sexta-feira, 1 de maio de 2015

Crítica: "WINTER SLEEP" (2014) - ★★★★★


A catorze dias do aguardado Festival de Cannes 2015, é lançado em nosso circuito o longa turco Winter Sleep, vencedor da Palma de Ouro - prêmio principal de Cannes - ano passado no festival. Inicio esse post, revelo, sem saber por onde começar. Digo, o filme divide tanto você que é quase impossível comentar ele sem não lembrar que trata-se de uma película de três horas cujo conteúdo principal é o diálogo. A ação é até quase transparente quando aqui quem ganha destaque é o diálogo. E, para aqueles que não estão acostumados ao gênero, pode ser uma tortura e tanta ver Winter Sleep. Mas aos olhos daqueles que compreendem o sentido e a mensagem da película, ela trata-se de uma feroz e contundente obra-prima. Ou seja, concluindo: Winter Sleep é um filme que divide opiniões. O que eu falar aqui dele possivelmente não será igual à sua visão dele, afinal, percepção é questão de certezas e incertezas, e por esse motivo, peço no mínimo a sua paciência.

"O conflito que engana o tédio". Fala que, dita da sábia, visionária e, porém, teimosa mente de nosso protagonista, o ex-ator de teatro e atual proprietário de um hotel na Anatólia Aydin, resume perfeitamente todo o contexto de Winter Sleep, que seria um filme bem menos interessante sem a sua característica onda filosófica envolvente que abraça o público numa enfurecida e interminável sessão de conflitos. "A reflexão como atividade suprema". A cada diálogo, o filme exubera-se em uma calma e lenta observação da vida corrente e inusual dentro da fria e quieta região da Anatólia, cujos silêncio e escuridão penetram secretamente na vida de seus habitantes a fim de lhes causar o mais irritante e peculiar temor e tédio, fazendo com que seus diários enfadonhos resumam-se em dor, invisibilidade e impaciência, persistente e raivosa, que, sempre ao invadir a realidade, traz consigo a mais desconfortável instabilidade.

E, como ele é um longa que me agradou, apesar de ter esgotado toda a minha energia ao final com suas demasiadas e, meramente cansativas três horas de duração, que por mais insistentes que foram, não conseguiram deixar de conseguir minha aclamação, curiosidade e satisfação. Por isso, é bom ter tempo quando for ver Winter Sleep: ele exige. Não é à toa que as três horas ainda resultam em mais tempo de reflexão e pensamento a partir do que nele foi mostrado. No entanto, seja qual fosse necessária a duração, confesso, não deixaria sob nenhum pretexto de sentir uma ascendente atração pelo desenvolvimento do longa, se mostrado da mesma forma que aqui foi. Digo que, Winter Sleep é uma análise em seu conjunto, e que essa análise consegue captar de uma forma doce, rígida e melancólica a imponente situação que aprisiona as vidas que se locam na direção do caos e da desilusão que caminha entre eles. Ou seja, o destino, dentro daquele lugar, é praticamente inevitável. Esse é o ponto mais delicado da trama de Winter Sleep. É nessa exata parte onde instala-se o medo e a fúria que desolam os personagens.

Aydin, homem de opinião forte, incalculavelmente teimoso e que não aceita a visão dos outros diante de algo à sua frente, é aparentemente tranquilo e infeliz em seu curso, cuidando do "Hotel Othelo", herdado de sua família, na região central e turística da Anatólia, que abriga diversos turistas por toda uma temporada, vindos de todos os lugares. É então que de repente, tudo volta-se contra ele. Com a chegada do silencioso e calmo inverno, a vida de Aydin vira-se ao contrário tornando sua jornada invernal tempestuosa, irregular, fria e incrivelmente arrogante, para a surpresa daqueles que o viam tanto idolatrar a paz e a beleza da região, agora simplesmente a detestando com toda a sua força: fruto dos maus ventos que trouxeram à tona o que estava escondido debaixo dos tapetes. Aydin é um ambíguo, egoísta por indecisão, que por vezes não consegue organizar seus próprios sentimentos, muitas dessas vezes sendo obrigado a engolir tudo em seco, sem reclamar, independentemente do incomum ou do desconhecido. Sua esposa, Nihal, é uma mulher insistente, firme, inteligente, desconfiada e própria, que não depende de exatamente nada do marido. Ambos são dramaticamente afastados sentimentalmente, como se uma barreira os separasse, algo que temporariamente ocasiona a depressão incógnita da esposa. A insolência do vazio que ressurge tende a colonizar a afeição e a felicidade, fazendo com que insperadas consequências cresçam entre eles. É, de fato, tremendamente belíssimo, tudo isso. Deixando à parte todo o incômodo gerado pela tristonha história, a luz, a cor, os tons, os ângulos: tudo, tão claramente, é cheio de beleza em Winter Sleep: trabalho de esmero e esforço do diretor de fotografia Gokhan Tiryaki, dando aqui o seu melhor a fim de fazer com que o espectador se maravilhe brevemente em torno das cenas recheadas de maravilha.


E o mais particular e ainda sim irônico de Winter Sleep é que ele é um filme que procura aquecer. Há uma única cena graciosamente engraçada, uma das últimas, com Aydin numa discussão bêbada e extremamente cômica com outros dois homens, precedendo a dramática passagem da Sra. Nihal na pobre casa do inquilino do marido. Algo que pode muito bem resumir a desconexão interpretativa presente entre os personagens da trama, ou então pode simbolizar a ausência de simbolização na relação de Aydin e Nihal. É naquela cena que eu vi, então, o quão importante era ressaltar que Winter Sleep também trata-se de, além de tudo mais que já foi dito acerca dele, uma avaliação das condições humanas dentro do conflito, na presença do conflito. O comportamento geral da sociedade conforme ao tempo e à condição, que lhes oferece contento (ocasional), enfurecimento (ocasional) e magia (ocasional). É um filme que me lembra uma marcante história, de um rei que no leito de morte, deu ao filho um anel, que em sua superfície, tinha uma mensagem condecorada: "isso vai passar". E então, o pai lentamente o declamou: "Filho, ouça bem o que lhe digo. Enquanto governas este reino, quero que, nos maus e bons momentos, veja a mensagem escrita neste anel. Não importa quantas vezes, quantas guerras, quantas vitórias, quantas perdas... Lembra-te de sempre olhar ao verso. Decora-o."

Na minha interpretação, a história poderosa e fortemente depressiva de Winter Sleep pode contagiar o seu espectador com tanta reflexão - algo que, no meu ver, é o que move e torna o filme mais altruísta e relevante, se comparado à alguns que se esforçaram na tentativa de fazê-lo, e não conseguiram (vendo e compro exemplos). Mas o que mais me agitou e ainda sim me comoveu nesta obra singular foi a extremidade e a cautela de sua beleza, em geral. A beleza do inverno que acomoda as vidas da central Anatólia. A beleza da jornada infiel de Aydin. A beleza sentimental da trama que imobiliza aos olhos e queima (no melhor sentido possível da coisa) a alma. A beleza, enfim, do retrato de Winter Sleep: um sono acalentador e conflituoso de inverno.

Winter Sleep (Kis uykusu)
dir. Nuri Bilge Ceylan - 

2 comentários:

  1. Assistam com muita vontade depois, com muita força de vontade . Assisti a esse filme com muitos intervalos (só assim pra aguentar tres horas)os diálogos os takes a fotografia sao excelentes .

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  2. Realmente, o filme exige bastante por conta da duração bem arrastada, mas é uma grande obra de contemplação.

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