quarta-feira, 13 de maio de 2015

Crítica: "O SAL DA TERRA" (2014) - ★★★★


Enquanto Cannes apenas começa, dou uma olhadinha no comentadíssimo O Sal da Terra. Desencorajado por amigos e companhia no último mês, não vi o documentário - nomeado ao Oscar de Melhor Documentário -, no entanto, apesar dos maus bocados que ouvi sobre ele, soube que o filme deixará o circuito em breve e, sabendo disso, não perdi tempo e corri para o cinema. Apesar de ter tido muitas dúvidas, O Sal da Terra esclareceu todas elas, por que no final de tudo é uma belíssima e exímia obra de arte.

Antes de começar a falar do filme, gostaria de dizer o quão fascinado eu sou pela flexibilidade cinematográfica de Wim Wenders, diretor de Paris, Texas, que ultimamente veio se aventurando em documentários e já prepara um próximo longa, ficção (Every Thing Will Be Fine). Embora esses documentários tenham desapontado a "crítica especializada", são belíssimos e relevantes trabalhos do diretor que marcam uma importante fase de sua carreira cinematográfica. E este O Sal da Terra, que acompanha o triunfal Pina, igualmente nomeado ao prêmio, não deixa de ser um esforçado e glorioso filme. O longa propõe narrar a história de vida e a carreira do maior fotógrafo brasileiro, Sebastião Salgado: sua visionária obra e seu trabalho que explorou todo um contexto dentro dos mais diversos temas. O filme começa contando seus primeiros anos, a origem de sua paixão pela fotografia e o começo de seu extraordinário trabalho.

É um filme que, de fato, é mais pesado do que eu temia, especialmente a parte que explora a aventura do fotógrafo na África, década de 80-90, cujo segundo o próprio o deixou com uma tremenda melancolia: "uma doença de sua alma". Como pôde ser visto, não foi fácil. As secas e todos os problemas com fome e espaço que afetaram naquela época e afetam o continente africano nos últimos tempos maravilharam o fotógrafo, que partiu dentro da mais inusitada jornada de sua carreira no fim de presenciar um universo repleto de miséria. Eu, com certeza, não veria O Sal da Terra tão cedo novamente. Vale lembrar que também há uma série de fotografias feitas lá no Oriente Médio nessa mesma época e, no início da carreira dele, o longevo projeto "Outras Américas", rodado por toda a América Latina.

Por partes, é extremamente interessante quando inicia a "justificar" os motivos pelos quais Sebastião decidiu aventurar-se pelas partes mais miseráveis e horríveis do mundo. Mas por outro lado é torturadora a sessão que exibe a já descrita miséria que tanto acalentava e interessava a Sebastião. É repugnante. Como ele mesmo disse, "fazendo aquelas reportagens, sentia-se envergonhado da raça humana. Não conseguia acreditar como éramos ferozes e ambiciosos". Isso meio que alimentava a sede de Salgado pela catástrofe e sua estrutura, mas aos poucos foi tomando conta dele, que se deteriorou e descobriu que aquilo começara a atingir maiores consequências. Um sentimento incontrolável de pânico, angústia e sensibilidade. Neste ponto, o fotográfo repensa os objetivos dessa forma de trabalho e, então, abandona com desesperança estes projetos, sem mais saber como poder ter de volta a criatividade para tirar fotos. Anos mais tarde, remonta seu estilo em seu maior projeto: "Gênesis", uma combinação de crítica social com registro físico da natureza. A partir deste projeto, finalizado ano retrasado pelo fotógrafo, ele conseguira captar a perfeição do natural em uma exposição fantástica. 

É tão poderosa essa humanidade que é tão característica dele. Humanidade, talvez. Sensibilidade. Sua visão é única e instigante. Serve de lição e moral, ainda mais em tempos difíceis como estes. Isso é o que mais me deixou maravilhado aqui. Essa arte de registrar o mal e a tormenta moderna através da imagem é o que comove, ainda mais quando esse trabalho tem por objetivo, além desses ditos, impressionar ao público e alertar incondicionalmente o caos em que vivemos e ao que estamos destinados: a perdição. Ah, um lembrete: para aqueles que acham que o documentário vai ficar só falando do Brasil e todo esse estereótipo criado pela indicação do filme ao Oscar, não se enganem. Apesar de ser co-dirigido pelo filho de Salgado, Juliano, a maioria dos depoimentos arquivados aqui em francês, incluindo os do próprio Juliano, o de Sebastião e o de sua esposa, Lélia, e são poucas as cenas feitas no Brasil. O filme coloca em jogo a carreira profissional no exterior do fotógrafo.

O Sal da Terra (The Salt of the Earth / Le Sel de la Terre)
dir. Wim Wenders & Juliano Ribeiro Salgado - ★★★★

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