Uma comédia ótima, com tons de humor negro controlados e a participação de um elenco excelente, Sentimento de Culpa merece mesmo a tonelada de elogios que recebeu em seu lançamento, pois de fato é um filme grandioso, e de ruim não tem nada. O texto bem montado e brilhante de Nicole Holofcener lembra em partes o estilo cômico e sensível de Woody Allen, que é citado pela própria Nicole como uma influência, e que, por um lado, transforma e oferece ao filme um clima mais favorável, pretensioso - no bom sentido - e bem divertido. Diretora de Amigas com Dinheiro e Encontro de Irmãs, e muito recentemente À Procura do Amor, Nicole mais uma vez recebe aclamação e devida atenção dirigindo e escrevendo Sentimento de Culpa, muito provavelmente seu melhor filme.
A única coisa que comprometeu gravemente minha relação com esse filme foi a forma bem complexa e aberta com a qual Nicole, no roteiro, fez a análise e costurou o conflito. Este talvez seja meu maior problema com Sentimento de Culpa. Não que eu esteja criticando, ou de alguma forma mal-dizendo o bom trabalho de Nicole no roteiro. Só digo aqui que, na minha visão, acho que não consegui captar tudo o que ele quis dizer. A culpa é toda minha. Não consegui interpretá-lo, e isso é uma coisa da minha pessoa. Quando eu fico assim com um determinado filme, não há quem consiga reverter essa posição. Mas de todo, Sentimento de Culpa é uma ótima meditação sobre o acaso, as incertezas comunais do cotidiano e a constante insustentabilidade da fraqueza emocional, que tanto acomete os melancólicos e "sofridos" personagens dessa trama bem acentuada.
E, se lá no fundo, podemos resumir Sentimento de Culpa num falso drama trágico ora reflexivo, ora densamente cômico e irônico, há muito o que dizer sobre seu elenco, que dá uma baita contribuição à Sentimento de Culpa. Embora outros tenham mais elogiado Sarah Steele e Catherine Keener, eu gostei mesmo foi da Rebecca Hall, embora Keener seja a dona da melhor performance, sem dúvidas, deste filme. Hall possui um ar bem natural e encarnou seu personagem com muita firmeza e naturalidade, o que eu acho que é incrível, se bem que eu passei a metade do filme só pensando na atuação da atriz como a neurótica Vicky, de Vicky Cristina Barcelona, do Woody, que veio dois anos antes que este aqui. Fica até bem claro o por que de Nicole ter a selecionado para o papel. Embora pequeno, o elenco tem força. A jovem Sarah Steele, mencionada há pouco, também é muito boa na pele da "aborrescente" Abby, filha insistente e bem chatinha de Cathy e Alex, os dois vendedores de móveis usados que compram seus artigos de falecidos, e os revendem, mas essa situação começa a pressioná-los quando eles tem de encarar as netas de sua vizinha, uma idosa praticamente com o pé na cova, que brevemente deixará para o casal vizinho o local.
Embora o nome bem "humor negro" nacional Sentimento de Culpa (o original seria Por Favor, Dê, em referência à uma cena) aproprie-se do clima do filme por um tempão, não se apressem ao criar tantas expectativas quanto à ele, algo que já deixei claro bem antes e volto a esclarecer aqui. Sentimento de Culpa é um filme belíssimo, simples, bem resolvido e sem muita complicação, no intuito de justificar seu objetivo e não atrapalhar a compreensão do espectador. Não sou muito lá fã de Keener, e nunca muito fui com a cara da atriz indicada ao Oscar por Capote e Quero Ser John Malkovich, tendo desgostado de muitos filmes apenas por sua aparição, mas eu, enfim, a apreciei aqui neste Sentimento de Culpa. Seu caráter metade vilanesco e metade vulnerável oferece rigidez ao personagem, e ninguém poderia melhor fazê-lo do que ela.
Sentimento de Culpa (Please Give)
dir. Nicole Holofcener - ★★★

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