamente mandão. Apaixonado por Célestine, M. Monteil faz de tudo para agradá-la e por vezes tende a ser bravo com ela. O patriarca da família, M. Rabour, é um homem de hábitos inusuais e bizarros. Apesar de estar deteriorado por função de sua idade, M. Rabour é um senhor educado e gentil. Célestine ainda cria laços com um empregado misterioso que demonstra paixão por ela chamado Joseph e a empregada Marianne, uma criada calada e sempre ao dispôr do rigoroso chefe, além de criar uma certa amizade com o "vizinho inimigo": o capitão Mauger.

Enquanto eu achei na extravagância e na irregularidade da família Monteil na relação com a criada Célestine um inusitado humor, também vi na conflituosa trama uma graça incomum à filmes de Buñuel: senti uma especial atração pelo clima gerenciado pelos encontros e desencontros surgentes entre os personagens. É claro, eu sou muito atraído pela filmografia de Luis Buñuel, mas esse filme em particular trouxe a mim algo que não está presente em seus outros filmes. Não sei se é uma sensação de correspondência ou até mesmo identificação à história. Apenas sei que isso me deixou bastante comovido. Falando nisso, destaco a fotografia e a edição do filme, de Roger Fellous e Louisette Hautecoeur, respectivamente. Grandes pontos técnicos da obra. 


Diário de uma Camareira tem um momento-chave que me deixou estonteado: na última cena do filme, onde um personagem grita "Vive Chiappe", Buñuel quis se referenciar ao policial que interrompeu a exibição de A Era do Ouro em Paris, em 1930, que levou à destruição de uma das cópias da película pelos fascistas. Essa informação realmente me deixou maravilhado. De verdade. No sentido de impactar, tanto pela visionária sacada de Buñuel tanto quanto pela revolucionária ação que uma cena fez. É esse tipo de revolução, polêmica, subversão - como eu disse - que não voltará mais. Buñuel foi o mestre e nenhum como ele voltará a existir. Só existiu Luis Buñuel, e sua maestria brilhante de fazer filmes extraordinariamente belíssimos como este. Espero que, no futuro, possa amplificar essa minha percepção da carreira e do trabalho do cineasta em novos post sobre obras suas. Ah, quase esqueço. Uma espécie de refilmagem e adaptação de Diário de uma Camareira, dirigida por Benoît Jacquot (lançada no Festival de Berlim desse ano), com Léa Seydoux e Vincent Lindon estreará em circuito nacional no dia 26 de agosto deste ano. Valerá uma conferida, não só por esses motivos, mas também pela antecedência com a qual o lançamento do longa foi marcado (levando em conta a quantidade de tempo que filmes do gênero demoram para serem lançados no nosso circuito), o que pode muito bem significar sua (talvez) importância e qualidade. Assim espero.

Diário de uma Camareira  (Journal d'une femme de chambre)
dir. Luis Buñuel - ★★★★

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