O mês de maio começou bem. Ainda que eu não possa comentar as grandes estreias por alguns problemas que tive ultimamente (moro longe do grande circuito e ultimamente as tarefas e o tempo não tem ajudado muito, mas eu tento), passo aqui pra comentar alguns dos já assistidos ou re-assistidos, cujos eu tive a grande oportunidade de encontrar no circuito videográfico. Ontem à noite, escolhi uma das minhas comédias prediletas para encerrar o dia: Feitiço do Tempo. O que eu mais gosto nesta película em particular é que ela é um filme feel-good sensacional. Não é à toa que quase todas as vezes que a vi não consegui parar de lembrar de O Show de Truman, outra excelente comédia feel-good. Afinal, o que é o cinema feel-good. Sempre ao me tratar dessa espécie de gênero, geralmente comédias dramáticas ou tragicomédias com finais felizes e tudo o mais, lembro-me de alguns grandes filmes tais como o citado Truman, Feitiço do Tempo, Quem Quer Ser um Milionário?, entre outros mais. Quase nunca vi um drama feel-good, só mesmo Quem Quer Ser um Milionário? e, para falar a verdade, nunca cheguei a classificar O Show de Truman em drama, então.
Em Feitiço do Tempo, a criatividade do artista cinematográfico Harold Ramis (diretor, produtor, roteirista, diretor de fotografia...) mostrou-se impecavelmente sem limites - no melhor sentido possível da oração. O que acontece? Em Feitiço do Tempo, nos é contada a história de um repórter que viaja para uma pequena cidade no interior da Pensilvânia onde anualmente acontece o famoso Dia da Marmota, data americana conhecida. No dia 2 de fevereiro, a marmota de Punx-não-sei-mais-o-quê (o nome da cidade de origem da tradição) prevê se haverá a primavera em breve. O problema da grande data é que Phil, o repórter que leva o mesmo nome da marmota, odeia o dia e carrega um grande rancor dele consigo, o que o faz ser, a todo tempo, arrogante e impiedoso com seus colegas. Quando fica preso numa nevasca que o impede de voltar para Pittsburgh, Phil vê-se obrigado a passar a noite na cidade... E o resto dos dias também. O Dia da Marmota começa a se repetir sem parar para o repórter Phil, tal como o título propõe: um "feitiço do tempo".
O mais engraçado de Feitiço do Tempo é Bill Murray. Anos vão, anos vem, Bill quase não tem mostrado um filme onde esteja mais engraçado do que em Feitiço do Tempo. Outra coisa muito interessante de Feitiço do Tempo é que, a cada assistida, você recria sua percepção a partir dele. Novos elementos, escapados, surgem. E é disso o que faz dessa comédia algo tão singularmente icônico. Digo, além de ter um elenco muito bom (e esforçado, engajado a decorar as mesmas falas, principalmente Bill e Andie, numa parte onde eles refazem a mesma cena três vezes diferentes (cômica parte, para se dizer a verdade), o filme ainda consegue ter algo que nos prende a ele de forma fantástica. Sua fantasia logo envolve o público de maneira cativante e irreparável.
Há uma trilha sonora que cria todo um clima especial ao filme, essencialmente nas cenas românticas protagonizadas por Bill e Andie. A direção é suprema. Inesquecível. Harold Ramis, que antes havia dirigido outro grande clássico feel-good, Os Caça-Fantasmas, fez um feito simbólico em sua filmografia ao assinar ambos direção e roteiro neste filme. O roteiro então, nem se fala. Eleito pela WGA (Writers Guild of America) um dos 100 melhores roteiros da história do cinema, na posição #28, Feitiço do Tempo monta toda uma estratégia a fim de fazer com que tudo saia perfeitamente quase como realidade. A todo ponto, há uma ênfase de diálogos incríveis e sacadas geniais, pontualmente sagazes. Tudo isso faz do filme uma grande obra-prima. Não tenho medo de dar cinco estrelas à uma película que tanto me fez rir e sorrir, refletir sobre os inúmeros erros que eu tinha cometido em minha vida relacionados à falta de auto-confiança e arrogância. Ou então, quantas vezes eu perdi a oportunidade de fazer pequenos gestos que, no final, tornariam-se gigantescas diferenças. Pode parecer sem eloquência, mas no fim, acaba se tornando verdade. Feitiço do Tempo me emocionou profundamente e tocou, como nenhuma outra comédia do gênero. Tenho orgulho em chamá-la de obra-prima. Uma fábula memorável.
Feitiço do Tempo (Groundhog Day)
dir. Harold Ramis - ★★★★★

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