segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Revisão: "ANTES DO PÔR-DO-SOL" (2004) - ★★★★★



Fui ver Antes do Pôr-do-Sol, pela primeira vez, por acaso. Encontrei um link do filme, e também já tinha sido recomendado antes. Eu fiquei simplesmente abismado, e apaixonado. Sabia que, diante de tão rápidos oitenta minutos, tinha visto um dos filmes que marcariam para sempre minha vida cinéfila, de verdade. Simples e bem-resolvido, o filme que desenrolava em inteligentes e engraçados diálogos, que mais pareciam ter saído de um sonho surrealmente lindo e preenchido com uma astuta perfeição, e que acompanhava quase ininterruptamente o casal Celine e Jesse, que no filme anterior, Antes do Amanhecer, haviam ambos embarcado numa noite inesquecível de amor em Viena, ganhou minha adoração, e a partir dali vinha a certeza dessa extensão. É o filme da minha vida. O filme, literalmente, dos sonhos. 

Antes do Pôr-do-Sol, narrado triunfalmente por um dos mestres contemporâneos do cinema, Richard Linklater, acompanhado pelas duas estrelas do filme Julie Delpy e Ethan Hawke (também autores do roteiro), além da professora universitária Kim Krizan, dispensa exageros e troca possíveis, mas aqui inexistentes, defeitos por uma realidade bem-filmada, uma realidade que esquematiza destino e paixão num autêntico uníssono, tema e paraíso de qualquer tolo romântico, como eu que vos falo. Paris. Um fim de tarde enfeitado por um pôr-do-sol que parece ter tudo planejado, e um cenário turístico que também parece seguir a mesma regra, com eficiência. O clima é inevitável. E tudo conspira a favor dele. Digam o que quiserem, mas Antes do Pôr-do-Sol é sim o retrato da história perfeita, do casal perfeito, no auge do encanto amoroso. O meio, como a própria trilogia propõe. E é nesse ponto que a trama fica mais interessante. 

Uma cena de abertura exibe alguns dos locais e ruas que serve de passeio para a especial tarde de Celine e Jesse. Após, somos introduzidos a um Jesse já adulto, diferente do jovem fracamente maturo e sedento pela atração do 1º. Ele, na frente de alguns jornalista e fotógrafos, discute e comenta um livro, de sua autoria, que estreia em Paris. Nesse debate, que prossegue alguns minutos, ele discursa sobre sua visão do mundo e as mil e uma possibilidades apresentadas por uma simples jornada de amor, como a de seu livro. Comenta sobre as ilusões vividas por personagens cujas vidas ainda sim seguem um curso inevitavelmente repetitivo, aguardando pelo momento da virada, o "this time". 

É justamente todo interagido com o assunto que, virando a cabeça rapidamente para o lado, seus olhos topam com os de Celine, que o observa atrás de uma pequena vidraça, muito atenta, e, após ser confrontada em questão de segundos pelos, de repente, famintos olhos do escritor, exibindo um sorriso misto de felicidade e esperança. É esse o momento. O destino deles, naquele encontro de olhares fulminante, é selado com chave de ouro, sob o alerta do sempre divino pôr-de-sol, dourado e excêntrico. 

Jesse, depois de um transe automático provocado pela emoção de rever a antiga amada, que por uma única noite satisfez todo o seu desejo adolescente e vingou a angústia que o aprisionara, retoma a palavra sem deixar pistas da colossal distração. Terminada a análise, Jesse, já todo dominado pelos selvagens e inquietos feromônios, tem a sua atenção toda transportada para Celine, que aguarda tão impaciente quanto ele numa pequena seção da livraria Shakespeare & Company, uma das mais prestigiadas e visitadas da cidade-luz. Um encontro inesperado que logo se torna mítico e um pouco apressado, embora desastrado. Jesse recebe Celine com um tradicional beijo-na-bochecha, e os dois mal podem esperar para entrevistar um ao outro. Após uma introdução, Jesse, que pegará um voo brevemente, corre para o chofer em busca de um telefone celular, pelo qual possa contatá-lo. 

Já fora da livraria, os dois começam uma caminhada, seguida de uma duradoura conversação e reflexão sobre o tempo, o amor, e o destino. Sobre os sonhos que aspiram. Sobre a liberdade e o sucesso que almejam. A fraternidade. Os idealismos contornados pela ambição de um mundo melhor, e de um caminho menos injusto. A família. Os gostos. A nossa ignorância. A velocidade, a infidelidade, os questionamentos, as destrezas, a minúcia, a criatividade e a ingênua arte de iludir do tempo. Antes do Pôr-do-Sol teoriza sobre a vida, seus detalhes mais vertiginosos e encorajadores. Nossas escolhas costuradas no ventre do arrependimento, e como nossos erros refletem num futuro enfraquecido pela falta de confronto e felicidade, e como uma imagem, uma troca de olhares simultânea em fragmentos de um só segundo, um cafezinho em brinde à mordaz voracidade da coincidência. Coincidência que, num instante, muda décadas, séculos. Oitenta minutos que passam voando, no sentido de estarem tão bem conectados quanto um só momento reúne em si uma profunda delicadeza. 

Afinal, quantas vezes perdemos a oportunidade de realmente fazer a mudança, trocar um diário insano e nada aleatório, em apenas um momento, que de tão pequeno reverteria todo o jogo, e ainda sim nos causaria um deleite inexplicável. É o medo de colocar tudo em risco? É o medo de errar mais ainda do que já se erra em vida. A desgraça atacar profana e demoníaca? Ou a coragem que desiste de tentar, que não acredita na chance? O leito da esperança, que nunca morre, mas atravessa um severo coma, é a razão da nossa precária auto-confiança? Ou é este apenas o resultado de um universo cada vez mais sujo, incoerente e regressivo? É este o mal moderno?

Se por um lado, ao meu ver, Antes do Pôr-do-Sol engrandecidamente se aventura em fundamentar nosso fracasso diretamente ligado ao medo de dar passos incertos no meio do nada, pelo outro busca captar a pureza do tempo. O quanto, afinal, podemos mudar em nove, dezoito anos? Ainda que os outros dois filmes sejam tão admiráveis quanto esse, não posso negar que quem me fisgou primeiro foi o excepcionalmente belo Antes do Pôr-do-Sol. É bem antes desse fenômeno que num só instantinho já nos incita à beleza, pronto sempre para nos pegar de jeito. É assim que é Antes do Pôr-do-Sol. Sem avisar, sem algum alerta prévio, chega chegando para arrasar nossos corações com o sonho perfeito do amor perfeito na hora perfeita. Nesses momentos, de prazer instantâneo e singular, é que o mundo lá fora, o louco, triste e decepcionante mundo lá fora, merece um preciso, alto e confiante "foda-se". Todos merecem um break desse manicômio. E que esse intervalo seja antes do pôr-do-sol, antes de um embarque desnecessário de volta à realidade maluca dessa traiçoeira estrada. Seria tão bom se todos nós fossemos tão corajosos, tão decididos como o Jesse, pronto a pegar na mão de uma desconhecida num trem em Viena, pedir para ela descer com ele ainda que apto de provavelmente receber um "não", mas surpreendido por um "sim" emocionado. É agora que Celine quer a revanche. O "sim" que ela pagou a Jesse na ciência de uma proposta tentadora e perigosa deverá ser retornado com outra ainda maior. Cabe ao público, na sua completa sensibilidade, descobrir o final desse romance que trilha o tempo e a doçura do amor. Baby, you're gonna miss that plane! É mais que mágico. É demais pro meu coração...

primeiro post: Trilogia Antes
Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset)
dir. Richard Linklater - 

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