Fazia mais ou menos um ano desde a primeira vez que eu vi Fargo, belíssima obra-de-arte dos Irmãos Coen. Vi ela pela segunda vez hoje. Lembro que da primeira vez foi intensamente cansativo. Os poucos mais de noventa minutos do filme soaram como duas horas inteiras. Foi bem estranho. Repito a experiência, e concluo que é o filme mesmo que dá essa longeva impressão. E de jeito algum isso foi problemático. Até achei o filme bem resumido para ser concreto. Afinal, ver uma baita história dessas contada em noventa minutos é raro. Fargo, na presença de todos esses aspectos, é tremendamente bom. Acredito que nunca vi a genialidade dos Irmãos Coen tão bem trabalhada, mesmo com filmes igualmente geniais como este, tais como Onde Os Fracos Não Tem Vez e Queime Depois de Ler. Nenhum deles supera a tamanha inteligência e competência com a qual esse filme foi feito, de certo modo a se dizer que é único.
Tudo começa quando um marido contrata dois homens para sequestrarem sua própria esposa a fim deles dividirem entre si o "cachê" do sequestro: 1 milhão de dólares, saídos direto do bolso do sogro rico do marido. A partir deste plano, uma série de crimes se desenvolvem quando a dupla criminosa contratada pelo marido passa a matar compulsivamente inocentes, que vão desde guardas da polícia até testemunhas. O resultado final é assombrador (logicamente, não irei contar). Mas a trama, não somente a história, é o que convence em tudo. A meticulosidade com a qual o retrato é conduzido pelos Coen Brothers. A história é genial, só que seu desenvolvimento é ainda mais surpreendente. É algo que é transcendentemente cativante.
E é um filme que agrada, por que, apesar de parecer ser um drama, o filme é uma baita comédia de humor negro. E os Irmãos Coen, donos de uma técnica persuasivamente brilhante, conseguiram transformar essa triste história numa comédia escarranchada. Há cenas engraçadíssimas, e é isso o que mais me deixa fascinado em relação à Fargo: essa capacidade de transformar o drama na comédia. É um humor que, puxa, me deixa abismado. É um terror ver essa passagem, mas ao mesmo tempo é divertido e inusual. Tem horas em que é impossível conter o riso. Horas em que, ao no que deveríamos estar com o coração apertadíssimo, estamos morrendo de rir com a ausência de sintonia entre o destino dos personagens. É uma coisa que não tem preço.
Além disso, poucos filmes (minto, muitos filmes, porém não desse jeito) dos Irmãos Coen tiveram um elenco (destaque para a belíssima Frances McDormand, William H. Macy e Steve Buscemi) que tão incessantemente se esforçou no fim de fazer essa transformação virar um ritual artístico. É gracioso e emocionante ver suas personalidades furiosas e bizarramente cômicas entrando em colapso com uma situação que apenas a cada passo vai se agravando, se desgastando, se perpetuando. Não é por acaso que o conflito fica apertado quando a trama vai se concluindo. Ou seja, nessa parte é onde chegamos a ver que os Coen já tinham "cronometrado" tudo, na mais completa perfeição.
Fargo é um filme "para fortes". Digo que, a maioria das pessoas que conheço que assistiram Fargo vieram com aquela específica cara dizer a mim que "não conseguiam entender o final", como se os mesmos sujeitos lá tivessem autoridade para entender um final feito pelos Coen. Ok, posso confessar que entender tudo o que é mostrado em Fargo pode ser bem dificultoso para quem não possui conhecimento acerca, mas, a pessoa não precisa ficar criticando o filme sem ao menos possuir essa identidade para então julgar a história abordada como inadequada ou incompreensível. Ora, qualquer um pode ter sua opinião, mas, pra quê incriminar sem provas?
Fargo, à sua maneira, consegue explorar profundamente as faces da audácia e da cobiça - algo bem do estilo dos irmãos. É a partir desse conceito que nasceu, da mente dos Coen, esse atordoante e engraçadíssimo crime. Vale lembrar que o método imposto pelos irmãos foi algo de extrema inovação. Já que, além de darem ao filme um gosto de "duas caras", justo pela dramatização ímpar que estende-se em drama e comédia de humor negro, eles ainda sim tiveram a fantástica ideia de iludir o público narrando o filme como se o mesmo fosse baseado em uma história real (nos créditos iniciais, há um pequeno texto dizendo isto), quando no mais puro fato só tratava-se de uma ficção. Juro que, após saber disso, o filme automaticamente rendeu a si mesmo cinco estrelas. É uma coisa atrevida, incomum, nova, ingênua, poderosa. Olha, e acredito que filmes como esse não surgem do nada não. É preciso talento. Muito talento.
Fargo
dir. Joel & Ethan Coen - ★★★★★

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