As Duas Faces de Janeiro, com certo glamour e singeleza, consegue fazer-nos vibrar diante do telão. Literalmente. É um filme belo, que de partida torna-se nesse ponto um filme raro, indescritível, afável. É na beleza da narrativa onde encontra-se o desolado e afetivo clima de suspense e drama em As Duas Faces de Janeiro, que se passa na década de 60 e conta a jornada de um casal americano de férias na Grécia no desfeche de um voluptuoso crime que ganha maior amplitude com a ajuda de um guia golpista.
O filme erra justamente nesta parte. Alguns elementos, com o avanço da história, ficam contra outros mais, deixando a narração confusa e avulsa (quem for detalhista perceberá esse erro). É como se o filme "numa hora dissesse isso, e na outra aquilo". É fato que a trama é bem montada e estrategicamente inteligente, mas às vezes o filme se acha tão poderoso na capacidade de iludir que ele acaba se iludindo. Há truques utilizados na trama que, se observados, maravilharam o público (nessa parte, não há o que reclamar). São truques que envolvem e nos deixam saciados, não por completo, apesar de tudo. As Duas Faces de Janeiro, tocando exatamente nessa parte, também desaponta por, digamos, ser pouco cativante. A história, como dito, é belíssima, sem falhas, vislumbrante com o charme da luz, do espaço e da paisagem grega, alinhadas perfeitamente à boêmia moderna da década de 60. No entanto, quando o filme, narrando um caso criminoso sério, se deixa levar por essa beleza incomum, a magia e o senso de adrenalina, geralmente criados com sucesso por suspenses bons, aqui ausenta-se. Eu senti a falta de sangue, de tons quentes, da vibração energética do thriller. É tudo muito leve, "grego", natural. O conflito, nessa hora, fica chato.
Viggo Mortensen é absolutamente fantástico em seu papel. Kirsten Dunst igualmente perfeita. Oscar Isaac é um espetáculo. O trio, ao embalo dessa história provocante, ganha destaque e aclamação por representarem de forma digna e talentosa três personagens inusuais, tomados pelo desejo, pela glória, pela ambição, pela sensualidade, pela paixão, pelo prazer, pela angústia, pelo sofrimento, pelo destino, pela insegurança, pela insatisfação, pela paridade, pela competição, pelo crime; Os três tornam-se em uma pequena questão de tempo fortemente ligados entre si. O que antes deveria ser apenas um passeio de férias pela Atenas grega no fim torna-se uma desastrosa série de conflitos gerados pela emoção e pela essência de um crime que, encobertado, logo é descoberto e desmascarado.
Algo que é bom é que, vezes, somos enganados pela força do destino que abriga esses personagens. A relutância e o desconsolo com o qual eles lidam com esse destino é o que torna a trama verdadeiramente interessante e absoluta, mesmo com os constantes erros por trás dela. Não há truques neste ponto, mas sim, o desvirtuamento ilusivo. A ilusão encobre a palidez do senso nocional da jornada de forma tremendamente perfeita. Logo, estamos também participando da história, como seus inocentes testemunhadores. Eu gosto de pensar dessa forma. Gosto de pensar que uma realização cinematográfica é capaz de exibir todo o processo - desde o início até o fim - de um crime em seu todo (algo que tão impacientemente me faz lembrar dos filmes de Hitchcock e Scorsese, sempre!).
Estreia na direção de Hossein Amini, roteirista iraniano indicado ao Oscar de Drive e Asas do Amor, As Duas Faces de Janeiro é essencial por apenas uma parte, acredito: seu encantador retrato, que abusa tão lindamente do luxo e da cor, do vibrante e do dourado, da luz e do escuro. É com tanta competência que o filme torna-se um destaque neste quesito que, olha, já torna-se um pouco mais fácil ser enganado por sua ilusão visual do que pela ilusão da trama. É tudo tão poético e, enfim, "grego". Foi impossível não lembrar , no segmento onde o trio vai parar numa pequena região grega em Creta, de Antes da Meia-Noite, inspiradora obra que fechou a trilogia "Antes" num capítulo esplendor de bonito na Grécia, que ficou um tanto quanto romântico no desfeche narrativo. A fotografia de As Duas Faces de Janeiro é notoriamente instigante. Marcel Zyskind (Dançando no Escuro, O Preço da Coragem) é extremamente cauteloso e brilhante ao assinar a direção de fotografia da obra. A trilha sonora de Alberto Iglesias (O Espião que Sabia Demais, Fale com Ela), frequente colaborador do mestre Almodóvar, é simplesmente triunfal. O roteiro, também de Amini, é essencialmente delicado. Até que ele pode deixar alguns elementos escaparem ao ver do espectador, mas é preciso lembrar que ele também é excelente ao remontar astronomicamente truques ilusionais. Mas, é quase óbvio. Eu perdoaria As Duas Faces de Janeiro se ele, em sua intenção objetiva, quisesse explorar na história os extremos poderes da beleza da Grécia e da história, mas vale aqui enfatizar que o filme leva consigo a intenção de explorar o crime e a história em sua completa estrutura - a história, enfim - e não seus polos naturais (a beleza, a dramaticidade), digamos. As Duas Faces de Janeiro quer ser óbvio, pontual, genial, e ignora então sua instigante capacidade de ser belo, emocional.
As Duas Faces de Janeiro (The Two Faces of January)
dir. Hossein Amini - ★★★

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