A poucos dias da aposentadoria, um velho detetive, William Somerset, inicia aquele que seria o caso mais impactador de toda a sua carreira. Tudo começa num dia de chuva (a chuva é onipresente, estando na maioria das cenas - não só nessa), com Somerset conhecendo um jovem detetive, chamado David Mills que acabou de se mudar para a cidade, e iniciando uma investigação a partir de um assassinato. Um homem extremamente obeso, de nome desconhecido, aparentemente teria sido forçado a comer até que não aguentasse mais - até a parede do seu estômago romper agressivamente -, como se tivesse sido torturado com essa espécie um tanto inusual de rito. Após o surgimento de mais outro assassinato, envolvendo desta vez um famoso advogado, Somerset faz uma descoberta incrível, que entre esses dois casos existe uma relação incomum e um tanto bizarra: os sete pecados capitais. O obeso homem significa "gula" e o advogado "cobiça", a partir de alguns elementos deixados propositalmente no ar pelo serial killer. Daí em diante, Somerset e Mills iniciam uma jornada violenta e opressivamente perigosa na busca do assassino, que prepara o destino de suas cinco próximas vítimas.
Olha, digo aqui que eu não tive muitas opções hoje. No início do dia, tinha combinado comigo mesmo de rever O Mestre, de Paul Thomas Anderson, só que o cansaço que bateu agora à tarde não me permitiu ver o longa de três horas, que tenderia a exigir mais de mim do que qualquer outro filme que estava à meu dispor, hoje. Deixo a revisão do filme para outra hora. Enquanto ainda não tive a chance de ver Entre Abelhas e Não Olhe para Trás, os dois longas dos quais eu mais estou ansioso para ver, e Miss Julie e Um Pombo Sentou Num Galho Refletindo Sobre a Existência, os dois longas que ainda não estrearam e eu estou tão ansioso para ver tanto quanto os anteriores, a opção mesmo são os clássicos. Escolhi Seven - Os Sete Crimes Capitais, suspense que apesar de exigir compreensão e tempo, não é tão exigente quanto O Mestre, que me deixaria bem mais esgotado do que a sua sessão.
E eu gostei, sim. De forma alguma eu deixaria de gostar e celebrar um longa de tamanha qualidade e mérito como este aqui. Segundo filme de David Fincher, que antes dirigiu Alien³, Seven - Os Sete Crimes Capitais torna-se meu filme predileto do cineasta americano, que não há muito tempo dirigiu três suspenses sensacionais: Zodíaco, Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (apesar de ter gostado mais da versão sueca de 2010, esta versão de Fincher não se distanciou tanto dela) e seu último Garota Exemplar. Certo de que, se não tivesse dirigido este filme, seu título de maior filme seria assumido por dois longas, de gêneros à parte do thriller Fincheriano-quase-Hitchockiano: A Rede Social (drama) e Clube de Luta (drama). Apesar do segundo ter me emocionado e encantado mais, além de ser uma película exímia, acho que o título seria definitivamente oferecido a A Rede Social, por mais que ainda seja uma genial obra, acho que por não ter conseguido encontrar um certo engajamento, determinação nela, terminei dividido, mesmo que ainda tenha gostado.
Seven, em definitivo, é quem fica com o título (até o momento, quem sabe?, o diretor anunciou seu próximo filme para 2016) de melhor filme dirigido por David Fincher. Um thriller como nenhum outro, Seven soube manter equilíbrio sobre a sua trama, sem exagerar nem ausentar, apenas sendo como é. E como é Seven? A história da qual a trama é baseada já lhes foi introduzida. E o que resta? Logicamente, o interior. Afinal, o exterior pode ser demasiadamente interessante e traje, mas o que realmente importa é o interior do filme. Afirmo aqui que Seven pode ser muito bem considerado um "suspense de bom-humor". Apesar de haver uma certa bizarrice consequente aos absurdos do serial killer, que tanto refletem numa parte bem suja e repugnante da história, ela procura principalmente explorar a investigação em cima do crime. E dentro dessa investigação, a relação do veterano Somerset com o iniciante, porém apto e bem-informado, Mills. É algo que chega a ser engraçado. Mills, um furioso e "revoltado", em trabalho com o calmo e observador Somerset. É extraordinário ver o desenvolvimento dessa relação, até o triste e imbatível final. Não culpo o filme por moralizar, por que até fez bem o filme incluir isso como forma de confortar o espectador das horrendas faces do crime e os terrores enfrentados pela polícia. Há um exemplo muito bom de como isso pode ser ambíguo - spoiler à vista -. Perto do final, o demente assassino, após ser capturado, pede que ele, apenas com os dois detetives, vá a um determinado lugar para revelar os dois corpos escondidos. Após Mills negar, debater que além de ser um tanto perigoso por insegurança o feito poderia resultar em fatalidade, uma vez em que o criminoso pudesse ter feito toda uma armação, incluindo a sua auto-entrega aquilo colocaria a investigação a perder, o advogado do assassino diz a ele se ele "queria que a imprensa entregasse seu nome revelando que deixou o crime irresolvido com dois corpos desaparecidos, que sequer tiveram a chance de ser enterrados". Ou seja, no visto, a pequena moral é a de que a sociedade é guiada pela moralidade. A imprensa como divulgação e a destruição da imagem. É tudo tão intensamente interligado.
As performances de Morgan Freeman, Brad Pitt e Kevin Spacey são gloriosas de talento. Nos momentos finais, onde tudo intensifica-se, há a notória evolução personal de seus personagens a partir de suas atuações. A fotografia de um ainda desconhecido Darius Khondji: maravilhosa, estupenda, artisticamente insubstituível! A edição, que rendeu ao filme uma única indicação ao Oscar, também não é de se jogar fora, ainda que ela tenha sido usada como pretexto de desculpa pela ausência de indicações dos votantes. Uma soberba direção de David Fincher, no dito seu melhor filme. Ou seja, além de ter uma comovente história, Seven possui uma enorme excelência técnica. É impossível apenas galardoá-lo com o rótulo de "obra-prima". Mais do que obra, um autêntico clássico de suspense. É... e me reservou uma paranoia danada. Vou ter que dar um tempo, acho, nos suspenses por algum tempo. Já foram três apenas este mês (levando em conta que estamos apenas no dia 5!).
P.S.: Seven - Os Sete Crimes Capitais completará 20 anos em setembro deste ano.
Seven - Os Sete Crimes Capitais (Seven)
dir. David Fincher - ★★★★★

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