A primeira vez que vi Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet foi no ano passado, em agosto, se não me falha a memória. Lembro que fiquei apaixonado pelo musical; Hoje, volto a ter a oportunidade de ver novamente a película, e, pelo que vejo, a minha percepção do filme não mudou nada desde lá. Cada cena exige de um toque de perfeição, nunca ausentando a fúria e a escuridão, o desejo e a sede por vingança, características notórias do psicopata barbeiro cujo nos é apresentado bem pelo título português do filme, que descreve inteiramente a personagem no completo modo dela.
Sweeney Todd, ou melhor, Benjamin Barker, um renomado barbeiro de Londres, vivia em paz com a esposa e a pequena filha, até que certo dia, um juiz, encantado pela beleza da esposa do barbeiro, o prendeu e a tomou dele. Em seu retorno à cidade, após um tempo fora, Benjamin - agora Sweeney Todd, volta ao ofício e planeja sua vingança contra o juiz, que mantém consigo a filha de Sweeney, na época bebê, agora uma jovem dama, desta vez com a ajuda de Mrs. Lovett (Helena Bonham Carter), proprietária de uma loja de tortas, que recentemente não "obteve" muito sucesso. A partir dessa pequena sinopse, o filme parte numa triunfal e desoladora trama obscura e infortuna levando como rumo Sweeney Todd e sua obsessiva compulsão por vingança e sangue.
Não tenho dúvidas de que Sweeney Todd é um dos filmes de Tim Burton com mais cara de Tim Burton do que outros filmes dele. Digo, o diretor, que tanto costuma realizar diferentes experiências dentro de sua exótica filmografia tem como tendência adotar vários gêneros em seu estilo de fazer filmes (drama, comédia, musical - como este -, thriller, animação, dentre outros mais). Dentro desse estilo, é claro que destaca-se aquele padrão que o originou: o terror obscuro. Burton já mostrou ser um apaixonado por filmes B do terror obscuro, tais como as obras de Ed Wood - considerado o pior realizador que já fez um filme em Hollywood -, cuja filmografia inspirou Tim, não é por acaso que em 1994, Burton filmou Ed Wood, uma das primeiras parcerias, junto com o lendário clássico Edward Mãos-de-Tesoura, do diretor com Johnny Depp.
É claro, além de ser um baita filmaço, Sweeney Todd, que completa oito anos, marca por ter Johnny Depp em uma de suas melhores performances, na parceria de uma das direções mais plausíveis de Tim. Ainda que o filme não seja 100% musical, a música é algo que permanentemente dá gosto à obra. Não veria Sweeney Todd da mesma forma se ele não fosse um musical. E olha que se há um alguém enjoado com musicais, esse alguém sou eu. Não verão minha pessoa todo dia aplaudindo musicais.
Sweeney Todd faz diferente. Ele não é um musical qualquer. Seu elenco esforça-se constantemente a fim de manter o clima da história e o ritmo incansável do musical em sintonia, o que, é algo a ser efetivamente lembrado a fim de reconhecer o grande feito de seus membros, destacando, logicamente, Depp; ainda que existam figuras de rara existência dentro dele também, tais como o cômico Sacha Baron Cohen, a excêntrica Helena Bonham Carter, o imperialista Alan Rickman, o ríspido e frio Timothy Spall... Há elementos que sutilmente transformam o filme numa obra-prima de qualidade. Não sei onde fiquei mais enfeitiçado. Ainda sim, não há como não dizer que fiquei simplesmente abismado com a fotografia de Darlusz Wolski (Alice no País das Maravilhas, Êxodo: Deuses e Reis). Apesar de ser um filme totalmente escuro, nitidamente reverso, "preto", gótico, Sweeney Todd uma hora ou outra apresenta alguns flashbacks do passado, principalmente no começo, onde há uma genial troca fotográfica, que me deixou estonteado. Palmas ao trabalho belíssimo de Wolski, essencialmente nessas partes. Foi quase imperdível ver a saturação de uma cena entrando na outra. Enquanto uma era cheia de cores, refletindo a mil um amarelo reluzente de sol, a outra encarnava a noite sombria e fria, na presença da lua de poucos espectros. Também gostei, falando disso, do repertório de canções ao embalo da periódica e maravilhosa trilha sonora, assinada por Stephen Sondhelm, autor original de Sweeney Todd. Nisso, vale lembrar e enfatizar aqui que Sweeney Todd é a adaptação homônima do musical de Sondhelm e Hugo Wheeler. Originalmente peça, e tardiamente musical, Sweeney Todd foi primeiramente apresentado na Broadway no ano de 1979.
O irônico fim que o personagem de Sweeney Todd leva é a conclusão de que o homem, na desenfreada busca por justiça, se cega e oculta a esperança e a provável chance de nem tudo ter se perdido. A vingança é uma faca de dois gumes. Há benefícios e males nela. Mas, quando pisoteado e já sem forças, Todd vê nela a única saída, a forma de então "dar de volta" toda a desgraça que lhe foi dirigida. E é com razão que ele então toma a vingança como seu escudo, mas tudo demais se torna preocupante ou de confiança escassa. É um exemplar de que o mundo em que vivemos, de fato, está perdido. E não há como fugir ou do perspicaz azar. Quem se vitima com a ignorância alheia logo é contagiado por ela, ainda que às escuras. Interesse, trapaça, revolta, mentira... Como o próprio segmento "Epiphany" sugere, "todos nós merecemos a morte". Mais e mais monstros interiorizados no mesmo "buraco cheio de merda e vermes" que é nosso universo, filhos da impureza e da perdição. E quem é verdadeiro e original não recebe em troca o merecido reconhecimento!
Espero, ainda, poder rever muitas vezes Sweeney Todd, musical persuasivamente gótico e tremendamente intenso que é capaz de despertar em quem o assiste um tremendo e inesperado senso de vingança e angústia, como se Johnny nos convidasse a entrar na tela e atuar com ele na pele do sangrento e psicótico assassino Sweeney Todd, ou então se Burton, cineasta exímio, nos regesse à mesma maneira com a qual Sondhelm rege impecavelmente a trilha do filme. Enfim, Sweeney Todd é uma brilhante obra-prima, merecidamente indicada a três Oscars em 2008 e vencedor de um, Melhor Direção de Arte, para os excelentes italianos Dante Feretti e Franscesca LoSchiavo. Sweeney Todd venceu duas categorias no Globo de Ouro 2008 (que não teve cerimônia): Melhor Filme - Comédia ou Musical e Melhor Ator - Comédia ou Musical (Johnny Depp). É mais que um competente retrato da regressão do nosso mundo, um épico de ratos e loucos.
Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet
(Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street)
dir. Tim Burton - ★★★★★



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