sexta-feira, 8 de maio de 2015

Crítica: "SANGUE NEGRO" (2007) - ★★★★★


"Até onde/aonde o homem não será capaz de parar?". Uma obra excentricamente engenhosa e perfeitamente genial, Sangue Negro é capaz de ser uma película tão audaciosa e poderosa que ela nos prende à tela desde o primeiro segundo até o último, sem tirar nem pôr. E olha que são 158 minutos em jogo quando falamos em Sangue Negro, um dos melhores filmes de Paul Thomas Anderson, um incomparável cineasta, autor de tantos sucessos numa aplaudida carreira. Como esta vez foi a primeira em que eu vi o filme, ele lembrou em algumas partes de Mr. Turner. Não sei se é por que em ambos os filmes temos, nos papeis principais, dois atores de competência exímia e excelente, ou se igualmente possuímos retratos épicos avassaladores de bons. Fico em dúvida sobre qual característica é a que ganha mais destaque. Enfim, sei que entre esses dois filmes há algumas semelhanças.

Sangue Negro, acredito, um pouquinho mais que Mr. Turner, consegue ser virtuosamente maravilhoso e sagaz, a cada cena possuindo um punhado de fúria em seus diálogos e um tanto mais em suas imagens. A trilha sonora, da autoria do talentoso músico britânico Jonny Greenwood (Vício Inerente, O Mestre, Precisamos Falar Sobre o Kevin), ajuda muito o filme a criar uma tensão incrível que tanto sustenta essas cenas transbordantes de pânico e ódio.

Acredito que, talvez bem mais do que um épico, a grande intenção de Paul era retratar a raiva e a angústia desses homens que, entre o final do século 19 e o início do século 20, tão incessantemente competiram entre si pelo petróleo, bem precioso que começou a ter certo valor na época. E na história, um personagem demonstrando, simbolizando a vontade de crescer e a competição por trás das riquezas naturais (nas cenas iniciais de abertura é possível ver Plainview antes da riqueza, numa mina subterrânea). Mais tarde, Plainview inicia-se no petróleo, indo prosperar num pequeno vilarejo chamado Little Boston, onde há uma extensa região que guarda petróleo debaixo de si, por conta de um terremoto que trouxe o líquido à superfície.

No entanto, a tarefa não mostra-se nada fácil para Daniel Plainview. Ele, além dos frequentes acidentes que ocorrem no poço, tem que lidar com os conflitos que se geram por através dos acontecimentos no pequeno vilarejo, vindo desde as cobranças de um inquieto pastor audacioso e humilhador até a polêmica explosão no poço, que causa surdez ao único filho de Daniel, H.W., seu sócio. Vale lembrar que o filme trata-se de um pesadíssimo drama, não só por esses aspectos, mas por muito o mais possível que a sua poderosa história mostra-se capaz de transmitir.

Há indícios que indicam que Paul Thomas Anderson escolheu tal história narrada no filme, adaptada do romance "Oil!", de Upton Sinclair, a fim de conseguir exibir ao público, dentro dos padrões da trama, os conflitos gerados pelo petróleo nos dias de hoje, que envolvem os Estados Unidos e o Estado Islâmico num polêmico traço de intrigas, terminados em atos terroristas e guerras tortuosas. Pelo tema, poderia ser imaginável ver Katheryn Bigelow, de Guerra ao Terror, dirigindo o filme, já que a ex-mulher de James Cameron tem mostrado-se ultimamente tão inspirada pelo terrorismo e suas consequências no mundo de hoje. Pena que Bigelow, talvez, não teria braço para conduzir, acredito, a história se fosse narrada ao estilo de Anderson. É um estilo próprio, único, insubstituível. Ninguém poderia ser responsável de dirigir o filme a não ser ele (levando em conta o roteiro). 


Além da tal referência, é possível ver que Sangue Negro tenta enquadrar a ausência de limites dentro da competição ou da ambição humana, história conhecida e vista até mesmo nos dias de hoje, e que parece que tardará a morrer. Ambos Daniel Plainview e o pastor Eli Sunday travam entre si uma guerra invisível e raivosa, ardosa, que se estende até o fim, literalmente, já que Daniel e Eli, depois de algum intervalo de tempo na história, voltam a se encontrar. E que cena final! (é melhor parar de dar spoilers). Literalmente, bem naquela cena, a história ultrapassou o que comunalmente chamamos de clímax. A cena atravessou as paredes de um perfeito clímax, tornando-se surreal e inquietamente memorável. Gostei da cena final. Ok, agora parei. Não só da cena final, mas de outras mais inesquecíveis. Como não adorar a já citada cena da explosão, ou quando Daniel larga o filho na estação (ops, spoiler).

Mesmo mantendo a postura séria de épico dramático, o filme de Paul não foge do seu velho estilo de fazer filmes. Não basta apenas a mensagem. Ele entra na tela e quer destruir tudo. Ele quer jorrar petróleo e sangue no telão, como se isso ainda fosse o mínimo de sua capacidade (o que você acabou de ler pode ser muito bem considerado uma razão para adorar a filmografia e o método cinematográfico do genial P.T.A.). Faz sentido? E daí se não faz? A porra da vida faz? Então pronto.

Daniel Day-Lewis nunca esteve tão bem caracterizado, à algumas exceções, é lógico. Mas, quero dizer que aqui o ator irlandês está simplesmente imbatível, numa performance dedicada e contundente, da qual, mesmo que ainda existam muitas do gênero em sua grande carreira. O ator, seletivo, não tem muitas performances na carreira, o que faz com que Sangue Negro seja bem fácil de se lembrar, nos quesitos de talento e tudo mais. Aqui ele é brilhante. Tão quanto a fotografia de Robert Elswit ou a direção simbólica e delicada de P.T.A.

Sangue Negro (There Will Be Blood)
dir. Paul Thomas Anderson - 

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